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Felicidade Clandestina -
Clarice Lispector
A narradora recorda sua infância no Recife. Ela gostava de ler. Sua situação
financeira não era suficiente para comprar livros. Por isso, ela vivia pedindo-os
emprestados a uma colega filha de dono de livraria. Essa colega não valorizava
a leitura e inconscientemente se sentia inferior às outras, sobretudo à narradora.
Certo dia, a filha do livreiro informou à narradora que podia emprestar-lhe
“As Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, mas que fosse buscá-lo em casa.
A menina passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a colega
queria vingar-se: todos os dias, invariavelmente, ela passava na casa e o livro
não aparecia, sob a alegação de que já fora emprestado. Esse suplício durou
muito tempo. Até que, certo dia, a mãe da colega cruel interveio na conversa
das duas e percebeu a atitude da filha; então, emprestou o livro à sonhadora
por tanto tempo quanto desejasse.
Essa foi a felicidade clandestina da menina.
Fazia questão de “esquecer” que estava com o livro para depois ter a “surpresa”
de achá-lo. “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.”
Uma amizade sincera: O
narrador conheceu um colega de escola no último ano de estudo. Desde então,
tornaram-se amigos inseparáveis. Quando não estavam conversando pessoalmente,
falavam-se pelo telefone. A partir de certo momento, os assuntos começaram a
faltar. Às vezes, marcavam encontro e, juntos, não tinham sobre o que conversar.
Calados, logo logo se despediam e, ao chegar cada qual em sua casa, a solidão
batia mais forte. A família do narrador mudou-se para S. Paulo e ele, então,
ficou no apartamento dos pais. O amigo morava sozinho, pois seus parentes
ficaram no Piauí. A convite do outro, dividiram o mesmo apartamento. Ficaram
alegres, porém instalou-se a falta de assunto. Só tinham amizade e mais nada.
Tentaram organizar umas farras no apartamento, contudo a vizinhança reclamou. As
férias foram angustiantes. A solidão de um ao lado do outro era incômoda demais.
Quando o amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura, o narrador fez disso
pretexto para uma intensa movimentação, assumiu cuidar de toda a documentação
exigida. No fim do dia os dois tinham assunto, pois exageravam as palavras no
comentário de detalhes de pouca importância. Foi então que o narrador entendeu
por que os namorados se presenteiam, por que marido e mulher cuidam um do outro
e por que as mães multiplicam o zelo pelos filhos. É para terem oportunidade de
ceder a alma um ao outro. Resolvida a questão com a Prefeitura, os dois
arrumaram falsas justificativas de viajarem sós para estar com as respectivas
famílias. Sabiam que nunca mais se reveriam. “Mais que isso – conclui o narrador
– que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos
sinceros.”
Miopia Progressiva: O menino era tido como
inteligente e astuto em casa. O que ele dizia provocava olhares mútuos de
confirmação de sua superioridade. Então ele começou a compreender que dependia
dele a boa convivência dos membros da família. Quando não era ele o centro das
atenções, eles se desentendiam. Para apoderar-se da chave de sua inteligência, o
menino costumava repetir seus ditos; mas ninguém prestava mais atenção. Essa
instabilidade dos familiares passou para ele, que adquiriu, então, um hábito
mantido o resto da vida: pestanejava e franzia o nariz, deslocando os óculos que
usava por causa da miopia. Toda vez que desenvolvia esse cacoete, era sinal de
que estava interiormente tendo noção de sua instabilidade. Certa vez,
disseram-lhe que passaria o dia inteiro na casa de uma prima casada, sem filhos,
que adorava crianças. Ali, pressentiu ele, não haveria instabilidade: o tempo
todo seria julgado o mesmo menino. Na semana que antecedeu a esperada visita, a
cabeça do menino ferveu: como se apresentaria diante da prima? Inteligente? Bem
comportado? Quem sabe até como palhaço? Triste talvez? Sentia até aperto no
estômago quando antecipava a situação de que ia ser amado sem seleção, sem
escolha, o que representava uma estabilidade ameaçadora. Aos poucos, suas
preocupações passaram a ser outras: que elementos ele daria à prima para ela ter
certeza de quem ele era? Como encararia o amor que ela nutria por ele? Ao entrar
na casa da prima, duas surpresas o desnortearam (ele se desnorteava com
surpresas): a prima tinha um dente de ouro no lado esquerdo da boca; ela o
recebeu com naturalidade, sem evidenciar amá-lo. Já que suas previsões foram por
terra, resolveu brincar de não ser nada. No entanto, à medida que o dia
avançava, o amor da prima se evidenciou. Era um amor sem gravidez: ela queria
que ele tivesse nascido dela; por isso demonstrava o amor estável, a
estabilidade do desejo irrealizável. Amor que incluía paixão, a paixão pelo
impossível. Quando o menino descobriu o ingrediente da paixão no amor, ele
perdeu a miopia e viu o mundo claramente. Foi como se ele tivesse tirado os
óculos e a própria miopia o fizesse enxergar. Desde então, talvez, ele adquiriu
o novo hábito de tirar os óculos a pretexto de limpá-los “e, sem óculos, fitava
o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego.”
Restos do Carnaval:
A menininha de Recife gostava de carnaval. Entretanto, a atenção da família se
concentrava na doença da mãe; por isso, se permitia pouca participação da menina
na folia: ficava até onze horas da noite, ao pé da escada do sobrado onde
morava, olhando os outros se divertirem. Passava o carnaval inteiro economizando
o lança-perfume e o saco de confetes que ganhava. Ela não se fantasiava; porém,
cheia de felicidade, se assustava com os mascarados e até conversava com alguns
deles. Aos oito anos, houve um carnaval diferente. A mãe de uma amiguinha
fantasiou a filha de rosa, usando papel crepom; com as sobras, fez a mesma
fantasia para ela. Os cabelos ficariam enrolados e lhe passariam baton e rouge.
Desde cedo, ela viveu a expectativa do momento de vestir a fantasia; a euforia
era tanta que até superou o orgulho ferido de ganhar um presente porque sobrou
papel. Quase na hora de ser fantasiada, a mãe dela subitamente piorou de saúde.
Coube à menina, sem os cabelos enrolados e sem maquiagem, correr pela rua para
buscar remédio. Mais tarde, acalmada a crise da mãe, ela saiu com a fantasia
completa, contudo o encantamento já não existia mais. Como poderia ela se
divertir, se a mãe estava mal? Só horas depois veio a compensação: um garoto de
doze anos encheu a cabeça dela de confetes. “Considerei pelo resto da noite que
alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.”
O Grande Passeio:
Uma velhinha pobre andava pelas ruas. Era apelidada de Mocinha. Havia
sido casada, tivera dois filhos: todos morreram e ela ficou sozinha. Depois de
dormir em vários lugares, Mocinha acabou, não se sabia por que, passando a
dormir sempre nos fundos de uma casa grande no bairro Botafogo. Cedinho ela saía
“passeando”. Na maior parte do tempo, a família moradora da casa se esquecia
dela. Certo dia, a família achou que Mocinha já estava lá por muito tempo.
Resolveram levá-la para Petrópolis, entregá-la na casa de uma cunhada alemã. Um
filho da casa, com a namorada e as duas irmãs, foi passar um fim-de-semana lá e
levou Mocinha. Na noite anterior, a velhinha não dormiu, ansiosa por causa do
passeio e da mudança de vida. Como se fossem flashes descontínuos, vinham-lhe à
cabeça pedaços de recordações de sua vida no Maranhão: a morte do filho Rafael
atropelado por um bonde; a morte da filha Maria Rosa, de parto; o marido,
contínuo de uma repartição, sempre em manga de camisa – ela não conseguia se
lembrar do paletó... Só conseguiu dormir de madrugada. Acordaram-na cedo e a
acomodaram no carro. A viagem transcorreu para Mocinha entre cochilos e novos
flashes de memória com cenas entrecortadas da vida passada. Foi deixada perto da
casa do irmão do rapaz que dirigia, Arnaldo; indicaram-lhe o caminho e
recomendaram que dissesse que não podia mais ficar na outra casa, que Arnaldo a
recebesse, que ela poderia até tomar conta do filho... A alemã, mulher de
Arnaldo, estava dando comida ao filho; deixou Mocinha sentada sem lhe oferecer
alimento, aguardando o marido. Este veio, confabulou com a mulher e disse a
Mocinha que não poderia ficar com ela. Deu-lhe um pouco de dinheiro para que
tomasse um trem e voltasse para a casa de Botafogo. Ela agradeceu e saiu pela
rua. Parou para tomar um pouco de água num chafariz e continuou andando,
sentindo um peso no estômago e alguns reflexos pelo corpo, como se fossem luzes.
A estrada subia muito. “A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo
verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco de árvore
e morreu.”
Come, meu filho: A mãe dá comida ao filho Paulinho e
ele fica puxando conversa para evitar ter que comer. Os assuntos que ele traz
são desconexos, simples pretextos para não comer. Por exemplo: o mundo é chato e
não redondo; o pepino parece “inreal”, faz barulho de vidro quando a gente
mastiga; quem teria inventado o feijão com arroz; o sorvete é bom quando o gosto
é igual à cor... A mãe, paciente, vai respondendo laconicamente e insistindo em
que Paulinho não converse tanto e coma. No fim, ele pergunta se é verdade que
adivinhou que ela o olha daquele jeito não é para ele comer, mas porque gosta
dele. A mãe diz que ele adivinhou sim, mas torna a insistir em que ele coma.
Paulinho retruca: “ – Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar
só em comida, mas você vai e não esquece”.
Perdoando Deus:
Andando pela Avenida Copacabana, a narradora teve uma sensação inédita:
sentiu-se a mãe de Deus, o qual era a própria Terra, o mundo. Teve um carinho
maternal por Deus. Foi quando ela pisou num rato morto. Encheu-se de susto e
pavor como uma criança. Então revoltou-se contra Deus. Por que num momento de
tanta beleza interior ela tinha topado exatamente com um rato? Teve vontade de
negar que Deus existisse como Deus... Mas percebeu que esse pensamento é a
vingança dos fracos quando tomam consciência de sua fraqueza. Concluiu que a
sensação tão solene que tivera era falsa, estivera amando um mundo que não
existe (“ no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. E porque ainda
não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.(...) Como
posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza?”)
Finalmente, ficou esclarecido na mente dela que estava querendo amar a um Deus
só porque ela não se aceitava. Ela estaria amando um Deus que seria seu
contraste, esse Deus seria apenas um modo de ela se acusar. “Enquanto eu
inventar Deus, Ele não existe”.
Tentação: À tarde, sentada nos
degraus de uma escada, em rua deserta do Grajaú, a menininha pobre, ruiva,
solitária estava com um soluço seco a incomodá-la. Nisso, veio passando um
cachorro basset ruivo. Parou diante da menina, sem latir. Fitaram-se mudamente.
Sem emitir som, eles se pediam: um solucionaria o problema de solidão do outro.
O cachorro foi embora. Incrédula, os olhos da menina acompanharam-no até vê-lo
dobrar a outra esquina. “Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou
para trás.”
O Ovo e a Galinha: O ovo é a própria existência
real, objetiva, em si mesma. A galinha é nossa visão de vida interior; ela só
existe por causa do ovo. Sem o ovo, a galinha não tem sentido. Ela é o meio de
transporte para o ovo, tonta, desocupada e míope. O ovo é sempre o mesmo, isto
é, a vida; a galinha é sempre a tragédia de cada época. O ovo tem sua forma
definida; a galinha continua sendo redesenhada. “Ainda não se achou a forma mais
adequada para uma galinha.(...) O seu destino é o ovo, a sua vida pessoal não
nos interessa.” A galinha prejudicial ao ovo é aquela que só pensa em si, que
não quer sacrificar sua vida. Os homens são os agentes da vida. Os que têm amor
são os que participam um pouco mais da vida. Mas, como o amor é a desilusão de
tudo o mais, poucos amam, porque a maioria não suporta perder as outras ilusões.
“Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor.” Os homens existem
para que o ovo se faça. Aqueles que não entendem isso, suicidam-se ou são
eliminados. Estes não entendem o nosso mistério: somos apenas um meio e não um
fim. Os que não aceitam o mistério procuram eliminar os que o aceitam. Então
eles mandam que estes falem. Enquanto falam, o ovo é esquecido.
Cem anos
de Perdão: A menina e sua colega olhavam para os palacetes e disputavam
a posse imaginária deles. Um dia, a menina viu uma rosa e apanhou-a, tomando
cuidado para não ser vista. Enquanto ela colhia as rosas a fim de levar para
casa, a colega vigiava. As duas, usando dessa estratégia – uma colhia, a outra
vigiava – passaram a furtar rosas com freqüência. Além de rosas, furtavam também
pitangas. “Ladrão de rosas e pitangas têm cem anos de perdão. As pitangas, por
exemplo, são elas mesmas que pedem pra ser colhidas, em vez de amadurecer e
morrer no galho, virgens.”
A Legião Estrangeira: A narradora
recebeu, às vésperas do Natal, um pinto de presente, vindo de uma família que
fora vizinha dela e sumira inexplicavelmente. Então, ela se lembrou de Ofélia, a
filha de oito anos dessa família. Eram pessoas que bloqueavam qualquer
intimidade. Mas Ofélia adquiriu o hábito de visitar a narradora todos os dias.
Enquanto esta ficava à máquina de escrever, trabalhando em sua profissão de
copiar o arquivo de um escritório, Ofélia sentava-se, olhava para ela e dava
conselhos, muito formal, como se fosse uma adulta cheia de sabedoria. A
narradora ouvia, dificilmente falava, sempre a última palavra era da menina,
numa postura antipática. Certo dia, a narradora comprou na feira um pinto para
os filhos, ainda pequenos, brincarem. Quando Ofélia chegou para a visita
habitual, ouviu o piar do pinto, pediu para vê-lo e pegá-lo. Nesse instante,
perdeu a pose de adulta e se tornou uma criança brincando com o pintinho. Depois
deixou-o na cozinha, despediu-se e voltou para a casa dela. Seguindo uma
intuição, a narradora, logo após a saída da menina, foi à cozinha e encontrou o
pinto morto. O pinto recebido hoje estremece embaixo da mesa. “Como na Páscoa
nos é prometido, em dezembro ele volta. Ofélia é que não voltou: cresceu. Foi
ser a princesa hindu por quem no deserto sua tribo esperava.”
Os
Obedientes: Um casal viveu muitos anos junto. Sua harmonia conjugal era
aparentemente perfeita. Mas não tinham emoções. Cumpriam com perfeição a rotina,
totalmente obedientes ao que se convencionou chamar de realidade de um casal,
inclusive quanto à fidelidade. Nem individualmente nem em comum faziam ou diziam
algo de inconveniente. Já ultrapassada a idade de 50 anos, ambos começaram a ter
alguns sonhos. Cada um pensava timidamente em seu interior sem falar: ele
imaginava que muitas aventuras amorosas significariam vida; ela, que outro homem
a salvaria. Certo dia, ela estava comendo uma maçã e sentiu quebrar-se um dente
da frente. Olhou-se no espelho do banheiro, “viu uma cara pálida, de meia-idade,
com um dente quebrado, e os próprios olhos...” Então, jogou-se pela janela. O
marido continuou existindo; “seco inesperadamente o leito do rio, andava
perplexo e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruços
mais adiante.”
A repartição dos pães: Os convidados para um
almoço de sábado compareceram à casa da anfitriã. Todos vieram por obrigação.
Ficaram constrangidos e incomunicáveis antes de serem convidados para a sala do
almoço, considerando a anfitriã uma ingênua, por tirar cada um da sua maneira
própria de viver o sábado. Quando, porém, os convidados entraram na sala do
almoço, surpreenderam-se com o requinte da refeição: uma quantidade excessiva de
legumes e frutas, leite, vinho! Todos comeram em nome de nada, era hora de comer
e, à medida que comiam, veio a fome. Estabeleceu-se uma cordialidade rude:
ninguém falou de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. A comida dizia:
come, come e reparte. Assim se expressa a narradora: “Comi sem ternura, comi sem
a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma.” E
termina: “Nós somos fortes e comemos. Pão é amor entre estranhos.”
Uma
Esperança: Uma esperança – um inseto que se chama esperança – pousou na
parede da casa da narradora. Ela e os filhos ficaram observando a esperança
andar, sem voar (“Ela esqueceu que pode voar, mamãe.”) Uma aranha saiu de trás
do quadro e avançou em direção à esperança. Embora “dê azar” matar aranha, ela
foi morta por um dos filhos. A narradora se espanta de não ter pego a esperança,
ela que gosta de pegar nas coisas. Lembrou-se de certa vez que uma esperança
pousou no seu braço. “Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se
uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E,
acho que não aconteceu nada”.
Macacos: Perto do Ano-Novo, a
família ganhou um mico de presente. Era um macacão ainda não crescido, que não
dava sossego a ninguém. A dona da casa-narradora estava exausta. Uma amiga
entendeu o sofrimento dela e chamou uns meninos do morro. Eles levaram o macaco.
Um ano depois, a narradora comprou uma macaquinha nas mãos de um vendedor em
Copacabana. Era delicada e recebeu o nome de Lisette. Vestiram-na de mulher e
ela encantava a todos. Três dias depois, Lisette estava na área de serviço sendo
admirada pela família. Ela encantava sobretudo pela doçura. Só que não era
doçura, era a morte chegando. Levaram-na rapidamente para o veterinário,
enfrentando um trânsito difícil. Ela estava tendo falta de oxigênio. Deixaram-na
na clínica. No dia seguinte, morreu. Uma semana depois, o filho mais velho disse
para a mãe: “Você parece tanto com Lisette! ‘Eu também gosto de você’,
respondi.”
Os desastres de Sofia: A narradora recorda o que lhe
aconteceu quando tinha nove anos. Ela gostava do professor gordo, grande,
silencioso, feio. Era atraída por ele. Mas infernizava as aulas. A menina fazia
este jogo: amava-o atormentando-o. Não estudava nem aprendia nada. Um dia, o
professor deu como tema de redação uma história em que certo homem pobre saiu
atrás de um tesouro e não conseguiu encontrá-lo. Então ele voltou para sua
casinha e começou a plantar no seu diminuto quintal. Tanto plantou, tanto
colheu, tanto vendeu, que ficou rico. A menina fez um redação rápida, doida para
ir correr no pátio do colégio que era enorme, cheio de árvores. No final da
composição ela tirou uma lição de moral oposta ao espírito da história: há um
tesouro disfarçado, que está onde menos se espera. Entregou logo o caderno e foi
correr no pátio. Mas, certo tempo depois, ela se lembrou de ir procurar algo que
estava na sala. Lá ele encontrou o professor sozinho. Pela primeira vez, ficou
frente a frente com ele, paralisada de medo e de confusão nos seus sentimentos.
O professor mandou que apanhasse o caderno e ela não conseguiu, tamanha foi a
sua perturbação. Pela primeira vez, ele riu e disse que ela era engraçada e
doidinha: onde tinha tirado aquela idéia de tesouro disfarçado? A redação estava
bonita. A menina teve a sensação de ele ter-se deixado enganar : havia
acreditado nela. Pensou que um homem adulto acreditava, como ela, nas grandes
mentiras. Sem pegar o caderno, a menina voltou correndo para o recreio e correu
tanto no parque até ficar exausta. Era uma maneira quase desesperada de se
defrontar com a perturbação que a tomou. Naquele momento, perdeu a fé nos
adultos, pois acreditava na sua futura bondade, superando a fase má infantil. No
entanto, o amargo ídolo havia caído na armadilha de uma criança “safadinha”,
confusa, sem candura; deixara-se guiar pela sua diabólica inocência... Quem sabe
ele estaria pensando que ela era um tesouro disfarçado? “O professor agora
destruía meu amor por ele e por mim (...) Aquele homem também era eu.” A menina
foi subitamente forçada a amadurecer, a descobrir que ela conseguira atingir o
coração do professor. “E foi assim que no grande parque do colégio lentamente
comecei a aprender a ser amada, suportando o sacrifício de não merecer, apenas
para suavizar a dor de quem ama.”
A Criada: Eremita era uma
empregada doméstica que nada mais apresentava a não ser o perfil de um criada:
nem bonita nem feia, cumpria seus deveres sem competência e sem desleixo; mas,
por trás da figura-padrão e das frases convencionais pronunciadas
convencionalmente, escondia-se um mundo interior indecifrável para qualquer
pessoa, inclusive para ela mesma. De vez em quando, se interiorizava, se
desligava; quando retornava desse passeio por sua floresta íntima, estava mais
calma e ia consolidando a sua doçura próxima das lágrimas. Nada em Eremita
denunciava perigo, a não ser uma maneira rápida de comer pão. “No resto era
serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecia sobre a mesa, mesmo
quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A
roubar de leve ela também aprendera em suas florestas.”
A Mensagem:
Um rapaz de dezesseis anos e uma moça de dezessete, colegas de escola
sem amizade, um dia se sentiram ligados um ao outro porque ela disse que sentia
angústia e ele também. A partir de então se tornaram íntimos. Intimidade que não
significava sexo nem amor. Eles se sentiram ligados porque ambos queriam ser
autênticos, sinceros, diferentes dos outros. Não se viam como homem e mulher,
mas como dois seres angustiados, à procura de algo que eles não sabiam o que
fosse. Vagamente, confusamente, achavam-se portadores de uma mensagem. Mas o que
era isso? Saindo do colégio no último dia letivo, os dois caminhavam numa rua
próxima do Cemitério S. João Batista, no Rio. A calçada era estreita e os ônibus
passavam rentes. De repente, os dois se viram colados a uma casa velha. Pararam
diante dela, olharam para a fachada. Em seu íntimo cada um foi se descobrindo
ali, parados: ele era apenas um rapaz e ela, uma moça. Não tinham mais o que se
dizer e por que continuarem juntos. Ela despediu-se, correu para um ônibus que
estava parado. Entrou subindo como se fosse um macaco, pensou ele, vendo-a
acomodar-se lá dentro. A moça saíra envergonhada por se sentir mulher; o rapaz
tinha acabado de nascer homem. “Mas, atolado no seu reino de homem, ele
precisava dela. Para quê? (...) para não esquecer que eram feitos da mesma
carne, essa carne podre da qual, ao subir no ônibus, como um macaco, ela parecia
ter feito um caminho fatal.” O que estava acontecendo a ele naquele momento em
que viu a moça entrar no ônibus daquele jeito? Nada! Apenas um instante de
fraqueza e vacilação. Só que agora ele se sentia fraco para resistir ao que os
outros tentavam ensinar-lhe para ser homem. “Mas e a mensagem?! a mensagem
esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe,
disse ele.”
Menino a Bico de Pena: Um menino, que ainda não
fala nem anda direito, está sentado no chão. Tenta dar alguns passos, cai;
engatinha, baba. Depois a mãe o toma no colo, o faz dormir, troca a fralda dele
e o ouve dar os primeiros sinais da fala.
Uma história de tanto amor:
Uma menina de Minas Gerais tinha duas galinhas, Pedrina e Petronilha. Cuidava
delas como se fossem pessoas. Certa vez, foi passar o dia fora e, quando voltou,
Petronilha tinha sido comida pela família. Ficou contrariada. Mas a mãe lhe
disse que foi pena as duas – ela e a filha – não terem comido algum pedaço de
Petronilha, pois, quando a gente come os bichos, eles ficam parecidos com a
gente, assim dentro de nós. Pedrina morreu naturalmente. Morte apressada pela
menina que, ao vê-la doente, colocou-a embrulhada num pano escuro, em cima de um
fogão de tijolos. Um pouco maiorzinha, a menina teve outra galinha, a Eponina.
Esta foi comida ao molho pardo por toda a família, inclusive pela menina que,
embora sem fome, quis que Eponina se incorporasse nela e se tornasse mais dela
morta do que em vida. “Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina.
A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.”
As água do mundo: Às seis horas da manhã, a mulher entra no
mar: este, o mais ininteligível das existências não humanas; ela, o mais
ininteligível dos seres vivos. Ela vai entrando, cumprindo uma coragem.
Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos
cheia de água, bebe em goles grandes. “E era isso o que lhe estava faltando: o
mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a
si mesma.” Mergulha de novo, de novo bebe mais água. Como contra os costados de
um navio, a água bate, volta, não recebe transmissões. Depois caminha na água e
volta à praia. Agora, pisa na areia. “E sabe de algum modo obscuro que seus
cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um
perigo tão antigo quanto o ser humano.” A
Quinta História: A
narradora conta que se queixou a uma vizinha de que subiam no seu apartamento as
baratas que vinham do térreo. Então a vizinha lhe deu a seguinte receita para
matar as baratas: misturar em partes iguais açúcar, farinha e gesso. “A farinha
e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o dentro delas”. Assim foi
feito e as baratas morreram. Então a narradora conta a mesma história com cinco
versões: “Como matar baratas” (exatamente a história acima); “O Assassinato” (
em que são acrescentados pormenores do estado de espírito rancoroso da
narradora); “Estátuas” (em que se destaca a visão das baratas mortas); na quarta
versão, a narradora opta por dedetizar a casa; a quinta história só tem o
título: “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”.
Encarnação
Involutária: A narradora tem o hábito de, quando vê uma pessoa que
nunca viu, observá-la e encarnar-se nela, para poder conhecê-la. Certa vez, num
avião encarnou-se numa missionária. Durante toda a viagem e alguns dias em
terra, assumiu o “ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma missão”. A
narradora levanta a hipótese de nunca ter sido ela mesma senão no momento de
nascer, e o resto tinha sido encarnações. Depois ela afirma que não, que ela é
uma pessoa. “E quando o fantasma de mim mesmo me toma – então é um encontro de
alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra”. Uma
vez, também em viagem, ela encontrou uma prostituta perfumadíssima que fumava
entrefechando o olhos e estes ao mesmo tempo olhavam um homem que já estava
sendo hipnotizado. Então, a narradora fez o mesmo. “Mas o homem gordo que eu
olhava para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado
no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo”. Duas
histórias a meu modo: A narradora relembra duas histórias, que ela escrevera
para se divertir, dando ao autor imaginário o nome de Marcel Aymé. Félicien era
um vinicultor francês que produzia o melhor vinho da região, mas não gostava de
vinho. Ele e a mulher Leontina escondiam de todos esse fato. Félicien costumava
até fingir-se de alcoolizado para esconder que não bebia vinho.
Outra
história: Etienne Duvilé, funcionário estadual em Paris, gostava de
vinho, mas não o tinha. Sua realidade era uma família grande que sonhava com
mesa farta e ele, com vinho. Depois do sonho de uma noite de sábado, a sede de
vinho piorou. Ele passou, acordado, a querer não só beber vinho mas beber todo o
mundo. Até hoje ele está internado num hospício, tratado com água mineral “ que
estanca sedes pequenas e não a grande”.
O primeiro beijo: Um
rapaz conta para sua namorada que já havia beijado outra mulher. Numa excursão
de ônibus escolar, ele estava com muita sede. Quando houve uma parada perto de
um chafariz, ele foi o primeiro a chegar para beber. Colou a boca no orifício de
onde jorrava a água. Depois que se saciou, abriu os olhos e viu que o orifício
era a boca de uma estátua de mulher nua. Afastou-se, ficou olhando para a
estátua. Fora seu primeiro beijo. “Perturbado, atônito, percebeu que uma parte
de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva.
(...) Ele se tornara um homem.”