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Os jovens estão batendo às
portas dos quartéis. Estudantes com boas notas, originários de escolas
particulares que antes sonhavam exercer profissões como a de médico ou
economista, hoje preferem fazer vestibular para seguir a carreira de oficial das
Forças Armadas ou da Polícia Militar. Os números comprovam. Desde o ano
passado, as inscrições para oficiais da Marinha aumentaram 2,5 vezes. Na Aeronáutica,
o crescimento foi de 62%. Dezesseis mil candidatos se inscreveram para a Escola
Preparatória de Cadetes do Exército. E o mais surpreendente: no maior
vestibular do país, a Fuvest, a carreira de oficial da PM paulista figura como
a quarta mais procurada, atrás apenas das tradicionais Medicina, Direito e
Engenharia. Neste ano, 7.036 jovens se inscreveram para o concurso, iniciado na
semana passada. Não se trata de moda: o número de candidatos cresce ano a ano
desde 1997, quando a PM escolheu a Fuvest para executar o exame, tornando a
carreira oficial uma das mais concorridas nos cursinhos de São Paulo.
O aumento da procura agrada aos militares. "O maior número de candidatos
melhora a qualidade da seleção", afirma o capitão-aviador Paulo César
Andari, da Academia da Força Aérea de Pirassununga, no interior de São Paulo,
onde mais de 14 mil estudantes se inscreveram para o vestibular neste ano.
"O nível socioeconômico melhorou", constata o tenente-coronel João
Cristiano Queiroz, comandante da Academia de Polícia Militar Dom João VI, no
Rio. "Temos filhos de médicos e empresários." O interesse pelo curso
da PM triplicou desde 1996 e hoje os candidatos prestam o mesmo vestibular dos
alunos que buscam uma vaga na concorrida Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(Uerj).
O fenômeno se estende a outros Estados. Na Academia Militar de Paudalho, em
Pernambuco, cresce o número de jovens que trancaram cursos em outras faculdades
para tentar a carreira militar. Carlos Fernando de Souza Santos, de 19 anos,
passou no vestibular de Química e de Engenharia em duas das melhores
universidades do Recife, mas optou por se integrar à PM. O motivo: o curso lhe
permite reunir estudos e esporte, ponto forte da formação militar. Mas não é
apenas a ênfase na vida ao ar livre e nos esportes que atrai tanta gente para a
carreira. Oficiais de todas as Armas acreditam que o ingresso garantido no
mercado de trabalho, a boa assistência médica e o salário integral na reserva
(a aposentadoria dos militares) são bons chamarizes nestes tempos de incerteza.
O ingresso numa faculdade
militar assegura soldo mensal de R$ 300 a R$ 600 durante os três ou quatro anos
de graduação. Os formados saem como aspirantes a oficiais e, em meses, são
promovidos a tenentes, aptos para funções de comando, com a segurança de um
salário inicial que pode ser de R$ 1.800 na Marinha e na Aeronáutica.
"Temos ascensão profissional garantida e plano de carreira definido",
confirma Renata da Silva, 20 anos, do Dom João VI. Não sem alguns sacrifícios.
Os cursos de preparação de oficiais só aceitam alunos solteiros que se
disponham a passar por um rigoroso teste de aptidão física e psicológica. O
candidato deve ter visão perfeita, peso ideal e saúde satisfatória. Nas
academias funciona o regime de internato, a disciplina é rígida e os alunos são
constantemente testados e submetidos à hierarquia.
Nada disso parece intimidar os candidatos. O estudante Rodrigo Anauate Ghattas,
16 anos, mora e estuda em um bairro de classe média alta de São Paulo. Ele
desistiu de Medicina e faz planos para se submeter à Escola Preparatória de
Cadetes - 3a série do ensino médio de acesso à Academia Militar de Agulhas
Negras. "Ser oficial é tão difícil quanto ser médico, mas meu futuro na
medicina não estaria garantido", afirma. A opção surpreendeu o pai, o
administrador de empresas Sarkis Ghattas, cuja imagem das Forças Armadas estava
associada aos tempos duros do regime militar. Superado o susto, Ghattas tratou
de informar-se sobre o assunto e visitou o quartel. "As coisas mudaram e
ele vai estar muito bem amparado", consola-se.
"Meu pai queria morrer quando soube da minha opção", afirma Tatiana
de Matheus, inscrita no vestibular para a PM na Fuvest, referindo-se à rejeição
que a farda costuma despertar na geração que viveu a repressão dos anos 70 e
não está disposta a ver os filhos enfrentar a violência deste final de década.
"Os jovens de hoje não têm a memória da ditadura que assombrou seus pais
e avós", avalia a antropóloga Teresinha Bernardo, da PUC de São Paulo.
Ela se recorda do pavor com que identificava em suas aulas, pelo modelo dos
sapatos, os militares disfarçados para flagrar discursos
"subversivos". Os filhos dessa geração não têm medo do coturno. Ao
contrário. Sentem-se atraídos por ele.
As escolas militares, tanto as que oferecem formação puramente militar como as
que formam engenheiros, possuem cursos considerados bons, como ITA, e são
bastante procuradas.
Na Escola Preparatória de Cadetes do Exército de Campinas (99 km a noroeste de
São Paulo), mais de 17,7 mil inscritos disputaram as 470 vagas oferecidas em
1999 -uma relação alta, de 38 candidatos por vaga.
Para quem terminou o ensino médio, há opções como prestar vestibular para
engenharia aeronáutica ou mesmo tornar-se combatente.
Os candidatos que já possuem nível superior têm a possibilidade de fazer
parte do chamado Quadro Complementar ou entrar para a Escola de Saúde do Exército,
por exemplo.
A carreira proporciona estabilidade de emprego, e há possibilidade de aperfeiçoamento
por meio de cursos de especialização.
Em São Paulo, existe a Academia de Polícia Militar do Barro Branco, que faz a
seleção de novos cadetes pelas provas da Fuvest.
Requisitos
Na primeira fase, o candidato presta o vestibular normalmente, mas na segunda só
há provas de português e redação. Na fase eliminatória, são feitos exames
psicológico, de saúde e físico.
Outros requisitos comuns em escolas militares são a idade máxima (26 anos) e a
altura mínima (1,60 cm para mulher e 1,66 cm para homem).
Há ainda uma quarta fase, em que a vida e o perfil psicológico são
investigados. Uso de droga ou furto podem impedir a admissão.
A academia oferece a cada ano 220 vagas, 187 para homens e 33 para mulheres.
Após todas as etapas, os candidatos aprovados no Curso de Formação de
Oficiais, de nível superior, são admitidos. O cadete começa recebendo cerca
de R$ 700. Soraya Corrêa Gouvêa, 30, capitã da PM, instrutora de educação
física e chefe da seção de orientação, diz que atualmente os candidatos
têm perfil variado. Muitos têm parentes ou amigos policiais.
Curso exigente
Mas o que leva a entrar na carreira é o ideal, segundo Soraya. "(O futuro
policial) tem que gostar da profissão porque ela é algumas vezes
ingrata."
"Alguns acham que, após quatro anos estudando, passam para área
administrativa. Nos dois primeiros meses, uma parte dos ingressantes -bem
pequena- sai. O curso exige bastante empenho tanto físico quanto
intelectual."
Na academia, os alunos acordam às 6h (regime de internato), têm estudos pela
manhã, à tarde e à noite (nos dois primeiros anos). Além disso, fazem policiamento na capital paulista e em eventos ao longo do
ano, como Operação Verão, no litoral, Carnaval e corridas de Fórmula 1.
O curso inclui disciplinas como psicologia e direito e aquelas voltadas para a
formação de policiais militares. Entre elas estão tiro defensivo,
maneabilidade a cavalo e técnicas e táticas de policiamento.
Ao terminar o curso, o cadete é declarado aspirante-a-oficial e vai para batalhões
de São Paulo.
Vinícius da Silva Figueiredo, 19, aluno do segundo ano, conheceu a profissão
por amigos da família que são PMs em Assis (SP).
A maioria da turma, inclusive ele, diz, sonha entrar em tropas especializadas
(cavalaria, choque etc.), que atuam em casos que envolvem risco, como rebeliões.
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