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Crime e Castigo -
Dostoievski
O Momento Histórico e
as características do período Realista foram muito semelhantes em quase toda a
Europa. A desilusão com o fracasso dos ideais
do liberalismo, a miséria das cidades e a crise da produção no campo, as más
condições de vida da maioria da população, contrapostas aos privilégios da
burguesia, explicam a substituição do idealismo romântico, desde o fim da
primeira metade do século XIX, por uma visão mais objetiva e desiludida da
realidade.
A grande surpresa desse período ficou por conta do Realismo Russo. Isso ocorreu
porque até esse momento a Rússia não ocupava um lugar de destaque no cenário
literário, porém, com o advento do Realismo essa situação foi totalmente
invertida. Naquele período a Rússia vivia uma das piores crises econômicas de
toda a sua história. O atraso econômico e cultural do país e as péssimas
condições de vida dos camponeses e operários serviram de estímulo para que os
autores Realistas Russos, muito influenciados pelo Realismo do resto da Europa,
utilizassem a literatura como forma de critica e instrumento de denúncia social.
Os autores que mais se destacaram foram: Feodor Dostoievski e Leon Tolstoi.
Fiodor Dostoievski
(1821-1881) nasce em
Moscou. Por sua ligação com círculos liberais é preso e condenado à morte, só
tendo a pena transformada em deportação momentos antes da execução. Passa cinco
anos preso na Sibéria e mais cinco como soldado de um batalhão. Anistiado em
1859, passa a morar em São Petersburgo. Crime e castigo é um drama moral
de grande profundidade psicológica, onde o estudante Raskolnikov assassina uma
usurária para roubar o dinheiro e salvar sua família.
Crime e Castigo, romance de 1866, escrito por ele, maior autor russo de
seu tempo. Iniciou a militância política em meio aos grupos anarquistas e,
simultaneamente, decidiu tornar-se escritor. Envolvido em conspiração
revolucionária, Dostoiévski foi preso e condenado à morte, pena comutada em
trabalhos forçados na Sibéria. Foi anistiado em 1859 e passou a dedicar-se só ao
jornalismo. Seu desequilíbrio financeiro e emocional era de tal ordem que ele
foge para o exterior em 1862 e perde o que lhe restava no jogo. Ao voltar à
Rússia, encontra a situação política mudada, o jornal fechado por ordem do
governo, a esposa agonizante e o irmão em péssima situação financeira. Essa fase
critica, marcada ainda por fortes crises de epilepsia, leva o escritor a um
estado de angústia que, no entanto, assinala seu amadurecimento completo como
escritor.
É nesse clima e crise existencial que escreve Crime e Castigo,
considerado seu romance mais importante. Os anos passados entre criminosos na
Sibéria familiarizaram-no com um dos grandes problemas humanos: o da culpa e do
castigo. Os diversos tipos de condenados com os quais convivera mostraram-lhe o
crime sob as mais diversas formas. Muitos, tidos como verdadeiros monstros,
mostravam-se, de um momento para outro, criaturas capazes de um gesto nobre,
revelando uma riqueza de sentimentos surpreendente. Esse mistério perturbou
seriamente o autor. O que pareceu maléfico e foi julgado como tal, poderia ter
sido um bem, concorrendo para o equilíbrio da ordem humana.
O herói criado para
o romance é um estudante pequeno-burguês, com a mente cheia de leituras mal
digeridas, sentindo-se capaz de realizar grandes coisas, para tornar-se, afinal,
um ser útil aos semelhantes. Vendo-se em situação precária, raciocina que
poderia matar uma velha usurária e apoderar-se do seu dinheiro. Poderia, aí,
continuar os estudos, dispensar o auxílio da mãe e da irmã, e conseguir os meios
para servir à coletividade. Sua tragédia já foi várias vezes apreciada à luz das
teorias psicanalíticas. Nela se ilustra, com todo o rigor, o processo psíquico
do sentimento de culpa. Há um erro no equilíbrio do mundo, o que será corrigido
suprimindo-se aquela coisa miserável, que é a velha, que está atrapalhando,
embaraçando.
Não importa que aquela coisa miserável é uma vida, uma vida humana.
De forma alguma é um valor absoluto. Desde a Antigüidade, os chefes de Estado
nunca hesitaram em matar milhares de pessoas, quando encontraram pela frente um
motivo que os justificasse. E ninguém os considerou criminosos! Pelo contrário,
ergueram-lhes estátuas e a posteridade lhes glorifica o nome! Consumado o plano
diabólico, o herói agiu como os fortes, como os conquistadores. Mas, agora,
começa o suplício, a tortura, mas não o arrependimento. Seu suplício se
constitui no esforço desesperado para abafar, por meio do raciocínio, da lógica,
a revolta da consciência. E o herói insiste na certeza de que não cometeu um
crime e isso não lhe basta para libertá-lo do sentimento de culpa.
E é a figura
suave de uma prostituta infeliz, que pelo amor e pelo sofrimento se une ao herói
e fala-lhe à consciência. E é, também, o Evangelho que o convence da inutilidade
de todos os argumentos, quando pecamos contra a lei moral e destruímos a nossa
própria vida. O romance termina com o debate filosófico-religioso em suspenso.
Teria o herói, algum dia, a revelação do seu destino cristão, convencendo-se
afinal de que na derrota estava a sua própria vitória? Nesse personagem, em que
se refletiam certas inclinações psicopatológicas da época, o autor encarnou um
conflito eterno. Acompanha a obra o Diário de Raskolnikov.
Trama narrativa da 1ª parte de
Crime e
Castigo
O narrador começa por apresentar aquele que será o herói do romance: Ródion
Ramanovich Raskolnikov e esclarece as condições psicológicas e sociais em que
se encontra: Mas havia já algum tempo que ele se encontrava num estado de
excitação nervosa, vizinho da hipocondria. Isolando-se e concentrando-se,
conseguira não só esquivar-se da senhoria, como também de seus semelhantes. A
pobreza esmagava-o; ultimamente, porém, chegara a ser-lhe indiferente.
Renunciara por completo às suas ocupações. Já no início do romance o narrador
fornece pistas de que o herói tem em mente um projeto incomum:
Conhecia precisamente a distância entre a sua morada e o lugar aonde se
dirigia: setecentos e trinta passos, nem mais nem menos. Contara-os quando o
projeto tinha no seu espírito apenas a forma vaga de um sonho. Nesse tempo nem
mesmo supunha que tal idéia viesse a tomar corpo e a fixar-se.
Raskolnikov planejava matar uma velha usurária e roubá-la; fora visitá-la,
intentando um ensaio, levando uns objetos para colocar sob penhor. Desde já,
mesmo sendo somente um ensaio, Raskolnikov sentia muito medo.Com o coração
angustiado, os membros rudemente agitados por um tremor nervoso, aproximou-se
de um grande prédio, que dava de um lado para o canal e de outro para a rua …
Se tenho agora tanto medo, que será quando for de verdade?, pensou quando
chegava ao quarto andar. Por várias vezes, em seu projeto, o herói hesita, em
momentos de violentas confusões, exclamava: Meu Deus, como tudo isso é
repugnante! Será possível que eu … Não! É uma loucura, um absurdo! Como pude
ter tão horrível idéia? Pois eu seria capaz de tamanha infâmia? Isto é odioso,
ignóbil, nojento!… E, no entanto, durante um mês eu …
Depois do término do ensaio sente, Raskolnikov, súbita necessidade de
convivência, pára em uma taverna e é onde conhece a impactante figura de
Marmeladov, quem lhe passa a narrar as desventuras de sua vida e de sua
família: Este homem, de mais de cinqüenta anos, era de estatura mediana e
aparência robusta. A cabeça, quase calva, conservava raros cabelos grisalhos.
O rosto cheio, amarelo-esverdeado, denunciava intemperança; entre as pálpebras
inchadas brilhavam os pequenos olhos, avermelhados e penetrantes.
A
característica dessa fisionomia era o olhar, onde brilhavam a chama da
inteligência e uma vaga expressão de loucura. Tratava-se de um ex-funcionário
público que após perder o emprego entregou-se ao álcool, enquanto sua filha
acabou entregue à prostituição para salvar da fome seus irmãozinhos.
Raskolnikov ouve sua triste história pacientemente e depois o acompanha até
sua casa.
Quando Raskolnikov volta para casa, Nastácia, cozinheira e única criada da
hospedaria, entrega-lhe uma carta que sua mãe lhe enviara. Nela, sua mãe lhe
narra algumas desventuras pelas quais sua irmã passara e lhe conta que agora,
superadas todas as dificuldades sofridas, estava por se casar com um advogado
de futuro promissor, Piotr Petróvitch Lujin, e que dentro em breve iriam, sua
mãe e sua irmã, visitá-lo em São Petersburgo. Raskolnikov desde o início se
posiciona contra o casamento da irmã por crer que ela está se vendendo, como
uma prostituta, em favor não dela própria, mas por Raskolnikov , seu irmão,
que fora obrigado a largar os estudos por falta de dinheiro.
Após ler a
carta sai sem rumo pelas ruas e então se dá outro acontecimento marcante para
o herói.
Depara-se com uma jovem adolescente embriagada que estaria sendo alvo de
intenções nada benévolas de um homem. Raskolnikov rapidamente percebe que a
menina estava sendo explorada e a ajuda. Quase briga com o sujeito mas é
detido por um guarda que também percebe a situação e tenta ajudar a menina a
retornar para a sua casa, resolvendo, desta forma, o impasse. Pobrezinha,
disse ele olhando para o banco onde a jovem se deitara, quando voltar a si
há de chorar, depois a mãe saberá da aventura, bater-lhe-á para juntar a
humilhação à dor, é provável que a ponha na rua …
Mas onde (Raskolnikov) queria ir? Pensa em visitar seu amigo dos tempos da
faculdade, Razumikin, mas acaba por decidir que iria vê-lo somente depois de
concluir aquela empresa que já lhe constituía uma idéia fixa.
Passou em
frente de uma taverna e ocorreu-lhe que estava com fome. Bebeu aguardente. O
álcool produziu-lhe logo efeito, provocando forte sonolência, deitou entre
alguns arbustos e dormiu. Dormiu e sonhou um sonho aterrador no qual alguns
malévolos senhores surravam até a morte um pequeno cavalo fraco e magro.
Ao acordar
tenta interpretar o próprio sonho: Graças a Deus foi um sonho!, pensou.
Mas dar-se-á o caso que seja um princípio de febre? Um sonho tão horrendo
dá-me que pensar.(…)
Meu
Deus!, monologou, será possível que eu vá abrir com um machado o crânio
dessa mulher!… Será possível que eu atravesse o sangue e vá arrombar a
fechadura, roubar e depois esconder-me, a tremer, ensangüentado… Senhor, isso
será possível?
O narrador descreve uma conversa de taverna que Raskolnikov ouvira e que teria
uma influência decisiva no seu destino …
Dois senhores
- um militar e um estudante - bebendo e conversando sobre a usurária Alena
Ivanovna e sua irmã Isabel as quais moravam juntas, sendo esta última
extremamente explorada pela irmã e descrita da seguinte forma:
- Mas tu dizes que ela é horrível!, observou o militar.
- É muito
trigueira realmente; parece um soldado vestido de mulher; mas não se pode
dizer que seja um monstro. A fisionomia é muito bondosa, e os olhos têm uma
grande expressão de ternura… A prova está em que agrada a muita gente, é muito
pacata, paciente, meiga, caráter dócil… E o sorriso chega a ser atraente. Em
relação a Alena Ivanovna, a dela: - Quanto à maldita velha, asseguro-te que
era capaz de assassinar para roubá-la, sem o menor remorso, acrescentou
vivamente o estudante.
O oficial
riu-se e Raskolnikov estremeceu. Estas palavras tinha um extraordinário eco no
seu coração! Por obra do acaso, andando pelo Mercado do Feno, Raskolnikov ouve
uma conversa de Isabel com um comerciante e vem a saber que no dia seguinte,
às sete horas, Isabel não estaria em sua casa, ou seja, a velha estaria só em
casa …
No dia
seguinte realizou todos os preparativos para a sua empresa e foi colocá-la em
prática. Combatendo os medos e as contradições que o assombravam naquele
momento, matou a velha e roubou o que havia em seu cofre. O que não contava é
que Isabel haveria de retornar antes que ele deixasse o local do crime. Foi
forçado a matar também Isabel. Ambos crimes foram análogos no método cruel
usado: seus crânios esfacelados à machadadas.
Depois de fugir sem ser visto, voltou para a hospedaria e trancou-se em seu
quarto: No seu cérebro baralhavam-se os pensamentos; mas, por mais esforços
que se fizesse, não conseguiu seguir nenhum…