GUERRA DA INDEPENDÊNCIA
A 12 de outubro de 1822, D. Pedro foi aclamado Imperador Constitucional e
Defensor Perpétuo do Brasil, sendo coroado a 1º de dezembro.
Proclamada a Independência do Brasil, prevendo o próximo início da luta
contra as autoridades provinciais, que continuavam obedecendo ao governo de
Lisboa, D. Pedro ordenou a compra de navios no exterior e a contratação
de militares que quisessem servir ao nosso império. Imediatamente foram
organizados diversos corpos de tropas e preparou-se uma esquadra para levar às
províncias os socorros que se fizessem necessários.
Essas medidas eram justificadas pela situação reinante em diversos pontos
do território brasileiro. Com efeito, entre outros governos, os da Bahia, Piauí
e Cisplatina recusaram-se a acatar a autoridade do Imperador D. Pedro I e de
seus ministros.
Guerra da Independência na Bahia
Desde fevereiro de 1822, dominava a Bahia e a respectiva Junta Governativa o
brigadeiro Inácio Madeira de Melo, fiel à Coroa portuguesa. No entanto,
pronunciou-se contra a Junta Provincial a Câmara de Vila da Cachoeira, que
organizou, com apoio de outras populações baianas, uma Junta Conciliatória e
de Defesa favorável a D. Pedro, a quem solicitou auxílio.
Imediatamente, o governo do Rio de Janeiro enviou, para auxiliar os patriotas
baianos, uma força naval comandada pelo chefe de divisão Rodrigo Antônio De
Lamarre, levando, além do brigadeiro Pedro Labatut, francês a serviço do
Brasil, mais de duas centenas de soldados, artilharia e munição.
Todos esses vínculos de D. Pedro com Portugal tiveram, como veremos,
significação muito séria, colocando em posição de desconfiança, no país
recém-autônomo, o seu próprio governante. Os brasileiros temiam que,
confundindo-se na mesma pessoa o governante brasileiro e o futuro governante
português, surgisse eventualmente a emergência da opção ou da solução de
unir os dois países sob o mesmo mandatário, o que quebraria o sentido da
autonomia.
No sentido internacional, as forças reacionárias (ligadas aos restos do
modo feudal de produção, ainda existente na Europa) contrárias à autonomia
do Brasil e favoráveis ao restabelecimento do domínio luso, opunham-se às forças
que defendiam a autonomia brasileira, mas a desejavam realizada sob a égide de
um regime político monárquico. Com efeito, para essas forças, destacando-se a
burguesia industrial britânica, temerosas de uma radicalização de cunho
popular do processo da independência do Brasil, a monarquia significava a
certeza de que a emancipação política de nosso país seria completada sem
alterações sociais profundas.
Os aspectos sociais externos do problema ficaram bem evidenciados nas negociações
para o reconhecimento da autonomia brasileira pelas nações européias. Os
aspectos internos ficaram claros no conflito, iniciado logo após a autonomia,
entre a classe senhorial -- que queria preservar nossa estrutura
social vigente -- e as classes populares, cujas manifestações políticas
tinham sido contidas durante todo o período colonial e pretendiam, agora,
além da separação política, reformas de caráter social e, alguns, até a própria
mudança do regime.
Apesar da existência dessa grave dissensão no interior do organismo social
brasileiro, um ponto de vista era comum a todas as lideranças políticas da época,
quer radicais, quer conservadoras: a desconfiança em relação ao Imperador
Constitucional, pela ambigüidade de sua posição.
Proclamada a Independência, os antagonistas presentes no corpo social do
Brasil (autonomistas versus lusitanófilos e conservadores versus liberais
reformistas ou revolucionários) geraram prolongados e sangrentos
conflitos, que se estenderam por todo o Primeiro Reinado e pela Regência (1831
- 1840). O ano de 1823, a rigor o primeiro de nossa vida autônoma, marcou o início
de todas essas lutas. (Veja no quadro a seguir como se dispunham as forças políticas
antagônicas e os interesses que elas representavam).
Logo após a proclamação da Independência do Brasil em São Paulo, D.
Pedro regressou ao Rio de Janeiro, onde foram tomadas as primeiras providências
relativas à nova situação política vivida pelo país. A 18 de setembro de
1822, eram estabelecidas as novas armas, escudos e bandeira do Brasil.
Em seguida, concedeu-se anistia a todas as pessoas envolvidas em questões
políticas, excluindo-se, porém, os acusados que já estivessem presos e sob
processo. Pouco depois, entre o conservador José Bonifácio, chefe do Ministério
e direto colaborador de D. Pedro, e os líderes liberais reformistas (quase
todos maçons), surgiram sérias divergências, por estes desejarem que no
momento da aclamação do imperador também fosse jurada a Constituição, para
cuja elaboração fora convocada uma Assembléia. Nesse episódio, entretanto,
prevaleceu a opinião do ministro.
A Constituição da Mandioca
O projeto de Antônio Carlos, composto de 272 artigos,era um código
constitucional liberal e relativamente jacobino (antilusitano), calcado em idéias
de tratadistas estrangeiros, principalmente as expressas por Benjamim Constant,
em seu Cours de Politique Constitutionelle. Uma característica curiosa
do texto de Antônio Carlos era a de conferir aos cidadãos o direito de eleger
ou ser eleito, de acordo com seu poder aquisitivo, tomando como base de cálculo
uma mercadoria de consumo corrente em nosso país: a farinha de mandioca. Assim
para que alguém pudesse ser eleitor de paróquia ou de província,
deputado ou senador, seria necessário que possuísse renda líquida anual
correspondente ao valor de 150, 250, 500 ou 1.000 alqueires de mandioca. "Tão
estranha e pitoresca exigência despertou a veia humorística do povo, donde
logo partiu o apelido destinado a ferir de ridícula Constituição da
Mandioca" (Tobias Barreto).
Entretanto, a inexperiência legislativa da maioria dos deputados e a agitação
política fizeram com que até novembro de 1823, quando foi dissolvida a
Constituinte, somente 24 artigos do longo projeto de Antônio Carlos tivessem
sido discutidos.
A Noite da Agonia
Antes da saída dos Andradas do primeiro Ministério Imperial, já alguns
incidentes haviam repercutido na Assembléia. O espancamento do jornalista Luís
Augusto May foi um deles. Com efeito, no próprio recinto da Constituinte, Antônio
Carlos quase agrediu o deputado Carneiro da Cunha que havia protestado contra
aquele fato. Com a exoneração de Antônio Carlos e de seu irmão Martim
Francisco, tornou-se mais acentuada a oposição de alguns deputados ao governo
e ao próprio imperador. Além disso, extramuros, a imprensa oposicionista,
notadamente a de orientação andradista, tornou-se bastante ativa. O Tamoio e O
Sentinela à Beira-Mar da Praia Grande publicaram assinados com o pseudônimo
de "Um brasileiro oculto" contra os oficiais portugueses. Estes
reagiram espancando David Pamplona, apontado como autor dos referidos artigos.
A agressão contra Pamplona transformou-se em grave caso político.
Rapidamente, na própria Assembléia, agravaram-se as divergências entre os
partidários da consolidação da Independência e os componentes do Partido
Português, agora assessorando D. Pedro. A sessão da Constituinte do dia 10 de
novembro foi tão agitada que seu presidente, João Severiano Maciel da Costa,
suspendeu-a, adiando os trabalhos para o dia seguinte.
A 11 de novembro, D. Pedro enviou à Assembléia uma mensagem, exigindo-lhe
satisfação aos oficiais lusitanos. Os deputados perceberam que a Constituinte
estava ameaçada. Por proposta de Antônio Carlos a Assembléia
declarou-se em sessão permanente e nela ficaram os constituintes durante toda a
noite do dia 11, denominada "A noite da Agonia". Na manhã seguinte,
por ordem do imperador, as tropas acampadas em São Cristóvão dissolveram a
Constituinte, prendendo, em seguida, diversos deputados da oposição, entre os
quais Antônio Carlos.
Guerra da Independência do Piauí
No Piauí, logo que souberam da proclamação da independência, os patriotas
da Vila de São João da Paraíba aderiram à causa nacional. Não tardou que,
de Oeiras, capital da província, partisse, para combatê-los, o governador
português, major João José da Cunha Fidié. Porém, durante sua ausência, na
própria cidade de Oeiras, ocorreu outro pronunciamento dos partidários da
Independência.
Conseguindo o referido governador dominar a situação também naquela vila,
os partidários de D. Pedro recorreram à Junta Governativa do Ceará. Esta
determinou que fossem enviados ao Piauí, com reforços, o governador José
Pereira Figueiras e seu assessor Tristão Gonçalves Pereira de Alencar.
Apesar de seu valor, os patriotas das duas províncias foram vencidos em
Jenipapo, em março de 1823. Entretanto, Fidié não pôde impedir que outras
povoações piauienses manifestassem sua adesão ao Império. Finalmente,
indo guarnecer a vila maranhense de Caxias, o oficial português acabou sendo aí,
encurralado e negociou a paz a 26 de julho de 1823. Enquanto isso, o Piauí
passou para as mãos dos partidários da Independência, entre os quais se
destacaram Simplício Dias da Silva e Manuel de Sousa Martins.
Guerra da Independência da Província Cisplatina
Em junho de 1822, haviam protestado fidelidade ao governo de Lisboa as tropas
lusitanas que, sob o comando de Álvaro da Costa de Souza Machado, guarneciam
Montevidéu. Por outro lado, as forças dirigidas pelo tenente-general Carlos
Frederico Lecor, então Barão de Laguna, manifestaram a sua adesão ao príncipe
D. Pedro.
Álvaro da Costa fortificou-se com suas tropas na Capital cisplatina,
enquanto Lecor, cuja tropa era menos numerosa, retirou-se para o interior,
ultimando os preparativos para cercar Montevidéu.
Em outubro de 1823, chegava a Cisplatina uma divisão naval brasileira
que, após bloquear o rio da Prata, atacou os navios portugueses ali ancorados.
Percebendo que não receberia reforços de Portugal, Álvaro da Costa assinou um
acordo com as imperiais, estabelecendo condições para a retirada de suas forças
rumo a Lisboa.