O Realismo e o Naturalismo
foram as duas escolas literárias de domínio no fim do século XIX e início
do século XX. Sua contra-parte na poesia é chamada de Parnasianismo. Apesar
de se parecerem, o Realismo e o Naturalismo tem diferenças e quanto ao
Parnasianismo, apesar de dominante não foi o único estilo de poesia da época,
apesar de ter sido o dominante. O mais importante autor realista e maior
escritor do Brasil foi Machado de Assis, que possui página
em separado. Outro autor importante na época foi o naturalista Inglês de
Sousa, redator dos estatutos da ABL.
Raul Pompéia
Raul D'Ávila Pompéia teve uma
infância rica e reclusa. Seus pais eram donos de uma fazenda de cana-de-açúcar
e o mandaram para um internato com 10 anos, em 1863. Lá recebeu influências
para escrever O Ateneu e escreveu seu primeiro livro, antes dos 15 anos, muito
aclamado pela crítica da época, especialmente por ser o autor tão jovem.
Mais tarde estudou num Externato e foi estudar Direito, colaborando também
com jornais e revistas. Era abolicionista e republicano. Muito sensível, este
professor, político, jornalista, escritor e polemista se suicidou em 1895.
Foi um escritor que não se pode enquadrar em único estilo, tendo influências
naturalistas, realistas, expressionistas e impressionistas. Sua obra de maior
importância é O Ateneu, que tem algum caráter autobiográfico.
Nas passagens a seguir, note a linguagem rebuscada que o autor usa.
"Vais encontrar o mundo,
disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." O Ateneu
"Falavam do incendiário.
Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora
com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença
suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele
pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido,
a conquista inapreciável de seus esforços!... Em paz!... Não era um homem
aquilo; era um de profundis." O Ateneu
Aluísio de Azevedo
Aluísio Tancredo Gonçalves de
Azevedo foi desenhista e mais tarde escritor profissional, se envolveu na política
maranhense, fundou jornais e publicou o primeiro livro naturalista brasileiro,
O Mulato. Foi o primeiro escritor brasileiro a ter a literatura
exclusivamente como profissão. Sua obra variou em qualidade, tendo feito
alguns dramalhões românticos que considerava de má qualidade - e eram - e
obras naturalistas de relevância - junto com outras de nem tanta relevância.
Mais tarde se desgostou da literatura e ingressou no serviço público. Foi
membro da ABL. O que se segue são passagens de suas obras mais famosas, as
naturalistas O Mulato, O Cortiço e Casa
de Pensão.
"Naquela mulata estava o
grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui:
ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da
fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas
matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a
nenhuma outra planta; era o veneno e era açúcar gostoso; era o sapoti mais
doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com seu azeite de
fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca
doida, que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra,
piscando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha
daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de
prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita
Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca." O
Cortiço
"Bertoleza então,
erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém
conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o
ventre de lado a lado." O Cortiço
"Sua pequena testa, curta
e sem espinhas, margeada de cabelos crescendo, não denunciava o que naquela
cabeça havia de voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e modesto, não
deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento cálido e desensofrido."
Casa de Pensão
"Então, fechou novamente
os olhos estremecendo, esticou o corpo - e uma palavra doce esvoaçou-lhe nos
lábios entreabertos, como um fraco e lamentoso apelo de criança: - Mamãe!...
E morreu." Casa de Pensão
"Raimundo tinha vinte e
seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes
olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez
morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do
bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa.
A parte mais característica de sua fisionomia eram os olhos - grandes
ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras
de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como
a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba
raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel
de arroz." O Mulato
"Ana Rosa estremeceu toda,
deu um grito, ficou lívida, levou as mãos aos olhos. Parecia-lhe ter
reconhecido Raimundo naquele corpo ensangüentado. Duvidou e, sem ânimo de
formular um pensamento, abriu de súbito as vidraças.
Era, com efeito, ele.
(...) A moça deixou atrás de si, pelo chão, um grosso rastro de sangue, que
lhe escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os pés. E, no lugar da queda,
ficou no assoalho uma enorme poça vermelha." O Mulato
Artur Azevedo
Artur Nabantino Gonçalves de
Azevedo (1855-1908), irmão mais velho de Aluísio de Azevedo, foi contista,
jornalista, tradutor, crítico e, principalmente, teatrólogo. Autor de mais
de 70 peças de teatro, pode junto com Martins Pena ser
considerado um dos criadores da dramaturgia nacional. Sua obra era afinada com
o gosto popular, e continham, assim como sua poesia e seus contos, elementos cômicos.
Artur Azevedo teve vários empregos burocráticos (como muitos escritores do século
XIX) enquanto escrevia. Azevedo também é o provável autor da primeira crítica
de cinema nacional.
Coelho Neto
Henrique Maximiliano Coelho
Neto (1864-1934) foi em sua época o que hoje é Paulo Coelho em termos de
Literatura Brasileira: um escritor de grande apelo popular, prolífico e de
baixa qualidade. Deputado, o "príncipe dos prosadores brasileiros"
(como foi eleito em 1928) escrevia freneticamente não apenas romances e
contos, mas também artigos para jornais brasileiros e estrangeiros.
João do Rio
João Paulo Emílio Cristóvão
dos Santos Coelho Barreto (1881-1921) foi o jornalista, cronista, contista e
teatrólogo conhecido como João do Rio, o pseudônimo com o qual assinava
seus artigos. No seu tempo, João do Rio era um dos mais importantes
jornalistas e escritores do Rio de Janeiro, sendo até mesmo aceito na ABL. E
isso era muito estranho para sua época, já que João do Rio era mulato,
homossexual e cocainômano numa sociedade que desprezaria qualquer uma das três
qualidades. Mas João do Rio escrevia artigos que eram muito apreciados pela
sociedade da época e se enquadram na mesma categoria de Coelho Neto:
"sorriso da sociedade".
Inglês de Sousa
Herculano Marcos Inglês de
Sousa (1853-1918), romancista e contista paraense, foi uma das principais
figuras do Naturalismo no Brasil. Influenciado pelo francês Émile Zola e
pelo português Eça de Queirós, a obra de Inglês de Sousa
tem grandes qualidades estilísticas, descritivas e narrativas, sendo um dos
regionalistas de mais destaque do século XIX, descrevendo com romances como O
Missionário os costumes da região amazônica. Pertencente à ABL, redigiu
seus estatutos internos. Ingl6es de Sousa é vítima de um mal que afeta
muitos naturalistas: sua técnica um tanto pomposa e artificial é de certa
monotonia.
Domingos Olímpio
Nascido em Sobral, Ceará, a 18
de setembro de 1850, o escritor naturalista Domingos Olímpio Braga Cavalcanti
foi um dos poucos e um dos últimos de sua escola. Em 1873 tornou-se bacharel
em Direito em Recife voltou ao Ceará para exercer o jornalismo como
abolicionista e republicano; casou-se dois anos depois, quando também foi
escolhido promotor público. Quatro anos depois, forçado pela situação política
(era político de oposição) mudou-se para o Pará. Em 1891 muda-se para o
RJ, onde exerce o jornalismo e a advocacia. Viúvo, casa-se novamente no ano
seguinte. Em 1903 publica sua principal obra, Luzia-Homem, e
passa a escrever sob o pseudônimo de "Pojucan" na recém-fundada Os
Anais. Em 6 de outubro de 1906, falece.
"Sob os músculos
poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil, afogada no
sofrimento que não transbordava em pranto, e só irradiava , em chispas
fulvas, nos grandes olhos de luminosa treva." Luzia-Homem
"Raulino recuou, cortado
de terror, ante o cadáver; e, num turbilhão de cólera, rugiu arrepiado,
apertando os dentes, e, com uns gestos, que eram crispações medonhas de
fera, esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso." Luzia-Homem
Olavo Bilac
Jornalista, Olavo Brás dos
Martins de Oliveira Bilac nasceu a 16 de dezembro de 1865 e morreu em 28 de
dezembro de 1918. Principiou estudos de Medicina e Direito, mas abandonou
ambos para se dedicar a Literatura. Foi preso durante a Revolta da Armada por
Floriano Peixoto, tendo participado de campanhas cívicas, mas trabalhando
muito pouco em seus empregos públicos. Pertenceu à ABL, tendo sido o
principal poeta parnasiano. Sua poesia por vezes se afastava do ideal
parnasiano, mas escreveu muitas poesias tecnicamente impecáveis. Considerado
um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, observe na passagem
abaixo o ideal parnasiano que ele e os outros poetas a seguir buscavam.
"Quero que a estrofe
cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:"
Alberto de Oliveira
Antônio Mariano Alberto de
Oliveira (1859-1937) cursou Medicina e formou-se em Farmácia. O mais
parnasiano dos poetas, começou com poesia romântica. Foi funcionário público
e professor o Príncipe dos Poetas, membro fundador da ABL. Sua poesia era
altamente descritiva e de grande cuidado na forma, como atesta a passagem
abaixo.
"Estranho mimo aquele
vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado."
Raimundo Correia
Raimundo da Mota Azevedo
Correia (1860-1911) formou-se em Direito e foi magistrado e diplomata, tendo
se aproximado do Simbolismo com sua poesia amargurada e intensa, que tem a
seguir uma amostra.
"Quanta gente que ri,
talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!"