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Um novo boom desponta nas estatísticas
dos últimos vestibulares. Desde o surgimento de Dolly, a polêmica ovelha
clonada a partir da célula de um animal adulto, a carreira de ciências biológicas
recebe cada vez mais candidatos e firma-se como a ciência do próximo milênio.
No início do ano, 6.998 estudantes disputaram as vagas oferecidas pela
Universidade de São Paulo (USP) e pelas federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de
Minas Gerais (UFMG) e do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 1996, ano anterior ao do
anúncio da clonagem de Dolly pelo escocês Ian Wilmut, os inscritos eram 4.383.
Eles estão sendo atraídos pelo glamour da biologia, que neste fim de século
merece destaque comparável ao vivido pela física até a década de 50.
Todo esse interesse é muito bem-vindo, na opinião de José Atílio Vanin,
vice-diretor da Fuvest, a fundação organizadora do vestibular da USP. Segundo
ele, o fenômeno pode ser comparado à atração exercida pela física nos anos
40, quando o brasileiro César Lattes foi cotado duas vezes ao Prêmio Nobel
pela descoberta de uma das partículas que integram o átomo, o méson pi.
Lattes chegou a ser enredo da Mangueira numa homenagem dos sambistas Cartola e
Carlos Cachaça. A repercussão da descoberta provocou um furor entre os
estudantes semelhante ao que ocorre hoje com as ciências biológicas. "A
biologia terá um grande impacto sobre todos os ramos do conhecimento no próximo
século, e é natural que os estudantes se sintam atraídos pela matéria",
diz Vanin.
Aluno do primeiro ano de ciências biológicas na USP, Daniel Michiute Carolino,
de 19 anos, nunca teve dúvidas sobre qual carreira seguir. Desde a infância,
sempre disse que queria ser biólogo. Mas imaginava-se um zoólogo, enfronhado
no estudo das grandes formas de vida animal. Dois meses após o início das
aulas, acha que pode optar pela biologia molecular. "Há muito mais
oportunidades de trabalho nesse campo", afirma. A explosão da biologia
provoca comentários até então insuspeitáveis, como o do escritor, economista
e ex-deputado Roberto Campos. Aos 82 anos, ele não esconde que, se tivesse a
idade com a qual iniciou sua vida profissional, estaria trabalhando em algum
projeto de biologia molecular. "É o ramo mais excitante do progresso científico,
que vem desvendando o segredo da vida", afirma.
Bem antes do entusiasmo de Roberto Campos e da fascinação dos estudantes
alimentada pelo efeito Dolly, as universidades já ensaiavam projetos
integrados. Hoje é cada vez menor o espaço para pesquisas estanques, centradas
em um único ramo do conhecimento. "A partir da última metade deste século,
os avanços da ciência forçaram a necessidade de estudos
interdisciplinares", explica o professor titular do Instituto de Física da
UFRJ, Fernando de Souza Barros.
Nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Saúde vem recrutando físicos do
departamento de biologia da Fundação Nacional de Ciência, que concentra os
melhores cérebros em física, matemática e engenharia e tem um programa de
incentivo para os interessados em colaborar com seus colegas na área de saúde.
"O conhecimento integrado de biologia, física e química deverá ser uma
preocupação cada vez maior das universidades", diz o pesquisador Amando
Ito, coordenador do Grupo de Biofísica do Instituto de Física da USP.
Por enquanto, no Brasil, não há ainda diretrizes acadêmicas que determinem a
interdisciplinaridade entre os cursos e cabe aos próprios cientistas quebrar
essas barreiras. O físico Glaucius Oliva conseguiu contratar, depois de muita
argumentação, dois biólogos e um bioquímico para o Laboratório de
Cristalografia de Proteínas do Instituto de Física da USP, em São Carlos. Lá,
foram produzidas moléculas de enzimas glicolíticas para ser cristalizadas no
espaço a bordo da nave espacial Columbia, em 1997. O experimento pode ser o
caminho para a fabricação de uma nova droga contra o mal de Chagas. "A
biologia vem se caracterizando como a última grande fronteira do conhecimento
humano, e há muita coisa a ser explorada", argumenta.
Mas o que seria da pesquisa de organismos vivos sem os inventos concebidos a
partir de leis da física, como a lente de aumento, os microscópios e as
modernas máquinas nucleares para geração de imagens? O trabalho conjunto, com
profissionais de várias áreas, é uma tendência que veio para ficar.
"Chegamos a um ponto de amadurecimento, e o caminho para a colaboração
entre físicos e biólogos é natural", afirma Luiz Fernando Ziebell,
coordenador do curso de pós-graduação em física da UFRGS.
Os projetos integrados entre as duas disciplinas são o começo de uma grande
mudança, segundo o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa no
Estado de São Paulo (Fapesp), José Fernando Peres. "A biologia vem
atraindo os físicos não só do ponto de vista tecnológico, mas também do
ponto de vista teórico, por causa das imensas variáveis de pesquisa",
ressalta. Como diz Roberto Campos, é difícil prever quais os limites e as
conseqüências de toda essa revolução.
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