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Memórias
Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Viagem em torno
da própria vida
Apesar de inaugurar em 1881
tanto a fase realista de Machado de Assis quanto o próprio Realismo,
Memórias Póstumas de Brás Cubas é marcado pelo fantástico e absurdo, a
começar pelo título (como memórias podem ser póstumas?) e pela dedicatória
(“ao verme que primeiro roeu as carnes de meu cadáver”).
Esses elementos, somados à
óptica do narrador, um defunto autor, que analisa tudo de forma sarcástica e
isenta, pois está no reino dos mortos, fazem o texto filiar-se a uma tradição
literária do início da era cristã e que já havia alimentado outras obras, como o
Auto da Barca do Inferno: a sátira menipéia.
A crítica, portanto, é a grande
preocupação desse livro. No entanto, não é por causa dela, nem mesmo do
aproveitamento da visão pessimista da existência, que a obra pode ser
considerada como típica do Realismo. De fato, supera os limites dessa escola e
torna-se universal.
Os julgamentos feitos pelo morto
vão-se tornar mais eficientes graças a outros ingredientes, como a quebra da
linearidade narrativa garantida pela digressão, metalinguagem e
intertextualidade. Além de contribuírem para a intemporalidade do texto – que
pode ser resultado ou do ponto de vista da morte ou mesmo da análise
psicológica, que impede um suceder cronológico –, garantem a intenção de
impossibilitar o envolvimento do leitor com a narração, para que a visão da
realidade seja a mais objetiva possível.
A personagem principal dessas
memórias sempre se mostrou de forma nada idealizada já a partir da infância, em
que é apresentada como traquinas, mimada e vingativa. Suas estripulias fazem-na
assemelhar-se a outra criança, o Leonardo de Memórias de um Sargento de
Milícias.
É interessante notar já nessa
fase muitas temáticas ácidas do autor. A primeira manifesta-se por meio do
moleque Prudêncio, escravo constantemente humilhado pelo menino Brás Cubas. Mais
tarde, quando ganha a liberdade, ao invés de conseguir o pão com o suor de seu
próprio rosto, compra um escravo e descarrega nele tudo o que havia recebido do
sinhozinho.
Essa atitude, aparentemente
paradoxal, acaba exibindo um quadro cruel de nossa civilização, fortemente
ajustada na exploração do homem pelo homem. Prudêncio, assim como Juliana, de
O Primo Basílio, acaba legitimando um sistema injusto, pois, apesar de ter
sido vítima dele, quando assume determinado poder, não luta por melhorá-lo,
apenas repete e reforça os erros imperantes.
Outro elemento cruel, ainda na
mesma temática do absurdo, ocorre durante uma festa que o pai de Cubas oferece
para celebrar a queda de Napoleão. Em um dado momento, o menino ouve a conversa
de dois sujeitos sobre a negociação de escravos. Não parece fazer sentido como a
mesma sociedade que se reunia para homenagear a restauração da liberdade, o
mesmo grupo que se dizia adepto do Liberalismo, vivia escusamente da escravidão.
Mais outro aspecto, comum em
toda a obra, surge nessa comemoração. O pai do protagonista a dá inspirado
aparentemente em ideais nobres. No entanto, o que ele quer é exibir-se diante da
nata fluminense. Usando a mesma metáfora do narrador, embaixo de grandes
bandeiras sobrevivem pequenas, muitas vezes até por mais tempo do que as outras.
É o tema do espadim do menino Cubas: nem pensa em grandes ideais – quer é curtir
seu brinquedo. Essa busca egoísta por brilho, escondida em atos nobres, é
constante no romance.
Ainda nesse mesmo episódio
fica-se conhecendo Eusébia e o Dr. Vilaça, flagrados pelo vingativo menino em
situação vexatória atrás de uma moita. Esse será um mote a ser retomado. Por
enquanto, fica marcada na mente do leitor a peraltice que foi o escândalo da
criança em gritar no meio de todos o que havia visto.
O próximo passo da narrativa é a
adolescência, quando o memorando conhece a cortesã Marcela. Cegado pela paixão
libidinosa, quase dilapida a fortuna da família para saciar a sede dessa esperta
espanhola. Mostra-se, mais uma vez, a temática da exploração.
Para evitar uma ruína, o rapaz é
mandado a Portugal para estudar Direito. Essa viagem é bastante curiosa, pois
nela encontra-se um louco – um tipo comum na obra. Outro aspecto digno de nota é
a amizade que o jovem estabelece com o capitão do navio. Quando a esposa deste
morre, podemos perceber o quão complexo é Cubas, pois mostra, em certos
momentos, um coração sensível.
Brás tem um desempenho medíocre
na universidade, pois está mais preocupado com a boemia do que com os estudos.
Ainda assim, ironicamente consegue formar-se, o que lhe traz uma certa crise,
pois é hora de tomar responsabilidade por sua vida. Talvez isso explique a
delonga em voltar ao Brasil.
Volta à pátria, no entanto, por
causa da proximidade da morte de sua mãe. É um capítulo tocante que servirá para
uma reflexão capital. O memorando não entende como uma pessoa tão bondosa, que
nunca desejou o mal de ninguém, foi morrer de uma doença tão cruel quanto o
câncer. Estabelece-se a outra ponta da temática do absurdo: o lado existencial.
Que lógica a vida tem?
Derrubado, isola-se em Tijuca.
Lá conhece Eugênia, chamada ironicamente pelo narrador de “flor da moita”, já
que era filha do Dr. Vilaça com D. Eusébia. Há um leve enlace amoroso, que não
se desenvolve, pois o protagonista não é forte o suficiente para romper três
barreiras: ela é bastarda, pobre e coxa. Vê-se, de forma bem realista, que o
amor tem limites. Vê-se, também, mais uma vez, certa perplexidade diante da inteligibilidade
da existência: por que bonita, se coxa? Por que coxa, se
bonita?
Essa aventura amorosa é deixada
de lado, pois o pai do personagem principal apresenta-lhe uma proposta
interessante: Virgília. Casar-se com ela seria uma forma de garantir uma
excelente carreira política, pois o pai da moça, o Conselheiro Dutra, possuía
muita influência. Mais uma vez está em ação o desespero humano por brilho
social.
No entanto, não age. Deixa-se,
assim como Leonardo e Macunaíma, levar passivamente. Resultado: perde sua noiva
para Lobo Neves, muito mais ambicioso e ativo.
Brás Cubas e Virgília tempos
depois voltam a se encontrar. Apesar de ela já ser uma senhora casada, o
triângulo amoroso estabelece-se. O narrador fica mais uma vez intrigado quanto
às leis da vida: quando eram noivos, não havia amor; agora que está casada com
outro é que surge esse sentimento.
O adultério começa perigosamente
a dar na vista. É por isso que os dois arranjam uma casinha para encontrarem-se
sossegadamente. E para cuidar dela contratam D. Plácida, ex-agregada da família
de Virgília. É mais um momento para Machado de Assis dedicar-se à análise da
condição humana.
D. Plácida, ao perceber que
serviria de medianeira para os amantes, sofre uma crise de consciência. É por
isso que não trata bem Cubas no início, o que dá a ele certo desconforto. No
final, ela acaba adaptando-se à nova condição, mais ainda quando recebe uma
gorda quantia, suficiente para lhe garantir uma velhice tranqüila.
Além disso, o protagonista
apazigua sua própria consciência com uma cínica reflexão de que o vício é o
estrume da flor-virtude. Ou seja, é um pecado grave utilizar-se da miséria da
velha senhora. No entanto, foi assim que a tirou da mendicância. Combina-se,
pois, toda uma rica temática ligada ao pessimismo e à exploração da miséria.
No entanto, muito depois um
homem vai-se tornar amante de D. Plácida e levará todo o seu dinheiro, fazendo-a
morrer na pobreza. Então, para que ela viveu? Só para sofrer? Só para passar
dificuldades? Só para servir? Mais reflexões que escapam à compreensão.
Ainda assim, mesmo com a ajuda
da pobre mulher, essa calmaria durou pouco. Lobo Neves está para ser indicado
presidente de província, o que poderá separar os amantes. Virgília resolve a
situação, convencendo seu marido a nomear Brás secretário. Mas tudo em Machado
de Assis é dilemático. Ao mesmo tempo em que esse ato ajuda-os, atrapalha em
igual monta. É o que percebemos com a visita de Sabina, irmã de Cubas.
Os dois estavam brigados por
causa da divisão da herança do finado pai. Agora o reatar é realizado graças à
preocupação dela com o nome da família: o triângulo amoroso é comentário em toda
a Corte; seria o cúmulo levar isso em frente com a ida à província. Para evitar
essa vergonha, chega a arranjar casamento com Eulália, jovem vinda dos
“novos-ricos”. Mais uma vez o matrimônio funcionando como escada social, pois
seria uma forma da menina obter o que faltava aos seus – nobreza –, mesmo que
graças a tal expediente.
Complicações rondam não só a
possível noiva. Parecem também cercar Lobo Neves. Há várias pistas na obra que
nos fazem desconfiar de que ele sabe que está sendo traído. Mas, por que não
toma atitude? A explicação revela um aspecto vil da personagem: agir seria
acabar com sua carreira política. É o status atropelando a honra.
A catástrofe moral não ocorreu.
O candidato apresentou uma estranha alegação supersticiosa ligada ao 13 que o
fez recusar a nomeação. Ao que parece, foi a melhor saída para a situação em que
se encontrava a narrativa: se ele aceitasse, o adultério viraria desavergonhado;
se recusasse Brás Cubas como secretário, levantaria incômodas suspeitas.
Sem obstáculos, o relacionamento
adulterino cai num marasmo que vem para arrefecer tudo. Tanto que Lobo Neves foi
mais uma vez escolhido presidente de província (num decreto que sai no dia 31) e
parte levando Virgília sem causar grandes fraturas – já estava tudo esgarçado.
A partir daí acelera-se o fim
das memórias. Brás Cubas embarca na política, mas demonstra um desempenho
ridículo e vergonhoso. É também nessa época que reencontra Quincas Borba, colega
de infância que fora rico, virara mendigo – chegou a roubar um relógio do
protagonista – e que agora estava afortunado novamente, graças a uma herança de
um tio de Barbacena. E vinha apaixonado por uma filosofia que havia inventado,
destinada a derrubar todas as outras: Humanitismo. Na realidade, era nada menos
do que uma paródia de Machado de Assis em cima das inúmeras teorias que surgiram
no final do século XIX, principalmente o Positivismo, o Darwinismo e a sua idéia
de seleção natural.
Quincas, que havia escolhido seu
amigo como discípulo, no final acaba enlouquecendo. Então Brás dedica-se a um
projeto que se torna idéia fixa: a criação de um emplasto que eliminaria da
humanidade todo sofrimento. Mais uma vez o tema do espadim, pois tal descoberta,
aparentemente altruísta, nada mais era do que fruto de um pensamento egoísta: o
desejo de ter o seu nome impresso em todo vidrinho de remédio em cada casa da
nossa civilização.
Esse sonho torna-se tão
obsessivo que o pesquisador chega a apanhar um resfriado e nem se preocupa em se
cuidar. Complica-se numa pneumonia que o coloca às portas da morte. É nesse
momento que Virgília, já senhora, vem reconciliar-se. É também o instante em que
ele tem um delírio.
É um capítulo importantíssimo
para a obra. Nele, Brás Cubas viaja à origem dos séculos até encontrar a
Natureza, com quem estabelece um diálogo em que são expressas claramente as
idéias básicas do romance, como o vazio da existência humana, baseada na dor,
miséria e sofrimento. É um discurso que faz lembrar Schopenhauer, filósofo que
influenciou a literatura machadiana. No final, o personagem pede mais tempo de
sobrevivência, no que é atendido. Fica a impressão de que a Natureza nos concede
a vida como um grande escárnio do qual se deleita.
O personagem agüenta mais alguns
dias, o suficiente para conviver um pouco mais com Virgília. Logo depois, morre.
Daí nasce o narrador. É importante lembrar neste ponto alguns conceitos básicos
quanto à estrutura narrativa do livro.
Em primeiro lugar, há dois Brás
Cubas. O primeiro é o personagem das memórias, dono de caráter que vacila entre
o preocupar-se com a opinião alheia e o deixar-se levar pelo sabor do acaso.
Falta-lhe, pois, consciência firme, tornando-se, assim, um fraco.
Esse ser sem vigor acaba sendo
superado pelo narrador Brás Cubas. É dotado de enorme sagacidade e espírito
crítico. Suas observações são agudas e saborosas. O seu toque de Midas dá enorme
valor estético ao relato de uma existência medíocre.
Nota-se, portanto, como é
necessário diferenciar narrador de personagem. Este respeita a opinião alheia.
Aquele a desdenha e tem motivos para tanto: já está morto. Não deve nada a
ninguém. Por isso, é capaz de analisar a sociedade e a existência humanas.
Ainda dentro desse aspecto,
crucial se faz discriminar o tempo do enunciado e o tempo da enunciação.
Tempo do enunciado refere-se à
história narrada. Pertence, portanto, à personagem. No caso do romance, é o
pretérito, pois está ligado a ações anteriores ao ato de produção textual.
Tempo da enunciação está ligado
ao ato de narrar. No caso do romance é, na maior parte das vezes, o presente,
seja por ser a forma mais adequada para a intemporalidade da narrativa, pois
quem a redige caiu na eternidade da undiscovered country, seja porque é o
que mais adequada e eficientemente reporta o ato da escritura.
Há mais outro aspecto
interessante, que é justamente a presença de elementos que antecipam o
Modernismo. Trata-se dos capítulos que abusam dos aspectos iconográficos, como
“De Como Não Fui Ministro”, “O Velho Diálogo de Adão e Eva” e “Epitáfio”. Neles,
o leitor é levado a completar a mensagem, num esquema que lembra a iconoclastia
de um Oswald de Andrade e António de Alcântara Machado.
Do balanço da obra fica a
análise social aguda que não se restringe ao mundo carioca, muito menos ao final
do século XIX. Alguns dos seus problemas ainda podem ser vistos em boa parte do
mundo. O primeiro é a luta incessante por prestígio, numa preocupação exagerada
com a opinião e o conceito alheios. É algo que o próprio “Velho do Restelo” já
havia criticado.
Outro elemento a ser levado em
conta é o absurdo da sociedade em que vivia Brás Cubas: escravocrata, apesar de
defender o liberalismo, concentradora violenta de renda e exploradora da miséria
alheia. Há também absurdo na questão existencial. A vida parece ilógica.
Tentar entender esses elementos,
expostos nos dois parágrafos anteriores, é encaminhar-se para a loucura – tema
muito comum na obra – ou como válvula de escape a indicar que a mente falhou (o
mundo é incompreensível), ou como chegada a um nível superior a indicar que a
mente evoluiu (o mundo é compreensível).
Qualquer que seja o ponto de
vista a ser assumido, não há como não enxergar que essa obra é um monumento da
Literatura Brasileira, por fazer uma análise profunda e ainda atual da condição
humana.