1. PERSONAGENS
FREI CANECA;
PROVINCIAL (= padre que dirige os conventos de uma província
eclesiástica);
CARCEREIRO;
MEIRINHO (= funcionário da Justiça);
CLERO (= conjunto de padres);
TROPA (= conjunto de militares);
JUSTIÇA (= conjunto de profissionais da área judicial);
OFICIAIS (= militares graduados);
VIGÁRIO GERAL (=padre que auxilia diretamente o bispo e o
representa);
CARRASCOS; SOLDADO;
A GENTE (= as pessoas do povo, anônimas)
2. ENREDO
PRIMEIRA PARTE:
NA CELA -
O provincial e o carcereiro, diante da cela
na qual estava preso Frei Caneca, comentavam acerca do sono dele. Era hora de
acordá-lo para ser morto. No entanto, nem parecia que iria despertar, dava a
impressão de já estar falecido. O padre disse que deste sono ele sairia.
SEGUNDA PARTE:
NA PORTA DA CADEIA
- Frei Caneca surgiu para sua
caminhada rumo à morte.O meirinho anunciou pela primeira vez – anúncio que seria
repetido com freqüência no trajeto – ser chegado o momento de executar a
sentença de morte do réu pela forca.
Os representantes do clero ali presentes observaram que o
ritual estava sendo bem cumprido, mas estranharam a ausência do juiz. Para o
povo nas calçadas, o condenado tinha a aparência de defunto. Na tropa corria o
boato de que o Imperador suspenderia a sentença, porém não se via sinal de navio
que traria mensageiro portador de tal ordem. Os membros da Justiça reclamavam do
atraso do juiz, incomodados com o forte calor; alguns afirmaram que o magistrado
se recusara a vir e que nem o Ouvidor se dispusera a presidir aquela execução.
Frei Caneca sentia-se acordado como nunca estivera; no seu entendimento,
“acordar é recordar-se ao que ao nosso redor gira”, não é o despertar puramente
físico.
Confirmou-se a notícia: o juiz tinha viajado, não
compareceria, fato que causou perplexidade, pois sua pontualidade era conhecida.
Provocou também espanto no povo ali reunido a calma do réu. Será que, mesmo
condenado, ainda continuava acreditando no mundo que ele quis consertar?
A tropa, sem instruções para se movimentar, não estava
gostando de ficar parada como se fossem cavalos – estes, pelo menos, têm quatro
patas!
A corda no pescoço do frade era desnecessária no sentido de
prendê-lo, servia só para humilhá-lo.
Magoaram-se os padres acompanhantes de terem sido colocados
no final da comitiva: “nosso lugar seria à frente!”
TERCEIRA PARTE:
DA CADEIA À IGREJA DO TERÇO - O cortejo que seguia
Frei Caneca ao enforcamento mais parecia uma procissão: o governador, bandeiras,
padres, ajudantes da Igreja, escrivões, meirinhos, militares... O oficial no
comando ordenava que o povo se afastasse do condenado, de quem resumia assim o
crime: por ser republicano e separatista, que pretendeu “dar o Norte à gente do
Norte”, desobedeceu às ordens de Sua Majestade. Padre existe, acrescentava o
militar, a fim de rezar.
Outros militares queixavam-se da lentidão da marcha, da qual
o povo participava como que acompanhando um santo, de quem não conseguia
aproximar-se. Tinha-se a impressão de ser o desfile de um bispo para celebrar
missa solene. Pessoas nas sacadas das casas assistiam curiosas a um verdadeiro
espetáculo mais luxuoso do que respeitoso.
Frei Caneca discordou de todo aquele aparato, pois não se
tratava de uma procissão e sim de um enterro em que o morto caminhava. Olhando a
multidão, viu que conhecia todas as pessoas. O oficial comandante proibiu-o de
falar: “Condenado à morte perde a língua”. Temiam as autoridades que o cortejo
virasse comício, de vez que o frade era perigoso mesmo quando discursava sobre a
natureza. “Passarei a falar em silêncio”, obedeceu ele. Defendendo-o, o
provincial discordou do comandante e refutou as acusações deste de que Frei
Caneca fazia sermão naquele momento e de que se achava bêbado por estar se
expressando em versos na hora de morrer. O padre superior alegou que o frade
estava embriagado sim, não de álcool, mas da luz de Recife e tão emocionado que
esqueceu a morte.
O acompanhamento evoluía
com dificuldade devido à multidão que acorrera. “Parece que todo o Recife
veio...” dizia-se. Assistir ao enforcamento do padre considerava-se como
participar de uma cerimônia religiosa. Frei Caneca era tido na conta de santo
pelo povo e mais admirado que os outros santos porque viveu no meio dele
humildemente. Segundo uma crença popular, Nossa Senhora do Carmo havia feito o
milagre de livrar um menino de queimadura do sol. Já que o frade condenado
pertencia à ordem religiosa a ela dedicada, com certeza também era seu
protegido.
Embora soubesse que saíra da cela escura diretamente para a
morte, Frei Caneca sentiu em si a intensa vida proporcionada pelo Recife e pelo
Nordeste. Jamais teria acreditado que conseguiria edificar ali, com sermões, um
mundo tão claro quanto aquela claridade natural da região. Entendia que a
aceitação do que pregava nunca seria fácil, “mas o sol me deu a idéia de um
mundo claro algum dia”, refletiu enquanto caminhava.
O roteiro do percurso evitou passar diante do pátio do Carmo,
que seria o caminho mais curto. Temia-se que os colegas carmelitas do frade
saíssem do prédio para seqüestrá-lo. No entanto, o prior (= superior do
convento) tinha dado férias aos internos e ficara lá sozinho.
Os oficiais receavam uma rebelião e o disseram ao provincial.
Ele ponderou que a intenção do povo que viera não era essa. Retardavam o passo
por aguardar um milagre de Nossa Senhora ou o indulto do Imperador. Os moradores
das ruas por onde o cortejo passava sentiam-se decepcionados porque, cumprida a
determinação de limpar as calçadas, criaram a expectativa de assistirem a alguma
procissão e não ao que estavam presenciando, inconformados.
QUARTA PARTE:
NO ADRO DO TERÇO - No pátio da Igreja do Terço,
houve uma interrupção. Formou a tropa um círculo, para afastar os populares.
Assumiu a palavra o vigário geral, depois de lhe ser entregue a direção do
cerimonial, momento de cumprir as normas pertinentes ditadas pelo Direito
Canônico (= jurisprudência da Igreja). Então, Frei Caneca foi revestido de todos
os paramentos que usavam os padres ao celebrarem missa. O povo julgou que
houvera desistência da execução. Pelo contrário, com sua voz fanhosa, que
ninguém queria ouvir, o vigário geral explicou que o sacerdote iria passar por
um ritual de degradação (= perda de poderes, das funções próprias), porquanto se
realizaria a sua excomunhão (= expulsão do sacerdócio e da Igreja). Com uma faca
rasparam as mãos do frade – gesto significativo de que elas perdiam naquele
instante o dom de abençoar. Ouvindo-se fórmulas pronunciadas em latim, língua
oficial da Igreja na época, os presentes viram o padre ser despido das vestes
sagradas, as quais, depois de retiradas, recebiam incenso e água benta para
serem descontaminadas. Colocaram no excomungado o manto próprio dos condenados.
Então, o vigário geral devolveu ao comandante o Frei Caneca, não mais como padre
mas como cidadão comum, para ser punido com a pena de morte decretada pela
Comissão Militar.
QUINTA PARTE:
DA IGREJA DO TEÇO AO
FORTE - Enquanto acompanhavam os
passos do cumprimento da sentença, as pessoas faziam comentários a respeito do
réu. Caneca era apelido do pai, um tanoeiro (= fabricante ou consertador de
barris, pipas, canecas...). Desde menino, estudara no colégio dos padres
carmelitas; mais tarde, amadurecido, resolveu ser um deles. Já estivera preso
antes por causa de sua postura revolucionária, mas escapara da cadeia
juntamente com outros. Alguns fugitivos partiram para o exterior, os demais
andavam soltos pelas ruas. Frei Caneca preferira continuar na luta. Atuou na
Paraíba e no Ceará, estado no qual novamente o capturaram. Acusavam-no de ser
inimigo do Imperador e separatista. Talvez Dom Pedro nem soubesse o que
significava isso e pensasse que o condenado fosse ladrão, bandido ou portador de
algum vício, característica dos brasileiros. A Comissão Militar o condenou por
ele ter feito oposição à nomeação do morgado (= herdeiro) do Cabo, à
Constituição imposta pelo rei português e ao envio de uma esquadra ao Recife por
falsa ameaça de invasão.
Frei Caneca, de cabelos brancos embora não fosse um velho,
continuou a caminhada para a forca instalada no Forte das Cinco Pontas (nome
devido à forma de estrela da construção). Sem atitude de desafio ou de
indiferença, o frade aparentava estar em um passeio, no qual era esperado por
algum estranho. Na Revolução de 1817 haviam-no prendido e o maltrataram; desta
vez, em 1825, fisicamente não o molestaram, porém sua humilhação estava sendo
maior porque os superiores tiraram-lhe a condição de padre, não lhe perdoaram
nem demonstraram a mínima consideração por ele.
Na opinião do povo, o frade orador e jornalista, que não
passou de padre-mestre sem chegar a ser bispo, foi um homem realizado, “bem
plantado na vida”.
Naquela caminhada final, Frei Caneca teve olhar mais profundo
para a realidade do Recife e se perguntou se, no futuro, a situação melhoraria.
Temia a morte, entretanto dela se aproximava com alegria.
SEXTA PARTE:
NA PRAÇA DO FORTE - Na praça do Forte só entraram os
militares. Além do juiz, também deixou de comparecer ao enforcamento o carrasco,
firme na sua decisão de não ser instrumento da morte de um padre. Lá fora o povo
conjeturava o porquê de a execução estar demorando. Alguém ficou sabendo e
informou a decisão do carrasco que, apesar de ter levado uma surra da polícia,
não mudou de opinião.
Surgiu, entre os militares, a idéia de se propor aos
prisioneiros que substituíssem o carrasco, em troca de serem libertados. Todos
recusaram. Acreditavam na existência de uma Dama de vestido pardo que os
castigaria se aceitassem a incumbência. Ninguém se apresentou como voluntário.
Um soldado sugeriu que chamassem alguma criança inocente do asilo para manobrar,
de olhos vendados, a forca. O comandante achava melhor mudar a sentença de
enforcamento para fuzilamento. Os inconvenientes dessa alteração seriam
contrariar o regulamento e promover um criminoso desclassificado a criminoso
militar.
Frei Caneca, pacientemente, via prolongada por mais três
horas a sua execução. Os oficiais discutiam o que poderia ser a melhor
alternativa para suprir a falta do carrasco, receosos de uma reação explosiva do
povo, incitado pela demora. Um dos rumores que se alastravam entre as pessoas
reunidas na praça era que iriam permitir e até facilitar a fuga do frade para
atirarem nele. Outro, era que talvez o estivessem torturando. Em vão
intercederam por ele os membros do cabido (= conjunto de padres mais
respeitáveis, denominados cônegos); a Comissão Militar manteve a sentença de
morte.
De repente, ouviu-se a descarga de espingardas: doze soldados
formaram o pelotão de fuzilaria que abateu Frei Caneca no interior do Forte,
longe dos olhos do povo.
SÉTIMA PARTE:
NO PÁTIO DO CARMO - Pessoas aglomeradas no pátio da
Igreja do Carmo comentavam que o pai de Frei Caneca tinha esquecido a oficina
naquele dia, passara-o rezando e olhando para o mar, à espera do navio que
traria o mensageiro do indulto para o filho. No mar nada viu, mas do Forte ouviu
os tiros e entendeu tudo. Então, apagou as velas que acendera para rezar, jogou
no lixo as flores que enfeitavam a mesa transformada em altar. Uma por uma das
imagens Caneca pôs na janela, quebrou o pescoço daquelas que reproduziam figuras
de santos e a todas jogou no mar.
O corpo assassinado de Frei Caneca foi jogado e abandonado
diante da porta principal da Basílica do Carmo. Abriu-a o padre prior, que
arrastou sozinho o morto para dentro da igreja.
“A porta se fecha, e a noite prossegue, também pesadamente.”
3. COMENTÁRIO
O livro de João
Cabral de Melo Neto é uma composição poético-dramática, ou seja, poemas
integrantes de uma peça teatral que o autor chamou de auto, publicação de 1984.
Essa denominação aplicada
à obra é uma adaptação da palavra em seu significado original. Auto era uma
representação cênica em voga na Idade Média, vivenciada por personagens
geralmente criados como alegorias religiosas, imagens do pecado, da virtude, do
demônio, dos santos...
O autor construiu a trama centralizada no Frei Caneca, que
surge como um santo levado ao martírio, em contraste com os personagens que o
condenaram, personificações da maldade, da prepotência injusta.
O pernambucano histórico, conhecido como Frei Caneca –
sobrenome que ele adotou por ser filho de um modesto tanoeiro assim apelidado –,
passou a chamar-se Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca após tornar-se
padre carmelita. Foi professor de Filosofia, Retórica e Geometria, com obras
publicadas. No entanto, sua atuação mais empenhada se deu da seguinte forma:
como propagador dos ideais republicanos, intensificada na Revolução de 1817, da
qual se constituiu em um dos líderes; como defensor da democracia, numa série de
artigos publicados na revista “Tifis Pernambucano”; como adepto da campanha
contra D. Pedro I, desde a dissolução da Constituinte e a Constituição imposta
em 1824. Quando a Confederação do Equador fracassou, Frei Caneca fugiu da prisão
para continuar defendendo seus ideais patrióticos, mas acabou sendo encontrado
no Ceará. Processado, condenaram-no à morte e o executaram em 1825.
O “Auto do frade” reproduz cenas das últimas horas de vida do
Frei Caneca, a partir do momento em que saiu da cela do cárcere para o Forte
onde estava instalada a forca. Os passos dessa trajetória se dividem em sete
partes ou etapas, relacionadas com os locais onde se desenrolaram os episódios
rememorados.
O próprio João Cabral escreveu: “Ninguém sabe muita coisa de
Frei Caneca, mas é uma figura muito importante para os nordestinos. Deveria ser
enforcado, mas não houve quem quisesse fazer isso. Nem mesmo os presos que
teriam em troca a liberdade.”
Valendo-se dos dados históricos que obteve, o poeta os narrou
de forma cênica, com precisão quase documental, através das falas de
personagens. Não se trata, porém, de uma peça histórica. Ao detalhar os
episódios finais da vida de um heróico religioso do século XIX, o autor redige
de tal modo que não se prende totalmente aos fatos em si e deixa entrever a
intenção de atualizar o tema do engajamento na luta pela liberdade. Frei Caneca
é focalizado como o símbolo do nordestino desrespeitado, injustiçado, mas que
reage e se sacrifica até a morte, inconformado com a repressão tirânica.
Como ocorre em suas produções de poeta participante, João
Cabral mostra a característica de analisar fatos reais sem fazer discursos
panfletários. Ele evita vôos imaginários, condoreiros e introduz na narrativa
trechos curtos densamente críticos. Dois exemplos a seguir. Os religiosos de
várias regiões não se empenharam no ideal de liberdade, conforme se depreeende
das falas do povo que estava na praça assistindo ao ritual da execução: “-
Sempre foi gente turbulenta / os carmelitas desse Carmo. / - Bem mais que as
casas de Olinda, Paraíba, Goiana, Cabo”. O anúncio do cumprimento da sentença,
várias vezes proferido pelo meirinho, apresenta uma sutil e irônica expressão:
“... sentença de morte natural na forca...” Subentende-se que se
queria passar a idéia de que era natural a morte por enforcamento dos rebeldes.
O “Auto do frade” não faz exceção à linguagem habitual do
poeta: nenhuma concessão ao patético (= insistente nos aspectos emocionais
negativos) – ainda que o tema desenvolvido propiciasse extravasamento
sentimental por sua tragicidade –; nenhuma palavra desperdiçada, desnecessária;
raros termos eruditos...
A movimentação dos personagens em cena não vem indicada no
texto, pois o poeta privilegia o conteúdo.
Os versos livres são concisos. Alguns se
aproximam da prosa, forma na qual poucas passagens vêm redigidas. Entre estes
últimos estão os trechos litúrgicos (= relativos ao cerimonial religioso) em
latim, próprios do ritual destinado à excomunhão.