A derrota da terceira expedição, enviada
pelo governo federal, e a morte do coronel Moreira César
abalaram o país. Era preciso encontrar uma justificativa para
explicar tamanho desastre. Era impossível que aqueles
"fanáticos" guiados por um "louco" e sem
receber ajuda de ninguém tivessem derrotado as tropas do
exército comandadas por um famoso oficial como Moreira César.
Os florianistas, por exemplo, acusavam os
monarquistas e os falsos republicanos de estarem apoiando e
ajudando Antônio Conselheiro e seus adeptos.
Os jornais florianistas diziam que os
"fanáticos" do Conselheiro eram comandados pelo conde
D’Eu, marido da princesa Isabel e genro de D. Pedro II, e que
pretendiam restaurar a Monarquia no Brasil.
Os principais jornais das grandes cidades do
país passaram a denunciar Canudos como o "centro de
convergência da ação restauradora", o
"poderosíssimo reduto central do tresloucado e caduco
monarquismo", o "antro do bandismo", a
"cidade maldita", onde "o bandismo, a ignorância
e o fanatismo estúpido e perverso acastelaram-se para eterna
vergonha de nossa pátria".
Os jornais classificavam Antônio Conselheiro
como "célebre bandido", e os canudenses como
"bandidos", bestas-feras", "monarquistas
encobertos", "malvados inimigos", desagregados da
sociedade", "inimigos da pátria",
celerados", "hordas selvagens", "inimigos da
República" etc.
Os soldados do governo recebiam tratamento
diferente, sendo considerados como "heróicos defensores da
pátria", "bravos defensores da República",
"intrépidos cruzados da República", "valentes
soldados", "obreiros da boa causa da pátria"
etc.
O "perigo" monarquista segundo
jornais da época
A gazeta de Notícias (RJ): "não há
quem, a esta hora, não compreenda que o monarquismo
revolucionário quer destruir com a República a unidade do
Brasil". O País (RJ): "A tragédia de 3 de março, em
que, juntamente com Moreira César, perderam a vida o ilustre
coronel Tamarindo e tantos outros oficiais briosíssimos do
nosso exército, foi a confirmação de quanto o Partido
Monarquista, à sombra da tolerância do poder público e,
graças até aos seus involuntários alentos, tem crescido em
audácia e força". O Estado de S. Paulo: "Trata-se da
restauração; conspira-se; forma-se o exército imperialista. O
mal é grande; que o remédio corra parelhas com o mal. A
monarquia arma-se? Que o presidente chame às armas os
republicanos.
O sensacionalismo dos jornais agitando a
fantasia da restauração monárquica, através de Canudos,
contribuiu para exaltar o ânimo dos florianistas.
Dois dias após a morte do coronel Moreira
César, prudente de Moraes reassumiu inesperadamente o cargo
presidencial sem ter avisado o vice-presidente Manoel Vitorino,
que foi surpreendido e não pôde reagir.
Alguns dias depois, os florianistas
destruíram as redações dos jornais monarquistas A Gazeta
da Tarde, O Apóstolo e Liberdade e assassinaram o
diretor de um desses jornais, o coronel Gentil de Castro, numa
estação ferroviária do Rio de Janeiro. Em São Paulo foi
destruída a redação do jornal O Comércio de São Paulo,
também monarquista.
Assim, a derrota da terceira expedição
contra Canudos repercutiu intensamente nos principais jornais e
na opinião pública do país. A imprensa era unânime em
denunciar um complô restaurador em marcha para destruir a
República....
Quem se lembraria, nesse momento de comoção
nacional, das razões que deram início à guerra contra
Canudos? Quem teria suficiente serenidade para reconhecer que
Antônio Conselheiro e os seus seguidores estavam se defendendo
e não atacando? Resistiria a qualquer análise mais sóbria a
suspeita de que os monarquistas estariam tentando restaurar o
antigo regime através de uma revolta no sertão baiano? Acusar
Canudos de ser reduto monarquista não era uma hábil manobra
para esconder o fracasso das expedições militares anteriores e
desviar a opinião pública? Não Estariam porventura
transformando os agressores em vítimas e os inocentes em
culpados?
O protesto do monarquista Eduardo Prado
No momento de deixar o Brasil, onde não pode
permanecer com segurança e com dignidade o homem nascido livre,
criado livre e a quem é insuportável o silêncio ignominioso
que a República, pela violência e pelo assassinato, impõe aos
que pensam de modo diverso dos seus adeptos, escrevo estas
linhas, que são um protesto pela verdade e pela justiça
imperecíveis Os monarquistas não têm a mínima
responsabilidade direta, ou indireta, na revolta de Antônio
Conselheiro e nenhum auxílio moral ou material lhe têm
emprestado. O governo sabe, com a certeza mais completa, que é
verdadeira esta minha afirmação. E, apesar disso, o governo
apadrinha a atrocíssima calúnia de que os monarquistas são
culpados dos reveses militares das armas da República. O único
culpado é o governo republicano, que, revelando na
administração da guerra a mesma incompetência demonstrada em
outros serviços públicos, desorganizou o exército e a defesa
nacional, ao ponto de expor a bravura do soldado brasileira a
desastres daquela ordem. Com tal governo, se o estrangeiro mover
uma guerra contra nós, a pátria sofrerá a mais completa
derrota, assinalada no mais inteiro desbarato e na mais profunda
das humilhações. (18 de março de 1897 (Janotti Maria de
Lourdes Mônaco) Os subversivos da República (São
Paulo, Brasiliense, 1986.)
A RESTAURAÇÃO COLOCADA EM DÚVIDA
O boato de que Canudos e a restauração
monárquica tinham ligações ia sendo colocado em dúvida à
medida que mentes menos exaltados refletiam sobre o que estava
acontecendo. O repórter Lelis Piedade, do Jornal de
Notícias da Bahia, por exemplo, escreveu que na sua
opinião "há quem explore os acontecimentos (. . .) Esses
exploradores, porém, não são aqui da Bahia, são de fora,
são de muito longe. O Conselheiro antipatizou a República e
atrás das suas práticas perversas e perversoras houve quem
procurasse cevar ódios contra o novo regime".
O coronel Carlos Teles, que lutou contra
Canudos, desmentiu ainda durante a campanha militar os boatos de
restauração da Monarquia pelos canudenses: "Não há ali
fim restaurador nem mesmo influência de pessoa estranha nesse
sentido; que em Canudos não existe nenhum estrangeiro e muito
menos capitão italiano instrutor de brigadas. Como outros,
também acreditava nos tais auxílios enviados de fora e
intenção monárquica, mas depois de minha marcha pelos
sertões de Sergipe e Bahia e da minha chegada em Canudos fiquei
convencido de que tudo isso não passa de fantasmagorias (. .
.)".
Os acadêmicos baianos viam claramente que
"os conselheiristas não cogitam decreto em restaurar a
instituição decaída. Nutrem, sim a insana pretensão de se
conservarem independentes, livres de toda a ação
governamental; mas, no egoísmo característico daquela
ignorância invencível, nunca pensaram em destruir a
República".
As opiniões de Rui Barbosa e Machado de
Assis sobre Canudos e Antônio Conselheiro
Rui Barbosa: "Ninguém logrou, até
hoje, precisar o mais leve indício da mescla restauradora aos
sucessos de Canudos. Não há um fato, um testemunho, uma
aparência concludente, ou suspeita (. . .) O monarquismo não
iria atravessar as dificuldades infinitas do sertão para se
alterar para se aliar à loucura de Antônio Maciel".
( Galvão, Walnice Nogueira. No calor
da hora, cit.)
Machado de Assis: "Antônio
Conselheiro é o homem do dia. Um homem que com uma só palavra
de fé e a quietação das autoridades congrega em torno de si
três mil pessoas é alguém... A crença no chefe é grande;
Antônio Conselheiro tem tal poder sobre seus amigos que fará
deles o que quiser".
(Nogueira, Ataliba. Antônio
Conselheiro e Canudos, cit.)
Embora não viesse perigo de restauração
monárquica em Canudos, Rui Barbosa julgava que a origem do
acontecimento era a loucura de Antônio Conselheiro...
Mais arguto, Machado de Assis considerava
Antônio Conselheiro um fenômeno individual e social digno de
respeito.
Os pareceres mais equilibrados sobre o que
estava acontecendo não tinham repercussão na opinião pública
naquele momento em que predominavam a paixão política e os
boatos mais disparatados.
As últimas chamas da guerra
AS INTERPRETAÇÕES DA TRAJÉDIA
A Repercussão da guerra no exterior foi
intensa. Os ingleses, distanciados das paixões políticas,
desmentiam o monarquismo atribuído aos conselheiristas e
denunciavam os "politiqueiros sem escrúpulos" de
explorar o episódio para tirar proveito pessoal.
Como o jornal The Times de Londres se
manifestou em 12.05.1897, sobre a Guerra de Canudos
O movimento de Antônio Conselheiro não tem
importância em si. A facção extremada do partido republicano
no Rio acusou os monarquistas de serem cúmplices do Messias
sertanejo; mas (...) tal acusação não tem fundamento algum,
embora servisse de pretexto para molestar, atacar e até matar
proeminentes monarquistas.
Esse movimento dos sertões da Bahia tende,
porém, a tornar-se um perigo porque politiqueiros sem
escrúpulos estão dispostos a servir-se da força que o apoio
de um vasto corpo de homens armados lhes pode dar, e é essa
possibilidade de intrigas para o futuro que se deve temer
Galvão, Walnice Nogueira. No calor da
hora, cit.)
A tragédia de Canudos foi a matéria-prima
do livro Os Sertões, escrito por Euclides da Cunha a
partir de seu trabalho como repórter especial do jornal O
Estado de São Paulo. Euclides atribuiu o fenômeno de
Canudos a desequilíbrios biológicos e psicológicos provocados
pela miscigenação de raças. O autor não percebeu o
significado social do acontecimento.
Euclides da Cunha não notou que os
sertanejos não lutavam apenas para obedecer a um grande chefe,
mas sim pela verdadeira libertação social que Canudos
representava.
O ATENTADO CONTRA PRUDENTE
A guerra contra Canudos estava concluída no
sertão e as tropas que ali lutaram começaram a voltar para
seus estados. A grande tragédia não cessara seus efeitos,
contudo. Seu último episódio aconteceu na capital da
República, o Rio de Janeiro.
Apesar da vitória do governo contra Canudos,
os adversários de Prudente continuavam ativos e tentaram um
último e desesperado golpe para destruí-lo. Quando Prudente
assistia o desembarque de batalhões que haviam lutado em
Canudos, nos cais do porto do Rio de Janeiro, em 5 de novembro
de 1897, o soldado do exército Marcelino Bispo tentou
alvejá-lo com uma garrucha, mas a arma emperrou e não
disparou.
O ministro da Guerra, marechal Bittencourt,
atracou-se com o soldado e foi apunhalado, morrendo logo depois.
Interrogado, o assassino confessou que era "fanático pela
memória do marechal Floriano Peixoto". Era leitor assíduo
do jornal florianista O Jacobino, que fazia oposição ao
governo de Prudente de Moraes. Segundo Marcelino Bispo, fora o
editor desse jornal, Deocleciano Martyr, que o induzira a matar
o presidente sob o argumento de que "o governo perseguia o
exército" e de que "a questão de Canudos era feita
pelo governo com o intuito de fazer voltar a Monarquia".
Declarou que Deocleciano lhe fornecera as armas para praticar o
crime.
Interrogado, Deocleciano Martyr confirmou as
acusações e revelou as ligações que tinha com vários civis
que estavam envolvidos no atentado, entre eles o vice-presidente
Manoel Vitorino e o deputado Francisco Glicério, ambos
adversários do presidente Prudente.
Fortalecido com essas revelações, Prudente
fechou jornais oposicionistas, processou os cúmplices do
assassino e depurou o exército e o governo dos elementos
florianistas radicais. O florianismo chegou ao fim e Prudente
governou tranqüilamente até o fim do seu mandato.
CONCLUSÕES PROVISÓRIAS
Com o passar do tempo, a Guerra de Canudos
foi caindo no esquecimento e passou a ser lembrada apenas para
exaltar os vencedores. Sobre os sertanejos vencidos, nenhuma
palavra.
Hoje, porém, Canudos tem despertado
discussões apaixonadas. Diferentes versões tem sido
apresentadas sobre qual seria o verdadeiro significado daquela
guerra civil.
Uma das versões é o significado histórico
do episódio, entendido como uma luta de povo sertanejo contra a
opressão, contra a miséria, contra o abandono, contra a
politicagem, contra a intolerância.
A interpretação racista de Euclides da
Cunha foi a que mais tempo predominou, mas seus conceitos não
resistiram a outros argumentos.
Outra versão, mais recente, foi externada
pelo Jornal de Brasília, em 12.08.1984:
"Canudos não foi um movimento de
fanáticos e ignorantes, mas uma resistência coletiva sob a
liderança de um homem que já era calejado na defesa dos
oprimidos. Conselheiro era líder popular e carismático que
aglutinou o povo na defesa dos seus direitos fundamentais de
sobrevivência".
Essa versão sócio – política se opõe a
interpretação racial e geográfica de Euclides da Cunha.
De qualquer forma, a tragédia de Canudos
desmentiu uma falsa concepção, a da "Cordialidade"
brasileira, que procura explicar a História do Brasil como uma
sucessão de fatos não violentos, pacíficos, resolvidos
tranqüilamente entre as elites e o povo, entre dominadores e
dominados...
Em relação a Canudos essa
"cordialidade" significou a aliança entre os ricos e
os poderosos "coronéis" com as autoridades
religiosas, judiciárias, políticas e militares dos
municípios, estados e União para destruir Canudos e massacrar
sua população.
A imprensa da época preparou a opinião
pública para "aceitar" e seus desdobramentos, criando
interpretações deturpadas e sensacionalista sobre os
acontecimentos e inventando boatos absurdos sobre Antônio
Conselheiro.
A guerra contra Canudos representou um crime
praticado contra o povo nordestino e contra a sociedade
brasileira, pois foi provocada por motivos mesquinhos, pessoais
e demagógicos. Foi uma tragédia injustificável.
Há quem considere Antônio Conselheiro o
maior vulto da História do Brasil. Na verdade, ele é uma
figura controvertida, que tem sido cada vez mais estudada pelos
historiadores . Causa admiração sua liderança moral, seu
senso de justiça e sua coragem para conduzir os destinos de
Canudos e de sua gente.
O local onde existiu Canudos hoje está
coberto pelo Açude de Cororobó, que representou 20 Km. das
águas do Rio Vaza – Barris. Após o fogo, as ruínas de
Canudos foram cobertas de água para apagar a memória da
guerra. É um crime contra a História.
Às margens do açude existe hoje um lugarejo
chamado Nova Canudos, onde predomina a mesma miséria, o atraso,
a exploração e a ignorância que existiu antes de Antônio
Conselheiro fixar-se por lá e fundar Belo Monte – Canudos. Um
dos habitantes de Nova Canudos, Roberto Gama, declarou em agosto
de 1989: "Os sertões mudaram muito pouco desde a Guerra de
Canudos".
Apagaram Canudos do mapa e tentaram também
apaga-lo da memória do povo. Inútil . Canudos é um pedaço
vivo da nossa história.
Canudos foi uma luta realmente popular, que
represento a resistência do povo brasileiro, e inscreve-se na
longa seqüência de lutas iniciadas pelos índios contra os
colonizadores, pelos escravos e seus quilombos livres, pelos
pobres das revoltas do período regencial, pelos cangaceiros,
pelos camponeses e pelos operários.
Todas essas lutas tinham como ideais,
consciente ou inconsciente, a liberdade e a justiça, utopias
que lutamos para conquistar há quase 5 séculos. Por elas o
povo lutou e continua lutando até hoje.
CONCLUSÃO
Uma das maiores lutas do povo brasileiro até
hoje, talvez a maior, aconteceu nos sertões da Bahia, no final
do século XIX: a chamada Guerra de Canudos. Foi uma verdadeira
guerra civil, envolvendo brasileiros contra brasileiros, que
poderia ser evitada se as paixões políticas e os interesses
sociais das partes envolvidas não fossem tão conflitantes.
Os sertanejos lutavam para defender a
comunidade de Belo Monte – Canudos, fundada por um pregador
religioso conhecido pelo apelido Antônio Conselheiro, líder
espiritual e moral de milhares de pessoas. Era uma comunidade
auto – suficiente em recursos materiais, onde homens e
mulheres trabalhavam a terra e não haviam violências.
Belo Monte – Canudos era o oposto da
economia e da sociedade nordestina existentes há 4 séculos, em
que predominava a grande propriedade rural monocultura, as
relações escravistas de trabalho, a violência dos poderosos
contra os humildes, a ignorância da maioria, o mandonismo
político dos "coronéis" etc.
Como a comunidade fundada por Antônio
Conselheiro negava tudo isso e ameaçava os interesses dos
poderosos fazendeiros, Igreja Católica e do governo, foram
enviadas forças militares para atacar os sertanejos canudenses,
mobilizando enormes recursos humanos e materiais, em sucessivas
expedições, entre o ano de 1896 e 1897.
Neste trabalho acompanhamos a história de
Canudos, a trajetória de seu idealizador e organizador,
Antônio Conselheiro, a formação de Belo Monte – Canudos e a
atuação de seus inimigos, a delicada situação política no
início da República e a trágica guerra.
Este trabalho é muito importante para a
atualidade à medida que relembra a presença ativa, consciente
e construtiva do povo nordestino na tentativa de criar e manter
uma comunidade voltada para seus próprios interesses, mesmo nas
condições naturais adversas. Relembrar Canudos é relembrar
uma vitória do nosso povo.
Canudos reaparece em cada luta do povo
brasileiro, em cada resistência, em cada protesto, em cada
mudança, porque o povo é verdadeiro agente da sua História.
O povo somos nós!