Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II

 

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões – parte II

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II
Canto II
Após livrarem-se de algumas trapaças de Baco com a ajuda de Vênus os portugueses, chegam a Melinde, onde são recebidos com festas.

Canto III
Vasco da Gama passa a ser o porta-voz da história de Portugal. A pedido do rei de Melinde, o navegador narra episódios importantes desde a formação de Portugal. Entre eles está a episódio de Inês de Castro, que conheceremos detalhadamente mais tarde.

Canto IV
A narração de Vasco da Gama prossegue até atingir os dias dos preparativos para o início da viagem em Portugal. Vasco da Gama conta então o episódio do Velho do Restelo, que também detalharemos depois.

Canto V
Continuando a narrar as suas aventuras, Vasco da Gama detém-se no episódio do Gigante Adamastor, personificação do cabo das Tormentas, cuja travessia foi o momento mais difícil da viagem até ali.

Canto VI
A viagem prossegue. Baco provoca uma tempestade que só é acalmada graças à intervenção de Vênus e suas Ninfas. Os portugueses finalmente chegam às Índias.

Canto VII
Após narrar o desembarque, o poeta conta as primeiras aventuras com os mouros.

Canto VIII
As relações já problemáticas com os mouros é dificultada pela intromissão de Baco.

Canto IX
Os problemas são resolvidos e a viagem de volta começa. Como compensação para as dificuldades, Vênus prepara uma surpresa aos portugueses: a ilha dos Amores, onde os marinheiros recuperam suas forças nos braços das ninfas.

Canto X
Vasco da Gama é levado por Tétis para ver a máquina do mundo. A viagem prossegue até a chegada a Lisboa.

As estrofes finais dão lugar a um tom melancólico com o qual o poeta profetiza o fim dos dias de glória para Portugal e critica a ganância do seu povo. É a quinta parte da epopeia, o epílogo.

É interessante lembrar que após oito anos da publicação da obra, Camões morre no mesmo ano em que Dom Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir sem deixar herdeiros: Portugal cai sob o domínio espanhol.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II – Episódio de Inês de Castro (Estrofes 118 a 1 35)

A história vem sendo narrada na voz de Vasco da Gama, que apresenta os fatos mais marcantes de Portugal para o rei de Melinde. Além disso, a linguagem eloquente e trabalhada, característica do Classicismo pode ser aqui também notada por meio dos frequentes hipérbatos (frases invertidas). Veja-se, por exemplo, os versos 5 e 6 da estrofe abaixo: O caso triste e digno de memória / que do sepulcro os homens desenterra no lugar da ordem direta: O caso triste e digno de memória que desenterra os homens do sepulcro.

Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória,
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e digno de memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi rainha.

Vasco da Gama, que vinha contando as aventuras portuguesas ao rei de Melinde, começa a narrar o episódio de Inês de Castro acontecido logo depois de vitórias gloriosas de D. Afonso IV. O episódio daquela que foi coroada rainha depois de ser morta é tão marcante que teria poder de desenterrar os homens.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: Na estrofe seguinte, o eu lírico volta-se para o deus Amor, como mostra o vocativo no primeiro verso. E a presença da mitologia pagã, caracterizando a presença do maravilhoso na epopeia. É possível perceber também a procura de uma justificativa para o episódio e, com isso, uma garantia de isenção da culpa para os portugueses:

Tu, só tu puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano
Tuas aras banhar em sangue humano.

Numa espécie de devaneio, o poeta dirige-se ao deus Amor, responsável pelo sofrimento daqueles que lhe são prisioneiros. Somente ele poderia justificar a atrocidade feita a Inês.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: O vocativo agora traz a presença da própria Inês, como se as imagens dela e do Amor misturassem-se diante do narrador. Talvez, com essa aproximação, o poeta quisesse dar à mulher amada, ares da própria materialização do Deus. Afinal, será ela o instrumento usado por ele para provocar o desvario de D. Pedro:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo o doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

O relato agora passa a ser feito para Inês. Os presságios da desgraça já são anunciados pelo poeta nos dias em que a moça ainda viveria na ilusão da felicidade, nos belos campos da região do Mondego. O destino não deixaria essa situação durar muito.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: As lembranças dos amores nos vales do Mondego são ressaltadas na estrofe abaixo por meio da prosopopeia — atribuição de características animadas a seres inanimados, como podemos ver em lembranças que respondiam, sonhos que mentiam, pensamentos que voavam.

Do teu príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam,
E quando enfim cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

A região era marcada pelas lembranças dos amantes, o que servia de consolo para quando D. Pedro não estava por perto.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: O vocativo que aparece abaixo volta a se referir ao amor. Uma distinção, porém, cabe ser feita em relação ao Amor citado na segunda estrofe. Como foi visto, lá, o Amor — com a maiúsculo — referia-se ao deus da mitologia pagã. Aqui, o amor — com a minúsculo — refere-se ao sentimento humano, universal. Enquanto o deus Amor, que aprisiona, parecia estar encarnado na figura de Inês, o amor, sentimento do prisioneiro, parece estar agora encarnado na figura do Infante:

De outras belas senhoras e princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor [desprezas,
Quando por um gesto suave te sujeita.

O príncipe recusava outras mulheres em casamento, por já ser prisioneiro do amor de Inês.

Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

O rei, pai de D. Pedro, percebendo o comportamento do filho e os comentários do povo,

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: A estrofe seguinte — que virá completar a frase da anterior num típico caso de enjambement, isto é, continuação de um verso no verso seguinte — já revela a ingenuidade do rei que acreditava livrar seu filho deste amor apenas provocando a ausência de Inês. Aqui o narrador desabafa, expondo o seu espanto com a atitude do povo português.

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co’o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?

Resolve que Inês deve morrer, acreditando com isso libertar seu filho.
Inconformado, o poeta questiona: como pode um povo tão corajoso contra os inimigos mouros levantar a espada para uma dama indefesa?

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: O inconformismo do poeta na estrofe anterior dá lugar ao casuísmo na estrofe seguinte. Por vontade do destino — e não por responsabilidade do rei — Inês tem que morrer:

Traziam-na os horríficos algozes
Ante o rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Os carrascos trazem Inês até o rei, que já está com piedade. Mas o povo, por razões falsas, insiste na sua morte.
Inês, triste e já com saudades do seu príncipe e dos seus filhos,

Para o céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
um dos duros ministros rigorosos),
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:

Olha para os céus, com lágrimas nos olhos, enquanto um dos carrascos lhe segura as mãos. Depois, olhando para os filhos, dizia para D. Afonso, o avô:

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: Tem início o famoso discurso criado por Camões para que Inês tente conseguir a piedade e o perdão do rei. Os seus argumentos, respeitando uma regra estética do Classicismo, mas não a veracidade dos fatos, é carregado de alusões à mitologia pagã como podemos observar pelas presenças da deusa Natura e os personagens Semíramis, Rômulo e Remo:

– Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedosos sentimento,
Como co’a mãe de Nino já mostraram
E co’os irmão que Roma edificaram,

– “Se até nas feras mais brutas, crueis desde o nascimento pela própria natureza, e nas aves agrestes que vivem das rapinas, mesmo elas já tiveram piedade de crianças, como aconteceu com a mãe de Nino e os irmãos que construíram Roma

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: Chamando atenção do rei para a piedade que é possível encontrar até entre feras, Inês procura comover o avô com a imagem de seus netos, que ficariam órfãos com sua morte:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
fraca e sem força, só por ter sujeito
o coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
Tu que és humano (se é humano matar uma frágil dama por ser escrava de quem ama),
Tem piedade destas criancinhas já que tens da minha inocência
E se, vencendo a maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida com demência
A quem para perdê-la não fez erro;
Mas, se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
E se sabes dar a morte aos inimigos mouros, sabes também dar vida por meio do perdão a quem o merece.
Manda-me para o exílio em lugares gelados ou em desertos, onde eu viva chorando,
Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co’o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas, que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.
Coloca-me entre feras, e verei se encontro neles a piedade que não encontrei entre humanos. Ali, pelo meu amor por quem morro, criarei estas relíquias, que serão meu consolo.”

Após o discurso, mais uma vez o narrador isenta o líder português da barbárie que está por acontecer. O inconformismo volta-se para os carrascos que se deixaram levar pela insensatez:

Queria perdoar-lhe o rei benigno,
Movido das palavras que o magoam,
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?!

O rei queria perdoar-lhe, emocionado com as palavras de Inês, mas o povo e seu destino não lhe perdoam. Aqueles que desejavam sua morte, desembainham suas espadas.

Novamente o poeta questiona: ó peitos carniceiros, mostrai-vos ferozes e guerreiros contra uma dama?!

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: A morte de Inês é apresentada por eufemismos e comparações com passagens da mitologia antiga, como a história de Policena:

Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

Assim como aconteceu com Policena contra quem Pirro ataca com sua espada por ter sido companheiro de Aquiles; mas ela, com serenidade, olhando para a mãe, que enlouquece, oferece-se ao sacrifício.

Camões, como outros artistas que retrataram a morte de Inês de Castro, prefere a imagem da espada encravada no peito, sem dúvida, mais lírica, à do degolamento:

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez rainha,
As espadas banhando e as brancas flores
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Os matadores investem suas espadas contra o peito de Inês, usado pelo deus Amor para matar de amores d. Pedro, que depois de morta faria de Inês rainha. Os carrascos, porém, não pensaram na vingança do futuro rei.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II: A mitologia pagã volta ao discurso do narrador por meio da referência a história de Tiestes, com a intenção de realçar a barbárie cometida no episódio português:

Bem puderas, á Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, á côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes!

O poeta agora dirige seu horror ao Sol: Melhor seria se te afastasse da terra neste dia, como fizeste quando Atreu fez Tiestes comer a carne de seus próprios filhos!

Em seguida aos vales do Mondego, dizendo que o nome de Pedro tão ouvida da boca de Inês naquela região foi por eles espalhado.
Mais uma vez, a comparação é usada para apresentar Inês morta:

Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor co’a doce vida.
Assim como a flor arrancada pela menina perde o cheiro e a cor, tal está Inês, sem cor e sem vida.

 

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Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões II

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