Atrito
Uma
pintura rupestre, descoberta em uma gruta de El Bershesh (Egito), datada
de 1880 a.C., mostra centenas de escravos tentando locomover, por intermédio
de cordas, um colosso com a ajuda de grandes elefantes. Curiosamente,
percebe-se, não muito nitidamente, a existência do que se supõe serem
jarras, presas com amarras aos lombos dos animais; um líquido,
escorrendo das supostas jarras, espalha-se pelas pedras do chão
lubrificando o percurso a ser percorrido pela descomunal estátua de
madeira. Este é um indício da preocupação do homem, desde a Antigüidade,
com um dos fenômenos físicos mais comuns e mais complexos estudados
pela Ciência, o atrito.
O
estudo do atrito, apesar de milenar, começou a ser documentado apenas
no final da Idade Média. A primeira documentação sobre o assunto é
de autoria de Leonardo da Vinci, o grande sábio da Renascença. Além
de seus múltiplos dotes artísticos, da Vinci era amante da Ciência e
desenhava, além de máquinas voadoras, diferentes aparatos para estudar
os fenômenos naturais, dentre os quais estava o atrito. Outros grandes
físicos e cientistas, como Guizalhem Amontons, Robert Hooke, Gottfried
Wilhelm Leibnitz, Leonhard Euler, Charles Augustin Coulomb, Benjamin
Thompson, Heinrich Hertz, também contribuíram de forma notável para o
entendimento e equacionamento do fenômeno.
Uma
das experiências mais comuns realizadas por muitos cientistas durante
esta última metade do milênio, a qual você já deve ter visto em
alguns exercícios de Física, está representada a seguir e aborda de
forma clássica o estudo do atrito.

Percebemos
que, inclinando a superfície móvel, o pequeno bloco de madeira não se
move até uma certa inclinação limite, representada pelo ângulo q.
Porém, qualquer inclinação, por mínima que seja, acrescida ao
sistema faz que o bloco comece a acelerar, ou seja, comece a escorregar.
Já que, para inclinações inferiores a q
o bloco não escorrega, podemos dizer a partir do experimento que existe
uma força tangente à superfície resistente à tendência de
movimento. A essa força resistente, damos o nome de atrito e a
representamos no desenho pela letra A
- a força peso e a força normal também estão representadas
respectivamente pelas letras P e N.
Experimentalmente,
notamos que, utilizando diferentes blocos de mesmo material, porém de
formatos, áreas de contato e massas diferentes, o escorregamento ocorre
sempre no mesmo ângulo de inclinação q.
Tal inclinação limite só se altera com a mudança dos materiais da
rampa, do bloco ou de ambos.
Na posição crítica,
decompondo o peso em suas parcelas horizontal e vertical (sendo a
resultante nula), podemos escrever:
P.cos
q = N
P.sen
q
= A
Dividindo um termo pelo
outro, temos:


Como o ângulo q
é o mesmo, independente do formato ou da massa do bloco, concluímos
que a relação A/N, no ponto crítico, é sempre constante para o
material utilizado. A essa relação damos o nome de µ.

Esta
é a relação que você já conhece e μ é a constante de atrito
estático. O coeficiente de atrito não representa somente a natureza
dos materiais em contato, mas todo um sistema complexo que inclui
temperatura das superfícies, pressão e, quando estudamos o atrito cinético,
velocidade relativa de escorregamento. Mas, então, como μ é
suposto constante? Experimentalmente, observamos que, para velocidades não
muito elevadas e temperaturas e pressões baixas, µ
é praticamente constante e não depende da área de contato. Isso
possibilita realizar cálculos mais simples e com ótima precisão.
Para entendermos melhor a
natureza do coeficiente de atrito e da força de atrito, devemos
recorrer ao estudo microscópico das superfícies. Imagine, para isso,
duas chapas de metal com superfícies perfeitamente polidas. Ao
colocarmos essas superfícies em contato, como não há rugosidade,
perceberíamos um escorregamento sem resistência alguma entre elas,
certo? Errado, elas se fundiriam instantaneamente e formariam uma única
chapa; dizemos que suas superfícies estão soldadas a frio. Mas por
quê? No contato, átomos de uma superfície estão encontrando átomos
da outra superfície, o que faz com que eletrosferas se encontrem e se
atraiam devido a forças eletromagnéticas, o que, macroscopicamente,
significa fusão.
Na
prática não observaríamos tal situação, pois a superfície mais bem
polida, conseguida através de processos industriais complicados,
pareceria um Grand Canyon, se tivéssemos o tamanho de um átomo e estivéssemos
observando-a em sua superfície. Quando colocamos duas superfícies
polidas em contato, somente os pontos altos se tocam. Isso quer dizer
que nem toda a área macroscópica está efetivamente em contato?
Exatamente, dados recentes mostram que somente 0.1 milésimo da área
macroscópica está efetivamente em contato, ou melhor, soldado. Ao
encontro dos pontos altos das superfícies em contato, dá-se o nome de
microssoldas, as quais são responsáveis pela aderência e resistência
ao escorregamento. O desenho abaixo mostra o encontro dos pontos altos
numa ampliação do contato macroscópico:

Podemos
perceber o fenômeno da microssoldagem ou aderência quando colocamos em
contato duas chapas de vidro. Além de não escorregarem uma sobre a
outra, é difícil soltá-las. Podemos notar também que, se forçarmos
o deslizamento, as microssoldas se romperão, fazendo vibrar os átomos
da região, o que explica a geração de calor durante o escorregamento.
E
como poderíamos explicar, por meio das microssoldas, a independência
da área de contato? Suponha que dois objetos de superfícies planas e
de mesma massa estão em contato com uma superfície lisa qualquer. Os
objetos, no entanto, possuem áreas de contato bem diferentes. Tal situação
nos permite perceber que o objeto de maior área terá seu peso mais
distribuído pela superfície, enquanto que o de menor área terá seu
peso mais concentrado — intuitivamente, estamos nos referindo à pressão
na superfície.
Poderíamos
dizer que, quanto maior a área, mais pontos altos nas superfícies se
soldariam e a resistência ao escorregamento seria maior. Isso não
ocorre, pois objetos de menor área, devido à maior pressão,
apresentam maior interpenetração das superfícies ou soldas mais
“profundas”. Concluindo com o experimento: a resistência ao
escorregamento seria praticamente a mesma para ambos os objetos.
Podemos
dizer, em resumo, que o atrito é um fenômeno eletromagnético muito
complexo se estudado microscopicamente e de simples equacionamento na
maioria das situações, se estudado macroscopicamente. Um fenômeno
interessante, que traz bilhões de dólares em prejuízo desgastando máquinas
e motores, e que, desde a Antigüidade, fascina o homem pelas surpresas
que revela, pela complexidade e pela magnificência, um fenômeno
extremamente freqüente e cotidiano, sem o qual não poderíamos sequer
andar. (Fábio
Sismotto El Hage)