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Tudo Começou com Maquiavel - Luciano Gruppi
Este livro é uma rara combinação do rigor científico no exame do surgimento e da
consolidação do Estado moderno com um texto enxuto de leitura extremamente
agradável. Além das qualidades conhecidas de Gruppi como filósofo e escritor,
contribui para esse bom resultado a estrutura didática deste trabalho, que, na
verdade, é um curso no sentido literal.
O livro foi feito a partir de uma
cuidadosa edição, realizada pelo jornalista Dario Canali (que também é autor da
impecável tradução), das aulas proferidas por Luciano Gruppi no Instituto
Palmiro Togliatti de Roma. Assim, este "Tudo Começou com Maquiavel" consegue
ser, ao mesmo tempo, obra indispensável tanto para quem realiza estudo
sistemático sobre as questões da política e do Estado moderno, como também para
os que buscam através de uma leitura agradável coexacerbou-se
ao limite: a acumulação sem trabalho, no capitalismo do ultraliberalismo, só
gera autoritarismo - pelos monopólios - e manipulação; logo, “a mera
liberdade” e a “simples propriedade”, mesmo dos meios de produção desde que
não-monopolistas, não tem mais qualquer identidade. A relação indissociável
entre propriedade e liberdade perverteu-se na identidade entre capital
financeiro (capital desvinculado dos processos de produção) e a dominação
manipulatória (que automatiza e aliena as liberdades).
OS PENSADORES
POLÍTICOS DESDE NICOLAU MAQUIAVEL
NICOLAU MAQUIAVEL
(1469 - 1527)
Maquiavel, ao refletir sobre a liberdade de sua época, elaborou não uma teoria
do Estado moderno, mas sim uma teoria de como se formam os Estados, de como na
verdade se constitui o Estado moderno. Isso é o começo da ciência política; ou,
se quisermos, da teoria e da técnica da política da política entendida como uma
disciplina autônoma, separada da moral e da religião.
O Estado, para Maquiavel, não tem
mais função de assegurar a felicidade e a virtude, segundo afirmava Aristóteles.
Também não é mais - como para os pensadores da Idade Média - uma preparação dos
homens ao Reino de Deus.
Para Maquiavel o Estado passa a ter suas próprias
características, faz política, segue sua técnica e suas próprias leis. Logo no
começo de O príncipe, Maquiavel escreve: "Como minha finalidade é a de
escrever coisa útil para quem a entender, julguei mais conveniente acompanhar a
realidade efetiva do que a imaginação sobre esta". Trata-se já da linha do
pensamento experimental, na mesma senda de Leonardo da Vinci: as coisas como
elas são, a realidade política e social como ela é, a verdade efetiva.
Isso significa que devemos estudar
as coisas como elas são e devemos observar o que se pode e é necessário fazer, e
não aquilo que seria certo fazer.
Maquiavel afirma: "Há uma dúvida se é melhor sermos amados do que temidos, ou
vice-versa. Deve-se responder que gostaríamos de ter ambas as coisas, sendo
amados e temidos; mas, como é difícil juntar as duas coisas, se tivermos que
renunciar a uma delas, é muito mais seguro sermos temidos do que amados... pois
dois homens, em geral, podemos dizer o seguinte: eles são ingratos, volúveis,
simuladores e desestimuladores; eles furtam-se aos perigos e são ávidos de
lucrar. Enquanto você fizer o bem para eles, são todos teus, oferecem-te seu
próprio sangue, suas posses, suas vidas, seus filhos. Isso tudo até o momento
que você não tem necessidade. Mas, quando você precisar, eles viram as costas.
Com isso, Maquiavel contradiz profundamente o que ele próprio havia escrito
sobre a primeira década de Tito Lívio: isto é, que o poder baseia-se na
democracia, no consentimento do povo, entendendo-se como povo a burguesia do seu
tempo. Mas agora Maquiavel pensa na construção de um Estado unitário e moderno,
portanto do Estado absoluto, e descreve o que será o processo real da formação
dos Estados unitários.
Maquiavel funda uma nova moral que é a do cidadão, do homem que constrói o
Estado; uma moral imanente, mundana, que vive no relacionamento entre os homens.
Não é mais a moral da alma individual, que deveria apresentar-se ao julgamento
divino "formosa" e limpa.
THOMAS ROBBES (1588 -
1679)
Começam assim a surgir os fundamentos da teoria moderna do Estado, que
posteriormente receberá uma formulação mais completa nos séculos XVII e XVIII
pelo filósofo inglês Thomas Hobbes.
A teoria do Estado de Hobbes é a seguinte: quando os homens primitivos vivem no
estado natural, como animais, eles se jogam uns contra os outros pelo desejo de
poder, de riquezas, de propriedades. É o impulso à propriedade burguesa que se
desenvolve na Inglaterra: "homo homini lupus", cada homem é um lobo para o seu
próximo.
Mas como, dessa forma, os homens destroem-se uns aos outros, eles
percebem a necessidade de se estabelecerem entre eles um acordo, um contrato. Um
contrato para constituírem um Estado que refreie os lobos, que impeça o
desencadear-se dos egoísmos e a destruição mútua. Esse contrato cria um estado
absoluto, de poder absoluto (Hobbes apresenta nuanças que lembram Maquiavel).
A noção do Estado como contrato releva o caráter mercantil, comercial das
relações sociais burguesas. Os homens, por sua natureza, não seriam propensos a
criarem um Estado que limitasse a sua liberdade; eles estabelecem as restrições
em que vivem dentro do Estado, segundo Hobbes, com a finalidade de obter dessa
forma sua própria conservação e uma vida mais confortável. Isto é, para saírem
da miserável condição de guerra permanente que é a conseqüência necessária das
paixões naturais.
Mas os pactos, sem espadas, não passam de palavras sem força: por isso o pacto
social, a fim de permitir aos homens a vida em sociedade e a superação de seus
egoísmos, deve produzir um Estado absoluto, duríssimo em seu poder.
J.J. Rosseau, posteriormente, vai opor a Hobbes uma brilhante objeção: ao dizer
que o homem, no estado natural, é um lobo para seus semelhantes, Hobbes não
descreve a natureza do homem mas sim os homens de sua própria época. Rosseau não
chega a dizer que Hobbes descreve os burgueses de sua época; mas, na realidade,
Hobbes descreve o surgimento da burguesia, a formação do
mercado, a luta e a crueldade que o caracterizam.
JOHN LOCKE
(1632-1704)
Não se trata aqui da revolução de 1648, mas da Segunda revolução, que
concluiu-se em 1689. Foi uma revolução do tipo liberal, que assinalou um acordo
entre a monarquia e a aristocracia, por uma lado, e a burguesia, pelo outro.
Isso ocasionou o surgimento de normas parlamentares, bem como uma condução do
Estado fundada numa declaração dos direitos do parlamento, que foi definida em
1689. Na década anterior, surgira o habeas corpus (que tenhas o teu
corpo), dispositivo que dificulta as prisões arbitrárias, sem uma denúncia bem
definida. O habeas corpus estabelece algumas garantias que transformam o
"súdito" num "cidadão". Nasce assim o cidadão, justamente na Inglaterra, e John
Locke é o seu teórico.
Locke observa que o homem no estado natural está plenamente livre, mas sente a
necessidade de colocar limites à sua própria liberdade. Por quê? A fim de
garantir a sua propriedade. Até que os homens sejam completamente livres, existe
entre eles uma luta que não garante a propriedade e, por conseguinte, tampouco
uma liberdade durável.
Locke afirma que os homens se juntam em sociedades políticas e submetem-se a um
governo com a finalidade principal de conservarem suas propriedades. O estado
natural (isto é, a falta de um Estado) não garante a propriedade. É necessário
constituir um Estado que garanta o exercício da propriedade, a segurança da
propriedade.
Visando isso, estabelece-se entre os homens um contrato que origina tanto uma
sociedade, como também os Estado (para Locke, as duas coisas vão juntas).
O Estado também aí surge um contrato. Para Hobbes, porém, esse contrato gera um
Estado absoluto, enquanto para Locke o Estado pode ser feito e desfeito como
qualquer contrato. Isto é, se o Estado ou o governo não respeitar o contrato,
este vai ser desfeito. Portanto, o governo deve garantir determinadas
liberdades: a propriedade, e também aquela margem de liberdade política e de
segurança pessoal sem o que fica impossível o exercício da propriedade e a
própria defesa da liberdade. Já estão implícitos, aqui, os fundamentos de
algumas liberdades políticas que devem ser garantidas: a da assembléia, a da
palavra, etc. Mas, em primeiro lugar, a liberdade de iniciativa econômica.
O Estado é soberano, mas sua autoridade vem somente do contrato que o faz
nascer: este é o fundamento liberal, sem dúvida progressista, do pensamento de
John Locke. O Estado não recebe sua soberania de nenhuma outra autoridade.
A relação entre propriedade e liberdade é extremamente evidente: o poder supremo
não pode tirar do homem uma parte de suas propriedades sem o seu consentimento.
Pois a finalidade de um governo e de todos os que entram em sociedade é a
conservação da propriedade.
Locke afirma que a propriedade é objeto de herança, pois o pai transmite a
propriedade aos filhos; o poder político, ao contrário, não se transmite pela
herança, deve Ter uma origem democrática, parlamentar.
A sociedade política e a sociedade civil obedecem a normas e leis diferentes.
Todos os direitos de propriedade são exercidos na sociedade civil e o Estado não
deve interferir, mas sim garantir e tutelar o livre exercício de propriedade
JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712 - 1778)
Para Rousseau existe uma condição natural dos homens, mas é uma condição
de felicidade, de virtude e de liberdade, que é destruída a apagada pela
civilização. É a concepção oposta àquela de Hobbes.
Para Rousseau, é a civilização que perturba as relações humanas, que violenta a
Humanidade, pois os homens nascem livres e iguais ( eis o princípio que vai se
afirmar na revolução burguesa), mas em todo lugar estão acorrentados. Na
verdade, porém, os homens não nascem nem livres nem iguais, só se tornam assim
através de um processo político. Assim Rousseau também acaba atribuindo a uma
suposta condição natural aquilo que, pelo contrário é uma conquista da história
social, da ideologia.
Para Rousseau, os homens não podem renunciar a esses bens essenciais de sua
condição natural: a liberdade e igualdade. Eles devem constituir-se me
sociedade. Também para Rousseau a sociedade nasce de um contrato, ele apresenta
a mesma mentalidade comercial e o mesmo individualismo burguês. O indivíduo é
preexistente e funda a sociedade através de um acordo, de um contrato.
A sociedade, o povo, nunca podem perder sua soberania, a qual pertence ao povo e
só ao povo. Por conseguinte o povo nunca deve criar um Estado distinto ou
separado de si mesmo. O único órgão soberano é a assembléia (Rousseau é o
primeiro teórico da assembléia) e nesta é que se expressa a soberania.
A afirmação da igualdade é fundamental para Rousseau. O homem só pode ser livre
se for igual: assim que surgir uma desigualdade entre os homens acaba-se a
liberdade.
Mas é interessante observar que, para Rousseau, deixa de existir a separação
dos três poderes que Montesquieu tinha fixado em começos de 1700; o poder
legislativo (Parlamento), o poder executivo (Governo) e o poder judiciário.
Montesquieu fez essa distinção a fim de limitar o poder executivo, que estava
nas mãos do soberano, preconizado uma monarquia de tipo constitucional.
Ao invés disso, Rousseau nega a distinção entre os poderes, visando afirmar
acima de tudo o poder da assembléia. Não pode existir um poder executivo
distinto do assembléia, do poder representativo (é a idéia que Lênin retomar
plenamente, pois nos Sovietes os poderes legislativo e executivo identificam-se
e o poder representativo é dominante.
Outra contradição aparece quanto à soberania da assembléia. A assembléia não
deve delegar o seu poder, o povo nunca pode transferir sua soberania, nem que
seja por um instante. Conseqüentemente, há uma identidade entre sociedade
política e sociedade civil. Mas o próprio Rousseau afirma que um povo não pode
ficar sempre reunido em assembléia, pois existe uma dificuldade prática, real.