
Ultimamente, os vestibulares têm proposto aos estudantes
questões que envolvem a correlação de tempos verbais. Os
alunos, em geral, resolvem-nas lançando mão de critérios
intuitivos, afinal, são falantes da língua portuguesa.
A dificuldade, porém, que esse tipo de questão apresenta
deve-se não só ao fato de o português ter um sistema
complexo de conjugação verbal, no qual os tempos apresentam
várias subdivisões, mas também ao fato de as gramáticas
tradicionais muitas vezes omitirem o estudo sistemático do
aspecto, categoria considerada subsidiária do tempo nos
verbos.
O aspecto é a propriedade que têm as formas verbais de
designar a duração de um processo. É fácil observar a sua
existência examinando a distinção entre as formas do
passado no modo indicativo.
O pretérito perfeito exprime um fato concluso, já o
imperfeito indica que a ação não foi terminada,
apresentando, portanto, aspecto durativo. Dizemos que
"Fulano estudou matemática em sua
juventude", mas que "Fulano estudava
matemática quando foi convidado para lecionar no
colégio". A ação em curso expressa-se, no passado, por
meio do imperfeito. Esse é o tempo também das ações
interrompidas ou repetidas no passado. Dizemos que
"Fulano lia (estava lendo) o livro quando ela lhe
perguntou aquilo" ou que "Fulano, naquela época, corria
todos os dias no parque".
O aspecto durativo (ou cursivo) é também indicado pelo uso
do gerúndio antecedido de um verbo auxiliar. Assim, dizemos
que alguém "vive reclamando", "está
dormindo", "anda estudando" etc. Em
Portugal, no lugar do gerúndio, há nítida preferência pelo
infinitivo regido pela preposição "a"
("continuamos a esperar uma resposta"), cujo efeito
é o mesmo.
O verbo auxiliar que acompanha o gerúndio pode ser flexionado
nos vários tempos verbais, dando à expressão diferentes
matizes. Podemos dizer que alguém "esteve
viajando", "estava viajando", "está
viajando", "estará viajando". Mas é
preciso ter cuidado com certa tendência _observada
recentemente_ ao uso indiscriminado do gerúndio antecedido de
auxiliar no futuro.
Há quem substitua uma forma como "conversarei" (ou
"vou conversar") por "estarei
conversando", em frases do tipo: "Amanhã, estarei
conversando com ele" ou "Amanhã, vou estar
conversando com ele". Tais construções soam pouco
econômicas e desnecessárias à expressão do sentido
pretendido. Mais sucinto seria dizer: "Amanhã,
conversarei (vou conversar) com ele". Não podemos,
porém, imputar erro a quem formular: "Quando ele chegar,
ela estará dormindo".