
Após a derrota do Iraque e o fim da guerra fria, muitos analistas
internacionais destacavam a "derrota do mundo árabe", dividido,
enfraquecido econômica e militarmente, além de não contar mais no discurso
político com a legitimidade unificadora conferida anteriormente pela defesa
(ainda que muitas vezes retórica) da causa palestina, pois a OLP enfrentava uma
aguda crise política, militar e financeira. Ao mesmo tempo, intensificou-se a
repressão nos territórios ocupados, onde ocorria uma instalação recorde de
colonos judeus. Entretanto, o Secretário de Estado norte-americano James Baker
realizava intensos contatos na região, tentando articular uma conferência de
paz, o que parecia contrariar a política israelense de então, liderada por uma
coalizão direitista chefiada por Itzhak Shamir.
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Opositores islâmicos protestam contra Israel, em Amman
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Na
verdade, Israel estava sendo pressionada pelos EUA. O Presidente Bush opunha-se
à construção de novas colônias e congelou importantes créditos destinados
ao país, até que este iniciasse conversações com os palestinos. Sem
alternativas, Shamir cede e, em outubro de 1991, iniciou-se a Conferência de
Paz de Madri. A escolha da sede da Conferência era significativa: séculos
antes, o território espanhol (Córdoba) abrigara o Emirado dos Omíadas, no
qual árabes, judeus e cristãos puderam desenvolver-se num convívio harmônico.
Nessa Conferência, os estigmatizados palestinos surpreenderam politicamente com
sua moderação no discurso e firmeza nos interesses.
O
que mudara na região? Em primeiro lugar, cabe destacar que, com o final da
Guerra Fria e da Segunda Guerra do Golfo, desapareciam as ameaças militares
externas e locais. Assim, Israel perdia grande parte de sua importância estratégica
para os EUA. O Tsahal (exército israelense), que até então constituía o mais
eficaz instrumento militar aliado do Ocidente no Oriente Médio em caso de
guerra, passou a ser encarado como relativamente menos importante, extremamente
caro, bem como instrumento de setores judaicos que formulavam políticas que
Washington considerava desestabilizadoras para a região.
Em
segundo lugar, é importante salientar que o campo árabe moderado jogara no
desencadeamento e desenvolvimento do conflito um papel muito mais importante que
aparentava, pois Cairo e Riad eram as capitais articuladoras de uma nova estratégia
para a região. Esses países e outras nações vizinhas opuseram-se à ocupação
e partilha do Iraque. Além disso, o Eixo Riad-Cairo fazia pressão sobre os
republicanos norte-americanos, aliados preferenciais das petromonarquias, para
que esses forçassem Israel a fazer concessões no tocante à questão
palestina, tentando solucioná-la através de uma conferência internacional
Por que, então, os Estados Unidos, a potência formalmente
"vencedora" da Guerra Fria, foram forçados a aceitar o jogo diplomático
dos árabes moderados? Além do Partido Republicano ser mais ligado aos
interesses petrolíferos, Bush também precisava converter parcialmente o
complexo militar-industrial americano e cortar gastos armamentistas. Isso
serviria, em parte, para equilibrar o orçamento, relançar o crescimento econômico
e buscar tornar a tecnologia e o comércio americanos mais competitivos frente
aos japoneses e aos europeus, particularmente os alemães.
Não
se tratava apenas de promover a paz e cortar despesas numa das regiões mais
problemáticas do planeta, mas também, ao realizá-la na perspectiva das
petromonarquias, obter bilhões de petrodólares necessários à economia
norte-americana. Esse "dinheiro novo", que irrigaria e ajudaria a
revitalizar uma economia em recessão, encontrava-se nos bancos árabes do
Golfo, um dos novos e mais vigorosos centros financeiros mundiais.
Tanto
na perspectiva dos Estados Unidos quanto das petromonarquias e dos demais
Estados árabes moderados, havia o interesse econômico de estabilizar a região
a um custo
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Palestinos queimam bandeira israelense durante funeral de garoto morto
em choque entre os grupos
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limitado para que ela pudesse se inserir de forma satisfatória na nova ordem
mundial, já que representa uma área estratégia e economicamente promissora do
Terceiro Mundo. Mas há também outros problemas envolvidos na questão. Os EUA
passam a apoiar-se nos protagonistas mais fracos como parte de uma política de
reduzir a influência dos pólos regionais de poder, amigos ou inimigos.
Trata-se, em suma, de evitar o surgimento ou fortalecimento de potências médias.
Nesse sentido, as negociações de paz em Madri representavam uma continuação
de certos objetivos estratégicos da Guerra do Golfo.
Existem
razões suplementares para os "apelos ao Império" por parte do Eixo
Riad-Cairo. Saddam Hussein desmascarou a fragilidade e artificialidade do Kuwait
e, por extensão, das demais petromonarquias. Os Sheiks temem as demandas políticas
democratizantes e distributivas sócio-econômicas de suas próprias populações.
Além disso, a queda dos preços do petróleo e o agravamento da crise sócio-econômica
na região criaram um problema adicional, além de comprometer a capacidade de
os monarca-magnatas do Golfo prestarem ajuda aos governos, partidos ou segmentos
sociais das áreas mais explosivas do Oriente Médio, como era prática até um
passado recente. Nesse sentido, a situação torna-se cada vez mais explosiva do
ponto de vista social. Faz-se, portanto, necessário lograr um certo equilíbrio
diplomático, pois até o presente as guerras têm sido catalisadoras de revoluções
e mobilização social em todo o Oriente Médio.
Simultaneamente, o governo israelense procurou ganhar tempo arrastando as
conversações de paz. No final de 1992, haveria eleição nos Estados Unidos e
o Likud apostava todas as cartas numa possível derrota de Bush frente aos
democratas. Os grandes meios de comunicação mundial logo começaram a investir
contra o favoritismo do líder norte-americano, de certa forma decorrente da
guerra contra o Iraque. Mas os democratas não conseguem articular uma
candidatura viável, mesmo sendo poupados pela mídia quanto aos escândalos
amorosos e aos ligados ao não cumprimento do serviço militar, que em
diferentes ocasiões teria derrubado outros. Surge então o candidato
"independente" Ross Perot e a revolta de Los Angeles, um dos
principais centros da indústria armamentista, duramente atingida pelos cortes
nos gastos militares. A popularidade de Bush despencou.
Contudo,
a situação em Israel não era melhor. A recessão e o desemprego, agravados
pela constante chegada de novos imigrantes soviéticos, bem como as dificuldades
militares nos territórios ocupados e no sul do Líbano, produzem um mal-estar
generalizado na sociedade israelense. A intransigência dos conservadores começa
a parecer um suicídio político aos olhos da opinião pública. Assim, em julho
de 1992, os trabalhistas, apoiados por uma coalizão do centro à esquerda,
vencem as eleições e formam um novo governo. Tratava-se tanto de uma expressão
do descontentamento popular como de uma manobra tática da elite política
israelense, pois na luta pelo cargo de primeiro-ministro venceu a ala direita do
Partido com a nomeação de Itzhak Rabin. Shimon Peres, seu rival interno, ficou
com o Ministério de Relações Exteriores.
Paralelamente
a essa espetacular evolução, o fundamentalismo islâmico ganhava notoriedade
política, passando a pesar no jogo internacional. A mídia, ávida de
sensacionalismo, alimenta uma imagem de hordas fanáticas e antiocidentais, a
"maré verde" que estaria sendo orquestrada por Teerã. Aqui é necessário
precisar algumas questões. Os movimentos políticos de caráter islâmico
tiveram origem em grupos de perfil fascistizante como os Irmãos Muçulmanos,
desde o entre-guerras. Esses movimentos foram apoiados pelos Estados
conservadores, particularmente as petromonarquias, as quais, inclusive,
legitimavam-se aos olhos da população como verdadeiras defensoras do "islã
puro", medieval (os sauditas são os guardiões dos lugares santos de
peregrinação).
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Garoto palestino mira em soldados israelenses com arma de brinquedo, na
Faixa de Gaza
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O
fundamentalismo islâmico passou a ganhar terreno em outros países da região,
inclusive dentro do movimento palestino, até então essencialmente nacional e
laico. As ações, por vezes espetaculares, do Hezbollah (Partido de Deus, dos
xiitas libaneses) no sul do Líbano e os atentados do Hammas (movimento islâmico
palestino) nos territórios ocupados catalisam a atenção de uma população
desesperada pela repressão, pobreza e avanço das colônias judaicas. É
importante acrescentar, entretanto, que a indefinição, ou melhor, o caráter
vago da ideologia e o programa de ação política do fundamentalismo islâmico
mantêm aberta a porta da influência dos grupos conservadores e economicamente
dominantes do mundo árabe.