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Uma Noite no Lírico
- Lima Barreto
Poucas vezes ia ao antigo Pedro II, e as poucas em que lá fui, era das galerias
que assistia ao espetáculo.
Munido do competente bilhete, às oito horas, entrava, subia, procurava o lugar
marcado e, nele, mantinha-me, durante a representação. De forma que aquela
sociedade brilhante que eu via formigar nos camarotes e nas cadeiras, me
aparecia distante, colocada muito afastada de mim, em lugar inacessível, no
fundo de cratera de vulcão extinto. Cá do alto, debruçado na grade, eu sorvia o
vazio da sala com a volúpia de uma atração de abismo. As casacas corretas, os
uniformes aparatosos, as altas toilettes das senhoras, semeadas entre
eles, tentavam-me, hipnotizavam-me. Decorava os movimentos, os gestos dos
cavalheiros e procurava descobrir a harmonia oculta entre eles e os risos e os
ademanes das damas.
Nos intervalos, encostado a uma das colunas que sustentam o teto, observando os
camarotes, apurava o meu estudo do hors-ligne, do distinto, com os
espectadores que ficavam nas lojas.
Via correrem-se-lhes os reposteiros, e os cavalheiros bem encasacados, juntarem
os pés, curvarem ligeiramente o corpo, apertarem ou mesmo beijarem a mão das
damas que se mantinham eretas, encostadas a uma das cadeiras, de costas para a
sala, com o leque em uma das mãos caídas ao longo do corpo. Quantas vezes não
tive ímpetos de ali mesmo, com risco de parecer doido ao polícia vizinho, imitar
aquele cavalheiro?
Quase tomava notas, desenhava esquemas da postura, das maneiras, das mesuras do
elegante senhor...
Havia naquilo tudo, na singular concordância dos olhares e gestos, dos ademanes
e posturas dos interlocutores, uma relação oculta, uma vaga harmonia, uma
deliciosa equivalência que, mais do que o espetáculo do palco, me interessavam e
seduziam. E tal era o ascendente que tudo isso tinha sobre o meu espírito que,
ao chegar em casa, antes de deitar, quase repetia, com o meu velho chapéu de
feltro, diante do meu espelho ordinário, as performances do cavalheiro.
Quando cheguei ao quinto ano do curso e os meus destinos me impuseram, resolvi
habilitar-me com uma casaca e uma assinatura de cadeira do Lírico. Fiz
consignações e toda a espécie de agiotagem com os meus vencimentos de
funcionário público e para lá fui.
Nas primeiras representações, pouco familiarizado com aquele mundo, não tive
grandes satisfações; mas, por fim, habituei-me.
As criadas não se fazem em instantes duquesas? Eu me fiz logo homem de
sociedade.
O meu colega Cardoso, moço rico, cujo pai enriquecera na indústria das
indenizações, muito concorreu para isso.
Fora simples a ascensão do pai à riqueza. Pelo tempo do governo provisório, o
velho Cardoso pedira concessão para instalar uns poucos de burgos agrícolas, com
colonos javaneses, nas nascentes do Purus; mas, não os tendo instalado no prazo,
o governo seguinte cassou o contrato. Aconteceu, porém, que ele provou ter
construído lá um rancho de palha. Foi para os tribunais que lhe deram ganho de
causa, e recebeu de indenização cerca de quinhentos contos.
Encarregou-se o jovem Cardoso de me apresentar ao "mundo", de me informar sobre
toda aquela gente. Lembro-me bem que, certa noite, me levou ao camarote dos
Viscondes de Jacarepaguá. A viscondessa estava só; o marido e a filha tinham ido
ao buffet. Era a viscondessa uma senhora idosa, de traços empastados, sem relevo
algum, de ventre proeminente, com um pince-nez de ouro trepado sobre o
pequeno nariz e sempre a agitar o cordão de ouro que prendiam grande leque
rococó.
Quando entramos, estava sentada, com as mãos unidas sobre o ventre, tendo o
fatal leque entre elas, o corpo inclinado para trás e a cabeça a repousar sobre
o espaldar da cadeira. Mal desmanchou a posição em que estava, respondeu
maternalmente aos cumprimentos, e interrogou o meu amigo sobre a família.
— Não desceram de Petrópolis, este ano?
— Meu pai não tem querido... Há tanta bexiga...
— Que medo tolo! Não acha doutor? dirigindo-se a mim.
Respondi:
— Penso assim também, viscondessa.
Ela ajuntou então:
— Olhe, doutor... como é a sua graça?
— Bastos, Frederico.
— Olhe, doutor Frederico; lá em casa, havia uma rapariga... uma negra... boa
rapariga...
E, por aí, desandou a contar a história vulgar de uma pessoa que trata de outra
atacada de moléstia contagiosa e não apanha doença, enquanto a que foge, vem a
morrer dela.
Depois da sua narração, houve um curto silêncio; ela, porém, o quebrou:
— Que tal, o tenor?
— E bom, disse o meu amigo. Não é de primeira ordem, mas se o pode ouvir...
— Ah! O
Tamagno! suspirou a viscondessa.
— O câmbio está mau, refleti; os empresários não podem trazer notabilidades.
— Nem tanto, doutor! Quando estive na Europa, pagava por um camarote quase a
mesma cousa que aqui... Era outra cousa! Que diferença!
Como houvessem anunciado o começo do ato seguinte, despedimo-nos. No corredor,
encontramos o visconde e a filha. Cumprimentamo-nos rapidamente e descemos para
as cadeiras.
Meu companheiro, segundo a praxe elegante e desgraciosa, não quis entrar logo.
Era mais chic esperar o começo do ato... Eu, porém, que era novato, fui
tratando de abancar-me. Ao entrar, na sala, dei com o Alfredo Costa, o que me
causou grande surpresa, por sabê-lo, apesar de rico, o mais feroz inimigo
daquela gente toda.
Não foi durável o meu espanto. Juvenal tinha posto a casaca e cartola, para
melhor zombar, satirizar e estudar aquele meio.
— De que te admiras? Venho a este barracão imundo, feio,
pechisbeque, que faz
todo o Brasil roubar, matar, prevaricar, adulterar, a fim de rir-me dessa gente
que tem as almas candidatas ao pez ardente do inferno. Onde estás?
Disse-lhe eu, ao que ele me convidou:
— Vem para junto de mim... Ao meu lado, a cadeira está vazia e o dono não virá.
E a do Abrantes que me avisou disso, pois, no fim do primeiro ato, me disse que
tinha de estar em certo lugar especial... Vem que o lugar é bom para observar.
Aceitei. Não tardou que o ato começasse e a sala se enchesse... Ele logo que a
viu assim, falou-me:
— Não te dizia que, daqui, tu poderias ver quase toda a sala?
— E verdade! Bela casa!
— Cheia, rica! observou o meu amigo com um acento sarcástico.
— Há muito que não via tanta gente poderosa e rica reunida.
— E eu há muito tempo que não via tantos casos notáveis da nossa triste
humanidade. Estamos como que diante de vitrinas de um museu de casos de
patologia social.
Estivemos calados, ouvindo a música; mas, ao surgir na boca de um camarote, à
minha direita, já pelo meio do ato, uma mulher, alta, esguia, de grande porte,
cuja tez moreno-claro e as jóias rutilantes saíam muito friamente do fundo negro
do vestido, discretamente decotado em quadrado, eu perguntei:
— Quem é?
— Não conheces? A Pilar, a "Espanhola".
— Ah! Como se consente?
— E um lugar público... Não há provas. Demais, todas as "outras" a invejavam...
Tem jóias caras, carros, palacetes...
— Já vens tu...
— Ora! Queres ver? Vê o sexto camarote de segunda ordem, contando de lá para cá!
Viste?
— Vi.
— Conheces a senhora que lá está?
— Não, respondi.
— E a mulher do
Aldong, que não tem rendimentos, sem profissão conhecida ou com
a vaga de que trata de negócios. Pois bem: há mais de vinte anos, depois de ter
gasto a fortuna da mulher, ele a sustenta como um nababo. Adiante, embaixo, no
camarote de primeira ordem, vês aquela moça que está com a família?
— Vejo. Quem é?
— E a filha do doutor Silva a quem, certo dia, encontraram, em uma festa
campestre, naquela atitude que Anatole France, num dos Bergerets, diz ter alguma
cousa de luta e de amor... E os homens não ficam atrás...
— És cruel!
— Repara naquele que está na segunda fila, quarta cadeira, primeira classe.
Sabes de que vive?
— Não.
— Nem eu. Mas, ao que corre, é banqueiro de casa de jogo. E aquele general,
acolá? Quem é?
— Não sei.
— O nome não vem ao caso; mas sempre ganhou as batalhas... nos jornais. Aquele
almirante que tu vês, naquele camarote, possui todas as bravuras, menos a de
afrontar os perigos do mar. Mais além, está o Desembargador Genserico...
Costa não pôde acabar. O ato terminava: palmas entrelaçavam-se, bravos soavam. A
sala toda era uma vibração única de entusiasmo. Saímos para o saguão e eu me pus
a ver todos aqueles homens e mulheres tão maldosamente catalogados pelo meu
amigo. Notei-lhe as feições transtornadas, o tormento do futuro, a certeza da
instabilidade de suas posições. Vi todos eles a arrombar portas, arcas,
sôfregas, febris, preocupados por não fazer bulha, a correr à menor que fosse...
E ali, entre eles, a "Espanhola" era a única que me aparecia calma, segura dos
dias a vir, sem pressa, sem querer atropelar os outros, com o brilho estranho da
pessoa humana que pode e não se atormenta...