Resumo da Introdução
1 – Antecedentes Históricos e Culturais
A transformação cultural que deu ensejo
ao surgimento do simbolismo pode ser explicada ao nos volver
aos meados do século XIX, quando economicamente, se assistir
à intensificação da Revolução Industrial e, quando,
culturalmente, o homem tentou explicar o real através de
pressupostos científicos. A Revolução Industrial (iniciada
no século XVIII) nesse momento está no auge com a produção
em massa de mercadoria e com a recente automatização. As
indústrias exigem cada vez mais o serviço de mão-de-obra
especializada, aumentando a população das grandes
metrópoles. Os efeitos deste rápido progresso são
imediatos: cresce a produção dos manufaturados, há economia
de recursos, diminuem as distâncias.
Não podemos separar o desenvolvimento
industrial do científico. Conforme T.S. Ashton, a Revolução
Industrial "por toda parte se encontra relacionada com o
crescimento da população, com a aplicação da ciência à
indústria". Nunca como agora, na indústria:
multiplicam-se os inventos que visam a suprir o apetite de um
campo que se desenvolve cada vez mais. Na realidade, o
binômio Revolução Industrial / ciência também diz
respeito à visão de mundo: o progresso industrial, que tem
seu paralelo numa concepção científica e materialista das
coisas. Augusto Comte, com o positivismo, defende a
aproximação positiva do real. Também surgem Taine, com sua
teoria do determinismo, tentando explicar o Universo à luz de
determinantes fisco (a raça, o meio e o momento histórico),
Lamark e Darwin, à luz das teorias evolucionistas. Todos eles
buscando compreender o mundo via razão, desprezavam a
metafísica.
Houve séria crise com a euforia provocada
pelos sucessos do binômio Revolução Industrial /
Positivismo, baseado na crença do domínio do Universo por
conquistas materiais e por experimentos. Segundo Arnold Hauser
em Sua História Social da Literatura e da Arte, dá a
entender à sensação desta crise no ar, "pois o rápido
desenvolvimento da técnica não só acelera a mudança das
modas, mas também as variações nos critérios do gosto
estético". Se a revolução Industrial, economizou
recursos, por outro lado, transformou o homem condicionado às
linhas de montagem. Se introduzir a produção em série,
intensificou a brutal separação das classes sociais, com o
isolamento do homem dentro de sua especialidade.
Os positivistas, têm suas certezas
abaladas por novas concepções filosóficas. Segundo
Sehopenhauer, em O Mundo Como Vontade e Representação,
ele concebe o mundo como "representação", ilusão
de nossos sentidos, despreza o conhecimento científico. Se o
mundo é "representação", a vontade é força
irrefletida e cega que impele o homem para diante. Todo querer
se origina das necessidades, da carência, do sofrimento. O
desejo é duradouro e a satisfação é curta e de medida
escassa; o desejo, satisfeito, logo dá lugar a um outro,
aquele já é uma ilusão conhecida, este ainda não.
Sehopenhauer desmistifica o esforço, a luta e desestimula a
idéia de competição, que constituíam a base ideológica da
Revolução Industrial e do Positivismo. Ao mesmo tempo o
filósofo alemão introduz certo pessimismo, certo culto a
dor, que se transformariam em temas básicos da movimento
simbolista. Se a realidade é ilusão, mera
"representação", o homem acaba sofrendo no
instante em que pretende chegar até ela, através do querer.
Hartmann, em sua Filosofia do
inconsciente, explicava "que o princípio do
inconsciente dá aos fenômenos observados sua única
explicação verdadeira".
A minimização dos métodos científicos
atinge o auge com Bergson, que desvaloriza a inteligência em
prol da intuição, que por outro lado, é vista como o
"instinto que se tornou desprendido, consciente de si
mesmo, capaz de refletir seu objeto e de o ampliar
infinitamente".
Os maléficos adivindos da Revolução
Industrial e a dúvida quanto à eficácia dos métodos
científicos para desvendar plenamente o real, acabaram
estabelecendo a crise que já existia. O homem que pela razão
e pelo progresso industrial, acreditava ter acesso aos
segredos do Universo, vê-se de repente destronado, abandonado
num mundo regido por forças que lhe são inacessíveis, o que
o leva à desavença e desalento. Também a competição, a
mudança constante das moedas provoca nele a sensação de que
nada permanece, de que tudo se esgota no tempo.
Reagindo contra o espírito de conquista, a
pressa burguesa, e assumindo toda a crise, o artista da época
despreza o querer, a vontade e adota procedimento passivo e
indiferente frente à vida. O artista de fim-de-século,
conhecido como decadente, nesta fuga do real, introduz atitude
artificial frente à existência. O decadente é um ser
refinado, de gostos excêntricos.
O "mal-estar de cultura", de que
nos fala Hauser, acaba por gerar duas tendências, uma
propriamente existencial, o Decadentismo, outra,
especificamente literária, o Simbolismo.
2 – Origens do Simbolismo
O Simbolismo configurou-se como
doutrina na França, graças a poetas e doutrinadores do porte
de Bandelaire, Riambauol e Mallarmé, mas seus percursores
encontraram-se na literatura anglo-germânica. E aquilo que
entre os franceses, no Simbolismo, se traduzia por novos temas
e por uma subjetividade que controlava emoções, já era
patente entre os românticos ingleses. Pois, os poetas
através da musicalidade e de seus poemas fornecem
indiretamente a emoção contida, utilizando-se do adequado
uso de imagens concretas para traduzir estados de espírito,
evitando-se a declamação retórica e o derramamento emotivo.
O senso de mistério, a concepção de um
mundo oculto por detrás do visível, são idéias muito caras
dos simbolistas, que já tinham sido antecipadas pelos
românticos alemães. Segundo Novalis, poeta alemão,
acreditava que poesia e misticismo eram similares: "o
sentido da poesia tem muito em comum com o do misticismo. É o
sentido do particular, do pessoal, do desconhecido, do
misterioso, da revelação. Representa o intraduzível, vê o
invisível, sente o invisível.
Nas literaturas de língua portuguesa, é
possível ver na Guerra Junqueiro de Os Simples passos de
sutil musicalidade e, num Antero de Quental, em sua fase
noturna e pessimista, a tendência idealista, que rompe com as
fronteiras do Realismo. Também Gomes Leal, em cujo soneto
"Visionário ou Som e Cor" se vislumbram traços das
correspondências baudelairianas. O Simbolismo brasileiro,
deve um pouco do que é as ousadias sensoriais de um Raimundo
Correia.
3 – Características do Simbolismo
Eis as características simbolistas que
alguns românticos e parnasianos anteciparam: a capacidade
sugestiva, a musicalidade de expressão e o idealismo de
origem platônica. Este último, pedra de toque do Simbolismo,
tanto para os românticos quanto para os Simbolistas,
origina-se do místico sueco Emmanuel Swedenborg, para quem
"todas as coisas que existem na natureza, desde o que há
de menos ao que há de mais são correspondências. A razão
para que sejam correspondências reside no fato de que o mundo
natural, com tudo o que contém, existe e subsiste graças ao
mundo espiritual, e ambos os mundos graças à
Divindade". Estas idéias satisfizeram o gosto
romântico, pela sua íntima relação com a concepção de
mundo cristã. Em síntese, enquanto o romântico deseja
abandonar a terra para encontrar Deua, o simbolista deseja
encontrar a unidade do material e do espiritual aqui na terra,
de modo a "recuperar a unidade de um mundo
artificialmente dividido", segundo Charles Feidelson Jr.
.
O "evangelho das
correspondências", é o núcleo da poesia simbolista.
Desprezando o aparente, o visível, o simbolista parte em
busca do que se oculta, daquilo que constitui a essência das
coisas. A relação entre o mundo material e o espiritual
recebe o nome de "correspondências", título dado a
um dos mais significativos poemas de Baudelaire.
A fusão de diferentes sensações, as
chamadas sinestesias, é um esforço para recuperar a
linguagem original, aquela m que a palavra mais do que simples
representação dos objetos, é também coisa ela própria.
Trabalhando com as imagens sinestéticas, o poeta deseja
representar o instante de percepção de um objeto, de um
movimento, sem a incômoda intervenção da inteligência, que
tende a separar as sensações em blocos distintos. Segundo
Baudelaire, encontrada a correspondência entre os sentidos, o
homem está apto a participar do mundo da natureza, em que o
mundo material não está de modo algum dissociado no
espiritual.
Mallarmé tenta fazer da poesia meio para
chegar ao cerne da vida, que, por sua vez, é misteriosa,
indecifrável. A idéia fundamental de Mallarmé é a de
recuperar a poesia para recuperar a poesia meio para os mais
diversos fins.
Mallarmé revoltou-se contra os parnasianos
e fez severas críticas a este movimento, porque estes eram
parcos em mistérios ao conceber a poesia como grosseira
mimese do real. Para o poeta francês o segredo está em
sugerir, o que se consegue através do adequado e
"perfeito uso" do símbolo. É impossível dissociar
sugestão de símbolo, pedra de toque do movimento a que
inclusive, deu o nome. Pois, símbolo é tarefa das mais
delicadas conceituá-lo, porque possui uma série de
acepções diferentes, muitas vezes confundido com signo, ou
mesmo com algo que os simbolistas repudiavam, a alegoria.
Edmundo Wilson, diz: "os símbolos do Simbolismo têm de
ser definidos de maneira algo diversa do sentidos dos
símbolos comuns – o sentido de que a Cruz é o símbolo da
Cristandade ou as Estrelas e Listras o símbolo dos estados
Unidos".
A capacidade sugestiva do símbolo é que
permite aproximar a poesia simbolista da música, a ponto de
poetas das mais diferentes latitudes escreveram não só
"artes poéticas", como também recheavam os textos
de violinos, violões, flautas, etc. A tentativa de erguer a
poesia à condição de música justifica-se pelo fato de a
música ser subjetiva e a mais sugestiva das artes, a música
serve para exprimir estados de alma, através sonoridade.
Mallarmé é que é o verdadeiro inovador,
no sentido de que concebia a relação poesia/música pensando
num problema de estrutura.
4 – O Simbolismo na Europa e nas
Américas
As características do simbolismo, o culto
do vago, do mistério, a busca do ideal, somados ao desejo de
encontro da "poesia pura", irradiando-se na França
a partir de 1857, data da publicação das Flores do Mal.
Bandelaire é o primeiro grande nome do movimento, com sua
poesia visionária, que, a um só tempo, conta a vida
artificial das metrópoles, o desejo do desconhecido e o sonho
de uma pátria "anterior", de raiz platônica.
Rimbaud, o poeta rebelde, leva à exasperação a sua
vidência, com imagens alucinadas poetizando o rito pagão do
encontro do homem com as forças vitais da natureza. Já
Verlaine é o poeta dos meios tons, dos estados vagos de alma,
criador de linguagem essencialmente musical. Mallarmé é quem
realmente revoluciona a poesia simbolista. A prosa ganha novo
impulso com J. K. Huysmans e Villiers de L’Isle Adam, que
nos romances À Rebours (1884) e Ascel (1890), criaram
típicos heróis decadentistas. Entre figuras como Rodenbach,
Verhaeren, Maeterlinck, este último é o maior representante
de uma literatura de sonho, que se realiza nos dramas
estatísticos, em que o difuso diálogo prenuncia o destino
místico das vítimas.
Sob direta influência francesa, o
movimento estabelece-se na Rússia, Itália, Espanha e
Portugal. Simbolismo tardio foi o que ocorreu na Rússia pois
só se manifestou na virada do século XIX.
Seus mais importantes poetas são: Ivanov,
Biély, Alexandre Blok. Na Itália, o movimento simbolista
inicia-se por volta de 1889, com o romance político Il.
Piacere, de Dánnunzio. Na Espanha, verifica-se uma
revolução espiritual e poética que se funde à renovação
política, no protesto de 1898.
Em Portugal, O Simbolismo foi introduzido
por Eugênio de Castro em 1890 com Varistos. Dono de estilo
rebuscado, adotando superficialmente os valores simbolistas,
é um poeta que lembra os parnasianos por seu rigor formal.
Antônio Nobre e Camilo Pessanha foram quem conseguiu
introduzir a musicalidade de expressão e os tons vagos da
alma – marca registrada do Simbolismo.
Quanto à Inglaterra e Alemanha, é preciso
considerar que tiveram um Romantismo sui-generis, que antecipa
o Sombolismo. Entre os ingleses, consideramos a influência de
Wordworth, de Shelley.
A figura mais representativa do simbolismo
Alemão é Stefan George, seguidor da sutileza musical de
Verlaine. Vendo a Paris em 1889, conheceu as principais
figuras do Simbolismo francês e, a partir daí, divulgou o
movimento na terra natal.
Na América de língua inglesa, a rigor,
não se pode falar em Simbolismo.
No Brasil o Simbolismo foi introduzido por
Cruz e Souza (Broquéis 1893).
5 - Limites Cronológicos do Simbolismo.
Antes de o Simbolismo difundir-se pela
Europa e Américas, viveu instantes de conflito, convulsão,
até poder firmar-se de vez como corpo doutrinário
respeitável.
O movimento inicia-se por volta de 1857,
com a publicação das Flores do Mal, foi um marco inicial do
movimento, revolucionado a poesia francesa, graças ao poder
visionário do autor, ao gosto do mórbido e à sugestão das
correspondência.
Em 1881, Paul Bourget publica o artigo
intitulado "Théorie de la Décadence" quando,
utiliza, pela primeira vez o termo "decadência",
para designar "a situação da sociedade que produz um
grande número de indivíduos incapazes de achar seu próprio
lugar na faina do mundo.
A glosa dos textos dos principais poetas da
época ajudou a defender a nova poética, graças ao caráter
normativo da crítica, que mesmo pelo "avesso",
detectou os aspectos fundamentais do Simbolismo.
Em 1888, notam-se os primeiros sinais do
desgaste do movimento, onde Brunetiére, critica novos poetas
a incitação flagrante de Baudelaire.
Em 1993 é a data em que Cruz e Souza faz
sua profissão de fé simbolista em Broquéia, dando inicio ao
Simbolismo brasileiro.