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Desmundo -
Ana Miranda
O discurso ficcional permite a desestabilização
do discurso da história, e as histórias podem, então, ser narradas a partir
de um ponto de vista não focalizado pelo último. Se, por exemplo, à história
dos primeiros anos de colonização do país o acesso se dá através dos cronistas
portugueses, o romance de Ana Miranda lê a história destes momentos a partir
de um outro prisma, acompanhando, inclusive, o pensamento da personagem pontilhado
de crenças, medos e questionamentos diante do mundo/desmundo que a ela se apresenta.
A literatura
passa a traduzir uma história que não se quer imóvel. Através da narrativa de
Oribela, o leitor ingressa em formas de ação e de pensamento da época,
deparando-se com aspectos tais como existência feminina, religiosidade, nova
terra, amor e sexualidade. Por meio do relato da personagem fictícia, torna-se
possível pensar no que ela possui de comum com outros indivíduos que viveram no
século XVI, que, por sua vez, herdaram sua forma de ver o mundo a partir de
estruturas mentais construídas culturalmente. O romance de Ana Miranda, enquanto
situação especial de comunicação, se oferece a uma leitura no horizonte da
história das mentalidades e aproveita para utilizar as informações que lhe pode
oferecer este tipo de história.
Mais uma vez
o intertexto com a história se faz presente em Desmundo e, no discurso de
Oribela, ouvem-se as vozes que surgem também quando se consultam livros sobre a
história das mulheres na sociedade colonial, sociedade esta que procurava,
conforme Mary del Priori, domesticar a mulher no seio da família, privando-a de
qualquer poder ou saber ameaçador e regulando seus corpos e suas almas. (15)
Esta
normatização se dava através de dois mecanismos poderosos: o discurso normativo
da Igreja e o discurso médico. Em Desmundo, os ecos do discurso religioso se
fazem ouvir, por diversas vezes, na voz da própria personagem narradora, que
permite as vozes de seu pai, da Velha, de Francisco de Albuquerque, de membros
da Igreja, a revelarem qual deveria ser o papel feminino.
Um dos
momentos em que se torna perceptível de maneira mais enfática esta questão pode
ser apreendido no fragmento textual seguinte:
“Ora ouvi,
filhas minhas. Aquela que chamar de vadio seu homem deve jurar que o disse em um
acesso de cólera, nunca mais deixar os cabelos soltos, mas atados, seja em
turbante, seja trançado, não morder o beiço, que é sinal de cólera, nem fungar
com força, que é desconfiança, nem afilar o nariz, que é desdém e nem encher as
bochechas de vento como a si dando realeza, nem alevantar os ombros em
indiferença e nem olhar para o céu que é recordação, nem punho cerrado, que é
ameaça. Tampouco a mão torcer, que é despeito. Nem pá pá pá pá nem lari
lará.
Nem lengalengas nem conversas com vizinho, seja ele quem for, ou cigano, nem
jogos nem danças de rua, nem olhar cão preto que pode ser chifrudo, deus te
chame lá que ninguém te chama cá, temperar legume com sal, não apagar luz que
alumia morto nem deitar as águas fora que é de judaísmo, não pedir favores nem
pôr os olhos no vizinho nem o corpo na cama de outro, tem o esposo direito de
acusar, para provar inocência a esposa deve lavrar a mão num ferro de arado em
brasa. Açoite e língua furada àquela que arrenegar. Os esposos devem dar panos
às mulheres, mas só nas festas reais, se lhes oferecer o mercador um bom preço,
que eles não façam obra alguma desde o posto do sol até o sol saído e dia de
domingo e a viver segundo o capricho dos homens. Aqui do rei.
E disse eu,
Ora, hei, hei, não é melhor morrer a ferro que viver com tantas cautelas? Ai,
como sou, olhasse a minha imperfeição, olhasse meu lugar, sem eira nem beira nem
folha de figueira” (p. 67).
O fragmento textual
pertencente à terceira parte do romance, intitulada “Casamento”, revela aspectos
interessantes que podem ser analisados. Este fragmento desdobra-se em duas vozes
diferentes: a da Velha que orienta as jovens próximas do casamento e a de
Oribela a questionar sobre tantas imposições. Oribela parece, em determinado
momento, encurtar as orientações da Velha, quando, após tantas regras, surge a
frase: “Nem pá pá pá nem lari lará”. Percebo as interdições impostas pela Velha
como um momento em que a autora recorre às informações extraídas de textos
referentes à história das mentalidades para construir seu texto. É significativo
observar, por exemplo, a reiteração da conjunção coordenativa aditiva “nem” e do
advérbio de negação “não”, para revelar a quantidade de interdições a que uma
mulher casada seria submetida.
Outro aspecto
bastante significativo, quanto ao fragmento textual, é a referência à
normatização do corpo representada, no texto, pelo fato de as interdições
estarem ligadas a partes do corpo, em seqüência: cabelos, beiço, nariz,
bochechas, ombros, olhos, punhos, mãos, língua e, por fim, novamente, o corpo
todo. Nada pertenceria totalmente à mulher: nem sua alma, nem seu corpo.
O
emprego da maior parte dos verbos no infinitivo revela, ainda, a idéia de
atemporalidade, ou seja, as interdições que se declaram a partir do discurso da
Velha parecem valer por muito tempo, numa alusão às mudanças lentas estudadas
pela história das mentalidades, a história da longa duração.
Como é
possível perceber, a história vai sendo lida a partir da literatura, com a
possibilidade de uma liberdade maior no trato com questões esquecidas pela
história tradicional. Zilah Bernd relaciona esta liberdade de que pode desfrutar
o texto ficcional à literatura das sociedades pós-coloniais, atentando para o
fato de que, nestas sociedades, a literatura terá o papel de suprir os vazios da
história oficial, possibilitando que versões populares dos fatos históricos
possam se fazer ouvir, versões estas repletas de referências ao imaginário e de
muitas outras significações, postura bastante comum na ficção da América
Latina.(16) O escritor assume a tarefa do cronista e, além de trabalhar com a
informação, trabalha com a possibilidade de reconstruir o imaginário. A vantagem
deste tipo de discurso é exatamente a possibilidade de desestabilizar a história
oficial, seja através da utilização do ponto de vista descentralizado, seja
através da apresentação de questões não abordadas por aquele tipo de história.
No romance de Ana Miranda, por exemplo, são apreensíveis as relações
intertextuais com o discurso histórico, já a partir do momento em que as
epígrafes são cotejadas. Quando a personagem Oribela passa a narrar sua
experiência no desmundo, a rede intertextual continua.
A linguagem que permite este discurso intertextual em Desmundo advém, ao que
parece, de uma linhagem rosiana. Alguns aspectos presentes na produção literária
de Guimarães Rosa surgem na linguagem da personagem narradora, como a revelar a
necessidade de compreender a realidade e o mundo, ambos muitas vezes
incompreensíveis. A linguagem vai sendo, então, moldada conforme o uso que se
quer fazer da língua.
Davi
Arrigucci Jr., quando se detém a observar, em Guimarães Rosa, as relações entre
linguagem e realidade, aponta para vários aspectos presentes na linguagem
rosiana, especificamente no que concerne ao poético presente em Rosa.(17)
Percebo que muitos dos aspectos apontados por Arrigucci em relação à linguagem
de Rosa são utilizados, também, por Ana Miranda, para construir a linguagem de
Oribela.
Arrigucci, ao
ater-se ao poético em Rosa, elege traços que caracterizam a linguagem rosiana,
estabelecendo, entre o primeiro e o poeta espanhol Góngora, um paralelo. Em meu
trabalho, aproprio-me da análise da linguagem rosiana feita por Arrigucci e, ao
invés de relacioná-la a Góngora, procuro buscar o que há em comum entre a
linguagem rosiana e a linguagem utilizada por Ana Miranda, para construir o
discurso de Oribela.
Em ambos, o
instrumento lingüístico disponível é insuficiente para demonstrar a
grandiosidade dos universos apresentados. Em Desmundo, especificamente, do mundo
– desmundo que a Oribela se apresenta. Há, então, a fuga à linguagem bem
comportada e lexicalizada. Para a criação desta linguagem, comparece uma série
de recursos. A começar pelo título do romance, uma palavra não-dicionarizada,
Desmundo, uma vez que parece faltar o termo exato para expressar o significado
da nova terra para Oribela, que vê seu destino como “desrumo”, outro termo
inexistente na língua oficial. Vale lembrar, ainda, que, ao se referir à nova
terra, a personagem narradora utiliza palavras, dicionarizadas ou não, que são
iniciadas pelo prefixo de negação “des”, como se, vê em: “despejado lugar” (p.
16), “terras desabafadas” (p. 26), “desventura” (p. 1), além dos já citados
“desrumo” (p. 138) e “desmundo” (p. 138). Ou seja, através do trabalho com a
linguagem, é possível revelar o caráter de purgação que caracterizava a nova
terra. Além dos termos não-dicionarizados já citados, outros comparecem para
construir o discurso da personagem Oribela, conferindo à linguagem um matiz
arcaico e, ao mesmo tempo, popular.
Há, entre as
palavras não-dicionarizadas, aquelas cujo matiz arcaico se faz pela ocorrência
de metaplasmos, de alterações fonéticas, o que se verifica também em Guimarães
Rosa. Tais palavras podem, ou não, registrar, em dicionário, uma forma
correspondente, estatuída como oficial. De Guimarães Rosa, extraídos de Grande
Sertão: veredas, ilustram o primeiro caso: “satanazim”, “patavim”, “asp’ro”, “arreparare”,
“essezim”, “tirotêi”. As formas diminutivas “satanazim” e “essezim” exemplificam
a apócope e, ao lado da alteração fonética do sufixo, “inho”, remetem ao tom
arcaizante que Guimarães Rosa deu à linguagem literária, inscrevendo-a como voz
do povo. A tais ocorrências junta-se a síncope do /e/ em áspero>asp’ro,
lembrando a rejeição popular às formas proparoxítonas. E, ainda, “arreparare”,
trazendo à memória a freqüência de próteses características do desempenho
popular: alembrar, afamilhar, azangar, arreceber, adispois, arruído, arrefém,
alumiar, entre outros elementos lexicais, numerosos, dicionarizados, ou não.
Em Ana
Miranda, podem ser citadas, como ocorrências de metaplasmos: a prótese em
“alenternas” (p. 18), “alembrar” (p. 14); em “estromentos” (p. 18), a
desnasalização ins>es lembra que, na gramática popular, um traço recorrente é a
flexibilidade nasalação/desnasalação das vogais iniciais [e] e [i], por
alomorfias de prefixos, como “em”, em ilegal/inlegal, irreal/inreal,
emagrecer/esmagrecer.
Tais flutuações estendem-se, também a palavras em que “em” e “in” são iniciais
sem que sejam prefixos, como se verifica em “instrumentos/estromentos”, onde um
outro metaplasmo é registrado ainda: a assimilação u>o, na sílaba tru>tro,
resultante da desnasalação ins>e. Isso porque a troca da vogal alta [i] pela
média [e] acentua um contexto de vogais médias [e], [o], já integrantes da forma
instrumentos: a tônica [e] e a átona final [u], harmonizada em [u], conduzindo à
assimilação da vogal alta [u] pela vogal média [o]; em “interlocutores/trolocutores”
(p. 21), no prefixo “inter” ocorrem três metaplasmos: aférese da vogal [i], a
metátese ter>tro e a assimilação e>o. A aférese constitui-se traço
característico da fase arcaica da língua e, também, do desempenho popular
“ojeriza/geriza”, “alambique/lambique”, “alicate/licate”, “inimigo/nimigo”,
“datilógrafo/tilógrafo”, “homenagem/menagem”. O mesmo pode ser dito da
metátese: perguntar/preguntar, entreter/interter, intervalo/intrevalo,
procurar/percurar.
A assimilação da vogal anterior [e] pela posterior [o], na sílaba ter>tro,
resulta de um contexto onde a predominância se constitui de vogais posteriores,
em “notivo” (p. 51) e “porquera” (p. 62), a síncope da semivogal [y] faz a
redução do grupo vocálico, tão corriqueira na fala popular; “renembranças” (p.
123) atualiza a forma arcaica “nembrar”, vinda da evolução do radical latino “memorare”,
que registra os seguintes metaplasmos: síncope do [o], de onde memorare>memrare,
a que se acrescem a dissimilação [m]>[n], a epêntese do [b], desfazendo a
sequência [mr] e a apócope da átona final [e], já enfraquecida pela
neutralização [e]>[i]. Do arcaico “nembrar”, chega-se à forma atual “lembrar”
pela dissimilação [n]>[l]; Alemania e Alimania, realizações populares de
Alemanha, endereçam às alternâncias [n]/[ñ]: Antônio/Antonho, bem como às
harmonizações [e]>[i] e [o]>[u], muito freqüentes na voz do povo. Em “alifante”
e “ourinar”, as alterações fonéticas resultam de analogias. “Alifante”
estabelece uma relação de semelhança com outras ocorrências já apresentadas como
marcas da fala popular: alivantar, arreceber, assossegar, etc... “Ourinar”
substituindo “urinar” resulta da analogia entre o amarelo do ouro e o da urina,
resultando ourina/orina, ourinar/orinar, formas comparáveis a ouro/oro.
Na linguagem
rosiana, são freqüentes, ainda, criações resultantes de processos derivacionais:
pacificioso, vastoso, estranhoso, docice, pobrejar, espinarol, desenormes,
antesmente, horrorizância, prostitutriz, trestriste, desjustiça, desmim,
regrosso, etc.... Formas compostas inusitadas também são encontradas: “zé-zombar”,
“outrolhos”, “vagavagar”, “alinhalinhar”, “neblim-neblim”, “contracalado”, “malmontar”,
etc...
Assim como em
Guimarães Rosa, também em Ana Miranda formas derivadas e compostas revestem a
linguagem de acento popular e arcaico. “Omildosa” (p. 43) e “trigosas” trazem à
tona a freqüência de adjetivos em “oso”/“osa”, já em textos medievais. Além da
marca sufixal, é preciso considerar, em “omildosa”, o registro escrito sem o h
inicial, um dos traços da escrita arcaica, fonética, desvinculada de étimos
gregos ou latinos e que caracteriza, também, a grafia popular; “trigosas”,
significando apressadas, pressurosas, aparece no “Auto da Alma”, de Gil Vicente,
numa das falas do anjo: “Já cansais, alma preciosa/Tão asinha desmaiais?/Sede
esforçada!/Oh! como viríeis trigosa/ e desejosa/ se vísseis quanto ganhais/nesta
jornada”.
Há, na fala
do povo, uma intuição da forma da palavra que se quer linguagem como imagem,
conduzindo a criações não estatuídas, pelas quais o dizer enuncia com maior
clarividência o que quer fazer-se voz. Assim “renembranças” (p. 143), “desrumo”
(p. 10), “disraiar” (p. 109), “dulçura” (p. 28), “esmerdada” (p. 14),
“cuidações” (p. 30), “estridosamente” (p. 57), “bonamore” (p. 30),
“vem-para-casa-mesmo-bêbado-papai” (p. 127), “águafrescáguafresca” (p. 11).
Doçura é expressão corriqueira, e o sentimento, quando se quer dizê-lo
inusitado, é num percurso de reencontro com raízes que se vai buscá-lo,
retornando ao étimo latino dulce>doce. Da mesma forma, “bonamore”, forma
composta, aglutinando os radicais latinos bonus>bom e amoris>amor, o bom amor,
imune às contradições, o amor sonhado tranqüilo: Benditas as desposadas e
casadas; para o meu varão me guardei perfeita, ru, ru, chegasse com o pé
direito, trouxesse Deus o bonamore, que não tenho nenhuma burrinha, tirasse de
mim os desejos, os temores, os fingimentos, as visões (...) (p. 30). É uma voz
ambígua esta de Oribela que, no “bonamore”, situa o sonho na realidade da
obrigação de guardar-se para o esposo, e, nas visões, a experiência do inferno
da relação homem/mulher, o real, a fazer-se negativa do sonho.
A
justaposição “ia-voava”, em “sentimento meu ia-voava para ele”, extraída de
Guimarães Rosa, já referida anteriormente, faz-se tradutora de um sentimento
trigoso, pressuroso, impulso amoroso em apressamento que com essa, não com outra
voz, deve ser dito. Em Ana Miranda, o “aviso da terra” (p. 11) traz o júbilo
desenfreado da sede a ser saciada e que se expressa, aqui também, numa forma
justaposta “águafrescáguafresca” transfigurando-se em canto, euforia:
“acabada a
água do armário do camarote e só chuva para tomar, atinava eu que ia beber água
fresca, água fresca, água fresca, água fresca águafrescáguafresca lari
lará,
molhar as mãos, as ventas, derramar o que fosse, sem contar gota por gota, não
ouvir mais gente bradar por água, molhar meus cabelos em um chafariz, bica ...
(p. 11)”.
“Diguice”, “conspeito”, “percurar, “imigo” são arcaísmos, dentre outros
presentes em Guimarães Rosa. A eles acrescenta-se “peia”, bagagem, cuja
ocorrência em Gil Vicente pode ser comprovada com um excerto da “Farsa de Inês
Pereira”: “Pero: deitai as peias no chão./Inês: “As perlas para enfiar,/três
chocalhos e um novelo/e as peras do capelo: e as peras onde estão?”
Também, em
Ana Miranda, além de “trigosas”, registra-se o arcaísmo “pardeus” interjeição
correspondente a “por Deus”, cujo emprego pode ser ilustrado pelo verso:
“Pardeus! bom ia eu à aldeia”, da “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente.
“Rodiquelhe” (p. 24), “alvaiade” (p. 24), “adens” (p. 15), manseza (p. 28)
tornam-se ilustrativos de uma freqüência considerável de palavras que dão, à
linguagem de Ana Miranda, o acento medieval/popular.
Surge, na voz de Oribela, uma língua viva, vida perceptível pela negação de sua
unicidade. Não é uma língua social única, mas representante da contínua evolução
histórica de uma língua viva. A voz de Oribela busca compreender, a partir desta
língua, o desmundo em que se encontra.
Há momentos
em que, para compreendê-lo, parecem faltar palavras. É necessário entender a
vida, “uma rede de tristuras tenebrosas” (p. 125). Neste momento, a metáfora,
mais um recurso utilizado pela linguagem rosiana, segundo Arrigucci, comparece
na construção de uma linguagem cheia de mistérios a serem descobertos, num
“estilo cujo objeto é o próprio estilo”.(18) Em Ana Miranda, as metáforas atuam
na construção do discurso de Oribela e representam a linguagem poética de forma
significativa. Há que se observar uma delas: “nem dobrou minha alma em joelhos”
(p. 59). Esta metáfora faz referência à expressão “em joelhos”, muitas vezes
presente durante o romance, reveladora da concepção medieval de mundo (tantos
joelhos viviam a dobrar-se), ainda no século XVI. Quanto à metáfora, não são os
joelhos no sentido denotativo que se recusam a dobrar-se, mas os joelhos da
alma, a alma que se quer livre, que não se dobra diante de tantas imposições e
negações oferecidas pelo mundo novo à alma de quem fosse mulher. Que se quer
mistério e não permite que o coração seja desvendado.
Nesta
metáfora há, ainda, referência a dois aspectos relativos à mulher, que deveriam
ser domesticados: a alma e o corpo (representado pela palavra joelho). Quanto a
Oribela, os joelhos podem até dobrar-se, mas, quanto à alma ... É ter “numa
parte o corpo e noutra o coração” (p. 24).
Surgem
metáforas que atestam a forma como Oribela compreende o real, mas, até mais que
isto, a maneira como procura entender-se enquanto ser humano neste mundo que
entra pela porta de seus olhos, a fazer que seus desejos sejam “torcidos com
amarguras” (p. 105).
Um outro
recurso utilizado por Guimarães Rosa, as antíteses, (19) também surge em
Desmundo, como a revelar o caráter contraditório mundo versus desmundo, ou seja,
a esperança e a desesperança e as próprias dúvidas que atormentam a personagem:
“boas mulheres versus putas e regateiras” (p. 35), “poder alembrar e poder
esquecer”, “luz e sombra” (p. 57), “grande segredo é o morrer, maior segredo é o
viver” (p. 66), “sacramentada ao Ximeno versus a suspeitar que ele era o demo”
(p. 187) e muitas outras antíteses que, muito mais que as matas, as grandes
florestas fazem seu estro perder-se em labirintos sem fim. Quando me atenho com
mais vagar a uma destas antíteses “boas mulheres x putas e regateiras” (p. 35),
torna-se inevitável um retorno ao intertexto com a história das mentalidades e
aos protótipos de mulher forjados pela sociedade colonial: o da santa mãezinha e
o da mulher sem qualidades.(20)
Ao papel da santa mãezinha estava associado o perfil inspirado na devoção
européia à Virgem Maria, e o modelo de feminilidade correspondia à castidade, ao
sacrifício e à sociedade. Era necessária a purificação da mulher, desde as
origens um agente de Satã, e esta purificação, de forma mais urgente, era mister
numa terra como a nossa, onde reinava o Diabo.
À mulher sem
qualidade, aquela da rua, corresponde o avesso da santa mãezinha, e, por não
enquadrar-se no papel a ela destinado, era demonizada e excluída. O uso que
fazia da sexualidade era considerado ameaçador, por colocar em perigo o projeto
da Igreja e do Estado, segundo o qual o corpo feminino deveria estar a serviço
da sociedade patriarcal e do projeto de colonização.
Oribela,
outras vezes, durante o romance, demarcará esta diferença e parece se perguntar:
até que ponto sou uma “santa mãezinha” e até que ponto sou uma “mulher sem
qualidade”? Que papel agradaria a ela, de verdade, assumir?
Todas as antíteses observadas durante a leitura do romance, parecem culminar em
questionamentos acerca de assuntos muito variados, como, por exemplo: Viver, que
significa? Morrer? Quem realmente é o mouro? Vida, qual seu significado?
Uma outra característica da linguagem rosiana é a utilização da hipérbole (21)
propriamente dita, também aproveitada para a elaboração do romance “Desmundo”.
Há um grande medo do castigo divino, e a hipérbole seguinte representa a
enormidade do medo:
“ia o pai
mandar muitas setas de fogo, gemidos, chamas de enxofre que nunca acabam de
queimar, tal que o ímpeto de um rio de lágrimas não poderia apagar (p. 50) um
dia Deus alagaria o velho mundo com as águas do céu em que se afogaria todo o
gênero humano como se matasse uma vaca brava e a terra ficaria deserta, restando
os que tinham vindo ao novo país e quem aqui fosse o mais forte seria o rei do
mundo” (p.85).
O que se refere a Deus, principalmente no que concerne ao castigo divino, é
sempre visto de maneira hiperbólica pela personagem narradora. O hiperbólico se
presentifica, também, no que concerne às imagens visionárias que povoam os
delírios da personagem central:
“era eu
devedora de pagar com meu coração no que de mim abriram o peito, um corte fino
de dor e as mãos dedudas e grosseiras do algoz se meteram no meu peito a
arrancar o coração. (p. 67).
Conforme Arrigucci, em Rosa, ocorre uma subversão do esquema lingüístico
tradicional, numa quebra da harmonia e da regularidade do clássico na linguagem
literária. (22) Em Desmundo, esta subversão também se dá e despontam, então,
construções frasais não muito usuais, tais como a expressão “todos chegando o
chegar” (p. 13). O contexto em que esta expressão é empregada permite uma melhor
compreensão da riqueza de seu significado. Oribela utiliza esta expressão para
relatar a alegria da chegada da nau portuguesa às terras brasileiras “tocar com
os pés ali naquela terra onde nunca entrava o inverno, arribar, arribar, a
salvamento, sem se poder a gente nem a cargo, todos chegando o chegar,
deleitando, gozo”. Na construção da expressão analisada, comparecem dois termos
semelhantes: chegando (verbo conjugado no gerúndio) e chegar (substantivo
formado por derivação imprópria). A frase poderia ser simplesmente “Todos
chegando”, mas, ao acrescentar “o chegar”, a autora quer intensificar, mostrar a
importância desta chegada, aliás, “Chegada” é o nome da primeira parte do
romance, parte em que se localiza o fragmento que está sendo analisado. Ao
apropriar-se de um verbo para dar a ele o estatuto de nome e, ainda, utilizá-lo
para provocar uma redundância, a autora dá maior sentido à chegada dos
portugueses à nova terra e, ao mesmo tempo, subverte a linguagem tradicional.
Não é uma chegada qualquer, é uma chegada prenhe de esperança e de desejos de
felicidade.
Outra
construção bastante intrigante pertence ao fragmento localizado na parte dois do
romance, intitulada “Terra”. As jovens órfãs aguardam seu destino no convento
dos padres “esquecidas ali, guardadas, esperando esperandesperando...” A
expressão me chama atenção. Exatamente por divergir das construções usuais
“esperando esperandesesperando” intensifica a idéia da espera, que é também
desespero. A começar pelo uso do gerúndio, tempo verbal que dá idéia de uma ação
contínua, a intensificação se faz, também, pela repetição da própria palavra
“esperando” três vezes. A elipse do “o” final do segundo emprego da forma
“esperando”, que se une ao outro “esperando”, conota a angústia da espera,
monta-se em desespero. É preciso apressar o término da espera, para saber o que
as aguarda neste mundo tão novo.
Somando-se às
várias construções inusitadas, aparecem palavras pertencentes à língua indígena,
na fala de Temericô; à língua espanhola, nas falas da Parva e em construções
como “No he temor, piedoso es el Señor” (p. 112) e, ainda, à língua latina
mesclada à fala/oração de Francisco de Albuquerque. Esta mescla de línguas
diferentes colabora para a criação de uma linguagem que remete às diversidades
de línguas presentes no século XVI em terras brasileiras. Remeto-me, neste caso,
às idéias de Mikhail Bakhtin, no que diz respeito a uma das características do
gênero romanesco: a diversidade social de línguas presentes no romance.(23)
Mesmo que o romance de Ana Miranda se enuncie como expressão da língua
portuguesa, a língua do colonizador, outras línguas aparecem para representar o
plurilingüismo. Surgem expressões em espanhol e latim, linguagens muito próximas
da língua portuguesa, mas também expressões em língua indígena, a dizerem como o
conflito lingüístico pode ser internalizado no próprio discurso. E, ainda mais,
o quanto este confronto pode significar também um conflito social e cultural. Na
passagem do romance em que Temericô conta a Oribela sua história antes da
chegada dos portugueses, este conflito começa a se anunciar:
“Cantava
cantigas, tocava um pífano de graveto, contava de sua povoação onde amava os
pais e irmãos, de quem mais nada sabia, que lhe falavam deles as estrelas, fora
ela caça o mato e palavras mansas. Era de um gentio muito antigo que fora
lançado fora da sua terra das vizinhanças do mar por outro gentio seu contrário
que descera do sertão pela fama da fartura da riba do mar e seus pais e avós
perderam as terras que tinham senhoreado muito anos e lhe destruíram as aldeias,
roças, matando os que lhes faziam rosto, sem perdoar a ninguém, em frontaria com
os contrários numa crua guerra, onde se comiam uns aos outros, os que cativavam
ficavam escravos dos vencedores, numas batalhas navais, ciladas por entre as
ilhas grandes mortandade e se comiam e se faziam escravos, até chegar o tempo
dos portugueses. O – z o – a k y p û e r i, um trás outro, trás de um o outro,
mokõî, mokô’, mokõî. Tinga” (p. 119).
É através do
discurso de Oribela que se manifesta o discurso de Temericô e, mesmo o tempo
anterior à chegada dos portugueses, é narrado em língua portuguesa, a língua do
colonizador. Onde a língua indígena? Está restrita aos termos utilizados nas
duas últimas linhas e a linguagem do dominado parece manifestar-se, então, muito
mais pela ausência, denúncia da subjugação de uma língua e de um povo.
Um outro
fragmento textual em que a língua indígena aparece trata do momento em que
Temericô pretende ensinar sua língua a Oribela. As palavras indígenas buscam
sempre seu equivalente na língua portuguesa, numa tentativa de aproximação de
línguas provenientes de culturas extremamente diversas, como a cultura
portuguesa européia e a cultura indígena. Nesta tentativa de aproximação,
entretanto, o tempo já mostrou, os resultados são desiguais e conduzem ao quase
total desaparecimento da língua indígena como se pode hoje constatar.