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Madame Pommery
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Hilário Tácito
A sátira de costumes Madame Pommery, de Hilário Tácito, enquadra-se
claramente no Pré-Modernismo brasileiro, tanto na acepção mais ampla, quanto no
sentido mais restrito do termo.
Por um lado, a obra teve sua primeira edição em 1920, portanto cronologicamente
situada no período. Por outro lado, pelo seu tom de aguda e desabusada crítica a
determinados aspectos da vida paulistana e nacional e pela sua linguagem
absolutamente irônica e reveladora de aspectos bem pouco edificantes da nossa
experiência social e cultural, Madame Pommery pertence à galeria das
obras que abriram caminho para a revisão crítica do país e de suas instituições
mais particulares, que, segundo Hilário Tácito, seriam: o coronelismo e o
caciquismo. Daí a sua conexão com as trilhas exploradas pelos modernistas, e
qualquer leitor que conheça as Memórias Sentimentais de João Miramar, de
Oswald de Andrade, perceberá a afinidade intelectual entre as duas obras, uma
vez que ambas utilizam o registro satírico como forma de crítica à sociedade
cafeeira paulistana do início do século. Além disso, nesses dois romances, a
fragmentação da narrativa (muito mais radical em Oswald) é um dado fundamental,
que aponta para a renovação das formas literárias do período.
Cumpre lembrar também que Madame Pommery, apesar de menos conhecida,
faz parte de uma tradição de literatura satírica que remonta ao Romantismo
brasileiro e percorre os séculos XIX e XX, com ilustres representantes nas
Memórias de um Sargento de Mílicias, de Manuel Antônio de Almeida, nas
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, no já citado romance
de Oswald de Andrade, e em Macunaíma, de Mário de Andrade. Além disso,
Madame Pommery aproxima-se tematicamente, e de maneira irônica, de uma larga
tradição de romances românticos centrados na figura da cortesã (prostituta
fina), cujo melhor exemplo é a Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, e
que apresenta um bom modelo nacional em Lucíola, de José de Alencar.
Assim, uma leitura atenta permite estabelecer inúmeras relações entre Madame
Pommery e estas obras, quanto ao gênero, à linguagem e à construção narrativa e
romanesca, bem como em seu caráter temático e estilístico, exigindo do leitor um
trabalho essencialmente baseado na intertextualidade e na metalinguagem.
Aliás, muito da graça e do prazer da leitura se perde justamente se o leitor
contemporâneo não dispuser de uma bagagem mínima de referências culturais
brasileiras que estão na base do efeito satírico que a obra produz.
Análise da Obra
O título
De
imediato, o título Madame Pommery chama a atenção do leitor, que é
induzido a relacioná-lo ao título de um dos maiores romances do século XIX:
Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Madame Bovary foi publicado na França em 1857, e é considerado o marco
inicial do Realismo europeu. O livro, quando veio à luz, produziu um impacto
imenso e um escândalo rumoroso, que acabou levando seu autor aos tribunais,
acusado de ataque virulento à moral.
O
romance narra a história de Emma Bovary - esposa de um pacato, medíocre, e
provinciano médico chamado Charles Bovary - que, sufocada pelos estreitos
limites da existência pequeno-burguesa, entrega-se a um amor adulterino, cujo
desenlace é trágico e culmina na morte da protagonista. A partir desse núcleo
narrativo, Flaubert passa em revista a sociedade de seu tempo, expondo com
dureza o asfixiante universo da existência moderna numa sociedade já plenamente
burguesa, cujo traço essencial parecia-lhe ser a hipocrisia.
Madame Bovary causou celeuma e abriu as portas para o Realismo, e em seguida
para o Naturalismo de Émile Zola, que radicalizou em muito o método e as
propostas realistas. Além disso, este romance produziu uma série de “imitações”,
das quais O Primo Basílio, de Eça de Queirós, pode ser um exemplo. Aliás,
a protagonista do romance lusitano, Luísa, já foi chamada de a “Bovary
portuguesa”. Ecos de Madame Bovary são perceptíveis até em Machado de Assis -
apesar da acentuada particularidade da obra machadiana frente aos modelos
realistas e naturalistas - em romances como D. Casmurro e Quincas
Borba, nos quais o adultério, suposto ou insinuado, é elemento essencial
para a compreensão do tênue limite entre o indivíduo e a sociedade. Assim , a
crítica literária chegou até mesmo a criar um vocábulo para expressar essa
avassaladora importância e constante reiteração do romance francês: o bovarismo.
Desta forma, tornam-se evidentes as intenções satíricas de Hilário Tácito,
pois, apesar de o enredo de Madame Pommery não apresentar semelhanças,
ainda que superficiais, com o do romance francês, os dois livros compartilham a
mesma categoria de “romances de costumes”, na qual a crítica social é o elemento
preponderante. A distância entre estas duas obras é imensa, mas com certeza a
escolha do título serve muitíssimo bem às intenções satíricas e desabusadas de
Hilário Tácito, pois o bovarismo, levado às últimas conseqüências e associado ao
método determinista dos naturalistas do século XIX, produziu uma literatura de
gosto duvidoso, quase alçada à condição de discurso oficial do cientificismo da
época.
Assim, Hilário Tácito alia-se, por um lado, a uma tradição moderna de crítica
social e, por outro, afasta-se de uma literatura pseudo-científica e por demais
sisuda e desgastada, fazendo valer a ironia e a sátira como elementos de maior
alcance para a compreensão dos complexos mecanismos de uma sociedade como a
nossa, que, no início deste século, estava dividida entre as heranças
patriarcais e a modernização técnica e social acelerada, o que em essência
Madame Pommery busca registrar.
Linguagem e
estilo
Hilário Tácito, Montaigne e Rabelais: paródia e carnavalização
Hilário Tácito é um
narrador altamente sofisticado e erudito. Seu estilo é marcado por uma sintaxe
repleta de volteios e por uma ironia cortante, acompanhadas de constantes
digressões de caráter filosófico.
José Maria de Toledo Malta era um profundo conhecedor da obra de Montaigne,
filósofo da renascença francesa, e de seus Essais, que representam uma
profunda renovação do pensamento filosófico no século XVI. Montaigne foi, acima
de tudo, um grande moralista, um observador agudo dos comportamentos humanos e
de suas contradições inextricáveis. Ele se enquadra em uma larga tradição de
moralistas franceses, que inclui pensadores como Voltaire, La Rochefoucauld e
Vauvernagues, e representa o pensamento filosófico da Renascença francesa, que
recoloca a razão como elemento essencial à compreensão do mundo e da condição
humana. Seu estilo é irônico e bastante humorado, revelando um ceticismo típico
do racionalista que se debate com a crise dos valores tradicionais no início da
idade moderna. Sua filosofia e sua moral ultrapassam os estreitos limites da
escolástica medieval, incapaz de avaliar plenamente uma nova dinâmica social,
oriunda da burguesia e do mercantilismo nascentes.
Outro grande autor do período, e que também é referência importante para Hilário
Tácito, é Rabelais e sua obra Gargantua, que tem o riso e o humor como
elementos essenciais à crítica social e à compreensão do comportamento humano. O
universo ficcional de Rabelais é regido pela lógica dos avessos, ou seja, pela
ironia radical que beira ao absurdo e ao nonsense, e inaugura uma renovação na
tradição literária européia, pois sua obra possui um dinamismo baseado na
ruptura dos estilos tradicionais. Nela, o alto e o baixo se misturam, o sublime
e o grotesco caminham juntos, o popular e o erudito se fundem; Rabelais
reintroduz o riso como forma de crítica radical. Tais características permitiram
ao crítico Mikhail Bahktin desenvolver o conceito de carnavalização, que seria a
essência do processo formal da obra rabelaisiana.
Na
dicção narrativa de Hilário Tácito, temos a herança dessa tradição francesa que
torna o riso e o humor uma forma de crítica aguda da sociedade de seu tempo.
Tácito compõe bem esta galeria de moralistas ilustrados, cuja visão desabusada e
saborosamente crítica é impiedosa na descrição e na análise dos comportamentos
de seus contemporâneos.
Madame Pommery apresenta uma riqueza estilística notável, pautada sobretudo pela
intertextualidade, presente no uso da paródia como elemento dinamizador do
discurso literário. Assim, desde o título até o núcleo temático da obra,
desfilam uma série de referências culturais, literárias e filosóficas
brasileiras e européias. Esse romance bem humorado brinca livremente com o
estilo de autores ilustres, tais como Flaubert, Rabelais, Montaigne e Machado de
Assis e, tanto morfológica como sintaticamente, explora a linguagem erudita e
sofisticada dos escritores parnasianos e decadentistas, plena de floreios
estilísticos contaminados de esteticismo.
O
narrador faz uso do registro coloquial e de um certo “multilingüismo”, uma vez
que registra a fala da protagonista espanhola e os hábitos de uma sociedade que
se quer culta e que emprega a língua francesa e o latim como forma de privilégio
social. Desta forma, o romance é riquíssimo enquanto registro dos hábitos
lingüísticos e das referências culturais da sociedade paulistana no auge da
cultura do café.
A capa da primeira edição e o pseudônimo
de José Maria de Toledo Malta.
Um dos
elementos mais interessantes que aproximam o leitor da obra e das intenções do
pseudo-autor Hilário Tácito é a capa original da primeira edição de 1920,
publicada pela Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, amigo íntimo do autor.
Nela encontramos, ao centro, uma garrafa de champanhe envolvida pelos louros da
vitória, atributo clássico dos heróis e dos poetas. E em torno dela, misturadas
a elementos decorativos típicos do art noveau (arabescos, colunas, castiçais,
linhas curvas e sinuosas associadas à estilização de elementos florais), vemos
quatro inocentes crianças, que bem poderiam ser anjos ou cupidos, carregando
outras garrafas de champanhe, numa possível projeção fálica. Acepção que a
imagem da garrafa central confirma na sua relação com a coroa de louros. Eis aí
a síntese da obra, pois em seguida vamos ler a narrativa da vida da prostituta e
cafetina Madame Pommery, dona do bordel Paradis Retrouvé (O Paraíso
Reencontrado) e, segundo o irônico narrador Hilário Tácito, uma das ilustres
beneméritas do processo de modernização e civilização da Botocúndia (vide a
folha de rosto reproduzida no próximo tópico), ou seja, da provinciana São Paulo
do início deste século. Assim, é bom lembrar que a Paulicéia aparece associada
ao elemento indígena primitivo e arquetípico da civilização brasileira, pois o
nome a ela atribuído deriva de Botucudos, uma tribo localizada na bacia do Rio
Doce e que usava botoques; esta palavra pode também significar caipira.
Porém, um detalhe chama a atenção do leitor mais cuidadoso: uma pequena
inscrição ao pé da página do lado esquerdo do desenho:
Ipse Fecit
MCMXIX
ou seja, a data de 1919 em algarismos romanos e a
expressão latina “o próprio o fez”. Além disso, num exemplar da primeira edição,
que pertenceu a Rui Barbosa, encontramos a seguinte dedicatória:
Ao Exmo. Snr. Conselheiro Rui
Barbosa
A crítica da moral
subvertida transmuda-se na ironia, que é a Lógica do avesso. Contudo, só da
summa grandeza d’alma, e da serenidade do gênio, atrevo-me a esperar a piedade,
e a tolerância, que me hão de relevar a ousadia do gesto humilde com que
apresento a V. Exa. frivolidades tão desprimorosas.
S. Paulo 15-IV-1920
Hilário Tácito
Como podemos verificar, a
assinatura e o nome encontrados na capa são os de Hilário Tácito. Assim, José
Maria de Toledo Malta parece intensificar, com estes expedientes discretos, a
autonomia deste seu pseudônimo, envolvendo o leitor num intencional jogo de
despistamento entre a verdade e a ficção, entre a história e a narração,
fenômeno bastante explorado pelo autor em muitas digressões ao longo da
narrativa:
Não suporto, nem por idéia,
que se possa algum dia taxar de romance, conto ou novela, uma história
verdadeira que, por amor da verdade, tanto trabalho me custou... (p. 69).
Assim, percebemos, a partir da capa e da narrativa, que o verdadeiro personagem
central da obra é o pseudo-autor e narrador Hilário Tácito que - contraposto à
Madame Pommery/personagem-figurino ou rótulo - apresenta um dinamismo
particular, essência mesma da narrativa.
Cumpre ainda observar que
o nome Hilário Tácito abriga já as intenções satíricas de José Maria de Toledo
Malta, pois “hilário”, aqui tratado como nome próprio, ordinariamente é um
adjetivo para engraçado ou cômico. O mesmo se dá com “tácito”, que em princípio
quer dizer subentendido ou implícito. Assim, não devemos esquecer que Madame
Pommery foi inicialmente considerado um roman à clef, ou seja, um
romance cujos personagens estão em franca conexão com personalidades históricas
e ilustres da época. Todavia, tal conexão não é explícita, e sua decodificação
exige a “chave” correta (clef , em francês, quer dizer chave). Eis aí a obra,
hilária, porém tácita.
Devemos ressaltar também
que os elementos levantados apontam para a modernidade de Madame Pommery,
e o colocam em sintonia direta com o Modernismo de 22. Sabemos que em muitos
livros modernistas a relação entre a linguagem verbal e a linguagem visual
(capa, desenhos, grafismos, etc.) é essencial. Veja-se o exemplo de Oswald de
Andrade e Tarsila do Amaral. É inegável que este elemento culmina no
Concretismo da década de 50. Associado a tudo isto está o tom satírico da obra e
a própria referência ao indianismo (Botocúndia) como elemento (des)mistificador
da nacionalidade. Fica inequívoca então a posição ocupada por Madame Pommery
neste momento de efervescência por que passava a sociedade paulistana e a
cultura brasileira nas primeiras décadas do século XX. Além disso, Madame
Pommery tem muito do ambiente registrado pelo pintor francês
Toulouse-Lautrec na sua série de trabalhos sobre a vida boêmia parisiense, com o
seu Moulin Rouge e sua Jane Avril.
Nela alguns aspectos são essencias. Primeiro, a paródia ao estilo pomposo das
crônicas históricas ou dos cronicões, cujos modelos estão no passado da língua
portuguesa e nos remetem ao final da Idade Média e ao Humanismo, principalmente
a Fernão Lopes e à literatura informativa brasileira do século XVI.
Em
Madame Pommery, Hilário Tácito imita o estilo empolado e altissonante dos
títulos e das descrições típicas das crônicas históricas da língua, com seus
personagens lusitanos (reis, rainhas, príncipes e princesas). Assim, o “estilo
alto” (crônica) aqui vem associado ao “assunto baixo” (Madame Pommery e a
prostituição), ao qual se quer conferir um certo ar de dignidade e de seriedade,
pelo menos em aparência, já que o narrador vai abordar a vida de uma ilustre
“brasileira”, o que intensifica o registro satírico. Tal operação tem como
efeito assegurar, em aparência, o lado verídico da narrativa, aspecto este -
como já dissemos - reiterado ao longo da obra pelo narrador, que insiste em
afirmar que sua narração não é romance ou ficção, mas sim crônica histórica.
Outro aspecto interessante encontra-se ao fim da página, quando o pseudo-autor
dedica a obra às “...associações pensantes de São Paulo”. Aqui o deboche
atinge em cheio o academicismo provinciano da Paulicéia, e instaura uma
dissonância que percorrerá toda a narrativa, mimetizada na linguagem culta e
erudita deste pseudo-autor. Linguagem esta plena dos floreios tão ao gosto do
beletrismo parnasiano do início do século. Uma linguagem saturada de referências
elegantes e refinadas, enfim, o estilo “recherché” (elaborado) do decadentismo,
esnobe e afetado e, na maioria das vezes, puramente esteticista. E tudo isso
aplicado a uma matéria que, em princípio, é escabrosa e indigna para os padrões
literários e morais vigentes na época: a meretriz, a cafetina e seu mundo, suas
práticas, em suma, o bordel e sua dinâmica particular, um microcosmo que em
última análise explicita o funcionamento da sociedade como um todo.
A justaposição dos
binômios bordel X sociedade, prostituição X civilização, cafetina
X coronel, materializada por meio de um “estilo alto”, é muito produtiva
enquanto formulação literária, resultado estilístico e penetração no real
histórico. Tarefa no mínimo louvável se devidamente contextualizada, e capaz de
apontar a argúcia de seu autor, o que de novo o coloca num fluxo cultural que
culmina no que de melhor o Modernismo de 22 produziu.
A partir do bordel, Hilário
Tácito passa em revista a sociedade de seu tempo e as instituições sobre as
quais se assenta toda a dinâmica social brasileira nas primeiras décadas do
século XX (e que em verdade marca até hoje a nossa estrutura social e mental): o
coronelismo e o caciquismo. Porém, não sem um travo às vezes moralista e
conservador, sutilmente dissimulado sob a capa de um espírito agudo e
desabusado.
Madame
Pommery tem, pois, o bordel como metáfora e o coronelismo como alvo.
Foco narrativo
Como já dissemos, talvez o
verdadeiro protagonista da obra seja o seu pseudo-autor e narrador. Já no
Capítulo I isto se evidencia, quando o próprio narrador admite estar ferindo as
regras da arte, pois, antes de falar da suposta protagonista, vai falar de si:
Cousa nova há de parecer a
muita gente que este livro, cujo propósito declarado é narrar a vida de uma
personagem tão principal como Mme.Pommery, logo no começo se extravie do seu
reto caminho, trocando assunto de tamanho momento por outro apagado e tão pouco
interessante, como seja a personalidade incógnita do autor. (p.33)
Assim, percebemos que um
narrador de terceira pessoa, onisciente e aparentemente convencional, vai
relatar a vida de Mme. Pommery. Porém, ele se reserva ao direito de comentar e
dialogar com o suposto leitor, que passa a compor não só como um elemento
externo à obra, mas também como uma entidade literária que faz parte do jogo
narrativo. O foco, então, se desloca para a primeira pessoa e introduz alguns
elementos fundamentais para a composição desta narrativa e do seu insólito
narrador, quais sejam: a metalinguagem, o narrador intruso, a
intertextualidade, as digressões.
Aqui é inevitável a
comparação com os narradores da fase madura de Machado de Assis (em Memórias
Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, etc.). A
conexão dos estilos é evidente, apesar das diferenças.
Assim, este
pseudo-autor e narrador intruso passa a conduzir o processo da narração e, em
função dos expedientes acima relacionados, a linearidade narrativa vai sendo
esgarçada e matizada de tal forma, que a obra às vezes beira o fragmentário,
efeito almejado e amplamente desenvolvido pela literatura moderna. Sob este
aspecto, a construção de Madame Pommery também é avançada para a sua
época, e se encaixa no fluxo de renovação das convenções narrativas romanescas
impostas desde o Romantismo e cristalizadas no máquinário narrativo
pseudo-científico do Realismo-Naturalismo, aqui francamente abandonadas e
desautorizadas.
Porém, como bem notou
Tristão de Atayde, num dos primeiros ensaios sobre a obra, tais expedientes
“...não há dúvida que desviam ou enfraquecem a ação primordial da sátira.” .
Assim, há uma tensão permanente entre a matéria narrada e o ritmo da narrativa,
o que, mesmo sendo um procedimento avançado para a época, muitas vezes causa-nos
a sensação de não estar plenamente desenvolvido, e portanto não se sustentar
literariamente. O seu efeito acaba por prejudicar a obra, fazendo-a recair numa
certa monotonia e previsibilidade narrativa. Dessa forma, apesar de percebermos
a audácia da experiência frente aos padrões narrativos vigentes da época, somos
obrigados a concordar com as palavras de Tristão de Atayde.
Aquilo que em Hilário
Tácito parece uma experiência no meio do caminho, ou seja, a subversão dos
esquemas narrativos oitocentistas, encontrará sua plenitude em obras como
Macunaíma, de Mário de Andrade e Memórias Sentimentais de João Miramar,
de Oswald de Andrade.
Devemos ainda reforçar que
esta “volubilidade” do narrador de Hilário Tácito aproxima-se da melhor
produção machadiana, que por sua vez é um dos raros exemplos de dissonância em
relação às convenções literárias e romanescas dominantes no fim do século XIX e
início do XX.
Considerações Finais
Madame Pommery, apesar
de ser um livro pouco conhecido, bem como o seu autor, é uma obra interessante e
capaz de suscitar importantes debates sobre questões fundamentais da vida
paulistana, em particular, e da vida brasileira, em geral, no início deste
século. Muitas das questões levantadas são atualíssimas e deitam raízes nas
estruturas sociais e culturais brasileiras, tais como o coronelismo e o
caciquismo, que dominam a nossa vida política.
Esta obra é realmente
única e riquíssima, tanto no que diz respeito à linguagem e ao estilo, quanto às
intenções que a movem. Porém, é perceptível uma incompletude típica da obra que
promete muito e não consegue realizar plenamente o anunciado, fenômeno não
incomum entre os autores do Pré-Modernismo.
Apesar do interesse do
tema e da matéria narrada picante e estimulante; apesar da linguagem agilíssima
e capaz de incorporar diversos registros lingüísticos, que vão desde o
beletrismo parnasiano até o coloquialismo contaminado de estrangeirismo e já
quase modernista; apesar do estilo repleto de torneios elegantes e
auto-irônicos, que constroem uma prosa requintada e sofisticada, próxima do
melhor ensaísmo moderno; apesar de todas as suas qualidades, Madame Pommery
parece naufragar enquanto objeto estético “autônomo”, cuja estrutura se
justifica em si mesma, construindo um mundo estruturado em leis próprias, as
quais são domínio da ficção e da arte.
Não é, pois, sem motivos,
que este livro - repito, apesar de todas as suas qualidades - caiu no
esquecimento, e não se constitui em obra referencial e indispensável para a
compreensão da cultura e da produção literária brasileira como um todo.
Madame Pommery é a
produção de um autor bissexto, retirado do esquecimento dentro de um projeto de
redefinição do lugar ocupado pelo Pré-Modernismo na tradição literária. E, como
tal, é um bom exemplo dos impasses e contradições do período.
Nele, o que há de melhor é
justamente o que está por ser feito de forma sistemática. E, sem dúvida alguma,
Mário de Andrade e Oswald de Andrade não se descuidaram desta tarefa, e onde
Madame Pommery falha, eles acertam, uma vez que livros como Macunaíma
e Memórias Sentimentais de João Miramar são tão críticos e virulentos
quanto a obra de Hilário Tácito. São, porém, esteticamente muito mais radicais,
e muito melhor acabados enquanto forma e linguagem.
Assim, sem perder de vista
o panorama mais amplo da cultura brasileira, se não podemos alçar Madame
Pommery à condição de obra-prima, também não podemos ignorá-la, e muito
menos as questões que ela suscita.