Prós e Contras
A
equipe do Portal EducaRede ouviu dois especialistas, Douglas
Tufano, professor de Português e História da Arte, e autor de
livros didáticos e paradidáticos nas áreas de Língua
Portuguesa e Literatura, e José Luiz Fiorin, Professor
Associado do Departamento de Lingüística da FFLCH da
Universidade de São Paulo (USP), que defendem posições
diferentes em relação ao Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa.
Para Tufano, embora
não seja completamente favorável ao Acordo, esse momento é
considerado um passo à frente no projeto de unificação
ortográfica, mas ainda está longe do pretendido objetivo.
"Nesse caso, o Acordo poderia ter sido mais ousado e
abrangente". Outra questão levantada por Tufano é a falta de
clareza quanto ao uso do Hífen: "o maior dos problemas no
Acordo é a confusão que se estabeleceu quanto ao uso do hífen
nas locuções. No uso do hífen com os prefixos, as regras são
quase todas bem simples, mas ao tratar do uso do hífen nas
locuções, como "maria vai com as outras" ou "pé de moleque", o
Acordo não é nada claro e a publicação do dicionário da
Academia Brasileira de Letras não contribuiu em nada para
esclarecer essa questão". Segundo Tufano, a resolução desse
problema passa pela elaboração do Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa (VOLP), considerada uma fonte oficial de
consulta e que já deveria estar publicado antes do Acordo
entrar em vigor, para evitar confusões.
José Luiz Fiorin, Professor Associado do Departamento de
Lingüística da FFLCH da Universidade de São Paulo (USP),
concorda que algumas normas são tecnicamente mal formuladas,
principalmente nas bases 15 e 16 do Acordo, em relação ao
Hífen, que carrega dubiedade no entendimento das regras. A
resolução desse problema está na elaboração do "Vocabulário
Ortográfico Da Língua Portuguesa", outro ponto de concordância
entre os especialistas. Mas, ao contrário de Tufano, José Luiz
Fiorin é plenamente a favor do Acordo, principalmente em seu
aspecto político, já que unifica a grafia nos países lusófonos
e cria uma unidade na Comunidade de Língua Portuguesa. Até
então, tínhamos duas grafias oficiais, a utilizada em
Portugal, que é a mesma nas ex-colônias africanas e asiática,
e a usada no Brasil. Segundo Fiorin, "reafirmar a unidade
ortográfica é reafirmar a unidade de base da Língua
Portuguesa". O especialista fez questão de salientar a
diferença entre grafia e língua: "A língua é viva e muda tanto
de país para país, com seus sotaques e gírias, como de geração
para geração dentro do mesmo território. A unificação está
somente na grafia".
Por fim, Fiorin
analisou o impacto do Acordo nas salas de aula: "não interfere
em nada a assimilação dos estudantes". O professor aponta três
antigos problemas de ortografia nas escolas, e ressalta
que nenhum deles foi contemplado no acordo. São eles:
1. Uma letra que
representa vários sons. Ex: a letra "X" tem som de "C" na
palavra auxílio e som de "Z" em exame;
2. Várias letras
representam o mesmo som. Ex. Em beleza, o "Z" tem som de "Z",
em exame, o "X" também tem som de "Z", e em casa, o "S" tem a
mesma característica, som de "Z";
3. A não
correspondência entre a letra e o som. Ex. A palavra "Sol":
como a letra "L" tem som de "U", alunos podem escrever "Sou",
o mesmo se dá com a palavra "Sal", que pode ser escrita,
equivocadamente, "sau".
Para o Professor, uma
forma de resolver essa questão está no automatismo da escrita,
que vai aos poucos eliminando essas dúvidas. O entrevistado
aponta uma forma bastante eficiente para alcançar esse
automatismo, que é a memória visual das palavras, ou seja,
quanto mais os alunos lerem, menos errarão na escrita. Mais um
dado que evidencia a importância do hábito da leitura.