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Os Melhores Poemas de José Paulo Paes

                               

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Os Melhores Poemas de José Paulo Paes - José Paulo Paes

Publicado em 1996, Os Melhores Poemas de José Paulo Paes é uma seleção, feita por David Arrigucci Jr., eficiente da produção de um dos nomes mais importantes da poesia contemporânea brasileira.

O primeiro aspecto que chama a atenção na sua obra é o caráter extremamente conciso, quase telegráfico de sua linguagem. 

Trata-se do que se convencionou chamar de minimalismo, que remonta em alguns aspectos à literatura telegráfica de Oswald de Andrade. É o que se percebe no poema abaixo.

POÉTICA

conciso?   com siso
prolixo?     pro lixo

Note como, de forma bastante resumida e econômica, pregam-se as idéias mais importantes do fazer literário de José Paulo Paes (daí o título): a concisão, ou seja, a preocupação com o essencial é considerada uma atitude certa, ajuizada, com siso. 

Dentro desse postulado, ser prolixo, ou seja, usar palavras em demasia, sem conseguir ser sucinto, é produzir arte sem qualidade, que merece ir para o lixo.

Pode-se observar no texto apresentado também o destaque que é dado à palavra no seu aspecto material, concreto, ou seja, no plano do significante. 

É uma característica constante em José Paulo Paes e que o vincula ao Concretismo, movimento literário inaugurado em 1956 por Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos. 

Ainda assim, não se deve pensar que se trata aqui de mero exercício lúdico com o texto produzindo arte alienada, qualidade constante e injustamente apontada nessa vertente artística. Basta ler exemplos como a seguir.

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

negócio
  ego
      ócio
        cio
           0

Deve-se lembrar que epitáfio é um texto que se coloca sobre um túmulo e que se propõe como um resumo da existência daquele que está enterrado. 

O título do poema, portanto, nos ajuda em muito na interpretação do poema. Trata-se de uma súmula do que a vida de um banqueiro. 

Sua primordial preocupação já aparece no primeiro verso: negócio. 

Esse termo é uma palavra-valise, ou seja, contém dentro de si várias outras, que são desmembradas nos versos subseqüentes, sempre contribuindo para compreensão do texto. 

Basta lembrar que “ego” lembra o egocentrismo que representou a preocupação com lucro acima de tudo, quase como um “cio”, uma obsessão desenfreada, numa atividade inútil, já que a usura é o pão ganho sem suor (“ócio”), que acabou por anular a existência desse sujeito, conforme muito bem se vê no último verso pelo signo “0”.

Entretanto, o poeta não se aproxima apenas de Oswald de Andrade e dos concretistas. Sente-se nele uma familiaridade com Drummond, principalmente no aspecto gauche de alguns poemas.

Basta ler o texto abaixo, retirado de Prosas Seguidas de Odes Mínimas, um dos momentos mais felizes do autor.

CANÇÃO DO ADOLESCENTE

Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.

Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.

Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?

Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.

Note que o eu-lírico se descreve como uma junção um tanto desajeitada do adolescente com o amadurecido, criando um híbrido dotado de uma anatomia que inspira dó ou riso. 

Mas o tom drummondiano também é percebido pelo cansaço com que enxerga a geração humana. 

E, assim como o poeta mineiro, o desencanto com a nossa espécie não é suficiente para anular de maneira niilista o desejo por viver. É o que se vê abaixo, em “Mundo Novo”.

MUNDO NOVO

Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro. 

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.

Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.

Veja que se assume o tom de “no entanto, prosseguimos animadamente vivendo” de algumas peças preciosas do Rosa do Povo, de Drummond, pois ocorre também a defesa da existência, por pior que seja.

Além de vincular-se ao célebre poeta da pedra, José Paulo Paes apresenta a mesma afetividade com que Bandeira recupera, por meio da memória, personagens do seu círculo familiar, principalmente as que povoaram sua infância. 

É o que pode ser visto, entre tantos exemplos, no texto abaixo, que resume as características das várias personagens descritas na obra, em poemas individualizados.

A CASA

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. 

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.

É interessante perceber que o estilo conciso adotado pelo autor acaba por tornar todo o poema densamente carregado de significado. Tudo contribui para o sentido geral do texto. 

Basta notar as referências, explícitas ou implícitas, à idéia de morte em quase todas as personagens: “avisos fúnebres”, “romances policiais”, “caixão”, “mortalhas”, “outro mundo”, “morreu”. 

Olhar para o passado e relembrar figuras que não existem mais é ter consciência da passagem do tempo, o que implica a noção de envelhecimento e morte.

Outro aspecto importante para ser lembrado, e que constitui uma pista interpretativa bastante útil deixada pelo autor, é o fato de que a recuperação do seu passado é obtida graças à asa dos sonhos. 

Podem ser vistos aqui traços que nos façam prestar atenção ao caráter romântico (sonho, fantasia, emotividade) e algo entre simbolismo e surrealismo, principalmente este último. 

José Paulo Paes detona um conjunto de imagens de relação absurda entre si, como que ditadas por um pensar em delírio e, portanto, livre das peias racionalistas. 

No entanto, é esse pássaro dos sonhos que lhe dá fôlego suficiente para ter, absurdamente ou não, uma visão ousadamente perfeita de nossa realidade.

Dentro ainda do campo do absurdo, deve-se lembrar que um esquema muito comum no poeta é a utilização das antíteses e principalmente paradoxos (figuras de linguagem ligadas à oposição) na expressão de sua realidade. 

O que José Paulo Paes parece fazer é juntar elementos completamente contrários e por meio da forte tensão que se forma dessa união ganhar energia suficiente para que se enxergue mais eficientemente a realidade do que pela lógica racional (pode-se lembrar que tal procedimento era muito comum em Machado de Assis, que enxergava a realidade como algo dilemático.
Mas se no autor realista essa elaboração se encaminhava para a fria análise da condição humana, em José Paulo Paes é lastreada por uma forte emotividade. 
É provável que haja mais familiaridade com o Barroco, famosa arte das oposições. No entanto, a sofisticação da linguagem da escola seiscentista, gerando textos que eram verdadeiras elucubrações, é bastante diferente do tom simples assumido em José Paulo Paes). 

É o que se vê, entre tantos casos, no trecho abaixo:

OUTRO RETRATO

O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.

Deve-se observar que a idéia de laço, numa análise superficial, está ligada a prisão, opondo-se, portanto, a vôo. No entanto, de forma surrealista, o nó corredio é facilmente associado a borboleta. 

Um estudo profundo revela que tal associação não é, porém, absurda, já que remonta à idéia de que todo retrato faz retomar um passado em que sonhos, desejos eram montados cheios de idealização. 

Dessa forma, o poema acaba por avaliar agudamente o presente, que se desviou grosseiramente das expectativas de um passado ingênuo.

Também é necessário lembrar que José Paulo Paes possui um ponto de contato com uma qualidade comum a Bandeira e Drummond: a emotividade retirada das coisas simples, cotidianas. 

Consegue, da mesma forma que os dois pilares da poesia modernista (o terceiro seria João Cabral de Melo Neto, que envereda por outro caminho), ter os mesmos passos de um cronista moderno, alçando vôos líricos altíssimos.

Curioso é perceber que os últimos quatro textos, tratados por nós como poemas, na realidade são “prosas”. Sua elaboração, no entanto, recebe um trato de linguagem tal que se aproximam por demais da poesia. 

Pode-se tratar, portanto, de um famoso gênero criado pelos simbolistas, o da prosa poética, já percorrido por Cruz e Sousa, Aníbal Machado e Rubem Braga. Mas José Paulo Paes, nesse contexto, é insuperável.

Há também em Paes a presença de odes. Entende-se esse gênero como o de poemas para a exaltação. 

Têm, tradicionalmente, um tom grandioso. No entanto, o presente poeta engrandece coisas simples, como um alfinete, um fósforo, uma garrafa ou até mesmo a tinta de escrever, como se vê a seguir

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas

mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopéia.

Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.

Deve-se lembrar o mesmo comentário que Antonio Candido fez sobre a crônica no primeiro volume da coleção Para Gostar de Ler, da Ática. 

Há em José Paulo Paes uma predileção pelo pequeno, pelo mínimo, que lhe alimenta de fôlego suficiente para não só engrandecê-lo, mas também de buscar o gigantesco. 

Como nos dizeres de um outro crítico, David Arrigucci Jr, José Paulo Paes consegue o máximo com o mínimo. 

É o que se vê majestosamente na sua ode mais extensa, “À Minha Perna Esquerda”, em que consegue relatar o drama (que não resvala no piegas) de ter o referido membro amputado. 

É um dos textos mais belos, carregado do trágico, patético e até mesmo do irônico, traço muito comum do poeta, aliás. Sua dor pessoal acaba destilando imagens demoníacas e surrealistas que fazem eco na dor existencial humana.

Dessa forma, não se deve pensar que, mesmo inspirado em monstros sagrados de nossa poesia, o poeta acaba perdendo sua qualidade, ou mesmo sua grandiosidade. 

Como já se disse, José Paulo Paes está entre os maiores nomes da nossa literatura, merecendo ser leitura não apenas para vestibular, mas para momentos em que se busca o prazer estético, um dos ingredientes básicos para uma existência completa.


  


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