
Depois de concluir a implantação da União Aduaneira, o
Mercosul deverá encarar o desafio de construir suas políticas sociais e
harmonizar a legislação trabalhista e de emprego. Ao mesmo tempo, negociará
novas associações com o Nafta e a União Européia
Terminada a VII reunião do Conselho de Ministros do Mercosul, realizada na
cidade brasileira de Ouro Preto, nos dias 16 e 17 de dezembro, os presidentes
dos quatro paises firmaram nessa histórica cidade de Minas Gerais o Protocolo
que outorga ao Mercado Comum do Sul todos os instrumentos juridico-institucionais que
permitirão atuar como uma Zona de Livre Comercio
plena e uma União Aduaneira incompleta, desde 1º de janeiro ultimo.
A associação de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai se converteu, assim, no
segundo exemplo mundial de uma União Aduaneira exitosa, depois da experiência européia. O Mercosul ratificou em Ouro Preto seus antigos
órgãos de governo: o
Conselho do Mercado Comum (CMC); o Grupo Mercado Comum (GMC) e a Secretaria
Administrativa do Mercosul, todos já em funcionamento. E incorporou, ainda, três
novas instituições: a Comissão de Comercio do Mercosul, a Comissão Parlamentar
Conjunta e o Foro Consultivo Econômico e Social.
Dos três novos organismos, o Foro Consultivo Econômico e Social e o que mostra
maiores novidades, porque abre ao Mercosul a representação dos setores econômicos e sociais "e
estará integrado por um numero igual de
representantes de cada Estado Parte", diz o protocolo. O foro terá uma função consultiva e se expressara mediante
recomendações ao Grupo Mercado Comum.
O novo organismo do Mercosul terá um regulamento interno de funcionamento que
devera ser homologado pelo GMC.
A adoção desta instancia de consulta, em nível institucional permanente dentro
do Mercosul, de empresários e de trabalhadores, ainda que em nível consultivo,
abre expectativas positivas a cerca de uma das assinaturas pendentes da negociação do
período de transição que terminou em 31 de dezembro.
Reconhecidamente, ate agora faltou ao Mercosul uma via de expressão dos
principais fatores econômicos e sociais. Eles só foram consultados nos chamados
Subgrupos de Trabalho para políticas setoriais especificas. E de acordo com a opinião coincidente de dirigentes dos sindicatos e lideres empresariais, nenhuma
de suas propostas havia tido, ate agora, uma resposta institucional. O inicio
oficial do Mercosul, a partir deste ano, tem como uma de suas tarefas prioritárias a de definir as
relações de trabalho na região e de harmonizar as legislações trabalhistas dos quatro paises. De acordo ao que manifestaram os
representantes das centrais sindicais do Mercosul em Ouro Preto, depois de se
reunirem brevemente com os presidentes da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai,
o tema trabalhista será abordado na primeira reunião deste ano do Grupo Mercado
Comum, que devera acontecer no Paraguai, pais que passou a ocupar a presidência
pro
tempore da associação.
O embrião do futuro Parlamento - A chamada Comissão Parlamentar Conjunta,
que poderá encaminhar recomendações ao Conselho através do Grupo Mercado Comum,
estará integrada, por sua vez, por um numero igual de parlamentares,
representantes dos Estados Partes e devera trabalhar para agilizar o processo de
harmonização das respectivas legislações. O novo organismo velara também pela
rápida entrada em vigência em cada pais de normas que emanem dos organismos do
Mercosul.
Finalmente, as negociações para a associação com o Chile e Bolívia, assim como o
inicio de uma negociação formal com a União Européia - já em janeiro deste ano -
requerem um maior desafio do Mercosul: o de determinar suas novas fronteiras,
uma tarefa que promete não ser simples.
Segundo anunciou em Ouro Preto o chanceler da Argentina, Guido di Tella, e provável que seu pais solicite a reforma do Tratado de
Assunção para permitir o
ingresso do Chile aos organismos de governo do Mercosul, sem que ao mesmo tempo
o novo sócio deva adotar a Tarifa Externa Comum. A Argentina pode formalizar
esta proposta em 2 de janeiro, em Brasília. Nessa ocasião, haverá uma reunião em
que pela primeira vez estarão juntos, para a posse do governo de Fernando
Henrique Cardoso, os presidentes dos quatro paises sócios, mais os presidentes
do Chile e da Bolívia.
O tema promete ser muito polemico porque ao menos um pais, o Uruguai, já
advertiu que seria inaceitável que os novos sócios do Mercosul participem de
seus benefícios, sem responsabilizarem-se ao mesmo tempo dos aspectos mais difíceis da iniciativa, que
são os que exigem harmonizar com os demais o grau de
abertura da economia do pais.
Aspectos técnicos das resoluções - Depois de um exaustivo trabalho dos
técnicos reunidos no Grupo Mercado Comum, que se estendeu ate as quatro da manha
da véspera da VII Reunião do Conselho de Ministros do Mercado Comum, os
negociadores remeteram 48 resoluções e 17 Decisões, que foram aprovadas e são as
que permitirão a plena vigência de uma Zona de Livre Comercio intramercado, e
uma União Aduaneira com uma tarifa comum para 85% dos itens comerciais a partir
do inicio do ano.
O Mercosul contara, desde esta data, com uma personalidade jurídica de direito
internacional, cuja representação será exercida pelo Conselho do Mercado Comum,
que por sua vez poderá delega-la em função das negociações internacionais
pontuais que a associação encare no futuro. Todos os obstáculos de natureza técnica que estavam pendentes e todas as
definições que faltavam, incluindo as diferenças de natureza política, foram sanados na
reunião do GMC ratificada pelo
Conselho.
Segundo a avaliação do embaixador brasileiro Jose Arthur Denot Medeiros,
negociador de seu pais, com estes resultados o Mercosul se converteu no primeiro
processo de integração, depois da Comunidade Econômica Européia, que consegue
com êxito por em funcionamento uma União Aduaneira. A negociação, disse
Medeiros, se baseou em dois pilares fundamentais. Primeiro, no principio do
"gradualismo", que implica que as decisões foram tomadas permitindo um
tempo de ajuste a todos os fatores de produção envolvidos.
E em segundo lugar, foi aplicado o principio da "transparência", que
significa a total abertura das informações e da participação dos setores econômicos interessados dos quatro paises. Isto impediu que as
diferenças se
tornassem rupturas "e que as turbulências próprias da negociação fossem
confundidas com conflitos indissolúveis", observou Medeiros.
Personalidade Jurídica de direito internacional - Resumindo o conteúdo
dos documentos adotados em Ouro Preto, caberia dizer que foi um marco jurídico
fundamental para o funcionamento da União Aduaneira. O Mercosul contara com uma
personalidade jurídica própria que foi outorgada através das 48 Resoluções e 17
Decisões aprovadas pelo Conselho de Ministros.
Houve, de acordo com Denot Medeiros, cinco grandes grupos de decisões. O
primeiro e a aprovação da Tarifa Externa Comum (TEC), que envolve nove mil itens
de comercio, segundo a nova nomenclatura do Mercosul. Não somente foram
negociadas as alíquotas dos produtos, mas também se adotou uma nova
nomenclatura, que funde as quatro existentes ate agora, de cada um dos paises.
As alíquotas diferenciadas da tarifa externa estão completamente definidas, mas
somente 85% deste universo tarifário entra em vigor em 1º de janeiro. O resto -
de aproximadamente 15% - constitui as chamadas "listas de exceções a
TEC". Estas exceções tem uma trajetória de convergência ate a tarifa comum
que já esta sendo estabelecida. Isto significa que a TEC esta completa desde já,
ainda que uma parte entre em vigor somente em 2001 e um numero ainda menor de
produtos somente em 2006. As exceções a tarifa são fundamentalmente bens de
capital e informática e pelas listas nacionais de exceção. São 300 produtos por
pais (399 para o Paraguai). Por ultimo estão as exceções que derivam do chamado
Regime de Adequação Interna do Mercosul.
Também foram estabelecidas as regras de origem, segundo as quais todos os
produtos que entrem no Mercosul pagando uma tarifa externa comum não terão mais
regras internas de origem porque haverá um regime aduaneiro comunitário.
Denot disse que para as exceções a TEC haverá um regime de origem de 60% e, alem
disso, para um grupo especial de produtos, haverá um regime especifico de
origem, fundamentalmente para os produtos de informática, bens siderúrgicos e químicos.
Código de Aduanas - O Grupo Mercado Comum ainda decidiu sobre o regime de
aduanas, aprovando um projeto do código Aduaneiro. Esta será a base legal para
toda a operacionalidade aduaneira do Mercosul. O código contem centenas de
artigos e deve ser submetido em breve para sua aprovação aos congressos
nacionais. Porem, segundo advertiu o embaixador Denot, suas disposições transitórias podem
começar a ser aplicadas já em 1º de janeiro.
O código contem disposições administrativas, outras sobre despachos aduaneiros,
valores de aduana, regime de equipamentos, exceções ao transporte aéreo e marítimo,
regulamentação do funcionamento das Duty Free Shops etc. Os
quatro Estados Partes se comprometeram a realizar um esforço ate 1º de janeiro
para divulgar a tarifa externa do Mercosul nos postos de aduana. As exceções
emergentes dos regimes de adequação interna do Mercosul formam listas especiais
de restrições tarifarias que durarão quatro anos, durante os quais haverá uma
degradação paulatina e regular.
"Essas listas foram examinadas e aprovadas porque se chegou a conclusão de
que atendem aos parâmetros que se havia fixado na reunião de Buenos Aires. O
Brasil tem 29 produtos, outros paises tem mais, e todo eles foram comprovados
dentro das regras fixadas", disse Medeiros.
Regimes especiais - Por suas particulares implicâncias para o sistema econômico, os regimes
açucareiro e automotriz mantém um status particular dentro
do Mercosul. No caso do setor açucareiro, por detalhes que afetam inclusive a política
energética, foi decidido formar uma comissão que no prazo de um ano
(novembro de 1995) terá que definir o modelo de convergência a ser praticado ate
o ano 2001.
No caso do regime dos automóveis, segundo especificações do negociador
brasileiro Winston Frischt, chegou-se a acordos muito avançados em termos de liberalização do comercio intramercado. Em primeiro lugar,
através de uma declaração dos quatro paises que expressa como chegar a um mercado automotor que
tenha livre comercio intrazonal de partes, pecas e veículos. Uma tarifa externa
comum para esses produtos e a supressão de incentivos nos quatro paises capazes
de distorcer a competitividade do setor, completam a estrutura do regime que
devera ser adotado.
O regime ficara completo incorporando normas sobre o acesso de partes e pecas
importadas e veículos, "normas que existem em todos os regimes deste tipo
no mundo", observou o negociador brasileiro. Outras disposições que serão
incorporadas ao regime de comercio automotor intramercosul possuem regras sobre conteúdo nacional,
regulamentações sobre proteção ao meio ambiente e segurança
para os usuários.
Frischt disse que o regime especifico de regulamentação para o setor automotriz
devera estar completo antes de julho de 1995, ainda que o prazo para sua estruturação definitiva chegue ate 1997 e somente entrara vigor em 2001.
"Estes prazos permitirão as fabricas adequar sua operacionalidade as regras
que vigorarão a partir de 2001", disse o brasileiro, advertindo que a
entrada em vigor deste regime comunitário suprime todas as regulamentações
nacionais ate agora existentes.
Uma segunda parte das resoluções adotadas se refere aos acordos binacionais
existentes entre Argentina e Brasil, Uruguai e Argentina, Uruguai e Brasil.
Apesar de que estes acordos sigam em vigência ate o ano 2001, decidiu-se que haverá uma melhora nas
condições de acesso aos mercados vizinhos. Sobre o acordo
Brasil-Argentina, Frischt disse que o Brasil havia conseguido "um acesso
muito maior que ate agora ao mercado de autopeças argentino".
declaração conjunta - No comunicado conjunto dos quatro presidentes dos paises
do Mercosul, emitido em Ouro Preto, ao final da cúpula, os mandatários
reafirmaram a consolidação dos valores democráticos no bloco, o que consideraram
essencial para a consecução do objetivo final do processo de integração: a formação do mercado comum.
Os presidentes destacaram os avanços experimentados no processo de integração do
Mercosul, evidenciados pelo substancial incremento dos fluxos comerciais e de
investimentos entre os Estados Partes. E assinalaram sua convicção de que estes
avanços deverão traduzir-se em progressos concretos em favor da área social, na
preservação e ampliação de empregos e no impulso ao desenvolvimento harmônico da
região.
Os presidentes reconhecem o papel central que desempenham os agentes econômicos
privados e os diversos setores da sociedade civil dos quatro paises no
desenvolvimento do projeto de integração. Recordam que o Mercosul transcende os
aspectos exclusivamente comerciais e econômicos, alcançando um crescente numero
de áreas, como educação, cultura, ciência e tecnologia, justiça, meio ambiente,
infra-estrutura e comunicações.
A declaração conjunta enfatiza que a União Aduaneira cristaliza o caráter irreversível e
dinâmico do processo de integração do Mercosul, reforçado agora
pela adoção de um novo perfil institucional. Reitera a natureza aberta e não
excludente da associação, que busca, justamente, inserção ampla e competitiva da
região no mercado mundial. Destaca, nesse contexto, os efeitos positivos do
processo de integração sub-regional, na dinâmica do comercio dos membros entre
si e com outros paises e grupos econômicos do mundo.