"Até o advento da primeira
Revolução Industrial do século XVIII, o mundo era
constituído de realidades regionais as mais diversas, as
sociedades se distribuíram na sua infinita diversidade. O
advento da tecnologia industrial passa a unificar espaços
área a área, de modo que o espaço vai se padronizando em
prejuízo da diversidade da natureza e do homem, suprimindo a
biodiversidade. Com a Segunda Revolução Industrial da virada
dos séculos XIX,XX esta uniformização atinge a escala
planetária.
Em menos de um século, o mundo é então a
globalização da produção, dos mercados e das culturas que
suprime as antigas regionalidades e a identidade cultural das
suas civilizações, acarretando a desarrumação
sócio-ambiental conhecida.
O espaço é a comunidade nascida da
interligação do que originalmente é diverso num só único
todo. Por isso que toda unidade espacial mostra um quadro de
tensão. Esta tensão é mais forte nas sociedades modernas,
uma vez que a diversidade é padronizada numa uniformidade
espacial imposta pela técnica. Tensão que hoje atinge a
escala do mundo. Por isso que a globalização vem acompanhada
da fragmentação do mundo.
É a diversidade a culturas reagindo contra
a uniformidade técnica planetarizada. Um conflito entre
multiculturalismo e uniformitarismo técnico.
Primeiro foi a reação da biodiversidade
ecossistêmica (na forma da desarrumação ambiental do
planeta), agora, é a reação da homodiversidade (na forma de
explosão dos separatismos)"
Ruy Moreira
A globalização : a mundialização do
capitalismo
Fatos históricos marcantes ocorridos entre
o final da década de 1980 e o início da de 1990 determinaram
um processo de rápidas mudanças políticas e econômicas no
mundo. Até mesmo os analistas e cientistas políticos
internacionais foram surpreendidos pelos acontecimentos:
- A queda do Muro de Berlim em 1989;
- Fim da Guerra Fria;
- Fim do Socialismo Real;
- A desintegração da União Soviética, em dezembro de
1991, e seu desdobramento em novos Estados Soberanos
(Ucrânia, Rússia, Lituânia etc.);
- A formação de blocos econômicos regionais (União
Européia, Nafta, Mercosul, etc.);
- Grande crescimento econômico de alguns países
asiáticos (Japão, Taiwan, China, HongKong, Cingapura),
levando a crer que constituirão a região mais rica do
século XXI;
- Fortalecimento do capitalismo em sua atual forma, ou
seja, o neoliberalismo;
- Grandes desenvolvimentos científicos e tecnológicos ou
Terceira Revolução Industrial ou Tecnológica.
O cenário internacional do início dos
anos 90 foi marcado pela crescente hegemonia do ideário
neoliberal como modelo de ajuste estrutural das economias e
pela afirmação do domínio político e militar dos EUA, com
o fim da Guerra Fria e o colapso do chamado socialismo real no
Leste Europeu e na antiga URSS.
Esse movimento foi acompanhado pela
evolução de novos conceitos no mundo do trabalho (qualidade,
produtividade, terceirização, reengenharia, etc.), como
resultado do desenvolvimento e da introdução de novas
tecnologias na produção e na administração empresarial,
com agravamento da exclusão social e crescimento da
apropriação de riquezas do sul pelos países do norte.
A deterioração social nos países em
desenvolvimento e as políticas protecionistas e excludentes
dos países de capitalismo avançado tem levado à
instabilidade política, em particular nos países do leste
europeu, da antiga URSS e da África.
O Neoliberalismo
Modelo que vem sendo adotado a partir dos
anos 80, nos países ocidentais e que tem como característica
primordial o afastamento do Estado em relação à gestão de
diversos setores da economia. Diferencia-se do Liberalismo
clássico quanto à circulação internacional de bens e
apitais. No neoliberalismo há a preocupação em se formar
blocos econômicos que sob a justificativa de maior facilidade
na circulação da produção (e conseqüente barateamento)
cria verdadeiras fortalezas protecionistas em torno das
economias mais fortes.
Podemos considerar como inauguradores do
modelo neoliberal os governos de Margareth Tatcher e Ronald
Reagam no início doa anos 80, quando ocorrem profundos cortes
de investimentos sociais, inteiramente, percebe-se uma grande
preocupação de blocos econômicos que ajudem a suprimir
gastos com a circulação e produtos e capitais. No entanto os
setores estratégicos da econômicas norte-americana e
inglesas continuam sob protecionismo.
A luta contra o neoliberalismo é, ao mesmo
tempo, uma luta contra o próprio capitalismo como sistema de
exploração e dominação social.
Foram apontadas, entre as funções do
neoliberalismo, a de restringir o papel do estado na garantia
dos direitos dos trabalhadores urbanos e rurais e a de
privatizar empresas públicas para favorecer o mercado.
Também foi dada ênfase ao mecanismo neoliberal de
transformar os cidadãos em simples consumidores, envoltos
numa cultura padronizada e submetidos a valores distantes a
sua própria realidade. Valores impostos, que são difundidos,
principalmente, pelos meios de comunicação, pela educação
e políticas culturais oficiais.
Conseqüências
"Avolumam-se evidências de que, na
economia global, cada vez mais é o mercado financeiro, ou
seja, as grandes corporações e não os governos que em
última análise, decide sobre os destinos do câmbio, taxa de
juros, da poupança e dos investimentos. Sem duvida, a
liberalização e a globalização e a globalização dos
mercados são altamente vantajosas para o grande capital,
cujos horizontes e estratégias transbordam as fronteiras
estreitas do Estado Nacional [...] Dificilmente encontrar-se-a uma referencia
às prioridades sociais na
retórica dos arautos da globalização"(H. Ratner,
Globalização..., in Revista do IEA, USP. Set./dez 1995,
p.66)
No contexto de um país subdesenvolvido, os
efeitos da globalização têm sido desastrosos. Um exemplo
ilustrativo foi o ocorrido com o México, que viveu sua pior
crise, financeira em dezembro de 1994. O país fora, até
então, o melhor aluno do FMI e do Banco Mundial; fez a
desregulamentação da economia, a abertura econômica ao
exterior e a política das privatizações de suas empresas
estatais.
De um dia para outro bilhões e dólares de
capital especulativo foram transferidos de suas bolsas de
valores para outras praças. A crise financeira resultante
teve as conseqüências típicas desse quadro: inflação
recessão, aumento do desemprego e falências de empresas.
Estamos vivendo, portanto, um momento ímpar na historia da
humanidade. A globalização da economia exige as empresas
nacionais um esforço para se adaptarem à nova realidade
mundial, com métodos cada vez mais apurados de
administração empresarial, controle eficaz do capital
financeiro, novas tecnologias, baixos custos de produção,
mão-de-obra altamente qualificada etc., requisitos que elas
nem sempre são capazes de possuir.
No mundo globalizado, a competição e a
competitividade entre as empresas tornaram-se questões de
sobrevivência. Entretanto, como o poder das empresas (quanto
ao domínio de tecnologias, de capital financeiro, de
mercados, de distribuição, etc.) é desigual, surgem
relações desiguais entre elas e o mercado. Algumas sairão
vitoriosas e outras sucumbirão. Muitos setores da economia
estão oligopolizados e até mesmo monopolizados, dificultando
a entrada de novos competidores. Desse modo, a noção de
livre mercado é relativa. Muitos setores da atividade
econômica já tem "dono" e dificilmente permitiram
a entrada de novos produtores. A globalização da economia e
das finanças beneficia, assim, amplamente o grande capital,
as grandes corporações transnacionais.
Perda de autonomia dos estados nacionais
A globalização surgiu de forma inesperada
e descontrolada. Tem causado em certos países, desafia o
poder tradicional dos governos e passa para as pessoas a
sensação de que o mundo se transformou num ambiente
selvagem, do dia para a noite.Por mais que os estudiosos
apresente documentos favoráveis a essa mutação econômica,
a imagem que ela tem é a dos saques a Indonésia, dos
desempregados na Europa, e das empresas fechadas na Argentina.
A pergunta bastante razoável que se pode fazer é: para que
serve esse processo se ele sacrifica pessoas e subtrai poder
de governos que são eleitos pelo povo?
A ampliação do poder das multinacionais
tem promovido uma concorrência perversa entre os Estados. A
globalização financeira tem limitado a capacidade dos
Estados nacionais de promoverem políticas expansionistas sob
o risco de serem submetidos à exclusão do mercado mundial de
capitais e aos ataques especulativos de suas moedas, com
graves conseqüências para a estabilização.
Essa forma de globalização favorece os
países que concentram maior poder econômico e diminui a
autonomia política e decisória dos Estados, que, adotando
uma inserção subordinada a lógica da "Nova Ordem
Mundial" passam a reduzir impostos de importação,
atacar conquistas sociais e sindicais e submeter suas
políticas e legislações aos interesses dos paises centrais.
"Um estado desses torna-se muito
dependente dos investimentos privados e começa a fazer o que
as empresas quiserem para não perder forca econômica. Vira
uma relação desigual, em que o mercado tem todas as fichas
na mão. Em última instancia, isso acaba afetando a
confiança da democracia se as decisões estão sendo tomadas
onde não temos influencia." (Claus Offe, sociólogo
alemão).
Embora os impactos sociais sejam
semelhantes em escala mundial, são paises da África,
América Latina e do Leste Europeu que sofrem de forma aguda e
acelerada as conseqüências dos programas de ajustamento
econômicos neoliberais do FMI e do Banco Mundial, agravando a
pobreza e levando a miséria e o desespero para extensas
camadas sociais.
Na América Latina, os modelos de
estabilização tem resultado forte dependência externa para
garantir a estabilidade de preços. E simultaneamente tem
sucateado importantes setores industriais e gerando um
crescimento do desemprego estrutural.
"Se o comunismo acabou, o
neoliberalismo caminha para o fim. O comunismo ao menos tinha
uma idéia generosa. O neoliberalismo é o egoísmo como
doutrina política, a exclusão social como preço inevitável
" (Jose Sarney – ex-presidente).
E a Profecia se cumpre
O furacão que está varrendo o mundo já
feriu profundamente o mercado financeiro. É um problema
sério e os economistas avisam que as coisas ainda podem
piorar. O comercio internacional, a produção industrial e o
emprego sentiram baque da crise, mas ainda não tombaram. Se a
loucura dos mercados financeiros não for detida, não é
impossível que os paises mergulhem numa depressão semelhante
a de 30. O cenário mais terrível, segundo ele seria o
seguinte:
- Fuga de dólares – O dinheiro já está deixando os
paises emergentes, pode fugir a uma velocidade maior.
Iria abrigar-se em investimentos mais seguros, como os
títulos da dívida americana. Estaria criada, assim, a
possibilidade de moratória generalizada, ou aumento
brutal dos juros, para segurar a fuga de dólares.
- Desemprego – A elevação dos juros não segura o
investimento estrangeiro e ainda provoca um estrago
adicional. As empresas, muito endividadas, começam a
quebrar. O desemprego aumenta e o consumo despenca. Com
isso, o comercio internacional encolhe.
- Recessão – Com menos comercio, o mundo inteiro fica
mais pobre. Até os paises ricos como os Estados Unidos,
são afetados pela crise. O pessimismo toma conta dos
empresários de tal forma que mesmo uma redução doa
juros ou dos impostos é insuficiente para estimular o
crescimento econômico.