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Dona Flor e seus Dois Maridos -
Jorge Amado
Modernismo de segunda fase. A história é dividida em 5 partes (cada uma aberta
por uma lição de culinária de Flor, que é professora desta arte, com exceção
da quarta parte, aberta por um programa para o concerto de Teodoro) e um intervalo.
A primeira começa com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. Vestido
de baiana, Vadinho cai enquanto dançava e seu funeral é muito concorrido. Nele
voltam as lembranças de todos sobre o falecido: os amigos de farra, as possíveis
(prováveis) amantes, os conhecidos e principalmente da esposa, Flor.
Flor lembra
do marido infiel, cheio de lábia, espertalhão, jogador e malicioso que era
Vadinho,
mas ainda assim extremamente adorável. Na definição de um dos presentes no funeral,
Vadinho "Era um porreta". O anteriormente referido intervalo se trata
da discussão que ocorreu na cidade sobre a autoria da elegia a Vadinho, poesia
anônima picante. A segunda parte passasse-se durante o período de luto de Flor.
Inconsolável com a morte de Vadinho, sua mãe volta para a cidade e a situação
piora.
Dona Rozilda é o mais perfeito modelo de sogra: odeia o genro, é chata,
controladora, exibida e pretende sempre escalar na vida social. Passa a fazer
intriga sobre o falecido ("era morte para festa") com várias beatas,
enquanto algumas poucas defendem Vadinho (não seus atos) por ele ser uma pessoa
excepcional (no sentido de incomum, não o de maravilhoso ou com deficiência
mental). Assim em flashback é mais detalhado o passado do casal. A mãe
de Flor queria que as filhas se casassem com homens ricos, e Vadinho apareceu.
Eles se conheceram numa festa chique
(Vadinho entrou de penetra, com a ajuda
do tio) e começaram o namoro com a benção de Dona Rozilda, até que ela descobriu
quem era o genro. Mais tarde Flor sai de casa e se casa (de azul, porque não
teve coragem de por o branco) e começa o casamento. Vadinho é um marido ausente,
sempre gastando o dinheiro (dos outros) no jogo e nas mulheres. Certa vez Flor
quase adotou um menino que ela achava ser filho de Vadinho (Flor é estéril;
o filho era do "xará"). E assim são mostrados os vários acontecimentos,
em flashback, da vida matrimonial com aquele adorável cafajeste, generoso
gastador, infiel e amantíssimo marido que era Vadinho.
O capítulo acaba com
Flor pondo flores sobre o túmulo do falecido, superando melhor o passamento
dele. A terceira parte é passada nos meses seguintes. Flor está mais alegre,
apesar de manter ainda a fachada de viúva. Todas as beatas competem para achar-lhe
um bom pretendente e quem aparece é Eduardo, o Príncipe, calhorda que enganava
viúvas para roubar-lhes as economias. Descoberto, Flor passa a se retrair. Seu
sono torna-se mais agitado, seu desejo cresce na medida em que ela deixa os
homens fora de sua vida pessoal.
Mas então o farmacêutico Teodoro Madureira,
respeitado solteirão (ele ficara solteiro para cuidar da mãe paralítica, que
morreu pouco antes), ele propõe casamento a Dona Flor e eles tem o mais casto
dos noivados, nunca ficando juntos sozinhos. O capítulo acaba com o casamento
de Flor, desta vez aprovado por sua mãe (que havia saído da cidade no começo
do capítulo; nem as outras beatas agüentavam Dona Rozilda). A quarta parte começa
com a lua-de-mel de Dona Flor. Teodoro é diferente do falecido em tudo. Fiel
(não compreende mesmo quando uma cliente da farmácia levanta o vestido BEM alto
para tentá-lo), regular (sexo às quartas e sábados, bis aos sábados e facultativo
às quartas) e inteligente, Teodoro trás a paz de volta à vida de Dona Flor.
Teodoro toca fagote numa orquestra de amadores e o maestro compõem uma linda
música para ela que Teodoro toca solo (o convite abre o capítulo) e no dia do
aniversário de casamento, após os convidados partirem Flor vê Vadinho, nu como
o viu na cama no dia de sua morte, a puxá-la e tentá-la. Ela se recusa naquele
momento, fiel ao marido. Teodoro vai dormir e Vadinho sai logo depois, qundo
Flor ia procurá-lo. Começa aqui a parte do livro que o deixou famoso: Flor,
Teodoro e Vadinho, vivendo em matrimônio ao mesmo tempo, Vadinho nu, invisível
a todos menos Flor.
A quinta parte, que tornou famoso livro, filme, seriado
e tantas quanto foram as adaptações desta obra, começa com o Vadinho vindo de
volta dos mortos, tentando Flor. Flor sente-se dividida entre o esposo atual
e Vadinho, mas este diz-lhe que não há por que o estar: são colegas, casados
frente ao juiz e ao padre. Flor vai aos poucos perdendo a resistência e chega
a encomendar um trabalho para mandar Vadinho de volta para onde estava. Enquanto
isso se passa Vadinho vai manipulando as mesas de jogo, favorecendo velhos amigos,
levando Pellanchi Moulas, rei do jogo em Salvador, ao desespero e a todos os
"místicos" da Bahia para se livrar do azar.
Vadinho só para quando
seus amigos cansam (Mirandão, companheiro seu quando era vivo, para de jogar
definitivamente, assustado com o repetir de vezes que caía no 17, número de
sorte de Vadinho). Por fim Dona Flor sucumbe a Vadinho e passam a viver harmoniosamente
os três uma vida conjugal (mesmo que Teodoro não o saiba). Vadinho chega a fazer
o milagre de expulsar a sogra quando ela chega de mala e cuia para ficar. Vadinho
começa então a desaparecer e Flor se dá conta de que era por causa do feitiço
por ela encomendado.
Há uma batalha entre vários deuses contra Exu (identificado
por alguns como sendo o diabo católico), que protege Vadinho. Quando Exu estava
perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho ganham a batalha. A obra acaba com Flor
andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu, como sempre) ao seu lado, pelas ruas
de Salvador. Esta parte acentua duas características gerais da obra: a religiosidade
que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras
míticas das duas religiões junto e eficientemente simultâneas (algo como é a
religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade
do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana).
A outra
característica vem a ser o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para
o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo
e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um
lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado
na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente
feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois.