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Primeiras
estórias - João Guimarães Rosa
´Causos' que
trazem o encanto e a magia
De acordo com o próprio
autor, em Primeiras Estórias (1962) há a intenção de apresentar
fábulas para as crianças do futuro. Seus 21 contos, portanto, são narrativas
preocupadas em tematizar, simbolicamente, os segredos da existência humana.
Para tanto, utilizará sempre personagens que estão à margem da sociedade, as
mais preparadas para transcender a realidade (fato proibido em Vidas
Secas, como se pode perceber no capítulo “O Menino Mais Velho”).
Todas se encaminharão para um momento de epifania (grande revelação), na
maioria das vezes intuído, em que excederão sua própria condição. São,
portanto, histórias de excessos.
AS MARGENS DA ALEGRIA
Esse primeiro conto é considerado, com o último, a moldura do livro, já que
apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente. O protagonista, o menino, faz
uma viagem de avião até a casa do Tio (a maiúscula alegorizante – Mãe, Pai, Tio,
Tia – sempre é usada para se referir às personagens, o que contribui para
atribuir-lhes um caráter genérico, até mítico) numa cidade em construção,
provavelmente Brasília. Esse passeio, como informa o narrador, é na máxima
felicidade. Os adultos estão sempre o afagando. Tudo é belo e novo. E antes
mesmo que tenha consciência das necessidades, já é satisfeito. Tais descrições
conferem com a idéia que se faz do Paraíso. É onde a criança parece estar.
O clímax de tanta felicidade
vai-se dar quando o Menino encontra um peru majestoso. Mas dura pouco tempo,
pois, depois de um passeio, o garoto fica sabendo que a ave havia sido morta
para o aniversário do Tio. Sua tristeza é aumentada quando depois presencia a
derrubada de uma árvore. É o contato com as imperfeições da vida: a morte e,
conseqüentemente, a passagem do tempo. Cai do Paraíso.
Tem um momento ilusório: é
quando pensa ter visto de novo o tão amado peru. Na realidade, era outro, menor,
menos pomposo. Há quem enxergue aqui o platonismo, na medida em que esse segundo
pássaro seria sombra do primeiro, perfeito, já que pertencente ao mundo das
idéias.
O segundo bicho, que bica a
cabeça decepada da antiga ave, proporcionará ao menino mais experiências
difíceis ligadas ao campo da inveja e da malignidade. É o instante em que começa
a escurecer, tanto denotativamente (fim do dia, chegada da noite), quanto
conotativamente (contato com o lado escuro da existência).
A angústia é aliviada quando
surge, em meio à escuridão da floresta à sua frente, um vaga-lume. Sua luz em
meio ao breu simboliza a esperança que se deve ter após a queda do Paraíso, após
o mergulho nas imperfeições da condição humana. Por isso alguns associam esse
brilho aos ideais religiosos, como o próprio Espírito Santo, a nos trazer de
volta a felicidade do princípio de tudo. É um ponto bastante diferente,
portanto, do final de Macunaíma, em que o final não traz a
felicidade primitiva.
FAMIGERADO
Talvez esse conto
seja conseqüência do anterior, que nos introduziu as imperfeições da vida, como
a morte (e o medo dela) e a malignidade. O narrador, um homem culto (médico ou
farmacêutico provavelmente) depara-se com uma situação de tensão: um bandido
feroz, Damásio Siqueiras, visita-o com a intenção de saber o significado da
palavra “famigerado”.
O interessante é notar que há uma constante preocupação em descobrir o que
existe por trás das palavras. Damásio quer ter posse desse conhecimento, pois
suas ações dependem disso. O narrador quer saber por que essa curiosidade, com
medo de que tenham feito intriga contra ele. Já foi feita a associação desse
aspecto a uma explicação que Cristo havia dado sobre o fato de passar seus
ensinamentos por meio de parábolas, justo narrativas que têm a mesma função das
estórias de Guimarães Rosa. Deixa claro, o que se aplica aqui, que, para quem
não está preparado, o que conta são apenas narrativas. Mas para quem já está, há
mais do que estórias.
O conto encaminha-se para um anticlímax. O médico fica sabendo que um sujeito
havia chamado o bandido de famigerado. O facínora queria saber, portanto, se
aquela palavra seria motivo para a desgraça ou para a paz. O narrador,
ineficientemente (ou por insegurança), informa que o termo significa “inóxio”,
“douto”. A verdade não fica clara. Damásio pede para que seja usada “fala de
pobre”, de “em dia de semana”. Foi um pedido humilde. O narrador, pois, já detém
poder da situação. Expõe-lhe toda a verdade. Informa que não é nome de ofensa.
Uma leitura desatenta indicaria que o narrador censurou a verdade. De fato,
“famigerado” quer dizer “famoso, importante, que merece respeito”. Mas boa parte
das pessoas usa esse termo com o sentido de “maldito, desgraçado”. Há uma forte
possibilidade de que essa tinha sido a intenção do moço do governo. E a fala
final do narrador deixou nas entrelinhas, como uma parábola, uma estória, este
último significado. Quando Damásio lhe pede para confirmar se não se constituiu
ofensa, o interlocutor diz: “Olhe: eu, com o sr. me vê, com vantagens, hum, o
que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que
pudesse!...” De fato, mesmo proprietário, estabelecido, culto, formado, naquela
hora em que se sentia encurralado pelo medo de perder a vida, o que mais queria
era ser tão desgraçado, tão maldito quanto Damásio.
Mas o bandido não estava preparado para essa verdade. Estava diante dele, mas
não a enxergou. Estava ainda mergulhado nas trevas. Não pôde perceber o brilho
do vaga-lume. É por isso que sai desmanchando-se de felicidade e alívio.
SORÔCO, SUA MÃE, SUA FILHA
Neste conto verifica-se, de chofre, duas características típicas de Guimarães
Rosa. A primeira é a ortografia própria, que chega a se desviar muitas vezes do
padrão gramatical. Nada justifica o acento na palavra “Sorôco”. Além disso, como
em muitas personagens, o nome do protagonista carrega um significado oculto. A
sonoridade da palavra lembra “ser oco”, ou seja, alguém que busca o desapego. É
a condição para realizar o salto, a transcendência comum nos contos de
Primeiras Estórias.
Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por causa de seu sofrimento. Tem
uma mãe e uma filha loucas. Passado e futuro. Ele, no meio. Ele, a terceira
margem. A eternidade. E as proporções gigantescas dele lembram as personagens
grotescas que são castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que
foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o.
O conto inicia-se com o protagonista levando suas parentas para a estação de
trem, em que pegarão um trem que as levará a um hospício em Barbacena. A cidade
inteira está na estação, como numa espécie de apoio num momento difícil. É o que
os segura de rirem das duas figuras tão despropositadas.
Sem mais nem menos, a moça começa a cantar algo desatinado, sem sentido. Pelo
menos, para as pessoas racionais, normais. A loucura pode ser entendida como
algo divino, uma facilidade de contato com verdades superiores. O mais
interessante é que repentinamente é a mãe de Sorôco que passa a cantar o mesmo
da neta, acompanhando-a. É uma situação vexatória para Sorôco. Mas há algo de
mistério também.
As duas partem, embaladas pela cantiga. Deixam Sorôco. Este, pouco depois,
inesperadamente começa a mesma cantiga, que passa a ser acompanhada por todos na
estação, inclusive o narrador, que levam o protagonista para a sua verdadeira
casa.
Há aqui a idéia de que a solidariedade, a união ajuda a superar momentos
difíceis. Ajuda também na redenção de Sorôco. Mas há também a idéia de que o
canto desatinado – para a nossa lógica – seria uma mensagem divina com
facilidade de espalhar-se, propagar-se, levando à redenção. Como as estórias de
Guimarães Rosa. Como as parábolas.
A MENINA DE LÁ
Este conto é marcado por religiosidade desde o seu começo, o que se percebe em
seus topônimos (nomes de lugar). A história se passa num local chamado Temor de
Deus, por trás da Serra do Mim. A mãe da protagonista não tira o terço da mão,
mesmo quando dá bronca nos empregados.
Interessante é lembrar que tudo se dá perto de um brejo de águas limpas. É o
símbolo do inconsciente, reforçado se se associar ao fato de que se está por
trás da Serra do Mim. Esse aspecto faz lembrar um outro conto, “O Espelho”. Esse
objeto tem sua superfície igual à água limpa; ademais, o protagonista esforça-se
por encontrar o “eu por trás de mim”, o seu verdadeiro ser.
O inconsciente tão aflorado faz-nos entender que a personagem principal deste
conto, Nhinhinha (seu nome, o sufixo diminutivo triplicado, reforça sua
fragilidade), louca (provavelmente tem hidrocefalia), é sensitiva, dotada de
contatos místicos. Por isso, é incompreendida em seus silêncios (o que
representa a sabedoria) e principalmente em seu discurso.
Nhinhinha começa a fazer previsões, que passam para a família como milagres. Em
meio à seca, deseja ver um sapo, que aparece. Quer pamonha de goiaba e uma
mulher surge vendendo-a. Quando sua mãe fica doente, pedem que a faça melhorar,
mas a menina simplesmente diz que não pode. No entanto, abraça-a e, coincidência
ou não, a cura chega. Outra vez, pedem que traga chuva e de novo diz que não
pode. Porém, pouco tempo depois deseja ver o arco-íris. A chuva chega e, junto,
o arco. A visão dele no céu proporciona uma alegria que ela nunca tinha
expressado em sua vida. Mas, fica quieta quando recebe uma bronca de sua tia.
Após alguns dias a menina morre e revela-se o motivo da bronca: em meio à
alegria, a menina havia dito que queria um caixãozinho cor-de-rosa; a tia tinha
achado ruim aquela idéia, pois imaginou ser mau agouro.
O que de fato acontecera: o arco-íris era o aviso de Deus de que Nhinhinha
voltaria ao seio d’Ele. E isso já vinha sendo anunciado nas entrelinhas desde o
início do conto: o dedinho dela quase alcançava o céu, quando se falava de
parentes mortos, ela dizia que ia visitá-los, sem mencionar o próprio título do
texto, entre outros elementos. Esses aspectos místicos acabam transforma-a em
mais uma milagreira, como tantas crianças que povoam o imaginário popular.
OS IRMÃOS DAGOBÉ
Este conto confirma a idéia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas.
Ou então a de que do nada é que as coisas acontecem, conforme havia dito Joaquim
Norberto, em “Luas-de-Mel”. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz (parece
uma referência ao Gigante Adamastor, de Os Lusíadas), foi
surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge,
pressionado porgítima defesa. É em meio ao velório que o narrador se coloca,
para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras
conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.
O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que
havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para
mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais
quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de
Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco.
Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só
depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e
traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após
frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho,
tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de
desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior
dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.
No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus
irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a
Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam
que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.
Interessante é notar que a personagem que aplica a penalidade sobre o Mal neste
conto, como em “Fatalidade” e “A Benfazeja”, não o faz por vontade, o que
indicaria um caráter maligno. É muito mais um instrumento de algo superior,
preocupado com a ordem e o equilíbrio.
A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Este é o mais famoso e o mais aberto conto de Guimarães Rosa. Trata-se da
história do pai do narrador, chamado de nosso pai (como a incluir também o
leitor) que tem um aparente desatino: constrói uma canoa para passar o resto de
sua vida nela, numa viagem em direção à terceira margem do rio. Fica claro,
pois, que seu alvo é metafísico, já que um rio só tem duas margens. É uma viagem
em que nosso pai vai-se exceder, sair de sua condição primitiva em direção a uma
verdade superior. Assim, a imagem da água concentra algumas simbologias. Pode
estar ligada ao batismo, em que se morre para uma vida e se nasce para outra.
Assim, há uma forte ligação com “O Espelho”, que fica confirmada com a idéia de
que ambos os contos possuem a tese de que se deve buscar o verdadeiro eu (o eu
por trás de mim, idéia já presente em “A Menina de Lá”). Essa busca está no
mergulho em si mesmo, ou na busca de uma verdade religiosa ou até na própria
morte, denotativa ou conotativamente.
Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador, quando criança, queria
embarcar com o pai. Este o impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e,
chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo. É o único momento em que
o velho se manifesta, indo em direção à margem. No entanto, o narrador fica com
medo da imagem do pai, que parecia vir do outro mundo. Foge. Por isso, torna-se
a única personagem fracassada, pois não foi capaz de transcender, de realizar
seu salto.
PIRLIMPSIQUICE
O nome desse conto parece uma união de duas idéias, Pirlimpimpim, o pó de faz de
conta do Sítio do Picapau Amarelo (“Faz de conta” é a frase que o protagonista
de “Nada e a Nossa Condição” mais fala) e psique, que tanto pode significar
“alma”, “espírito”, “mente”. É a história de onze ou doze crianças que estão
ensaiando uma peça, “Os Filhos do Dr. Famoso”, para ser encenada diante da
escola. É notável como crianças, símbolo da liberdade, agem no rigor dos ensaios
constantes. Chama a atenção também como os adultos têm uma linguagem tão
empolada, próxima do vazio. O pior é que um grupo de crianças, liderado pelo
Gamboa, ficou de fora de todo esse processo e começa a espalhar que tem
conhecimento da obra que os meninos ensaiam tão em segredo. Então, como
disfarce, os atores criam uma terceira história.
Tudo perfeitamente programado, mas em cima da hora o Ataualpa, quem iria abrir a
peça, tem um parente que está para morrer e, por isso, precisa ir embora. Quem
assume o seu lugar é o narrador, que sabia todas as falas de cor, pois era o
ponto. No entanto, na estréia é que se tocaram de que a peça devia ser aberta
por um poema conhecido só pelo Ataualpa. O narrador fica parado, sem saber o que
fazer. A gafe é paga com vaias monstruosas.
A situação é salva por Zé Boné, garoto limítrofe que teve sua participação
limitada a um papel sem fala. Inesperadamente começa a encenar a própria peça do
Gamboa, no que é seguido pelos demais garotos, como se estivessem num transe,
que se transfere para a platéia, paralisando-a. Esse transe coletivo pode ser
entendido como o poder da Arte. Há, no entanto, quem o compare à primeira
manifestação do Espírito Santo diante dos apóstolos, que os fez falarem línguas
de que nem tinham conhecimento.
Perdem a noção do tempo – contato com o divino? – o que os faz não conseguirem
terminar a peça. Até que o narrador realiza um salto mortal do palco - a queda
do Paraíso, como em “As Margens da Alegria”? O quase salto de “Darandina”? A
idéia aristotélica de que o teatro é um salto para a vida? Ou a idéia de
sublimação tão comum nos contos da obra?).
NENHUM, NENHUMA
Este é o conto mais hermético da obra. Sabe-se que o narrador faz um enorme
esforço de memória, que tanto pode ser entendido com a recuperação de um sonho,
ou uma regressão psicanalítica ou até terapia de vidas passadas. E não está
descartada a hipótese de um resgate da reminiscência do mundo das idéias, bem
mais perfeito, de acordo com o platonismo.
Tudo o que o narrador consegue relatar, de forma nebulosa, imprecisa e
fragmentada, é que está de visita em uma casa, em que havia um Moço e uma Moça
que se amavam. Havia também uma velha de idade tão avançada que nem havia mais
noção de como chegara ali. Essa idéia é o motivo de os dois jovens não poderem
ficar juntos, pois a Moça precisa cuidar dela.
Desfeito o relacionamento, o menino é levado para sua casa pelo Moço. O garoto
vê o sofrimento do jovem. É um amor forte. Chegando a sua casa, o pai fala do
muro novo que está sendo construído. A mãe está preocupada em ver se a roupa do
filho estava em ordem. O garoto, indignado, berra com os pais, dizendo que eles
não sabiam nada do amor, preocupados que estavam com questões tão
insignificantes e chãs.
Há aqui três possíveis interpretações para essa reação. A primeira é a de que o
menino, conhecendo um amor tão forte como o do Moço e da Moça, fica decepcionado
quando vê os pais se perderem no prosaico. A segunda é a de que o Moço e a Moça
foram o pai e a mãe do menino no passado e no tempo presente deixaram o amor
morrer, o que frustrou o jovem. Ou então o Moço e a Moça eram a idéia perfeita
do amor, de acordo com o platonismo, enquanto o pai e a mãe seriam a cópia, a
sombra terrena desse ideal e, portanto, imperfeitos.
NADA E A NOSSA CONDIÇÃO
Este conto é considerado uma paródia dos contos de fada. No mínimo, possui
elementos desse gênero, pois seu protagonista, Tio Man’Antônio, é tão rico e bom
como os reis dessas histórias tradicionais.
A narrativa inicia-se com o enterro da esposa da personagem principal, que, a
partir desse instante, começa a realizar um movimento de desapego em que se
esvazia das posses e abastece seus próximos. Desfaz o jardim predileto de sua
falecida, o que dá a impressão de estar-se desfazendo das lembranças dela. No
aniversário de um ano de luto, dá uma festa em que consegue fazer com que suas
três filhas conheçam seus noivos. Casadas, partem. Man’Antônio vende suas
propriedades e transfere o lucro para suas filhas. Divide sua enorme fazenda
entre seus empregados, o que pode ser enxergado como um tipo de reforma agrária.
E ainda tem de se intrometer nos afazeres deles, pois sozinhos não conseguem se
virar. O senhor virou capataz – outro desapego, dessa vez de posição. Estes,
ingratamente, tratam-no de maneira silenciosamente agressiva. Acham que ainda
estava se fazendo de senhor. Talvez não perdesse sua majestade. Engrandecido
estava, mas espiritualmente, graças ao seu desapego. Já está pronto para a sua
grande viagem, a espiritual. Espera, realizado e tranqüilo, a morte, que de fato
chega. Conforme seu pedido, sua casa é incendiada, ele dentro. É a cremação. As
cinzas parecem subir, como se buscassem o Céu.
O CAVALO QUE BEBIA CERVEJA
O narrador deste conto é Reivalino, erroneamente chamado pelo protagonista,
Giovânio, de Irivalini. A personagem principal é um italiano, refugiado da
guerra, que mora numa chácara escurecida, ocultada por árvores. Tem uma dor a
ocultar, mas escondê-la é só um erro, tanto que ninguém entende o que fala. E
nem consegue a estima do narrador, que xenofobamente o acha nojento. Talvez a
explicação seja Reivalino achar que o estrangeiro esteja de gozação quando chega
à sua venda e pede cerveja para o cavalo. Há aqui o cruzamento de valores.
Giovânio come alface em um balde de água. Animalizou-se. O cavalo bebe cerveja.
Humanizou-se.
A birra começa a diminuir quando a mãe de Reivalino fica doente e Giovânio,
talvez tocado com a idéia dolorosa de perda (mais tarde se verá que também é
vivida por ele), paga as despesas com remédio. Com a morte dela, passa a
trabalhar para o italiano, mas com ressalvas, o que justifica ter colaborado com
a polícia na entrega de algumas informações sobre Giovânio. Por causa delas, a
polícia visita a casa do italiano, não descobrindo nada de errado. Em outra
oportunidade, Reivalino acaba conhecendo os cômodos mais internos da casa, em um
deles até havia um cavalo empalhado. Empalhar é tentar absurdamente deter o
inevitável: o curso do tempo e a morte.
A intimidade entre os dois vai-se fortalecendo, até o momento em que Giovânio
mostra o seu segredo: Josepe, seu irmão morto, com o rosto mutilado pela guerra.
Aceitar e verbalizar essa dor serviu, como numa terapia, para Giovânio viver
melhor, pois sofre menos, seu italiano misturado com português passa a ser
entendido e é aceito pelo narrador. Eis a idéia aqui é que se deve aceitar nossa
imperfeição marcada pelo tempo, já vislumbrada pelo Menino de “As Margens da
Alegria”. Aceitar a morte e conseqüentemente o fluir do tempo é viver melhor.
Marcante é uma das últimas falas do italiano, pouco antes de tornar Reivalino
seu herdeiro: “A vida é bruta e os homens são cativos”. Pode-se entender uma
relação entre a idéia do homem ser cativo, prisioneiro, ou seja, cheio de
apegos, até mesmo à própria vida, como um dos motivos para os problemas da vida,
até a traumatizante guerra pela qual havia passado Giovânio. Por outro lado,
assim como numa parábola, corremos o risco de cometer o mesmo erro de Damásio em
“Famigerado”. A verdade ser-nos exposta, mas não a enxergamos. As palavras
“bruta” e “cativos” existem no língua italiana, mas com outro significado:
“feia” e “maus”, respectivamente. Assim, pode-se entender também que a vida é
feia, cheia de problemas, porque os homens são maus, ou por serem imperfeitos,
ou por terem uma queda para a malignidade, ou por causa dos dois motivos.
UM MOÇO MUITO BRANCO
Talvez por apresentar um fato que pode ser entendido como dos mais mirabolantes,
ou mesmo absurdos, este conto é introduzido por uma precisão espaço-temporal
atípica em Guimarães Rosa. A história iniciou-se em 11 de novembro de 1872, em
Serro Frio, no Arraial do Oratório. Na noite desse dia havia ocorrido uma
tempestade fortíssima. No dia seguinte surgia na cidade um moço muito branco,
luminoso, aéreo, desligado, “sonhoso”, como se não fosse deste mundo. Todos o
imaginaram vítima de uma amnésia provocada pelo cataclisma. É logo cuidado por
Hilário Cordeiro.
Este texto é permeado de inúmeras referências católicas, não só quanto ao nome
Hilário Cordeiro, como também a datas no decorrer da história, sempre dias de
santos. Além disso, a descrição do moço, além de puxar elementos ufológicos que
o qualificariam como um extra-terrestre, traz à baila aspectos que o
qualificariam como um anjo. Isso se na realidade não possa ser encampada a tese
de que ambas as qualificações referem-se à mesma entidade.
O fato é que esse moço, que quando entrava na igreja tinha jeito de cão que
tinha encontrado o dono, possuía o dom de distribuir a felicidade, a graça às
pessoas com quem convivia. A um cego havia dado uma semente, que dera origem a
uma árvore maravilhosa, nunca vista. À filha melancólica de um fazendeiro
trouxera alegria quando, inocente ou abençoadamente, havia tocado no seu seio. O
pai dela, Duarte Dias, que já havia levantado confusão enorme porque queria
tirar a guarda do moço das mãos de Hilário Cordeiro, sob a desculpa de que era
um parente distante e desaparecido, arranja maior ainda, alegando que a menina
tinha sido desonrada. A cidade é que protege o moço da sanha do irado homem.
Por fim, o mesmo Duarte Dias é quem pede humilde e desesperadamente a companhia
do moço. Parecia um pedido sem sucesso, se não fosse o próprio jovem que se
oferecesse a ficar com o fazendeiro. Leva-o para suas terras e indica um local a
ser enterrado. Duarte Dias obedece e descobre uma jazida de diamantes. Essa
dádiva muda o comportamento do homem – torna-se bom.
Então, o sonhoso resolve partir. Com a ajuda de José Kakende, um indigente que o
havia visto chegar – acendem-se 9 fogueiras. Este é um número místico, pois é o
de níveis angelicais. Desce estrondosamente um objeto do céu de onde saem outros
moços, que o conduzem de volta ao veículo. A descrição feita aqui é muito
parecida com a que aparece em Ezequiel I, 4-28, no instante em que se vê a
manifestação da glória de Deus. Misturam-se esoterismo, misticismo e ufologia.
FATALIDADE
Este conto tematiza idéias como Destino e Karma e sua inevitabilidade. É o que
indica seu título.
Trata-se da história de Zé Centeralfe, que vive acochado, pois sua esposa
desonrosamente está sendo cortejada por um facínora, Herculinão. O casal, para
evitar problemas, mudou-se do Pai-do-Padre para Amparo. Mas o bandido segue-os.
Mudam-se então para a cidade, onde deveria haver lei, ordem, segurança, mas
continuam sendo seguidos. É por isso que o pobre homem vai pedir ajuda ao
delegado, chamado pelo narrador de Meu Amigo, figura que cita intensamente os
filósofos gregos. A intenção é obter o apoio da justiça dos homens. No entanto,
Zé Centeralfe é induzido a outro tipo de moral. Aparentemente, é a justiça pelas
próprias mãos, pois o delegado convence Centeralfe, apenas com o olhar, a pegar
as armas. Assim que saem, encontram Herculinão, que é assassinado com um tiro no
peito (coração) e outro na cabeça (mente).
Uma leitura mais atenta revela outro aspecto, bastando analisar o nome dos dois
opositores. Herculinão vem de Hércules, personagem que faz lembrar o ato de
exceder, pela força (algo um tanto grotesco), a condição humana. Seu pecado,
portanto, é transgredir a ordem natural, que precisa ser restabelecida. Esta é a
função de Zé Centeralfe. Seu sobrenome vem do inglês, “centerhalf”, ou seja,
meio de campo, o jogador que, no futebol, tem a função de distribuir a jogada.
Sua tarefa assemelha-se à de Liojorge em “Os Irmãos Dagobé”: ser apenas um
instrumento para o reequilíbrio das forças. Fez cumpir o karma, o destino. A
Fatalidade.
SEQÜÊNCIA
Esse conto narra a fuga de uma vaca em direção à sua querência, ou seja, o lugar
de seu nascimento. É a temática da viagem de volta, presente em “As Margens da
Alegria”, “Os Cimos” e “Nada e a Nossa Condição”, entre outros. Essa aproximação
também se faz no campo do misticismo, pois a vaca, que ia pelo meio do caminho,
é chamada de criatura cristã. Além disso, seguia por amor e não por acaso. Outro
elemento religioso é visto no fato de estar fugindo de uma fazenda chamada Pedra
em direção à outra, Pãodolhão. Há a idéia de evolução da pedra para o pão. É a
sublimação, tão comum em Primeiras Estórias.
No entanto, o filho mais moço de seu Rigério, dono da fazenda da Pedra, resolve
ir atrás da vaca, por intuição sabendo seu caminho. Até que atravessa um rio –
idéia do batismo, presente em “O Espelho” e em “A Terceira Margem do Rio”. Sai
da água outro, mais determinado. Já enxerga exatamente o rumo do animal.
Alcança a vaca já dentro da Pãodolhão. É quando vê quatro moças, apaixonando-se
por uma delas, para quem acaba entregando o animal. A busca da vaca
transformou-se na busca do amor, cristão, atingida na viagem de volta ao
nascimento, ao princípio, à querência, ao Paraíso.
O ESPELHO
Este conto apresenta um aspecto que o destaca em relação aos demais de
Primeiras Estórias: sua linguagem é carregada de termos científicos e
filosóficos, numa formalidade que se afasta do caráter oral dos outros 20
textos.
Seu narrador, que parece conversar com o leitor (o que torna o conto um espelho)
diz que realizou um enorme esforço, por meio de seu reflexo num espelho, de
busca do seu verdadeiro eu, o “eu por trás de mim”. Aqui se estabelece uma forte
ligação com outros contos, que ajudam a interpretá-lo. O primeiro é “A Menina de
Lá”, que morava por trás da Serra do Mim, num lugar chamado Temor de Deus, perto
de um brejo de águas limpas – um espelho. Essa busca de águas/espelho é
semelhante à de nosso pai, em “A Terceira Margem do Rio.
Esse verdadeiro eu precisa ser encontrado por meio de seu reflexo. Estuda-se,
pois, sua imagem e semelhança. Assim, a busca do verdadeiro eu está na busca de
Deus. Para tanto, o narrador vê-se na necessidade de realizar exercícios que têm
a proposta de eliminar as superfícies enganadoras de sua imagem (bem diferente
de Jacobina, de “O Espelho”, de Machado de Assis, que se apega à superfície do
seu eu). Com esforço, elimina sucessivamente a imagem do seu sósia animal, dos
seus pais, de suas paixões, das idéias que os outros lhe atribuem, dos
interesses efêmeros. O resultado de todos esses esforços causa-lhe muito
sofrimento, principalmente uma terrível dor de cabeça. Resolve, pois, abandonar
a tarefa.
Tempos depois, voltou a se olhar no espelho e não viu nada. É como Damásio, em
“Famigerado”: tem diante de si a verdade, mas não a enxerga, pois não está
preparado. Aos poucos, uma imagem vai-se formando, de forma luminosa. É o brilho
que cerca as personagens divinas de “Um Moço Muito Branco” e “Substância”. No
final, surge a imagem de algo que é menos que um menino. A associação com a
criança de “As Margens da Alegria” e “Os Cimos” não é absurda. Também se deve
lembrar que há uma referência a I Coríntios, XIII, 11-2: “Quando eu era criança
eu via e pensava como criança. Agora que cresci já não ajo como criança. Agora
vejo em parte, mas quando vier o que é perfeito, verei face a face”. Eis a idéia
de que a criança enxerga melhor a verdade (eis um dos motivos para a predileção
para esse tipo de personagem na obra). Tornando-se adulto, a visão é embaçada.
No entanto, existe a promessa de que se voltará ao estágio da perfeição. Vai-se
estar face a face com Deus, como se diante de um espelho.
LUAS-DE-MEL
Do nada é que as coisas acontecem. Essa frase pode ser entendida como uma defesa
do desapego, presente em “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “Os Cimos”, “A Terceira
Margem do Rio”, “O Espelho” ou “Nada e a Nossa Condição”. Pode também ser
entendida como uma explicação para as ações de Liojorge e Zé Centeralfe, de “Os
Irmãos Dagobé” e “Fatalidade”, respectivamente. Mas é uma frase proferida por
Joaquim Norberto, protagonista do presente conto, que tem a mesmice de sua vida
quebrada pelo pedido do Coronel Seotaziano de proteção a um casal que quer
casar-se, contrariando a decisão da família da moça. Deve-se notar que, além de
a filiação de Joaquim a Seotaziano lembrar o feudalismo, a chegada do casal
provoca duas conseqüências: cria, em forte crescendo, uma expectativa tensa de
um combate, o que faz todos ficarem armados, até o padre, que viera celebrar o
matrimônio. Gera, também, o renascer do amor em Joaquim Norberto e sua esposa
Sa-Maria Andreza.
No final, outra vez se manifesta no obra o recurso ao anticlímax. O irmão da
noiva surge, mas não traz a guarda, apenas o convite de um almoço para comemorar
a união. Todos vão ao festejo, menos Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza. Os
dois ficam para aproveitar o sentimento renovado. Amor traz amor.
PARTIDA DO AUDAZ NAVEGANTE
Este conto apresenta uma personagem considerada o Guimarães de saia: Brejeirinha.
Tal aproximação justifica-se por causa da compulsão de ambos por contar
histórias usando elementos poéticos e alógicos, dando novos sentidos a palavras
conhecidas.
A narrativa inicia-se com a protagonista presa em casa, por causa da chuva, em
companhia de sua mãe, dos irmãos Pele e Ciganinha, e do primo Zito, namoradinho
desta última. O ambiente em que estão, com o calor do lar, sugere o conforto do
útero, imagem que parece um reflexo da figura da mãe.
Com o fim da chuva, partem para o ambiente externo. Brejeirinha começa a contar
uma história, baseada num sonho de Zito. Ao usar o real para fazer seus vôos
imaginativos, age como Guimarães Rosa. Sua narração é sobre um navegante que sai
em busca de sua amada quase uma referência a Ciganinha e Zito. É uma história
que curiosamente vai ter o seu final várias vezes alterado, atendendo à
compulsão de Brejeirinha para efabulação.
Quando chegam à margem do rio, encontram um esterco de vaca em que havia
crescido um cogumelo. Enfeitam-no com flores, palitos, chiclete e demais
adereços miúdos, transformando-o no Audaz Navegante. É uma atitude alquimista,
pois tira ouro, beleza da matéria mais pobre. Mas pode ser também entendida como
surrealista, graças à associação inusitada de elementos.
Com a chegada da mãe, as crianças esquecem momentaneamente o brinquedo, que
parte, conduzido pelas águas da chuva e do rio. Assim como o Audaz Navegante,
que conseguira unir-se a seu amor. Curiosamente Brejeirinha diz que ele havia-se
transformado em vaga-lume. É um ponto de contato com “As Margens da Alegria” e
“Tarantão, meu Patrão”.
A BENFAZEJA
Mais uma vez a idéia de que quem não está preparado para a verdade não a pode
enxergar. Mas neste conto esse defeito é visto em uma cidade inteira, o que
deixa o narrador, que conversa com esses moradores, irritado com tal cegueira.
Lembra o Velho do Restelo, de Os Lusíadas.
O narrador está determinado a convencer – o que não consegue – a todos que Mula
Marmela, mulher estéril, sem nome cristão, dotada de linguagem antiga (sua
descrição a afasta deste mundo), não é uma personagem maldita como sempre fora
apregoado. Sua função fora benfazeja, pois eliminara dois personagens sedentos
por sangue: seu companheiro Mumbungu e o filho deste, Retrupé, que chegou até a
ser cegado pela madrasta para deter seu espírito maligno. Essas acusações não
são explicitamente encampadas pelo narrador, que apenas relata, cômoda e
seguramente, os comentários que circulam pela cidade.
A imagem que simboliza Mula Marmela é a do carvão, que é preto, mas, aproximado
à luz, torna-se brilhante. As ações de Mula Marmela, para quem tem visão tapada
– como o narrador de “O Espelho”, em certo momento, ou Damásio Siqueiras, em
“Famigerado” – são malignas. No entanto, a ação dela salvou, por meio da morte,
seu companheiro companheiro e de seu enteado. Tanto que os dois, por mais
bandidos que fossem, sempre a respeitaram e a temiam, como se intuíssem que o
destino deles estava nas mãos dela.
Como argumento em favor da personagem, é lembrado o momento em que Retrupé fora
assassinado. Quando havia descoberto o inevitável fato (envenenamento), tem uma
explosão de raiva e tenta atingir Mula Marmela com seu facão, mas não a alcança,
mesmo ela estando inflexível. Arrefecida a explosão, começa, entre lágrimas, a
chamar a algoz de mãe. Ela o chama de filho.
Realizada sua missão, parte da cidade, sob o silêncio ingrato dos habitantes. O
narrador faz ainda questão de lembrar que na saída ela havia carregado nas
costas um cachorro morto – ou para limpar a cidade, ou para enterrar o coitado,
ou para garantir companhia em sua viagem. Qualquer uma dessas hipóteses reforça
o caráter positivo da protagonista.
DARANDINA
Este é um dos poucos contos urbanos da obra. Claramente, sua temática é a
loucura. Um sujeito rouba uma caneta e sobe numa palmeira, numa explosão de
loucura que quebra o cotidiano de pasmaceira da cidade. Mais uma vez, do nada é
que as coisas aconteciam, assim como em “Luas de Mel”.
Sua maluca subida, além de fazer lembrar “Ismália”, do simbolista Alphonsus de
Guimarães, mostra uma confusão que a personagem faz entre plano denotativo (sair
do chão, ao pé da letra) e plano conotativo (sair do chão no sentido de buscar a
transcendência).
Outro aspecto interessante é o que acontece no chão. Além do absurdo que é os
especialistas discutirem a rotulação da insanidade do sujeito, sem solucionarem
o problema, chama também a atenção a cidade inteira acompanhar o espetáculo do
rapaz. Tudo isso autoriza o seguinte questionamento: quem é louco? É uma
pergunta espinhosa que faz lembrar o conto “O Alienista”, de Machado de Assis.
O incrível é que o louco consegue um equilíbrio espantoso no alto da palmeira
(outra diferença entre os planos denotativo e conotativo), tornando-se,
portanto, um excesso humano. Isso é que explica a profundidade de sentido de
suas frases, como “Viver é impossível!”.
Infelizmente, recobra de súbito a sanidade e passa a ter medo da queda. De fato,
chegar tão longe do comum do chão assusta – é o mesmo medo que sentiu o narrador
de “A Terceira Margem do Rio” e Sionésio, de “Substância”. É conduzido para
baixo pelos bombeiros. A população fica irritada com o fim do espetáculo. O
ex-louco, talvez por segurança, tem (ou simula) outro surto, devolvendo alegria
à cidade, que volta, alimentada, para o seu cotidiano.
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Conto
XVIII - Darandina
O livro guarda 21 histórias curtas, mas o assunto é o mesmo que permeou a
trajetória do escritor: os "causos"pontilhados da tradição oral, os
enredos que mostram desde o tom épico, o filosofante, o lírico, o hermético.
Embora nesse conjunto não haja propriamente uma linha temática, um fio
condutor, é bom lembrar que neles predomina a poesia saborosa na organização
das palavras e cada conjunto, oração ou período depende de nós, da nossa
capacidade de observação, de nossa paciência para que se instaure o
significado esplêndido que tem.
Tema: loucura
O narrador é um médico-residente num hospício ( o Instituto).
Como se dá a história, que é tragicômica e é narrada por um mordaz médico
que em tudo põe os olhos e nada deixa escapar?
Assim: um homem muito bem posto, acusado de roubar uma caneta e, perseguido por
outros, sobe com rapidez numa palmeira-real. Os funcionários do hospício ficam
observando aquilo e decidem que ele é meio louco.
Um médico plantonista, que
não é o narrador, diz que o homem é secretário das Finanças Públicas, o
que é contado à multidão que, achando coerente o que ele faz, devido ao seu
trabalho, aceita o fato como normal. O verdadeiro secretário recebe pedido de
desculpas. E uma outra multidão, agora, formada pela polícia, corpo de
bombeiros, capelão, enfermeiros, padioleiros, chega.
Um professor, Dartanhã, aproveita a darandina ( confusão) e contesta a
autoridade do diretor do hospital. Enquanto tudo acontecia lá embaixo, o homem
, lá em cima, dizia:
"- O feio está ficando coisa..." (...) Querem comer-me ainda
verde?!"
Tira os sapatos, a roupa, os bombeiros tentam resgatá-lo, os cinegrafistas o
filmam, jornalistas e fotógrafos também estão lá. E o doido, lá em cima,
resolveu, então, balançar-se na palmeira, recebendo, agora, os aplausos do
público.
Mas, num momento, o doido recuperou o equilíbrio mental. Só que nem o
público, nem os diretores, nem os médicos aceitavam isso, assim, de repente.
Pretendiam linchá-lo. Foi ai que o louco deu gritos contra a ordem estabelecida
e gritando "Viva a luta! Viva a liberdade!"despencou de lá de cima nu
como viera ao mundo. , mas foi amparado pela multidão.
De igual, depois daquilo, só mesmo a palmeira.
SUBSTÂNCIA
O título desse texto, um verdadeiro conto de fadas, tem um título que estaria
relacionado a três fatos. “Substância” pode significar “o essencial”. Seria um
conselho para que nos atenhamos apenas ao que é importante. É a lição aprendida
por Sionésio. A palavra pode também estar ligada à idéia de alguns textos
místicos medievais, que diziam que os anjos eram todos iguais – assim como o
moço muito branco, de “Um Moço Muito Branco”, que é indefinido por ser feito de
uma substância divina. Pode ainda estar ligada ao polvilho, material
extremamente branco que Maria Exita, empregada de Sionésio, manipula.
O nome dessa personagem também suscita considerações interessantes. Maria é o
nome mais sagrado e tipicamente feminino. Exita pode estar ligado a “êxito”,
alcançado pela moça e por seu companheiro. Pode também fazer referência a
Sionésio, que hesita em se unir a ela, com medo do salto que realizará –
o mesmo medo de “Darandina” e de “A Terceira Margem do Rio”. pode também estar
ligado ao termo “exit”, que em latim significa “saída”, indicando o afastamento
das condições terrenas. É quase um sinônimo de “salto”, tão comum na obra na
obra. A palavra pode ainda ser um hibridismo constituído do latim “ex” e do tupi
“ita”, que significa pedra. É uma referência à capacidade de sair da pedra
(como a vaquinha de “Seqüência”), do mais baixo e tornar-se divino.
Maria Exita é o exemplo de que do nada é que as coisas acontecem, defendida em
“Luas-de-Mel”. Havia chegado à fazenda de Sionésio ainda menina feia e
desengonçada. Surpreendentemente, tornara-se aos seus olhos, deslumbrante, dona
de uma beleza radiante digna das musas de Petrarca e Camões. Essa luminosidade é
reforçada pela matéria com a qual lida, o polvilho, e para a qual é a única que
está acostumada, mesmo sob o forte sol do sertão, que torna essa substância
dotada de um brilho cegante. Essa familiaridade a torna divina.
No entanto, Sionésio tem medo. A mãe de Maria Exita era leviana, tendo
abandonado o lar. O pai estava num lazareto (lugar para leprosos). Seus irmãos
eram bandidos, um preso e outro foragido. O fazendeiro tem, portanto, teme que
em sua amada exista a marca de algumas dessas malignidades.
Mas Sionésio vence todos esses receios. Atingir a realização, a felicidade plena
exige a coragem de suplantar obstáculos. Caminha para a eternidade, para a luz,
para o “não tempo” e o “não fato”.
TARANTÃO, MEU PATRÃO
Este é outro conto com anticlímax. É a história de um velho que já fora mandão e
que tinha sido afastado da família, por causa de sua caduquice – que já pode ser
vislumbrada de início pelo costume da personagem de usar botas desiguais. O
narrador, Ligeiro ou Vaga-Lume – eis aqui um ponto de contato com “As Margens da
Alegria” e “A Partida do Audaz Navegante” – tem a função de cuidar do idoso, mas
se vê em apuros, já que o ancião tem um surto e, armado de uma velha faca de
cozinha enferrujada, parte numa busca maluca para se vingar de um médico que o
havia feito sofrer com aplicação de remédio e lavagem intestinal.
Achando que a viagem, dominada pelo instinto de vingança, era guiada pelo diabo,
o narrador segue Tarantão, na tentativa de evitar algum infortúnio. E o velho
parece disposto a criar um grande estrago, pois vai arregimentando toda espécie
de marginalizados, loucos, bandidos, desvalidos. Constrói, portanto, uma tropa,
tornando-se uma paródia do rei Arthur.
Chegando à cidade, Tarantão pede bênção ao padre, o que tranqüiliza o narrador.
A viagem não está sendo guiada de todo pelo maldito. E então, o anticlímax.
Entra na casa do doutor. Era festa de batizado do filho do médico. Tarantão
retribui a forma afetiva com que foi recebido com um discurso, que não se
entende, mas que comove a todos. Sentou-se, depois, em uma mesa à parte, junto
dos seus cavaleiros.
Poucos dias após isso, morreu. Deve-se entender sua viagem, pois, como uma
última explosão de vida, como se tivesse recebido a missão de poder experimentar
uma explosão de existência.
OS CIMOS
O último conto apresenta forte semelhança com o primeiro. O ambiente é o mesmo,
assim como praticamente as personagens. Além disso, o ponto final de “As Margens
da Alegria” é o início de “Os Cimos”: a morte. Porém, o menino faz, aqui, sua
viagem não mais no feliz, mas na agonia, pois sua Mãe corre um sério risco de
morrer.
Para se viver melhor, deve-se evitar o apego à vida e aceitar a morte. É o que
fez Tio Man’Antônio em “Nada e a Nossa Condição” ou Giovânio em “O Cavalo que
Bebia Cerveja”. Essa necessidade de desapego é vista neste conto no chapeuzinho
de um macaquinho de brinquedo que o Menino acaba perdendo durante essa viagem.
Ainda assim, talvez por não entender essa mensagem, guarda o boneco, que várias
vezes parece querer sair do bolso.
Ainda assim, o menino parece inconscientemente sentir que se ligar fortemente às
coisas é ruim, tanto que sua agonia é crescente. Parece não querer mais querer.
Querer é apegar-se. Apegar-se é sofrer.
Eis que, durante o nascer do sol, o menino intui a necessidade de estar na
frente da casa do Tio. É quando presencia o início de um ritual que vai durar 1
mês: o vôo de um tucano, que pousa num galho diante da criança, sempre às 6h20,
alimenta-se e alça novamente vôo às 6h30, em direção do sol, da luz, agora mais
forte que a do vaga-lume em “As Margens da Alegria”.
Essa precisão faz com o que aprenda a esperar, a ter esperança, a deixar partir.
Tanto que propõem caçar a ave, mas ele rejeita. Aprendeu a desapegar-se.
Aprendeu a viver.
Resultado: contrariando expectativas, sua mãe melhora e escapa da morte. O
Menino retorna para seu lar. No avião, durante a volta, o piloto devolve-lhe o
chapéu do boneco. Mas o macaquinho já estava perdido. Ou deixado partir.