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O
amanuense Belmiro - Cyro dos Anjos
Refúgio em
sonhos e ilusões
O Amanuense Belmiro, de Ciro dos Anjos,
livro de estréia desse mineiro que integrou a geração modernista de 1930.
Pertence ao que se poderia
chamar o Lado B do Segundo Tempo do Modernismo Brasileiro (1930-45), pois não
segue o filão principal desse período, que é o romance regionalista de
preocupação política, como Vidas Secas, São Bernardo e Fogo
Morto. É, de fato, uma obra dotada de extremo lirismo, retirado de cenas
simples do cotidiano do protagonista. Lirismo de funcionário público
(amanuense), profissão mergulhada no pequeno, no simples, no cotidiano.
O
político, quando aparece, é de forma tangencial, principalmente no que se refere
aos desenlaces de Redelvim, amigo comunista de Belmiro.De linhagem
psicológica, revelando profunda influência machadiana, porta-se como observador
perspicaz e contido, utiliza-se freqüentemente de uma fina ironia, do pessimismo amargo e
revela-se continuador da tradição memorialista que foi comum no romance do século XIX.
O crítico português Adolfo Casais Monteiro, sobre O Amanuense Belmiro diz: "uma
melodia como raramente o romance no-la dá, um bafo de vida a tal ponto real que desperta
imediatamente tudo o que há de mais íntimo e secreto em cada um." A primeira
edição do livro data de 1936 e já consagra Ciro dos Anjos como um dos grandes
prosadores da Literatura Brasileira, sendo essa sua principal obra, embora tenha escrito
mais um outro romance, que recebeu o título de Abdias.
O Amanuense Belmiro é narrado em primeira pessoa por Belmiro Borba, personagem central,
homem tímido e sonhador, ao mesmo tempo dotado de grande capacidade de observar a si e
aos outros.
Esse aspecto – retirar reflexões
líricas do cotidiano – é um ponto de contato com a crônica, gênero que atingia o
amadurecimento nessa mesma época. Mas há outra semelhança: a despreocupação com
rigidez. De fato, O Amanuense Belmiro é dotado de uma narrativa solta,
esgarçada. Além disso, seu protagonista-narrador é uma figura dominada pela
inércia – apaixona-se por Jandira, mas nunca teve coragem de confessar seus
sentimentos, mesmo depois da perigosa declaração desta de que “precisava de um
homem”.
Essa estaticidade o faz mero espectador, acompanhando as desventuras de
Redelvim, Glicério (jovem de grande agitação social), Jandira (que defende a
liberação feminina, mas não se faz liberada), Florêncio, Silviano (mentiroso
compulsivo e filósofo que só enxerga as alturas). O narrador só obtém colorido
em sua existência quando começa a compor um diário. A literatura dá-lhe vida.
Muitos elementos arrolados acima
fazem lembrar Memórias Póstumas de Brás Cubas. É uma aproximação que não
se mostra absurda, ainda mais quando se tem em mente que entre as muitas obras
citadas no corpo do livro de Cyro dos Anjos (o que constitui uma
intertextualidade, outra característica machadiana), o próprio romance de
Machado de Assis está. A grande diferença é que Belmiro não é amargo como o
autor realista – tem uma paixão mais nítida pela vida.
A paixão e a inércia (que impede
Belmiro de realizar seus sonhos, ou pelo menos de dar mais colorido à sua
existência), talvez estejam baseadas no mesmo aspecto, que seria algo ligado a
um contraste entre o que se tem em mente e o que existe no mundo real. Esse
elemento também explicaria o apego da personagem em relação ao seu passado
glorioso na Vila das Caraíbas, época majestosa de sua família Borba, hoje
decadente. Essas oposições têm um quê de platonismo, o que parece explicar a
obra.
Tanto explica que a narrativa
mais interessante é toda alicerçada no que se chamaria idealismo. Em meio a um
baile de Carnaval, Belmiro, que assume a mesma função de Manuel Bandeira em “Não
Sei Dançar” (Libertinagem), ou seja, mero observador da festa, acaba
aspirando acidentalmente lança-perfume.
É como se atingisse o céu. Em meio ao
seu estado inebriado, vê uma mulher, que o encanta e com quem dança em meio à
multidão. Passado o efeito da droga, passado o baile – amanhece num sofá do
salão –, fica criado o mito, que recebe o nome de Arabela.
Mais tarde saberemos que esse
mito é uma reedição de um outro de infância, de nome Camila. Tempos depois o
protagonista havia revisto esta jovem e ficou desencantado com os efeitos do
tempo em sua decadência. Algo semelhante ocorre quando Belmiro, sóbrio,
conhecerá a Arabela de carne e osso – na verdade Carmélia, que acaba casando-se.
Passa até pela situação humilhante de ela narrar o que se lembrava da figura
desajeitada de Belmiro que ela havia conhecido no fatídico baile.
Ainda assim, o narrador insiste
em sustentar a primeira imagem. É um platônico. Só isso explica sua loucura de
ir até o Rio de Janeiro, só para ver Carmélia embarcar em lua-de-mel. Parece ser
a necessidade de firmar que Carmélia não tinha nada a ver com Arabela.
Relatadas essas tramas, Belmiro
não vê mais motivo para continuar seu diário. Como ele próprio reconhece, finda
a obra, parada a sua vida. Não se deve esquecer que o diário, mesmo preso a
datas como Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, abria um vôo mais amplo para o
passado, mítico ou real, da personagem, ou até nosso mesmo. Terminá-lo é findar
esse salto.