A
Índia
Colonial
A mais importante colônia do antigo
Império Britânico era a Índia. Sob a denominação oficial de Império
da Índia, havia todo um subcontinente que se estendia das fronteiras do
Irã e Afeganistão, a oeste, até aos limites do Tibete e da China, ao
norte e nordeste, e à divisa com o Sião (atual Tailândia), a leste.
Em 1937, a Birmânia (atual Myanmar) foi destacada do conjunto, passando
a constituir uma colônia separada.
A Índia Britânica (que contava com alguns enclaves coloniais
portugueses e franceses) era um extraordinário mosaico de raças, línguas
e religiões. Predominavam os indo-europeus (nome genérico do principal
tronco da raça branca), de cabelos escuros e com diversos matizes de
tez; mas os habitantes das encostas do Himalaia, no norte, eram de raça
mongólica, e existiam no centro alguns grupos com forte ascendência
negróide. Falavam-se mais de 3 mil idiomas e dialetos, dos quais cerca
de quinze eram mais importantes. Quanto ao aspecto religioso, embora o
bramanismo (atualmente mais conhecido pelo nome de hinduísmo) fosse
absolutamente majoritário, vastas parcelas da população seguiam o
islamismo (ou muçulmanismo, ou maometismo), além das minorias adeptas
do sikhismo, do janaísmo, do budismo, do cristianismo e até mesmo do
animismo (denominação dada às religiões primitivas que atribuem alma
– anima, em latim – a animais, rios e montanhas).
A autoridade máxima na colônia era o vice-rei, que prestava contas ao
Ministério das Colônias, em Londres. Internamente, porém, a Índia
compreendia duas formas de administração: mais da metade do território
era controlada diretamente por funcionários coloniais britânicos; mas
havia também 562 principados dos mais diversos tamanhos, sob a
autoridade de governantes hereditários, hindus ou muçulmanos. Os títulos
desses pequenos monarcas podia variar, mas o mais comum era o de marajá.
A
Independência
Na primeira metade do século XX, o nacionalismo indiano passou por um
processo de amadurecimento que se personificou na figura do
“Mahatma” (“Grande Alma”) Gandhi. Este, baseando-se nos princípios
da “não-violência” e da “resistência passiva”, mobilizou milhões
de seguidores e causou grandes transtornos aos dominadores ingleses.
Gandhi era hinduísta, mas seu sonho nacionalista visava à criação de
uma Índia independente onde todas as etnias e religiões convivessem
pacificamente. Contudo, seu ideal não era compartilhado pelos radicais
hinduístas (que o assassinariam em 1948) e menos ainda pelos muçulmanos.
Hinduísmo e islamismo, para os indianos, eram muito mais que duas
religiões antagônicas. O primeiro, nascido no próprio país há
milhares de anos, possuía uma espantosa multidão de deuses e criara
uma sociedade de castas, baseada na desigualdade absoluta entre os indivíduos;
o segundo, de origem árabe e introduzido na Índia por conquistadores
vindos da Ásia Central, é monoteísta e considera todos os homens
iguais perante Deus. A diversidade entre as duas crenças produziu
diferenças de comportamento e de organização social, bem como visões
de mundo conflitantes.
À medida
que o Congresso Nacional Indiano – partido fundado por Gandhi –
ganhava força na luta pela independência, crescia entre os maometanos
o temor de um Estado hinduísta que viesse a oprimi-los e persegui-los.
Liderados por Mohamed Ali Jinnah, os islamitas indianos criaram a Liga
Muçulmana, que advogava a divisão do subcontinente em dois Estados –
um deles de maioria maometana.
A Grã-Bretanha acabou concordando com a partilha. Assim, em 15 de
agosto de 1947, dentro do processo de descolonização que se seguiu à
II Guerra Mundial, surgiram dois Estados independentes: a Índia e o
Paquistão (“País dos Puros”). Este último, implantado nas áreas
majoritariamente muçulmanas, compreendia duas porções distintas,
separadas por 1600 km de território indiano: o Paquistão Ocidental e o
Paquistão Oriental (situado no Golfo de Bengala). Mas as diferenças
entre os dois Paquistães (geográficas, econômicas, étnicas e
culturais) eram insuperáveis; em 1971, apoiado pela Índia, o Paquistão
Oriental proclamou sua independência e se transformou em Bangladesh
(“Estado de Bengala”, em língua bengali).
A Questão da Caxemira
Com a aproximação da data da independência, as minorias hindus e muçulmanas
instaladas em território adverso procuraram alcançar a segurança dos
futuros Índia e Paquistão. Cerca de 11 milhões de pessoas abandonaram
seus lares e mais 1 milhão pereceu chacinado por turbas fanáticas de
ambas as religiões. Não obstante, permaneceram na Índia importantes
grupos muçulmanos, geralmente ligados ao comércio, os quais não se
mostravam dispostos a abandonar a vida que haviam construído.
Os príncipes indianos, pressionados a optar pela incorporação a um ou
outro Estado, fizeram-no de acordo com sua orientação religiosa. Dois
principados muçulmanos situados dentro da Índia tentaram preservar sua
autonomia, mas foram invadidos pelo recém-criado Exército Indiano. O
governo da Índia independente, de tendência fortemente centralista, não
toleraria enclaves que pudessem estimular o separatismo das minorias.
E aí começou o problema da Caxemira. Essa vasta região montanhosa,
situada no extremo norte da Índia Britânica, tem uma importantíssima
posição estratégica entre o Afeganistão e o Tibete (que a China
conquistaria em 1951); além disso, como fica muito perto do Tadjiquistão
(então parte da União Soviética), ganhava especial relevância no
contexto da Guerra Fria. Durante o domínio inglês, o Estado de Jammu e
Caxemira foi governado por marajás hindus; mas 80% de seus habitantes
eram muçulmanos.
Ao chegar a independência, o marajá optou por unir seu Estado à Índia,
embora a maioria da população desejasse ser incorporada ao Paquistão.
Estourou uma insurreição entre a comunidade islâmica, com apoio
paquistanês. As forças indianas reagiram e uma guerra não-declarada
entre os dois países arrastou-se até julho de 1949, quando um acordo
provisório foi assinado sob os auspícios da ONU. Seguindo a linha do
cessar-fogo, as porções norte e oeste da Caxemira (cerca de 40% do
território) couberam ao Paquistão, que lhe deu o nome de Azad Kashmir
(“Caxemira Livre”). Decidiu-se que futuramente haveria um plebiscito
para definir o destino de toda a região, mas a Índia jamais aceitou
cumprir essa cláusula. E, em fevereiro de 1994, o Parlamento indiano
declarou solenemente que a Caxemira (incluindo o território em poder do
Paquistão) é parte inseparável da União Indiana.
Uma nova guerra entre Índia e Paquistão, travada em 1965, não
modificou o status quo. Atualmente, um movimento terrorista e
guerrilheiro apoiado pelo Paquistão opera na Caxemira Indiana, mas vem
enfrentando uma dura repressão por parte da Índia. Esta receia que
eventuais concessões aos rebeldes possam estimular o separatismo dos
sikhs, que são majoritários na região do Punjab, ao sul da Caxemira.
O confronto nuclear indo-paquistanês
Em março de 1998, o partido nacionalista Bharatiya Janata (BJP) venceu
as eleições e assumiu o poder na Índia, com o propósito declarado de
“governar para os hindus”. Em maio de 1999, a Índia realizou cinco
testes nucleares no Deserto de Rajastã, junto à fronteira com o
Paquistão. Este, em julho, fez seis testes semelhantes nas proximidades
dos limites com o Irã – fora do raio de ação de um possível ataque
de mísseis indianos.
Temos portanto dois países do Terceiro Mundo, governados por políticos
nacionalistas, que são possuidores de tecnologia nuclear para fins bélicos.
A Índia, apesar da miséria da maioria de sua população – que
atingiu, em 1999, a marca de 1 bilhão de habitantes —, é o maior
“exportador de cérebros” do mundo, coloca satélites em órbita com
know-how próprio e tem submarinos atômicos. O Paquistão, militarmente
mais fraco, conta com um exército bastante combativo, dispõe de mísseis
com alcance maior que os da Índia e, em caso de conflito, pode vir a
receber apoio de outros países muçulmanos. Obviamente, tais circunstâncias
agravam a instabilidade da região.
Durante a maior parte de sua história como Estado independente, o
Paquistão tem sido governado por generais tirânicos e corruptos – o
que o deixou mais ou menos à margem da comunidade internacional.
Todavia, com o atentado terrorista sofrido pelos Estados Unidos em
setembro de 2001, o Paquistão tornou-se essencial para o projeto
norte-americano de atacar os supostos esconderijos inimigos no Afeganistão.
Essa nova situação já levou o FMI a conceder um generoso empréstimo
ao governo paquistanês.