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Coração, Cabeça e Estômago -
Camilo Castelo Branco
Primeiramente trata-se de uma obra metalingüística, pois o livro conta a história
da origem do próprio livro melhor explicando a obra é uma herança deixada para
um amigo, seu conteúdo é a biografia do autor que após morrer endividado explica
o porquê de tê-lo escrito: dar explicação para o saber viver vive dito pelos
franceses, aproveitar a vida de modo a conquistar dela o máximo.
Acreditava
o autor que tal obra seria de grande valia para a humanidade e isto alçaria
a obra à lista dos best–sellers e sanaria as suas dívidas póstumas. É um típico
romance balzaquiano, pois a procura do conforto material, o ascender social
e o gozo são caricaturas dos personagens, muitas vezes satirizados nas situações
que enfrentam.
CORAÇÃO Guiado pelo coração Silvestre, nosso
personagem – biográfico ama sete mulheres ( sete é o símbolo dos pecados capitais
que levam o homem ao degredo da alma ). Sete mulheres . "O meu noviciado
de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me
viram." 1° mulher - Leontina, vizinha de Silvestre, órfã, criada por um
ourives, meigo do par dela, analfabeta, de olhos bonitos. Por ela também era
apaixonado um outro vizinho, um algibebe (vendedor de roupas), que, tomado pela
paixão descuidava de seus negócios. Ele odiava Silvestre e lhe escreveu uma
carta ‘anônima’ - Leontina reconheceu a letra ameaçando-o de morte. A moça teve
raiva do algibebe por isso.
Cientificado por outra carta anônima do algibebe
de que Leontína namorava Silvestre, o ourives levou-a para sua propriedade rural
e casou-se cora ela, apesar da objeção das filhas dele. Silvestre ignorou o
rumo tomado pela amada. Contudo o leitor fica sabendo que esta após algumas
desventuras acaba por enriquecer-se após o óbito do marido, vem posteriormente
casar-se com o algibebe que vem a ganhar um prêmio lotérico tornaram-se gordos
e ricos. 2° mulher - Silvestre nunca soube o nome dessa outra vizinha. Ela só
aparecia na janela, assim mesmo ficavam visíveis apenas os olhos, entre as tábuas
das persianas.
Silvestre lhe remeteu uma carta enorme declarando-se. Como resposta,
recebeu um bilhete, incentivando-o a escrevei mais. Julgando que ela o ironizara,
Silvestre chegou a adoecer de urna febre que o reteve onze dias na cama. (Caro
leitor observe o exagero romântico desta cena! Aos nossos olhos contemporâneos
chega a parecer hilária tal postura). Nunca mais Silvestre viu a vizinha. Soube
depois que a moça era amante de um conde, que, por ser casado, não vivia com
ela. Tornara-se alcoólatra. Na época em que Silvestre a conheceu tinha um filho
de cinco anos. Nota do autor - O nome dessa mulher era Margarida. Ela e o filho
vieram a morrer de febre amarela, abandonados por todos, inclusive o conde.
3° mulher — Catarina era uma quarentona, conheceu Silvestre quando do seu freqüentar
da casa onde este vivia hospedado.
Declarou-se a ele, dizendo-se possuidora
de boa renda financeira e proprietária de dez burrinhos. Na noite em que o apaixonado
rapaz teve um encontro com Catarina na casa dela, apareceu repentinamente o
irmão dela de espada em punho. Silvestre fugiu amedrontado. Catarina exigiu
que Silvestre se casasse com ela, pois estava desonrada perante a opinião publica.
O ex-namorado se negou a casar. Cinco anos depois, Silvestre soube que Catarina
e o irmão se tornaram herdeiros de um tio rico. ( Observe que o nosso personagem
ao obedecer o coração não alcança nunca o sucesso financeiro. 4° mulher - Silvestre
conheceu Clotilde numa festa. O cavalheiro que os apresentou informou ao rapaz
que ela e as companheiras eram muito fúteis e vaidosas.
Isso ocorrera em um
balneário. Retornando a Lisboa, Silvestre, apaixonado por Clotilde procurou-a
no endereço, que lhe dera, mas não a localizou. Num encontro casual com o mesmo
cavalheiro da festa, Silvestre lhe contou sua paixão por Clotilde. Surpreso,
soube que o tal cavalheiro era o marido dela! Ele ofereceu ao apaixonado uma
das amigas da mulher. Constrangido, Silvestre rasgou os poemas que havia escrito
para Clotilde e nunca mais a procurou. 5° mulher – Esta agora é a D. Martinha,
proprietária do hotel onde vivia Silvestre.
Sempre o paquerava, mas este demorou
a aperceber-se disso. D. Martinha era uma viúva de 35 anos. Então, passaram
a se relacionar. Veremos que este caso não vai dar certo. 6° mulher – D. Martinha
contratou corno criada uma mulata brasileira, chamada Tupinoyoyo (observe o
estereótipo da brasileira aos olhos do europeu, mulata de nome indígena).
Silvestre
ardeu de paixão pela criada. Os dois se encontravam às escondidas da ciumenta.
Até que foi flagrado e expulso do hotel. Alguns anos depois, avistou a mulata
brasileira, num teatro, com um português importante. (Dizia-se que ela era rica
e educada em Londres) 7° mulher - Mademoiselle Elise de la
Sallete viera da França, envergonhada porque tinha sido abandonada por um duque,
seu marido. Em Portugal, mudou de nome e se tornou modista. Cibrão Taveira,
amigo de Silvestre, marcou um encontro com ela; mas, como não sabia falar francês,
pediu que Silvestre fosse com ele. Enquanto este se afastou com a francesa,
aquele ficou com a amiga dela e soube a história da outra.
Comovido, chegou
a escrever alguns capítulos sobre a vida nobre francesa. Certo dia, estando
Silvestre no Passeio Público, cumprimentou de longe as duas francesas que passavam.
Ouviu de um grupo de homens, que conversavam perto, a verdadeira história da
"santa" francesa: era um na mulher vulgar que tinha tido caso com
vários homens e agora, com falso nome, inventou a versão de nobre envergonhada.
Silvestre voltou a encontrá-la na casa de um amigo, acompanhada de um tenor
italiano. Aproximou-se dela, chamou o companheiro de duque e acrescentou que,
afinal, tomara vergonha e viera buscar a esposa. O tenor, sem entender nada,
mas considerando-se insultado, ameaçou bater em Silvestre, que se retirou sem
reagir.
A mulher que o mundo respeita - Depois de tantas desilusões amorosas,
Silvestre resolveu ser cético Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e
mudou sua aparência: cabelos desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos
no alto da testa), pintura para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas
pretas e cavalo preto... Corria a história de que ele queria morrer por ter
amado uma neta de reis, cujo pai, contrariado, a fez ingressar no convento.
Certo dia, aconteceu que Silvestre, indo para Benfica, viu numa varanda urra
moça bonita, por quem logo se apaixonou. No dia seguinte, conseguiu um breve
diálogo com o criado da moça, o qual lhe contou que o nome dela era Paula, uma
fidalga morgada (= herdeira única de bens de família). Mandou-lhe carta pelo
criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre viu Paula entrar de braço com
um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar com ela a sós, Paula pediu
que não a procurasse mais, pois já estava comprometida.
Sem desanimar, inspirado
no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar presentes às ninfas ("Festões,
grinaldas, passarinhos, frutos"), Silvestre mandou para Paula uma cesta
com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada de uma carta. Paula respondeu,
também por carta, agradecendo.
Movido de paixão, Silvestre resolveu passar de
madrugada diante da casa de Paula e viu um homem encapotado parado lá. Escondido,
o romântico apaixonado viu uma mulher - supostamente Paula - abrir a janela
e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido. Armado, Silvestre tornou
a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça, disposto a matar os dois
amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher chamando-o de Caetano,
sem se reconhecerem na escuridão.
Convidou-o a entrar. Silvestre sussurrou não
se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher, assustada, voltou para o
interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou no jardim e ficou escondido.
Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da janela, sem permitir que entrasse,
com medo do outro.
Foi então que Silvestre reconheceu Eugênia, a empregada.
Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter pensado mal de Paula. Retornando
a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido abandonada pelo noivo, um duque,
que a surpreendera traindo-o com um amigo dele.
Tornou a vê-la num teatro, acompanhada
de Piedade, conhecida por seu sarcasmo, No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns
versos, compostos por Piedade, nos quais era chamado de periquito. Ele ficou
muito magoado. Para esquecer sua mágoa, Silvestre resolveu passar uma temporada
em Santarém Acabou hospedando-se na casa de um antigo colega, administrador
do Conselho.
Quando, por ordem do governador, seu anfitrião foi localizar um
casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou. Para surpresa dele, a moça procurada
era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’. O amante acabou na cadeia
e ela foi levada para a propriedade rural do pai. Paula veio a casar-se com
um primo que lhe fora destinado desde a infância.
O filho do casal nasceu forte,
apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de Paula, era comum na sua família,
as mulheres terem filhos que nasciam antes de 6 meses de casadas, ou seja a
safadeza era traço genético, que ironia!). Paula tornou-se senhora respeitada
na alta sociedade, alvo da atenção e companheira de honrados anciãos de Lisboa.
Observe que Paula é a mulher que o mundo respeita uma verdadeira cortesã ou
dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos os pecados são lhe perdoados,
fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora vejamos quem é a mulher que
o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza - Silvestre fazia parte daquele
grupo de românticos que gostavam de se embebedar para abafar as mágoas. Bêbado,
ele fazia discursos sobre a filosofia da história ou sobre a história da filosofia.
Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar, encontrou no cais urna mulher. Levou-a
para casa o pediu-lhe que contasse sua história. Marcolina relatou que, órfã
de pai desde o dia em que nasceu, viveu a infância com as cinco irmãs mais novas,
filhas de sua mãe com o padrasto, que acabou preso e degredado para o Brasil.
(Para o Brasil só vem coisa boa, né!??) Quando Marcolina completou 14 anos,
a mãe que esmolava e se prostituía - entregou-a para um barão cinqüentenário.
Este tornou-a sua amante e a educou como pessoa da sociedade, não lhe permitindo
contato com a família dela. tantas desilusões amorosas, Silvestre resolveu ser
céptico Escreveu poemas que tematizavam a desilusão e mudou sua aparência: cabelos
desgrenhados, calva artificial (raspava os cabelos no alto da testa), pintura
para empalidecer o rosto e criar olheiras, roupas pretas e cavalo preto...
Corria
a história de que ele queria morrer por ter amado uma neta de reis, cujo pai,
contrariado, a fez ingressar no convento. Certo dia, aconteceu que Silvestre,
indo para Benfica, viu numa varanda urra moça bonita, por quem logo se apaixonou.
No dia seguinte, conseguiu um breve diálogo com o criado da moça, o qual lhe
contou que o nome dela era Paula, uma fidalga morgada (= herdeira única de bens
de família).
Mandou-lhe carta pelo criado, sem obter resposta. Num baile, Silvestre
viu Paula entrar de braço com um rapaz. Quando conseguiu oportunidade de falar
com ela a sós, Paula pediu que não a procurasse mais, pois já estava comprometida.
Sem desanimar, inspirado no poeta Castilho, segundo o qual é preciso ofertar
presentes às ninfas ("Festões, grinaldas, passarinhos, frutos"), Silvestre
mandou para Paula uma cesta com pêssegos, flores e um periquito, acompanhada
de uma carta. Paula respondeu, também por carta, agradecendo. Movido de paixão,
Silvestre resolveu passar de madrugada diante da casa de Paula e viu um homem
encapotado parado lá.
Escondido, o romântico apaixonado viu uma mulher - supostamente
Paula - abrir a janela e ficar conversando, aos sussurros, com o desconhecido.
Armado, Silvestre tornou a postar-se, alta noite, diante do palacete da moça,
disposto a matar os dois amantes. Saindo de casa, aproximou-se dele uma mulher
chamando-o de Caetano, sem se reconhecerem na escuridão. Convidou-o a entrar.
Silvestre sussurrou não se chamar Caetano e se retirou. Assim que a mulher,
assustada, voltou para o interior da casa, deixando o portão aberto, ele entrou
no jardim e ficou escondido.
Cal a pouco, chegou Caetano e ela o atendeu da
janela, sem permitir que entrasse, com medo do outro. Foi então que Silvestre
reconheceu Eugênia, a empregada. Julgando-se digno de ser amaldiçoado por ter
pensado mal de Paula. Retornando a Lisboa, Silvestre soube que Paula tinha sido
abandonada pelo noivo, um duque, que a surpreendera traindo- o com um amigo
dele. Tornou a vê-la num teatro, acompanhada de Piedade, conhecida por seu
sarcasmo.
No dia seguinte, Paula enviou-lhe uns versos, compostos por Piedade, nos quais
era chamado de periquito. Ele ficou muito magoado. Para esquecer sua mágoa,
Silvestre resolveu passar uma temporada em Santarém Acabou hospedando-se na
casa de um antigo colega, administrador do Conselho. Quando, por ordem do governador,
seu anfitrião foi localizar um casal de fugitivos, Silvestre o acompanhou.
Para
surpresa dele, a moça procurada era Paula; saiu da sala sem olhar para a desgraçada’.
O amante acabou na cadeia e ela foi levada para a propriedade rural do pai.
Paula veio a casar-se com um primo que lhe fora destinado desde a infância.
O filho do casal nasceu forte, apesar de prematuro (aliás, no dizer do avó de
Paula, era comum na sua família, as mulheres terem filhos que nasciam antes
de 6 meses de casadas ou seja a safadeza era traço genético, que ironia!). Paula
tornou-se senhora respeitada na alta sociedade, alvo da atenção e companheira
de honrados anciãos de Lisboa.
Observe que Paula é a mulher que o mundo respeita
uma verdadeira cortesã ou dita vagabunda nos dias atuais, por ser rica todos
os pecados são lhe perdoados, fosse pobre seria escorraçada socialmente. Agora
vejamos quem é a mulher que o mundo despreza. A mulher que o mundo despreza
- Silvestre fazia parte daquele grupo de românticos que gostavam de se embebedar
para abafar as mágoas. Bêbado, ele fazia discursos sobre a filosofia da história
ou sobre a história da filosofia.
Certa noite, ao sair alcoolizado de um bar,
encontrou no cais urna mulher. Levou-a para casa o pediu-lhe que contasse sua
história. Marcolina relatou que, órfã de pai desde o dia em que nasceu, viveu
a infância com as cinco irmãs mais novas, filhas de sua mãe com o padrasto,
que acabou preso e degredado para o Brasil. (Para o Brasil só vem coisa boa,
né!??) Quando Marcolina completou 14 anos, a mãe que esmolava e se prostituía
- entregou-a para um barão cinqüentenário.
Este tornou-a sua amante e a educou
como pessoa da sociedade, não lhe permitindo contato com a família dela. Odiando
a vida de cativeiro que levava, Marcolina apaixonou-se por Augusto, guarda-livros
do barão. Ciente disso, despediu o rapaz do emprego. Mesmo assim, através da
professora de bordados, a moça entrou em contato com Augusto. Informado do encontro,
o barão chegou a bater em Marcolina, mas, arrependido, prometeu casar-se com
ela, assim que morresse a esposa dele, que vivia no Brasil. Marcolina aprendeu
a escrever - mesmo sem permissão do barão - com a professora de bordados- Resolveu
fugir; mas deixou urna carta para o amante.
Antes que fosse embora, o barão
entrou no quarto dela com duas pistolas engatilhadas, uma para matá-la e outra
para matá-lo, Amedrontada, Marcolina manifestou arrependimento e jurou fidelidade
a ele. Às ocultas, porém, escreveu uma carta para Augusto, pedindo-lhe que a
recebesse pobre. A intermediária seria a professora de bordado, que, comprada
pelo barão, entregou-lhe a carta. Enfurecido, o desatinado amante entrou subitamente
no quarto de Marcolina e mandou que ela devolvesse tudo o que dele havia ganho:
vestidos, jóias... e a liberou para o guarda-livros, Na saída, porém, o barão
ajoelhou-se aos pés dela e implorou que ficasse com ele, lembrando-lhe a pobreza
em que passaria a viver.
Marcolina aceitou a nova proposta do barão. O casal
saiu em viagem pela Europa. Na Alemanha, o barão sofreu um ataque apopléctico
e morreu de repente. A viúva então ficou com todos os bens e Marcolina vendeu
as jóias, apurou uma importância significativa. Procurou a irmã prostituta para
ajudá-la; no entanto, no último grau de decadência, dominada pelo álcool, pela
miséria e pela tuberculose, a irmã faleceu. Marcolina encontrou casualmente
Augusto, agora estudante de Medicina. Os dois continuaram se vendo e ele propôs
casarem-se. Mesmo sem o antigo amor, mas por precisar de vida sossegada, Marcolina
aceitou a proposta.
Dentro de dois anos, Augusto pôs a perder todos os bens
da mulher, com maus negócios, jogatina e prostitutas; depois, sumiu. Em extrema
miséria, Marcolina ingressou na prostituição e foi acometida de tuberculose.
Na noite em que Silvestre a encontrou, ela planejava matar-se. Ele, então, passou
a protegê-la. Recolheu as irmãs numa casa de recuperação e levou Marcolina para
sua propriedade rural.
Lá ela melhorou um pouco, contudo não resistiu à doença
e morreu. Um pouco antes de sua morte, soube que o padrasto havia retornado
e levou as filhas para sua companhia, sem interessar-se pela ex-mulher.
Nota-se
aqui que a prostituta tem uma alma caridosa, dadivosa e fraterna, a antítese
de Paula que triunfa socialmente e não possui quaisquer destes sentimentos.
O autor faz tal comparação exatamente para demonstrar ( isto é até uma postura
realista ) a indústria de estereótipos a que somos submetidos os ricos são bons
e os pobres são maus o mais puro maniqueísmo ideológico.
CABEÇA
Silvestre resumiu suas idéias sobre o amor em sete máximas ( princípios); porém
preteriu tornar-se jornalista político.
Ofendidos por seus artigos, os opositores
impossibilitaram a permanência dele em sua aldeia, Foi morar no Porto, onde,
para surpresa dele, ninguém o conhecia, exceto um literato que, ao dizer-lhe
que o considerava um péssimo escritor provinciano (= da roça) levou um soco
no rosto. Silvestre passou a freqüentar a sociedade, encantava-se com a vivacidade
e naturalidade das mulheres, que gostavam de se alimentar bem e divertir-se.
Foi pena que, alguns anos depois, os romances românticos as fizeram pálidas,
lacrimosas e sem vida. Deixando o coração de lado, Silvestre só vivia da cabeça,
isto é, calculava como poderia chegar a ministro. Em seus artigos polêmicos,
pediu que se matassem os velhos e se exaltasse a juventude. Depois, combateu
também as novas gerações. O jornal em que escrevia recebeu multas por causa
de seus escritos.
Tão decepcionado no Porto quanto ficara com as mulheres de
Lisboa, Silvestre mudou de planos: abandonou as pretensões políticas e criou
o objetivo de enriquecer com o casamento. Páginas sérias de minha vida - Num
baile, Silvestre conheceu as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense.
Sua cabeça pediu que namorasse a mais velha, viúva e feia. Aproximou-se dela
e fez algumas perguntas. Além de ouvir respostas tolas, ela o desprezou por
tê-la ironizado. Silvestre tentou aproximar-se da segunda, morena e bonita,
mas soube que ela namorava Josino - velho conquistador, com quem veio a se casar,
Aliás, Josino foi objeto de versos satíricos de Silvestre num jornal literário
da época. A terceira mulher, Mariana, mais nova e que lembrava um anjo de igreja,
sem vida, órfã de um brasileiro rico, era criada por Francisco José de Sousa,
casado com uma brasileira, D. Rita.
Este casal acabou desaparecendo repentinamente
do Porto, deixando Mariana num convento. Mais tarde se ficou sabendo que a razão
do sumiço do casal foi o escândalo que envolveu a "família dos brasileiros",
como eram chamados, O Sr. Francisco José admirava o advogado Dr. Anselmo Sanches,
homem honesto. Embora os homens honestos do Porto fossem hipócritas, Dr. Anselmo
perecia exceção. Muitos o contratavam para advogar a favor de mães e filhas,
A ele Silvestre escreveu uma série de artigos agressivos contra o Dr. Anselmo,
sem mencionar o nome dele e das vitimas.
Contudo os homens honestos e a própria
imprensa defenderam a reputação do advogado, que processou o articulista. Sem
apoio algum, Silvestre foi condenado a pagar multa e cumprir três meses de prisão.
Esse episódio fez Silvestre encerrar sua vida de intelectual, Fracassaram o
coração e a cabeça. Agora era a vez do estômago. (Nesta altura do livro, o autor
inseriu alguns artigos de Silvestre sob o titulo O Mundo Patarata’, isto é,
o mundo elegante, criticando a sociedade do Porto).
ESTÔMAGO
De como me casei - Silvestre resolveu recolher-se a sua casa. A esse período
ele chamou de estômago. Para regular o estômago, ou seja, para ter paz, ele
precisava destruir a influência de duas pessoas da aldeia: o regedor e o vigário.
Quanto ao regedor, Silvestre recorreu à retórica, Fez uma verdadeira campanha
junto à população pobre contra ele Resultado: o governo perdeu as eleições na
aldeia, o regedor adoeceu e foi destituído do cargo.
Daí a meses, Silvestre
foi nomeado regedor. Nas eleições para renovação da câmara, o vigário começou
a fazer campanha política contra Silvestre. Este mandou que seu empregado desaparecesse
com o garrano ( cavalo) do vigário, impedindo-o assim, de falar nas regiões
mais afastadas. O regedor venceu as eleições por larga margem. Silvestre recebeu
o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil. Ao ver Tomásia, filha
do poderoso sargento-mor de Soutelo, interessou-se por ela. Convidado pela família,
passou um dia na casa da moça. O pai a ofereceu a ele em casamento Tomásia era
muito trabalhadeira e pouco intelectualizada. Seus quatro tios padres também
passaram aquele dia na casa do sargento e aprovaram a idéia do casamento com
Silvestre.
Tomásia já gostava do regedor há muito tempo, sem que ele percebesse
ou mesmo se lembrasse dela. As horas transcorreram com muita comida, bebida
e conversa. Oficializou-se o casamento de Tomásia com Silvestre para dentro
de 20 dias. A única condição que o pai da moça impôs foi que os dois morassem
na casa dele enquanto vivesse.
Silvestre não se perguntou se amava Tomásia ou
não. Segundo ele, a julgar pelos casais bíblicos, o casamento não se faz por
amor - este é coisa do coração, que não tem importância nenhuma. O casamento
se realizou como tinha sido previsto: os dois se confessaram, comungaram e receberam
a bênção nupcial num clima de animada festa.
EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO
- Silvestre foi um marido fiel. Exerceu cargos políticos na região
e conseguiu espertamente espantar credores de várias dívidas contraídas em solteiro.
Abandonou totalmente a vide intelectual, engordou muito por comer demais e se
dedicou à jogatina, endividando-se. Acreditava que, na publicação de seus manuscritos
após a morte, lá pela 10’ edição, haveria dinheiro suficiente para pagar as
dívidas que não conseguiria quitar em vida.
Por isso, autorizou a publicação,
se pudesse ser proveitosa para a iniciação da mocidade. Morto Silvestre, o editor
recebeu os manuscritos encaminhados pelo sogro do ex-regedor, com a transcrição
de seu último soneto atinentes à sua vida pregressa e o quanto as fases do coração,
cabeça e estômago são válidos para alcançar a sabedoria.