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Infância - Graciliano Ramos

                               

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Infância - Graciliano Ramos

Publicado em 1945, Infância é uma autobiografia de Graciliano Ramos que prova ser possível uma obra somar os elementos pessoais com os sociais. Muito do que o autor confessa em suas memórias são problemas que afetaram não só a ele mesmo, mas também o seu meio. Sua dor é também a dor de nosso mundo.

Além disso, esse livro lida com elementos que nos fazem entendê-lo como base de todo o universo literário do autor. Nele vemos temáticas que vão povoar suas obras-primas: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a descrição de Graciliano como uma criança oprimida e humilhada, pois é um ser fraco diante de adultos, mais fortes. Este é um dos cernes de sua visão de mundo: a opressão. Quem tem poder, naturalmente massacra, sufoca.

Também faz parte do seu escopo a secura das relações humanas. De acordo com a obra em questão, esse defeito já vem do seio da família. Sua mãe era extremamente ríspida, fria, o que se percebe pelos apelidos com os quais se dirigia a Graciliano Ramos: cabra-cega (por causa de uma doença que teve nos olhos que impossibilitava sua visão) e bezerro-encourado (bovino órfão que recebia o couro de um outro, já morto, para que a mãe deste, enganada pelo cheiro, permitisse a amamentação do desprestigiado).

Outro ponto perturbado na relação familiar é seu pai, que se mostra extremamente autoritário, déspota e tirano em muitos momentos. O episódio em que surra o filho por achar que este havia sumido com um cinturão (descobre depois que a acusação era falsa) é dos mais dramáticos. Talvez só perca para o momento em que esse autoritarismo se mistura a abuso de poder e injustiça em cima do mendigo Venta-Romba. Discretamente o narrador procura uma justificativa, como os problemas financeiros do pai, mas o estrago na confiança no ser humano já era irremediável.

A situação do protagonista é, portanto, de constante opressão. Mesmo quando não se faz de forma explicitamente violenta, realiza-se por meio dos risos e gozações extremamente humilhantes. Até seu processo de alfabetização é angustiante. Nasce aqui o escritor pessimista, amargo, desencantado com o mundo.

No entanto, sua salvação, ou pelo menos válvula de escape, vai-se manifestar na literatura. Acometido pela doença que o fez ficar temporariamente cego e preso em seu quarto, desperta para o encantamento das palavras, analisando-as, namorando-as, principalmente nas cantigas folclóricas entoadas por sua mãe durante os trabalhos domésticos. Um salto maior surge no contato com a enorme biblioteca de Jerônimo Barreto, que permitiu ao garoto ampliar seus horizontes para um mundo diferente da mesquinharia em que havia crescido. E o escritor nasce com o apoio de Mário Venâncio.

Liberto, graças à literatura, distancia-se da infância. Entra no universo dos adultos. Parte para o mundo. Vai torto, desajeitado, mas firme, resoluto. Sua arte de manejar as palavras será sua arma. Por demais eficiente.

A seguir, segue-se um resumo dos capítulos que compõem a obra. 

Nuvens

            Este capítulo, em meio às nuvens em que está mergulhado o passado mais remoto do narrador, é uma pequena súmula de toda a obra.  Flagra-se a personagem descrevendo os pais não como seres humanos, mas como seres ineficientes na afetividade, secos e opressores. A animalização na descrição deles é constante. A literatura, na forma de cantigas folclóricas, é apresentada como elemento capaz de aliviar o cotidiano sufocante da criança Graciliano Ramos. 

Manhã

            Retomam-se temas do capítulo anterior, ligados à opressão a que é submetido o protagonista. Abre-se especial atenção aos seus avôs, o paterno muito culto e o materno forte, rude, não civilizado. Há destaque para a descrição da natureza do sertão. 

Verão

            Com a chegada do verão, vem a seca. A Natureza, pois, é descrita como aplacadora, mais um elemento opressor em sua infância, tanto que lhe causa uma sede terrível em certa ocasião. Neste capítulo o pai é apresentado com uma figura explosiva, uma qualidade que o narrador só vai entender muito tempo depois, quando toma consciência das dificuldades econômicas pelas quais o velho passava. 

Um Cinturão

            Capítulo fortíssimo. O pai, muitas vezes descrito de forma fria como “o homem”, não encontra seu cinturão. Inquire Graciliano, que, assustado, não consegue falar nada. Descarrega sua raiva surrando a criança. “Aliviado”, ao voltar para a rede acaba descobrindo o objeto que tanto procurava. Nota-se que a intenção do agressor é reparar o erro, mas sentimentos devem ter-se misturado, como orgulho, vaidade e medo de perder a autoridade. Talvez um desses elementos, ou todos, justifiquem o fato de o pai hesitar (queria pedir desculpas?) e acabar voltando para a rede e dormir. A conseqüência desse episódio é grave: Graciliano ganha uma desconfiança em relação à justiça dos homens.

Uma Bebedeira

            Graciliano e sua família estão fazendo visita. Ganha destaque neste capítulo o incômodo que as roupas de visita provocam na personagem, principalmente os sapatos. Lembra o capítulo “Festa”, de Vidas Secas, do mesmo autor. É relevante também a presença das mulheres da casa visitada, que trarão um bem-estar excessivo, quase erótico, ao menino.  Elas é que acabam embebedando-o. O álcool, dominando-o, dá-lhe sensação de poder, fazendo-o ter certas liberdades, desafiando o olhar repressor de sua mãe. 

Chegada à Vila

            A família de Graciliano larga o campo e se desloca para a vila, descrita como um mundo estranho para o menino. Fica abismado com o ajuntamento de casas, pela falta de espaço e mais ainda quando vê um sobrado, ou, no seu entender, uma casa em cima da outra. 

A Vila

            Continua a descrição abismada que faz das pessoas e do modo de vida da vila. 

Vida Nova

            Na Vila, o pai do narrador torna-se comerciante, o que o mergulhará em várias dificuldades. É neste capítulo que o protagonista fala de seu medo de fantasmas, o que o faz dormir num colchãozinho na sala. Dedica-se, nas madrugadas, a prestar atenção ao ruídos dos sapos, que, em sua linguagem, falariam das mesmas opressões que o menino vivencia em sua tosca infância. 

Padre João Inácio

            Este capítulo dedica-se à descrição do Padre João Inácio, extremamente rude com seus fiéis. No entanto, mostrou-se extremamente dedicado a doentes graves. Torna-se personagem dura, mas admirável. Dessa forma, Graciliano acaba aprendendo que certas pessoas têm em sua rispidez apenas uma casca que envolve um caráter humano. 

O Fim do Mundo

            Outro capítulo que nos surpreende apresentando uma personagem grosseira mostrando um lado humano. Dessa vez é a mãe do protagonista, que, após ler um texto religioso sobre o fim do mundo, mergulha em um desespero imenso. Abraça-se ao filho e desmancha-se em choro. Incrível é notar como pessoas tão massacradas têm, ainda assim, um apego à existência e ao mundo injusto em que vivem.

O Inferno

            Aqui se revela o ingrediente que serviu de base para o capítulo “Inferno”, de Vidas Secas. Graciliano pergunta à mãe o que é o Inferno. Ao ouvir a explicação dela, faz questionamentos baseados na lógica e na curiosidade. Se os diabos agüentavam o fogo do Inferno e se as pessoas condenadas passavam a eternidade ardendo lá, então, no seu entender infantil, elas transformavam-se em demônios. Além disso, pergunta se a mãe já havia estado no Inferno. Diante da negativa, pergunta então como ela sabia as características do Profundo. Ela responde, então, que se baseava no que haviam dito os padres, homens de muito estudo. A mesma indagação: eles estiveram lá? Diante de mais uma negação, o garoto mostra-se incrédulo diante da existência do Inferno, o que lhe vale uma surra de chinelo. Apanha porque questiona, o que pode ser entendido por desrespeito. Apanha porque a força é o último argumento – falho, por sinal – quando todos os outros não funcionam. 

O Moleque José

            Descrição de um garoto que trabalhava para o pai do protagonista. Mais pobre, revela, no entanto, superioridade em relação ao narrador, pois tem mais experiência de vida e maior conhecimento de mundo. O capítulo encerra-se com o relato de um episódio em que o pai resolve descarregar sua raiva castigando José. Graciliano, num misto de burrice e sadismo, sentimentos disfarçados na vontade de ajudar na punição, resolve ferir o pé da vítima. O pai, diante de ato tão vergonhoso, pára de bater em José e transfere sua fúria para o filho. 

Um Incêndio

            Outro capítulo em que aparece o raciocínio lógico contra o religioso. Guiado pelo moleque José, Graciliano vai ver um incêndio que destruiu a moradia de gente pobre. É quando se depara com algo asqueroso: um cadáver carbonizado. Era de uma mulher que havia entrado em sua casa em chamas para salvar um quadro de Nossa Senhora. Não entende como a santa havia permitido que tal acontecesse. Não aceita nem mesmo a alegação de que deveriam ser os desígnios divinos, ou então que agora a vítima estava salva, no Paraíso. Termina a narrativa amaldiçoando a divindade e o moleque José por terem feito provocado tanto mal-estar nele diante de uma cena tão escabrosa. 

José da Luz

            Autoridade policial da vila, José da Luz proporciona uma excelente experiência para o protagonista. O medo que sente dele transforma-se em amizade, pois é alguém que tem tempo e disposição para conversar com Graciliano, sem intenção de massacre ou humilhação. É, pois, quem o aproxima da espécie humana. 

Leitura

            O pai de Graciliano convence-o (numa forma que o deixa desconfiado, pois usa um discurso manso) a se alfabetizar, alegando que isso iria permitir com que tomasse posse de uma arma poderosíssima. Num primeiro instante, o narrador mostra-se incrédulo. Mas a descrença é rapidamente substituída pela angústia, pois a aprendizagem é feita de forma dolorosa, violenta e sufocante, pois não respeita o ritmo e o universo cultural do menino. Mas é apenas o início de uma longa agonia. 

Escola

            A agonia de Graciliano aumenta na escola, onde continuará seu problemático processo de alfabetização. Há aqui, assim como nos capítulos seguintes, uma crítica moderníssima ao sistema educacional: como ensinar eficientemente, se o que é apresentado aos alunos está muito distante da realidade deles. Esse elemento fica claramente representado na forma “ter-te-ão”, pedra que aparece no caminho do protagonista. Fica pasmo diante de uma palavra que não tem noção do que seja. O mais absurdo é que nem sua professora sabe do que se trata.

D. Maria

            Capítulo dedicado à descrição da primeira professora de Graciliano, mulher limitada em seus conhecimentos, mas que, com seu jeito meigo, atencioso e compreensivo, perdoando os erros dos alunos, acaba tornando-se um oásis no difícil processo de aprendizagem do protagonista. 

O Barão de Macaúbas

            Vencida, a muito custo, a primeira fase de alfabetização, Graciliano passa para um novo estágio, em que tem de mexer com um livro de leitura do Barão de Macaúbas. Este capítulo contém fortes críticas à ineficiência e inadequação dos métodos de ensino. Há também um saboroso ataque à literatura em voga, dotada de uma linguagem rebuscada, como um cipoal no qual o leitor-menino acabava se enroscando e sofrendo cada vez mais. É impagável o seguinte trecho, excelente resumo do que está sendo exposto: “e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário” (é sabido que o estilo de Graciliano Ramos é extremamente enxuto, seco, econômico. Dessa forma, o rebuscamento de linguagem de suas primeiras leituras é o extremo oposto do seu fazer literário. É também interessante lembrar que o estilo a que se dirige a crítica provavelmente deve ter sido influenciado pela escola literária que fazia sucesso na passagem dos séculos XIX para o XX, momento em que o autor estava no colégio: Parnasianismo).

Meu Avô

            Este capítulo apresenta o avô da personagem dedicando-se a ajudar na alfabetização de Graciliano. No entanto, realiza seu trabalho de uma forma toda torta, pois sua rispidez traumatiza mais ainda a criança. Aliás, torta é a relação entre os dois, pois mistura elementos díspares. Sua rispidez é a maneira de ser afetivo. Seu incentivo à leitura vai por um processo desincentivador. 

Cegueira

            Momento doloroso na vida de Graciliano. Acometido por uma doença que inchava seus olhos, inflamando-os, ficava impossibilitado de enxergar. Cego, mergulhado em dores terríveis, acaba por ficar preso a seu quarto. Introspectivo, recorda o apelido com o qual era chamado até por sua própria mãe: cabra-cega. Não fica irritado com o nome em si, mas com o que essa palavra fazia lembra, pois era usada em uma trova infantil que terminava com obscenidade. E ao recordar essa alcunha, lembrava a outra que sua mãe usava (é incrível a sinceridade ríspida com que a mãe de Graciliano se dirigia a ele. Mas isso não se restringia aos apelidos. Não escondia a impaciência e, muitas vezes, asco com relação à doença do filho), bezerro-encourado, pois as roupas que o menino usavam não tinham caimento perfeito nele, ficando sempre folgadas. Mais uma vez, fica chateado com as conotações, pois tal bezerro era empurrado para a vaca. Estabelecia-se, pois, referência ao fato de Graciliano não ser aceito por sua mãe, de ser um enjeitado. Seu alívio surge quando, no clímax do desamparo em meio à escuridão da cegueira, desperta, graças às cantigas folclóricas que ouve de sua mãe durante as lidas domésticas, uma atenção e uma paixão pelas palavras. Começa a nascer o escritor. 

Chico Brabo

            Mais aprendizados o protagonista vai ter em relação ao caráter humano, dessa vez proporcionados por um seu vizinho, Chico Brabo. Socialmente, na rua, era uma pessoa de extrema amabilidade. No entanto, uma outra personalidade era revelada quando essa gentil personagem se fechava em sua casa. Na escuridão de sua cegueira, Graciliano de forma angustiada podia ouvir os gritos de Chico Brabo e, muitas vezes, a surra que dava no seu empregado, um garoto chamado João. Além disso, chama a atenção a estranha relação que se estabelecia entre opressor e oprimido, como se um fosse necessário ao outro. Havia o conflito, as pancadas surdas e depois tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido –  Chico amável, João brincalhão. 

José Leonardo

            Descrição de uma personagem que se destoa da galeria apresentada até aqui. Basta lembrar que é comparada a um relógio, pois é justo, calmo, equilibrado, limpo. É um ser que até poderia ser considerado progressista em relação aos demais. 

Minha Irmã Natural

            Este capítulo serve para amesquinhar o caráter do pai de Graciliano. Em primeiro lugar, o velho sente-se diminuído por ter espalhado poucos filhos no mundo, limitado que era por sua condição econômica. Era como se o seu papel de macho fosse reduzido. E dentro desses poucos relacionamentos anteriores ao casamento havia nascido a irmã natural do autor, sempre tratada de forma distante e respeitosa pelos demais familiares. Até o momento em que a menina iniciou namoro. Ganha ferrenha oposição do pai, mas está apaixonada. Foge de casa para se unir ao seu amor. O narrador deixa subentendida a idéia de que fora a saída de que o pai mais tinha gostado, pois poupava-o das despesas matrimoniais. 

Antônio Vale

            Este capítulo tematiza as dificuldades que o pai do protagonista tem em relação ao comércio, pois algumas mercadorias não vendem muito, outras estão micadas, além de haver o problema dos clientes caloteiros. Destaque é dado a Antônio Vale, homem com fama de não pagar suas dívidas, mas com quem o pai do narrador estabelece negócio. Diante do atraso do pagamento, o comerciante mergulha na agonia, maldizendo o sujeito com quem estabeleceu transação. A situação piora quando tem conhecimento de que o homem está para partir. Mas ocorre um anticlímax humilhante: Antônio Vale surge apenas para cumprir a sua palavra e pagar seus débitos. 

Mudança

            Diante da enorme dificuldade financeira, o pai do narrador desiste de ser comerciante, abandona a vila e volta para Viçosa, tentar ser novamente agricultor.

Adelaide

            Graciliano volta à escola, agora de D. Maria do O, personagem que, assim como sua família, servirá para o narrador descarregar um surpreendente racismo. É neste capítulo que se apresenta a prima Adelaide. Quase órfã, pois fora “abandonada” por sua família à instituição educacional, é humilhada pela professora e suas parentas, que jogam a menina em serviços domésticos, sem nem mesmo levarem em conta as amplas e fartas contribuições que os pais da garota dedicam ao colégio. 

Um Enterro

            Graciliano, na ocasião do enterro de um coleguinha, visita pela primeira vez um cemitério. Tudo para ele e seus companheiros é motivo de festa. Esquecem até que aquele ambiente povoava as histórias de assombração. Talvez isso se explique por essas narrativas passarem-se à noite, enquanto eles o adentravam durante o dia. No entanto, uma mudança drástica se processa. O narrador afasta-se do grupo e pára num lugar em que eram depositados ossos. É uma experiência terrível, pois acaba se tocando do futuro de todo ser humano. Desperta-se na personagem um pesado sentimento niilista.

Um Novo Professor

            Graciliano muda de novo  de escola. E mais uma vez derrama racismo, só que agora discreto. Seu novo professor é um mulato caracterizado como “pachola” e dotado de trejeitos afeminados. Gasta horas diante de um espelho, numa crise de vaidade terrível. Se está contente com seu cabelo, que temporariamente se mostra domado, tem um desempenho paciente como professor. Mas quando não está contente com as melenas ou com o tom da pele, torna-se extremamente rígido. No entanto, o elemento mais ácido está no irmão do professor, que um dia surgiu num desabafo, aparentemente para as paredes, de que tinha um lugar na sociedade. Provavelmente fora desrespeitado. Fica nas entrelinhas a idéia de que ele, o irmão, assim como Maria do O, eram personagens que lutavam por um espaço num meio preconceituoso, que empurrava os negros para a miséria e a marginalização.

Um Intervalo

            Este capítulo é de fato um “intermezzo”. Graciliano realiza uma tentativa eclesiástica, servindo de coroinha. Mas seu desempenho é um desastre, o que o afasta dessas atividades. No entanto, ganha amizade com as mulheres ligadas a esse meio, o que gera um certo alívio a seu cotidiano tão massacrante.

Os Astrônomos

            Num rasgo de bondade, o pai de Graciliano começou a acompanhá-lo na leitura de um livro. O menino fazia essa tarefa aos tropeços, mas tinha um apoio, algo de que acabou gostando. Mas a generosidade era apenas fase. De cabeça quente com os negócios, não mais se interessou no brinquedo do menino, deixando-o frustrado. Pede a ajuda, pouco depois, a sua parenta Emília, que questiona por que não fazia a tarefa sozinho. Incentiva-o, pois, nesse desafio, dizendo que a leitura era uma coisa maravilhosa. Usa até uma metáfora que o garoto acha exagerada: os astrônomos são capazes de ler maravilhas no céu. Mesmo discordando da imagem (a figura de linguagem estava muito acima da capacidade intelectual do protagonista), entrega-se à tarefa, que se vai revelando suadamente prazerosa.  Mas, ao contrário dos astrônomos, vai-se dedicar a textos em que consiga se identificar, como atesta o final do capítulo: “Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes”.

Samuel Smiles

            Mais um passo importantíssimo. Graciliano tem agora um novo professor, homem que demonstra autoridade por ter domínio de conhecimento. Tanto que corrige a leitura do protagonista quando lê a palavra “Smiles”. Apesar de “smailes” ir contra todo o conjunto de valores do menino, a segurança, a firmeza da retificação foi argumento eficiente. Tanto que quando lê essa palavra diante dos trabalhadores do seu pai, não se importa mais com as risadas deles. Antes o afetavam. Agora, tem a convicção do conhecimento, da sabedoria. Eles é que estavam errados, nas trevas da ignorância.  Está protegido.

O Menino da Mata e o seu Cão Piloto

            Graciliano dedica-se à leitura de um livro, “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”, apesar da crítica depreciativa de Emília, que se baseou apenas no fato de o autor da obra ser protestante. Por um instante o narrador balança em seu desejo de conhecer a obra, mas no fundo sente não haver lógica em tal critério. Dedica-se ao volume, mas sai frustrado, pois as personagens morrem. Não houve compensação da dor da vida que levava. Pelo contrário, ocorreu aguçamento. Por isso chora. 

Fernando

            Este capítulo apresenta uma personagem protegida do coronelismo que existia na região: Fernando. Por causa disso, dedica-se a inúmeras maldades e crimes, até mesmo abusando sexualmente de várias mulheres. Torna-se, aos olhos do narrador, o monstro, o vilão. Mas é alguém que vai proporcionar ao garoto mais uma experiência sobre o caráter humano. Houve um momento em que haviam desmontado um caixote. O vilão acaba dando uma bronca nos trabalhadores, porque estes haviam deixado várias tábuas no chão e uma delas podia, com seus pregos expostos, ferir o pé de uma criança desavisada.

Jerônimo Barreto

            Graciliano havia esgotado seu diminuto universo de leituras. Como aumentá-lo? É aconselhado a pedir ajuda a Jerônimo Barreto, dono de uma vasta biblioteca. É tocante a humildade com que, com estranha desenvoltura, o menino faz seu pedido. É tocante também o cuidado que tem com o livro (o primeiro volume fora O Guarani, de José de Alencar), embrulhando a capa em papel, tomando cuidado até para não amassar as páginas. E o resultado também é tocante: o universo cultural do garoto vai ser imensamente ampliado. Tanto que leva vantagem na escola. Sempre tinha notas mais baixas nas provas, pelas já conhecidas dificuldades em relação ao estudo, enquanto os outros alunos se destacavam. No entanto, esses decoravam informações que após a prova eram esquecidas. Um dia, o professor aplicou uma prova surpresa e o pouco que Graciliano conhecia tornou-se muito em relação aos outros alunos. Poderia ser um conhecimento que não se encaixava integralmente ao currículo, mas era algo que impunha respeito. O protagonista já estava, pois, derrubando seus obstáculos, graças à leitura.

Venta-Romba

            Este capítulo é irmão de “Um Cinturão”. Nele, ficamos sabendo que o pai de Graciliano Ramos havia sido escolhido para juiz substituto. Torna-se, portanto, uma autoridade. Em certo dia, um mendigo, Venta-Romba, entra inadvertidamente na casa do protagonista, chega até a sala para pedir esmola. Causa tumulto. A mãe rispidamente pede para que ele se retire. O pobre fica atrapalhado, sem reação, estático. Foi pior, pois aquilo foi interpretado como uma afronta. Imediatamente chega o pai, com um soldado, determinando a prisão do invasor. A pífia figura apenas pergunta o porquê de o doutor estar fazendo aquilo, o porquê de estar sendo preso. Mal-estar. Mas não havia como voltar atrás. Tinha que se demonstrar autoridade. E o coitado foi levado para a prisão. A partir desse episódio, aumentou a desconfiança do protagonista nas autoridades e na justiça. E também foi a partir daí que se tornou um filho desafiador e desrespeitador.

Mário Venâncio

            Outro passo importantíssimo para a libertação de Graciliano. Graças à influência de Mário Venâncio, entra para uma sociedade teatral. Cria-se uma escola dramática. Além disso, faz parte de um jornal literário, o Dilúculo. Esse termo, que significa “alvorada”, lembra as palavras-jóias do Parnasianismo. E de fato a linguagem dos demais redatores é por demais rebuscada, decepcionando o narrador. Era o que estava na moda na época, o que o fazia sentir vergonha de não gostar dela, muito menos dos textos e dos temas várias vezes abordados. Mas intui que está com a razão. Traz imbuídas as mudanças modernistas. Nasce, aqui, o escritor.

Seu Ramiro

            Como juiz substituto, o pai de Graciliano sente-se na obrigação de hospedar constantemente pessoas. Uma delas, no seu raciocínio pragmático, poderia trazer-lhe dividendos políticos e econômicos.  É por causa disso que acaba conhecendo Seu Ribeiro, homem que inspirava autoridade e que viera para implantar uma sede maçônica em Viçosa. Até o pai embarca nessa empreitada. Mas decepciona-se, muito provavelmente porque o sujeito desaparecera, devendo ao comerciante uma considerável soma em dinheiro.

A Criança Infeliz

            Este capítulo conta a apresentação de uma personagem que consegue ser mais desgraçada que o narrador. Ninguém lhe tem respeito, nem mesmo sua família. Seu pai o espancava constantemente, sob a alegação de que não prestava. Na escola, era isolado e quem se aproximava dele era execrado. Até o professor se dirigia a ele de maneira claramente ofensiva. O motivo para tamanha aversão não fica claro. Apenas algo fica no ar, quando se diz que os garotos mais velhos é que se comunicavam com ele e por meio de um código secreto. E, como produto de todo esse meio massacrante, acaba por se tornar um bandido da pior espécie e dono da várias mulheres. É na casa de uma delas que termina por ser assassinado pelos seus inimigos.

Laura

            Laura é o nome da famosíssima musa de Petrarca, o que cria toda a imagem da mulher como um ser puro e sublime. Coincidência ou não, esse é o nome da paixão que Graciliano vai ter na escola. E ela marca as mudanças que o próprio protagonista sente em seu corpo. Esta crescendo. O ponto mais interessante é sua iniciação sexual, meio atrapalhada, com Otília. Deixa de lado aquela idealização provocada pela figura de Laura. Tanto que o livro O Cortiço, que tinha escondido por detrás de sua prateleira, depois de conhecido os caminhos da carne, é retirado de sua reclusão e posto à frente. Já não está mais na infância.


  


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