Contam-nos um pouco sobre a Vida e Obras e
Romances deste esplendido e maravilhoso poeta, Machado de Assis.
Suas Obras e Características. E sua vida particular. Contamos
mais sobre o insuperável, com sua elegância entre os nossos
melhores escritores.
I – A vida
"Do Morro à Academia"
Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu no
morro do Livramento, filho de um pintor mulato e de uma
lavadeira açoriana. Órfão de ambos muito cedo, foi criado
pela madrasta, Maria Inês. Já na infância apareceram sintomas
de sua frágil compleição nervosa, a epilepsia e a espasmos
durante toda a vida, o que lhe dariam um feitio de ser reservado
e tímido. Aprendidas as primeiras letras numa escola publica
recebeu aulas de francês e de latim de um padre amigo, Silmeira
Sarmento; mas foi como autodidata (por conta própria) que
construiu sua vasta cultura literária, que incluía autores
menos lidos no tempo, como Luciano, Swift, Sterne e Leopardi.
Aos 18 anos na editora de Paula Brito, para
cuja revistinha, "A Marmota", compôs seus primeiros
versos. Pouco depois, é admitido na redação do Correio
Mercantil. Trava conhecimento com alguns escritores românticos:
Casimiro de Abreu, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de
Almeida, Pedro Luis de Quintino Bocaiúva.
Poeta cronista, ensaísta, critico literário
e teatral, dramaturgo, contista e romancista. O nosso escritor
conheceu a alta sociedade de moleque do morro do livramento,
pobre mas não desvalido (abandonado). Machado de Assis foi o
melhor ficcionista do realismo, também um autor de romances,
além de romances escreveu contos, poesias e peças teatrais.
Um detalhe interessante é que as mulheres
são as personagens mais fortes de Machado, nos contos, os temas
com que trabalhou são psicológicos, versão ou seu modo de
interpretar a sociedade. Como exemplo temos "A
Cartomante", com enredo envolvendo um adultério e um duplo
assassinato (o marido traído, Vilela, mata a sua esposa Rita e
seu amante Camilo).
Foi também o fundador e primeiro presidente
da Academia Brasileira de Letras. Esta subida reflete no
refinamento de sua prosa, sutil, irônica ou insuperável
elegância entre os nossos melhores escritores. Aos trinta anos
de idade, casa-se com uma senhora portuguesa de boa cultura,
Carolina Xavier de Novais, sua companheira afetuosa até a morte
e que lhe iria inspirar a bela figura de Dona Carmo do Memorial
de Aires.
O escritor atinge a plena maturidade do seu
realismo de sondagem moral, que as obras seguintes iriam
confirmar: Historia sem Data (1884), Quincas Borba (1892),
Varias Historias (1896), Paginas Recolhidas (1899), Dom Casmurro
(1900), Esaú e Jacó (1904), Relíquias de Casa Velha (1906).
Considerado nos fins do século o melhor
romancista brasileiro, foi um dos fundadores e primeiro
presidente da Academia Brasileira de Letras, promoveu os poetas
parnasianos e estreitou relações com os melhores intelectuais
do tempo, Veríssimo a Nabuco, de Taunay a Graça Aranha. Não
obstante essa ativa sociabilidade no mundo literário, ficaram
tradicionais a fria compostura pessoal e o absenteísmo
político que manteve nos anos derradeiros.
O ultimo romance, mais
"diplomático" Memorial Aires (1908), foi escrito
após a morte de Carolina, a quem pouco sobreviveu. Machado de
Assis morreu vitimado por uma ulcera cancerosa, aos 69 anos de
idade. Na academia, coube a Rui Barbosa fazer0lhe um elogio
fúnebre.
II – A Obra
O Polígrafo*
*Polígrafo: aquele que escreve sobre vários
assuntos.
Machado de Assis incursionou por quase todos
os gêneros literários praticados no seu tempo. Se não logrou
toda a excelência que atingiu nos contos e nos romances, jamais
decaiu para níveis da subliteratura e mesmo o teatro, tido como
a produção "menor"de Machado, tem momentos bem
realizados.
III – A Poesia
Em Crisálidas, Falenas e Americanas, livros
que encerram a poesia romântica de Machado de Assis, são
evidentes as sugestões temáticas e formais da poesia de
Gonsalvez Dias, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela: o lirismo
sentimental a poesia indianista, a natureza americana.
Já ocidentais revela maior apuro formal e
contenção de linguagem aproximando-se das diretrizes do
Parnasianismos escola poética naturalista, que reagiu contra o
lirismo (caráter de poesia sentimental, amorosa, sublime ou
sentimental, a alma poética); caracterizou-se sobretudo pelo
apuro do verso e linguagem.
A poesia de cunho filosófico, a reflexão
sobre o ser, o tempo e a moral constituem os momentos mais bem
realizados do livro, no qual se incluem poemas antológicos
(parte botânica, estudo das flores) como "Soneto de
Natal" "Suave Mari Magno", "A Mosca
Azul", "Circulo Vicioso", "No Alto"e
"Mundo Interior". É sempre uma poesia discreta sem
arrebatamentos, reflexiva e densa, culta, abstrata, correta, mas
quase sempre ausente de emoção e vibrabilidade.
Um dos sonetos de Machado de Assis "Carolina",
está incluindo como dedicatória do livro de crônica e contos
Relíquias de Casa Velha (1906), que ele já viúvo, dedicou a
sua esposa e companheira Carolina. Curiosa esta pungente
(dolorosa) manifestação de afeto e ternura de um homem em cujo
os romances as mulheres sempre pérfidas (traidoras, desleais),
volúveis, interesseiras, dissimuladas, e que citando o que
Schoppenhower, dizia a todo tempo: "Mulheres são animais
de cabelos longos e idéias curtas".
IV – Teatro
Quase todas as comedias de Machado são da
década de 1960 contemporâneas, portanto, das produções
"românticas" na poesia. São mais contos diálogos
que propriamente peças teatrais, revelam-se melhores quando
lidas do que quando encenadas.
Estas comedias foram encenadas com algum
êxito durantes a vida do seu autor e são: "A Queda que as
Mulheres tem para os Tolos", "Desencontros",
"Quase Ministro", "O caminho da Porta",
"Protocolo", "Não Consultes o Medico",
"Os Deuses da Casaca" e Tu, só tu, Puro Amor,
inspirada no episodio de Inês de Castro de "Os
Lusíadas", de Camões e encenada em comemoração ao
tricentenário do poeta português.
V – A Crônica
Machado de Assis militou na imprensa diária
do Rio de Janeiro, durante quase toda a sua vida passou pelas
redações, entre outras do Correio Mercantil, do Diário do Rio
de Janeiro, da Gazeta de Noticias de O Século. As crônicas que
escreveu oscilavam da linguagem sarcástica dos tempos de
militância liberal, ao intimismo das paginas de Relíquias de
Casa Velha. Nomeado funcionário publico subordinado à
Secretaria de Estado, não pode atuar de forma mais ostensiva no
Movimento Abolicionista, o que serviu de base à idéia de que
Machado não se interessou pela sorte dos escravos, dos quais
descendia pelo lado paterno.
As crônicas, pela maior liberdade que
permitem revelam a tendência de Machado para o divertissement.
Vai do corriqueiro ao sublime, do cotidiano ao extraordinário,
do pequeno ao grandioso, do real ao imaginário. Monta
verdadeiros labirintos lógicos para a seguir rir-se da lógica
entre as coisas que, ou para mostrar que existe efetivamente uma
esquisita lógica, ou para mostrar que existe uma esquisita
lógica entre as coisas que julgamos distantes ou desconexas.
É exatamente esse processo de relações
conectadas pelo riso, de contemplação, ou de metafísica
pratica que fundamenta a técnica de composição Machadiana.
Embora Machado não fosso republicano, não
era contra os republicanos. De seu ponto de vista a única
diferença substancial entre os regimes era a ausência ou a
presença do imperador, e embora simpático à sua figura de
velho, não acreditava em outro poder publico que não o eleito.
Mas ali se punha um problema que o fazia desiludido da
política: o da desonestidade das eleições e da imoralidade
das manobras do submundo político. Essa postura é evidente em
Esaú e Jacó, o romance mais político d e Machado.
VI – A Critica Literária e Teatral
Apesar de pequena a produção machadiana no
gênero, revela honestidade, senso estético, fina capacidade
analítica e independência intelectual que o colocaram acima
dos modismos de sua época.
Entre seu melhores trabalhos críticos
incluem-se as apreciações sobre o poema de Castro Alves ( em
carta a José de Alencar), as considerações sobre a pouca
originalidade da poesia arcádica e o estudo sobre Eça de
Queiros que suscitou polemica.
VII – O Conto
O constista Machado de Assis, para muitos
supera o romancista. Coube a ele dar ao conto densidade e
excelência insuperável em nossa literatura, fundando esse
gênero e abrindo caminhos pelos quais, mais tarde, iriam
trilhar Mario de Andrade e Clarice Lispector, para ficarmos em
apenas dois machadianos modernos.
Distinguem-se duas frases: a primeira dita
"romântica"com os livros "Contos
Fluminenses" e "Historias da Meia Noite". A
segunda realista, inclui os melhores contos: "Papeis
Avulsos", "Historias sem Data", "Varias
Historias" e "Relíquias de Casa Velha".
Na fase romântica a angustia oculta ou
patente das personagens é determinada pela necessidade de
obtenção de status, quer pela aquisição de patrimônio, quer
pela consecução de um matrimonio com parceiro mais abonado.
"Segredo da Augusta" e "Miss Dóllar"
antecipavam a temática de "A Mão e a Luva", o
dinheiro como notável (móvel) do casamento. O tema da
traição (suposta ou real), antes de aparecerem em D. Casmurro,
já estava nos contos "A Mulher de Preto" e
"Confissões de uma Viúva Moça".
Nessa primeira fase, a mentira é punida ou
desmascarada. Há nisso um laivo de moralismo cromântico, na
pregação de casos exemplares. Mas essa linha será, a seguir
superada, ainda na fase romântica. Em "A Pasta"
(Parasita Azul), o enganador triunfa pela primeira vez. O
calculo frio, o cinismo, a mascara e o fogo de interesses
constituem o cerne desse realismo utilitário, para o qual
pendem especialmente as personagens femininas, capazes de
sufocar a paixão, o amor, em nome da "fria eleição do
espírito da "segunda natureza, tão imperiosa como a
primeira. A segunda natureza do corpo é o status, a sociedade
que incrusta na vida.
a) Contos de Machado de Assis
Esaú e Jacó
O titulo é extraído da Bíblia,
remetendo-nos ao gênesis à historia de Rebeca, que privilegia
o filho Jacó, em detrimento do outro filho, Esaú, fazendo-os
inimigos irreconciliáveis. A inimizade dos gêmeos Pedro e
Paulo, do romance desde o ovo.
É o romance da ambigüidade, narrado em
terceira pessoa pelo Conselheiro Aires. Pedro e Paulo seriam
"os dois lados da verdade".
A medida que vão crescendo os irmãos
começam a definir seus temperamentos diversos, são rivais em
tudo. Paulo é impulsivo e arrebatado, Pedro é dissimulado e
conservador, o que vem a ser motivo de brigas entre os dois.
Já adultos, a causa principal de suas
divergências passa a ser de ordem política: Paulo é
republicano e Pedro Monarquista. Estamos em plena época da
Proclamação da Republica, quando decorre a ação do romance.
Até em seus amores, os gêmeos são
competitivos. Flora a moça de quem ambos gostam se entretém
com um e outro, sem se decidir por nenhum dos dois: é
retraída, modesta e seu temperamento avesso a festa e alegrias
levou o Conselheiro Aires a dizer que ela era
"inexplicável".
O conselheiro é mais um grande personagem da
galeria machadiana que reaparecerá como memorialista no
próximo e ultimo romance do autor: velho diplomata aposentado,
de habito discreto e gosto requintado, amante de citações,
eruditas, muitas vezes parece exprimir o pensamento do próprio
romancista.
As divergências entre os irmãos, muito
embora, com a morte de Flora, tenham jurado junto ao seu tumulo
uma reconciliação perpetua. Continuam a se desentender, agora
em plena tribuna, depois que ambos se elegeram deputados, e só
se reconciliam no fim do livro, com novo juramento de amizade
eterna, este feito junto ao leito da mãe agonizante.
No texto a seguir transcrito do capitulo
XVIII de Esaú e Jacó, um retrato de como vieram crescendo os
dois gêmeos.
VIII – Ultimo Romance
b) Memorial de Aires
Ultima obra de Machado de Assis foi publicada
em 1908 ano da Morte do escritor. Com "Memórias Póstumas
de Brás Cubas", esta obra não tem propriamente um enredo,
estrutura-se em forma de diário escrito pelo Conselheiro Aires
(personagem) onde o narrador relata, muidamente, sua vida de
diplomata aposentado no Rio de Janeiro de 1888 e 1889.
Sucedem-se nas anotações do Conselheiro episodio envolvendo
pessoas de suas relações leituras do seu tempo de diplomata e
reflexões quanto aos acontecimentos políticos. Destaca-se
dando uma certa unidade aos vários fragmentos de que o livro é
composto, a historia de Tristão e Fidélia.
Fidélia, viúva moça e bonita, e grande
amiga do casal Aguiar. Tristão, afilhado do mesmo casal viajava
para Europa, em menino, com os pois.
Visando, agora, o Rio de Janeiro dá muita
alegria aos velhos padrinhos. Tristão e Fidélia acabam por
apaixonar-se e depois de casados, seguem para a Europa, deixando
a saudade e a solidão como companheiros dos velhos Aguiar e D.
Carmo.
Escrito após a morte de Carolina, revela uma
visão melancólica a velhice da solidão e do mundo. D. Carmo
seria a projeção da própria esposa de Machado, já falecida.
A ironia e os sarcasmos dos livros anteriores são simplesmente
substituídos por tons compassivos e melancólicos.
Memorial de Aires é apontado como o romance
mais projetivo da personalidade e da vida de Machado de Assis.