Em superfície, o Afeganistão
supera o Iraque, mas sua população pouco ultrapassa os 20 milhões.
O país é montanhoso e de difícil acesso, com mais da metade do território
situada acima de 2.000 metros de altitude; na Cordilheira do Hindu Kush,
o terreno eleva-se além dos 6.000 metros. Como os ventos carregados de
umidade despejam suas chuvas sobre a Planície Indo-Gangética, antes,
portanto, de atingir o Afeganistão, neste predomina o clima semi-árido;
existem, todavia, vales férteis, onde fluem rios de regime nival.
Desde a Antigüidade, o Afeganistão viu-se envolvido em guerras e invasões.
O primeiro conquistador ilustre a percorrê-lo foi Alexandre Magno, que
alcançou o Vale do Indo pelo legendário Passo de Khiber — único
acesso militar e comercial viável entre a Ásia Central e o
subcontinente indiano. Durante a Idade Média, persas, árabes, turcos e
mongóis penetraram no país, sendo ora apoiados, ora combatidos pelas
tribos locais.
No século XIX, desejando contrapor-se à expansão russa pela Ásia
Central e interessada em preservar sua dominação sobre a Índia (que
na época incluía os atuais Paquistão e Bangladesh), a Grã-Bretanha
procurou conquistar o Afeganistão. Sua primeira tentativa, em 1839,
resultou em um fracasso sangrento, com apenas 500 sobreviventes de um
total de 16.500 soldados ingleses. Em 1880, depois de duras campanhas
militares, os britânicos estabeleceram um instável protetorado sobre a
monarquia afegã. Em 1919, a Conferência de Paz de Paris, que se seguiu
à Primeira Guerra Mundial, concedeu ao Afeganistão reconhecimento
internacional.
A consolidação do socialismo marxista na Rússia (denominada URSS a
partir de 1923) criou para o Afeganistão o risco de seguir o exemplo da
Mongólia, que, em 1924, proclamou-se um Estado comunista, apoiado pelo
regime de Moscou. Por essa razão, a monarquia afegã, embora islâmica
e conservadora, passou a adotar uma postura conciliadora em relação a
seu imenso vizinho.
No cenário internacional da Guerra Fria, posterior à Segunda Guerra
Mundial, o Afeganistão recuperou sua antiga importância estratégica,
como etapa essencial para a realização do velho sonho russo de acesso
a um mar aberto e quente (no caso, o Oceano Índico). Em 1965, foi
fundado no país o Partido Marxista Afegão, posto na ilegalidade pelo
governo mas apoiado pela União Soviética.
Em 1973, o rei Mohamed Zahir foi deposto pelo general Daud Khan,
que proclamou a República e implantou uma ditadura militar. Sob o novo
nome de Partido Democrático do Povo Afegão, o Partido Marxista
cindiu-se em várias facções rivais. Uma delas depôs e assassinou
Daud em 1978, mas seu líder foi, por sua vez, derrubado e fuzilado em
setembro de 1979. Um terceiro dirigente assumiu o poder, mas foi
morto em dezembro seguinte, durante um golpe orquestrado pela URSS.
Os golpistas, chefiados por Babrak Karmal, apoderaram-se da capital afegã,
Cabul. Estavam, todavia, muito longe de controlar o restante do país,
onde guerrilheiros islâmicos (mujaheddin) lutavam contra o governo —
não importava qual fosse — desde a queda da Monarquia. Assim,
imediatamente após o assassinato de seu antecessor, Karmal,
apresentando-se como novo chefe de Estado, solicitou a ajuda de tropas
soviéticas. Estas, que apenas aguardavam esse sinal, transpuseram a
fronteira e invadiram o Afeganistão (27 de dezembro de 1979).
Os invasores foram incansavelmente combatidos pelos mujaheddin — reforçados,
agora, por voluntários muçulmanos de outros países (entre os quais, o
hoje famigerado Osama bin Laden) e apoiados logisticamente pelos EUA,
através do Paquistão. Em 1989, em meio ao desmoronamento da própria
União Soviética — que desapareceria em 1991 — o presidente Mikhail
Gorbachev retirou suas forças do Afeganistão, pondo fim a uma
desastrosa aventura militar que alguns analistas chamaram de “Vietnã
Soviético”.
O general Najibullah (no poder desde 1986) manteve-se na chefia do
Estado mesmo depois da saída de seus protetores russos, pois as facções
dos mujaheddin passaram a lutar entre si. Em 1992, ele, finalmente,
entregou o governo a uma precária coalizão de muçulmanos moderados
(apoiados pelos EUA) e radicais (apoiados pelo Irã).
Em 1995, surgiu no conturbado panorama afegão uma nova força
combatente: a milícia* Taleban, constituída em território paquistanês
por estudantes do Corão. Embora pertencente ao grupo sunita (que o
Ocidente costuma considerar a vertente moderada do islamismo), o Taleban
é um movimento fundamentalista — isto é, adepto da observância
literal dos textos sagrados.
Depois de lutar ferozmente contra os grupos opositores, o Taleban tomou
Cabul em 1996. O ex-general Najibullah, refugiado em um escritório da
ONU desde 1992, foi enforcado. Atualmente, o Taleban somente não
controla uma pequena porção do território afegão, onde se mantém, a
duras penas a Aliança do Norte, uma milícia apoiada pelo Tadjiquistão.
O Taleban impôs ao Afeganistão o estrito cumprimento da Sharia (lei
islâmica), em termos ainda mais
rigorosos que o fundamentalismo xiita do Irã. Isso significa,
entre outras medidas, a exclusão das mulheres das escolas e do mercado
de trabalho, a proibição da televisão e da Internet (há no país uma
única emissora de rádio) e, em 2000, a destruição das duas maiores
estátuas do mundo representando Buda em pé, pois o Corão proíbe as
imagens. Somente o Paquistão reconhece o governo do Taleban (os
Emirados Arábes Unidos e a Arábia Saudita romperam relações em
setembro de 2001, após o atentado contra o World Trade Center, em
Nova York).
O Afeganistão sempre foi um país paupérrimo. Hoje, é um país
arrasado, que está entre os piores Estados do planeta em todos os índices
econômicos e sociais. Marginalizado em relação ao comércio
internacional, tornou-se o maior produtor de ópio do mundo, suplantando
o célebre Triângulo Dourado (parte de Myanmar e da Tailândia), no
Sudeste Asiático. Paradoxalmente, sua própria pobreza torna-o um
inimigo difícil de dobrar, pois não há alvos estratégicos a destruir
por meio de ataques aéreos — como a OTAN fez na Iugoslávia durante a
Guerra de Kosovo (1999). Resta, agora, saber como o presidente
norte-americano George Walker Bush lidará com esse problema.
*Milícia – Formação
paramilitar de civis armados e treinados para cumprir missões de
segurança ou executar ações de guerra.