A violenta batalha já dura 22 dias. Ao
ataque das armas de fogo, os negros respondem lançando água
fervente ou laçando e enforcando os inimigos que ousam
aproximar - se. O único jeito de quebrar a resistência é um
canhão, que agora cospe fogo e abre brechas na paliçada.
Zumbi percebe o perigo e imediatamente ordena
a seus homens que saiam do reduto. Agora, pela frente, estão as
tropas dos brancos; pelas costas, um perigoso despenhadeiro. O
combate será decisivo: dos mil negros que defendiam a
posição, duzentos caem no abismo, centenas tombam mortos ou
feridos e uns poucos fogem como podem. Entre eles, apesar de ter
sido baleado por duas vezes, está Zumbi.
O rei negro só morrerá um ano depois.
Traído por um antigo companheiro, é localizado e morto
juntamente com um punhado de homens, que permaneceram lutando
até o fim, leais a seu chefe. Sua cabeça é decepada e exposta
no centro de Olinda, para que sirva de exemplo.
Mais que a morte de um herói, o episódio
representa uma importante etapa na história da luta pela
emancipação do negro no Brasil. O Quilombo dos Palmares, cujo
último líder foi Zumbi, participou intensamente dessa
história.
Quilombo, Rota da Liberdade
No começo do século XVII, já havia 20 mil
escravos negros no Brasil. Mas apesar de se adaptarem bem ao
trabalho nas lavouras e engenhos, mantinham em comum o forte
desejo de liberdade. E, sempre que possível, fugiam do
cativeiro. Embrenhando-se na floresta, tratavam de unir-se, para
tentar escapar à recaptura. Formavam agrupamentos na selva,
verdadeiras aldeias, que ficaram conhecidas como quilombos.
Os fazendeiros promoviam a busca aos
foragidos, organizando "entradas" – expedições que
vasculhavam a floresta procurando os insubmissos. Mas apesar da
freqüência das entradas, centenas de quilombos foram surgindo,
principalmente no Nordeste. A maioria, contudo, teve vida curta.
A rigor, só um deles enfrentou as entradas, mantendo guerra
prolongada contra os fazendeiros: foi Palmares.
Palmares, o Nascimento
Já em 1600, um grupo de trinta ou quarenta
fugitivos homiziara-se na serra da Barriga, em terras do atual
Estado de Alagoas. Protegidos pelas densas florestas de
palmeiras – donde o nome Palmares – , os negros evitaram as
entradas mandadas à sua procura em 1602 e 1608, ao mesmo tempo
que faziam expedições para raptar mulheres.
Na floresta, foram construindo os primeiros
mocambos (cercas), grupamentos de choupanas rústicas cobertas
de folhas de palmeira. Cada mocambo tinha seu chefe, da nobreza
africana; mas isso não impediu que alguns, sem serem nobres,
conseguissem o posto pela habilidade. Cada mocambo tinha sua
própria organização. Mas tinham traços em comum, como o tipo
de justiça – que punia com a morte a fuga do quilombo, o
adultério e o homicídio – e o sistema de defesa, que
incluía postos de vigia no meio da mata e caminhos camuflados
que interligavam todos os mocambos.
Palmares, o Crescimento
Com a chegada dos holandeses a Pernambuco, em
1630, e a subseqüente guerra, as lavouras desorganizaram-se, o
que permitiu que a fuga de escravos se intensificasse. Palmares
recebeu uma leva tão grande de fugitivos que sua população,
nessa época, chegou a 10 mil habitantes, entre os quais havia
também alguns índios, mulatos e até brancos (talvez
criminosos foragidos).
Os holandeses, dominando todo o litoral
nordeste até a fronteira da Bahia, tentaram destruir o quilombo
por duas vezes, em 1644 e 1645, sem êxito. Depois que eles
foram expulsos do Brasil (1654), os portugueses hesitaram em
organizar novas entradas. Destruir o quilombo tornar-se grande
empreitada.
Palmares, o Apogeu
Palmares continuou crescendo. No seu apogeu,
em 1670, ele ocupava boa parte do atual Estado de Alagoas e a
porção oriental de Pernambuco, num território de 260 km. De
extensão por 132 km de largura, em faixa paralela à costa se
distribuíam cerca de 50 mil habitantes.
Sua economia prosperou a tal ponto que
mantinha comércio regular com as vilas próximas (Serinhaém,
Porto Calvo, Penedo). Em troca de pólvora, armas de fogo,
tecidos e instrumentos agrícolas, os quilombolas forneciam
produtos agrícolas, pescado e a caça.
Palmares, a Decadência
Palmares tinha aproveitado a trégua para
fortalecer-se. Mas a guerra voltaria – e violenta. Acontece
que os fazendeiros começaram a inquietar-se diante das
constantes infiltrações dos palmarinos em seus domínios,
promovendo sedições e fugas. Por outro lado, eles já sentiam
a decadência do açúcar e tinham os olhos ávidos sobre a
mão-de-obra gratuita que poderiam fornecer os quilombolas, se
aprisionados.
Entre 1667 e 1673, organizaram-se várias
expedições contra o quilombo, que reagia a cada investida,
atacando as fazendas dos brancos e incendiando as plantações.
Até 1674, travaram-se sangrentas batalhas, mas os resultados
foram equilibrados. Nesse ano, Pedro de Almeida, novo governador
da Capitania de Pernambuco, organizou uma grande expedição,
que além de soldados da tropa comum incluía um contingente de
índios e o "Terço de Henrique Dias", tropa negra
criada na luta contra os holandeses. Outra vez, porém, os
terríveis combates terminaram sem vencedor.
Em 1675, poderoso exército comandado por
Manuel Lopes localiza e ataca um mocambo "de mais de 2 mil
casas". Os negros resistem por mais de duas horas, só se
retirando quando as choupanas são incendiadas. Manuel Lopes
não pára aí: sabendo que os negros tinham reorganizado suas
defesas a 25 léguas dali, parte para o ataque. Muitos
palmarinos abandonam o quilombo, entregando-se. É o começo da
decadência.
Lopes instala-se na "cerca" do
Macaco e em 1676 recebe auxílio de Fernão Carrilho, que já se
distinguira em campanhas anteriores contra os mocambos de
Sergipe e na luta contra os índios.
No ano seguinte, Carrilho comanda uma
expedição contra o mocambo da velha Aqualtune, conseguindo
surpreender os negros, que fogem mas deixam muitos prisioneiros.
Carrilho estabelece-se aí, pede reforços e passa a fazer
incursões – relâmpago, com excelentes resultados. Mata
Toculos filho de uma das três esposas de Ganga Zumba, rei de
Palmares; e aprisiona Zambi e Acaiene, também filhos do rei.
Carrilho anima-se e agora investe contra o
mocambo de Subupira, encontrando-o destruído pelos próprios
negros. Mas na fuga os quilombolas desorganizaram-se e Gana
Zona, chefe militar de Palmares, é aprisionado. Carrilho supõe
que o quilombo já está extinto e regressa a Porto Calvo,
depois de Ter fundado o Arraial de Bom Jesus em pleno
território de Palmares.
O governador Pedro de Almeida percebe que o
quilombo, longe de Ter sido destruído, tende a reorganizar-se.
Aproveitando sua vantagem militar, propõe a paz a Ganga Zumba,
dentro destas condições: Palmares submeter-se-ia à Coroa
Portuguesa, mas teria liberdade administrativa, sendo elevado à
categoria de vila, na qual Ganga Zumba teria o cargo de mestre
– de – campo. Ganga Zumba sabe que está em desvantagem.
Aceita a proposta e seus representantes firmam o acordo, selado
com uma missa de ação de graças no Recife.
O "Capitão" Zumbi
Mas a guerra ainda vai durar. Dois
importantes chefes de mocambo, os irmãos Zumbi e Andalaquituche,
não concordam com a decisão de Ganga Zumba e propõe-se a
libertar todos os escravos. Pedro de Almeida responde tentando
reforçar a autoridade de Ganga Zumba, enquanto muitos jovens
fogem para mocambos de Zumbi. Em meio à controvérsia, Ganga
Zumba é envenenado e Zumbi torna-se rei. Numa derradeira
tentativa de obter a pacificação, o governador liberta Ganga
Zumba, mas isso não adianta nada. As lutas vão recomeçar.
Entre 1680 e 1691, elas são violentas. A
capacidade militar e a coragem pessoal de Zumbi impõe
sucessivas derrotas aos atacantes, que passam a respeita-lo;
editais espalhados para exorta-lo à paz chamam-no de
"capitão". Para os brancos, ele é um "negro de
singular valor, grande ânimo e Constância rara". Eles
chegam a afirmar que Zumbi "aos nossos serve de embaraço;
aos seus, de exemplo".
Cabeça de Zumbi, o Exemplo
O novo governador, Souto Mayor, resolveu
organizar um exército especialmente para destruir o reduto de
Zumbi. A 3 de dezembro de 1691, ele conclui um acordo com o
bandeirante Domingos Jorge Velho, que comandará a tropa e
receberá, por isso, um quinto do valor dos negros que apresar
na campanha, além de terras para serem distribuídas entre seus
homens.
Jorge Velho ataca no ano seguinte a sede de
resistência de Zumbi, o mocambo do Macaco. Promove ofensiva
aberta como costumava fazer em suas lutas contra os índios e o
resultado é Ter sua tropa arrasada. Pede-se reforços, que vem
em forma de tropas pernambucanas chefiadas pelo capitão – Mor
Bernardo Vieira de Mello. Até 1694, o mocambo é mantido sobre
sítio, mas as investidas são duramente repelidas. A 6 de
Fevereiro desse ano porém as tropas de Zumbi são dizimadas.
Prensadas entre as forças do inimigo e um despenhadeiro, elas
não resistem. Duzentos dos mil negros que guarnecem a posição
caem no abismo. Os outros, ou tombam mortos e feridos ou, a
exceção fogem. Entre eles vai Zumbi.
Segue-se dura perseguição aos
sobreviventes. Segundo os documentos da época "o sangue
que iam derramando serviu de guias as tropas". Quase todos
são aprisionados, mas Zumbi não aparece. O líder dos negros
só é localizado um ano depois. Morto e esquartejado, sua
cabeça é exposta no centro da cidade de Olinda, para servir de
exemplo.
Mas, longe de desencorajar, o exemplo de
Zumbi inspirara mais ainda a luta dos negros em busca de sua
emancipação.