»
Geração do Deserto
-
Guido Wilmar Sassi
O compromisso com a memória histórica é exemplarmente defendida por Guido Wilmar
Sassi, especialmente nos livros Geração do deserto e São Miguel.
Aliás, este
autor tem sido, por excelência, o escritor que retém, ficcionalmente, o espaço e
a história catarinense, construindo uma espécie de regionalismo que consegue
superar os limites espaciais traçados e oferecer uma concepção universal do
homem que atua nesses espaços típicos.
Neste sentido conquista especificidade em
relação aos outros autores já tratados, muito embora reconheça-se em Lausimar
Laus e em Almiro Caldeia autores que, ao abordarem o homem típico, não o dotam
apenas dos valores que o restrinjam ao espaço em que transita.
Na literatura de Guido Wilmar Sassi tem-se o confronto entre o homem e o homem.
Isto é: não mais o homem e a natureza somente, mas o homem e as estruturas
sociais que manipulam a natureza em favor dos detentores de um poder econômico,
revertendo-a em prejuízo e sofrimento para o mais fraco. Parece ser esta a mola
propulsora de suas narrativas, tanto nos contos quanto nos romances. É deste
modo que assegura o teor de universalidade para a sua ficção.
Simultaneamente à
reconstrução de um espaço físico e de um homem que se incorpora a este espaço,
conscientemente estrutura os elementos que anulam os limites geográficos e
determinam a aproximação entre todas as criaturas de qualquer lugar, destituídas
de poder econômico e vítimas da exploração.
É em Guido Wilmar Sassi que se
observa também à identificação entre o autor e personagem tanto no aspecto de
denúncia que seus textos assumem quanto na escolha dos focos narrativos. Isto já
é dado definitivo em seus primeiros livros de contos, como é o caso de Amigo
velho e Piá, Por exemplo.
Em Geração do deserto consolida-se a investida da literatura na
pesquisa da história do estado, funcionando como recuperação consciente de uma
memória cultural onde se constata, mais uma vez, a exploração das classes
populares pelos grupos sociais detentores do poder, bem como o envolvimento com
o problema da extração da madeira, aí configurado como elemento que proporciona
os principais conflitos abordados no romance.
Montando o painel narrativo a
partir de pequenos blocos, a elaboração ficcional da Guerra do Contestado
ocorrida no oeste catarinense dá-se, em Geração do deserto, conforme o traçado
registrado pela historiografia, permitindo que o livro se torne, ao lado do
anterior, uma espécie de documento historiográfico.
As multinacionais têm sido responsáveis por grandes crises econômicas e sociais
ocorridas em território nacional. Destruindo a estabilidade do ritmo natural da
evolução social, alteram o sistema de vida das comunidades e, no caso do
Contestado, geram a revolta dos caboclos, uma vez que passam a competir com eles
na exploração da madeira, explorando-os e os destruindo.
Daí o conflito social
de caráter messiânico, liderado por José Maria, e daí Geração do deserto,
romance que impõe como a memória dos fatos que são desagradáveis à história
política do estado e do país.
As personagens do romance conservam seus nomes
históricos, mas o tratamento ficcional que recebem denuncia sua individualidade
e revela os interesses pessoais que as fazem agir em função do grupo.
Isto é,
sob a ação do grupo, sob os interesses coletivos de preservação do grupo e de
luta contra inimigos comuns, a ficção de Guido desvela os interesses
particulares de cada personagem, revelando os abusos do autoritarismo, as
torturas e as violências praticadas em benefício próprio, mas sob o manto da
religião e da causa.
Igualmente relevante é a importância que o espaço
geográfico assume a narrativa, não apenas como o habitat ao qual se ajustam os
personagens mas também como pólo de convergência destas personagens.
Entretanto, apesar de ter sido o foco gerador da crise, a natureza é espectadora
de tais conflitos humanos. Guido Wilmar Sassi recria a mentalidade dos caboclos,
seus hábitos, crenças e atividades.
Recupera um homem típico do oeste
catarinense, porém num momento crítico, o que amplia sua complexidade devido às
dimensões sociais e econômicas dos problemas que vive.
A pesquisa e a fidelidade
da história comandam o percurso do episódio bélico narrado, mas acima disto está
a elaboração estética que, numa linguagem objetiva, obediente a uma cronologia
linear - a despeito de alguns flash-backs - e à fragmentação operada pela
montagem de cenas curtas em que se alternam pontos de vista diferentes,
determina efeitos ficcionais indiscutíveis.