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Contos Novos -
Mário de Andrade
Publicado postumamente (1946),
Contos Novos é a obra de maturidade de Mário de Andrade, por estar
arejado dos cacoetes modernosos, sem perder o frescor modernista. É
provavelmente o livro que chega mais perto, pois, da imbatível produção
contística de Machado de Assis.
A criação de seus nove textos
foi esmerada, a ponto de haver um artesanato perfeccionista, um burilamento que
lembra o Parnasianismo (guardadas as devidas diferenças). Basta observar o
“Frederico Paciência”, por exemplo, em que o autor levou 18 anos em sua
confecção.
Suas histórias podem ser
divididas em dois grupos: as narradas em primeira pessoa e as em terceira
pessoa.
Em primeira pessoa, Mário de
Andrade vai-se utilizar de técnicas do Impressionismo, ou seja, recuperará de
uma forma quase autobiográfica o passado, dando destaque não exatamente à
apresentação precisa dos fatos, mas principalmente à exposição de impressões,
sensações, numa atitude extremamente subjetiva de reviver, presentificar ao
máximo o que já se foi. Interessante notar, quanto a isso, o trabalho com o
aspecto verbal. É forte o emprego de verbos que indicam não a mera exposição,
mas substanciosamente a evocação.
Outro aspecto digno de nota é a
utilização dos ideais de Freud, grande paixão de Mário de Andrade. Quase que
como num divã de psicanalista, toca-se em fatos ligados à complicada sexualidade
humana, principalmente o recalque. Somos forçados, pois, a fazer uma pause
explicativa.
De acordo com Freud, o sexo é um
impulso extremamente forte em nossa existência. No entanto, na nossa civilização
somos educados a controlar essa energia. Tal obrigatoriedade, violenta e
castradora, acaba provocando os inúmeros complexos, taras e recalques, também
chamados perversões, pois são os desvios que essa energia sexual acaba tomando
para que consiga ser descarregada.
O primeiro conto em que se pode
ver toda essa complexidade é “Vestida de preto”. Nele, o narrador aborda um
amplo período de sua vida. Tudo começa na infância. Flagramos Juca (o narrador)
e sua prima, de família abastada (alguns estudiosos apontam as dificuldades do
relacionamento Juca/Maria, provocadas pela diferença social, como um aspecto
autobiográfico) brincando de família com outras crianças numa casa de vários
cômodos. No entanto, ao contrário dos outros meninos, o casal protagonista
tranca-se num cômodo. Houve um momento em que Maria estende uma toalha no chão.
Era hora em que “marido e mulher” deveriam dormir.
Deitados, o menino, posicionado
atrás da companheira, acaba encantando-se com a vasta cabeleira que tem à sua
frente, mergulhando a cabeça nela, enquanto Maria entrega-se, estorcendo-se de
prazer, com o contato dos lábios do menino em sua nuca.
São interrompidos com a chegada
de Tia Velha (outro elemento autobiográfico. Mário de Andrade possuiu uma tia
com as mesmas características de Tia Velha), que os flagra, dá-lhes uma bronca e
ameaça delatá-los. O que acontece aqui é como a Queda do Paraíso (Mário de
Andrade era muito católico). Os dois separam-se, assustados e envergonhados, e
nunca mais aquela sensação de êxtase e felicidade vai ser recuperada, apesar de
as duas personagens buscarem, à sua maneira, recuperar esse bem perdido.
Interessante é notar o papel que
a Tia exerce. Antes de sua chegada, a brincadeira não tinha nenhuma conotação
indecente. Foi seu olhar, sua reprimenda e julgamento que ensinou a noção de
pecado. Dessa forma, podemos entender que o ato em si não era errado; a visão do
adulto, representado por Tia Velha, é que aplicava toda essa qualificação
repressora. Tudo isso são considerações freudianas.
Seguindo rigidamente os
pressupostos do pai da psicanálise, vemos as duas personagens afastarem-se,
reprimirem o que antes enxergavam como positivo e prazeroso. Distanciam-se por
toda a adolescência, apesar de ficar um conflito surdo de desprezo com fundo de
sedução. É o que pode ser entendido como “denegação”, a negação que esconde uma
afirmação. Juca assume uma imagem negativa na família, como o maluco, o que não
se apega muito às regras (essa imagem será retomada em “O Peru de Natal”),
enquanto Maria, riquinha, certinha, começa a evitá-lo, mesmo que apenas com um
olhar reprovativo.
Tempos depois, há uma inversão.
O menino, agora adolescente, dedica-se aos estudos (talvez impulsionado por
Frederico Paciência, personagem do conto homônimo), sublimando-se, tornando-se
bem visto, enquanto Maria, que chega a ir para a Europa, torna-se falada,
protagonista de vários escândalos morais.
Já na fase adulta, chega a
notícia da volta de Maria ao Brasil. Juca vai revê-la. Fica nas entrelinhas a
idéia de que seria positiva a união dos dois, pois sossegaria o espírito afoito
da mulher. Mas o reencontro é marcado de dolorosas simbologias. Em primeiro
lugar, o local, uma “saletinha da esquerda”. A família, ricaça, estava num
banquete. Fica marcante – e humilhante – a diferenciação social. Maria recebe-o
em seu vestidinho preto, perfeito atiçador de sensualidade e fetichismo. Parecia
estar-se oferecendo para ele. O jovem tem sua imaginação explodindo de
excitação.
No entanto, educado, reprime
seus impulsos e diz apenas um “Boa noite, Maria” formal, frio. É o primeiro de
entre outros contos em que o protagonista chega muito próximo de um momento de
felicidade plena e o deixa escapar, ficando apenas, muito tempo depois, a
revivê-lo de forma meio doída.
Juca perde contato com Maria,
sabendo apenas que ela ia continuar sua vida “alternativa” com um excêntrico
austríaco.
O segundo conto em primeira
pessoa é “O Peru de Natal”, famosíssimo não só pela emotividade que suscita, mas
também pelas abordagens analíticas que permite.
A história passa-se poucos meses
depois da morte do pai de Juca. Ainda sob a sombra do luto, o narrador tem a
idéia de possibilitar um pouco de alegria às suas “três mães”: mãe, irmã e tia
(note que pode ser visto aqui um indício de complexo de Édipo). Expressa o
desejo de comemorar o Natal com a degustação de um peru. Socialmente – não se
deve esquecer o luto – era uma idéia que poderia ser reprovada, mas quem não
curtiria um pouco de prazer na vida? Dessa forma, quando Juca expressa tal
desejo, serve de válvula de escape para a família. Nenhuma delas poderia ter
feito aquele pedido, mas o desejavam. Assim, com a desculpa de que estavam
preocupadas em atender o desejo de um “doidinho”, embarcam na comemoração que
também as satisfaz (será essa a função do artista: expressar o que os outros têm
reprimido, represado?).
Interessante é lembrar que a
família nunca fora desses tipos de festejos, por causa do espírito econômico,
seco do pai. O narrador faz lembrar que este não era um chefe de lar cretino,
que desprezava suas responsabilidades. Pelo contrário, nunca deixou de
sustentá-la. Mas era incapaz daqueles pequenos prazeres, o que acabava por
castrar seus parentes.
Esse caráter censor mostra-se
forte até mesmo após sua morte. Durante a ceia de Natal, enquanto comiam
prazerosamente o peru, a mãe lembra-se que estava tudo perfeito, só faltava o
pai. Foi o suficiente para mergulhar a mesa em prantos, para desespero de Juca.
É quando o rapaz tem uma
excelente jogada. De uma forma que pode ser entendida como hipócrita, o narrador
lembra que a mãe tinha razão. Para tudo ficar perfeito, só faltava mesmo a
presença do falecido, mas que onde quer que este estivesse, estaria contente
vendo a família reunida. Com tal expediente, em pouco tempo a alegria retornava
à mesa e todos voltaram a devorar o peru, enquanto o fantasma do pai começava a
diminuir.
Existem elementos nesse conto
que fazem referência aos estudos de Freud, Totem e Tabu principalmente.
Nota-se isso, primeiro, pela figura do pai como castrador (a idéia do pai como
figura castradora vai ser também a base da defesa do matriarcado de um mítico
Brasil pré-cabralino, percebida na Antropofagia de Oswald de Andrade e até em
Macunaíma, de Mário de Andrade. Lembre-se de que a principal divindade desta
obra é Vei, a Sol. Assim, essa civilização, sob a figura da mãe, não reprimiria
os prazeres carnais, ao contrário da nossa civilização, patriarcal e
judaico-cristã, que tem como principal deus uma figura masculina e, portanto,
repressora) e da necessidade de devorá-lo para que haja libertação. Note que a
lembrança do pai era um tabu (assunto a ser evitado; foi lembrado, tocado,
estragou a ceia). Note a devoração antropofágica representada no momento em que
o peru vai sendo comigo: paralelamente, a imagem do pai vai diminuindo,
transformando-se num totem, ou seja, elemento a ser nobremente (e talvez
friamente) reverenciado.
O próximo conto em primeira
pessoa é “Frederico Paciência”, o único texto em que Mário de Andrade tematizou,
ainda que de forma tão tangencial, o homossexualismo.
Pegamos Juca na fase escolar, no
que hoje se chamaria a passagem da 8a série para todo o Ensino Médio.
Fase conturbada, dizem os psicanalistas, pois é nela que se afirma a identidade
sexual, o que implica lembrar que é nela em que tal caráter está oscilante.
A maneira como Juca descreve o
seu novo companheiro de escola, Frederico Paciência, destacando seu aspecto
solar (alguns mitos (provavelmente Mário de Andrade, profundo estudioso desse
assunto, deveria conhecê-los) narram a impossibilidade de relação amorosa entre
o sol e a lua, pois nunca se encontram. Esse elemento pode ser relacionado a
Juca (de caráter melancólico e, portanto, lunar) e Frederico Paciência (dono de
uma explosão de vida e, portanto, de caráter solar), sua cabeleira e sua
peitaria, põe a nu a carga sexual do relacionamento. O problema é que, assim
como no final de “Vestida de Preto”, o conto vai estar pontuado de momentos em
que se chega próximo do clímax de felicidade, sem saciá-la. Uma vez, um garoto
apanhou dos dois meninos porque insinuou algo. Foi a glória para Juca. Outra
vez, os dois partilharam a posse momentânea de um livro sobre a história da
prostituição. Era uma intimidade num campo perigoso, sexualidade, ao mesmo tempo
que gerara remorso em Juca, pois, com tal livro, havia contribuído para macular
a imagem solar e pura do amigo.
E por aí os dois vão,
deliciando-se em passear abraçados da casa de um para a casa de outro, a ficar
no sofá, cabeças unidas. Vivem na proximidade do perigo, como faz mademoiselle,
de “Atrás da Catedral de Ruão”. Era um recalque, assim como o era a maneira como
se deliciavam em discutir e se agredirem. Mas queriam apenas intuir a
sensualidade, sem jogar para o consciente. Qualquer tentativa em contrário era
reprimida.
Um dia, velório do pai de
Frederico, os dois tiveram um momento mágico de sedução. Depois de expulsar um
homem preocupado, como abutre, com negócios ligados ao falecimento, Juca e seu
amigo vão para o quarto. Frederico fica conversando na semi-escuridão. Juca
perde-se admirando os lábios carnudos de seu amigo, deitado. Percebendo o lance,
Frederico pára de conversar e levanta-se da cama. Falta pouco, percebe-se, para
os dois entregarem-se.
No entanto, a lembrança do pai,
ainda sendo velado, parece impor-se entre os dois (semelhante à imagem
castradora do pai de “O Peru de Natal”), esfriando completamente o clima. A
partir de então, a amizade muda de rumo, perdendo a intensidade.
Por fim, o tanto vira nada.
Terminado o colégio, separaram-se, Frederico indo para o Rio. Anos depois, Juca
fica sabendo da morte da mãe de seu antigo amigo. Era a grande chance de reatar
tudo, sob o pretexto de consolar o necessitado. Mas termina por mandar um
telegrama formal, o que arrefece de vez todo o relacionamento.
O último conto em primeira
pessoa é “Tempo da Camisolinha”. Provavelmente seu narrador é o mesmo dos outros
três, apesar da mudança de nome: Carlos.
O título é uma referência à
roupa que o protagonista, ainda no início da infância, usava, típica de criança
e que o irritava – claro sinal de que já estava crescendo, apesar de sua mãe não
perceber. Nota-se que a criança estava no limiar de sua idade pelo fato de
sempre estar brincando com seu pênis, o que, dizem os psicanalistas, equivale ao
terceiro e último momento da primeira infância, a fase genital. É interessante
lembrar que esse é justamente o momento de socialização da criança: ou vai haver
um direcionamento em sua personalidade para o altruísmo, ou haverá para o
egoísmo. Coincidência ou não, é este justamente o tema do conto.
A história passa-se numa rara
viagem de férias em Santos, possibilitada apenas por causa de um período de
convalescença da mãe do narrador (o pai do narrador Carlos não era afeito a
esses luxos, o que faz lembrar o pai de Juca, de “O Peru de Natal”, reforçando a
tese de se tratarem das mesmas personagens).
Em seus passeios, a criança,
após desafiar a santa (já se disse que Carlos gostava de manipular seu pênis.
Mas era sempre repreendido por sua mãe, sob a alegação de que a santa (um quadro
na parede) não iria gostar. Nesse dia, Carlos, aproveitando que ninguém estava
em casa, exibe com toda empáfia seu diminuto membro para a divindade,
espantando-se por nada acontecer. Rompia limites. Estava crescendo), acaba
ganhando de um pescador três estrelinhas do mar. O pobre homem havia dito, ao
presenteá-las, que serviam para dar boa-sorte. O menino volta para casa feliz,
mesmo sem saber direito o que era sorte, guardando as preciosidades no quintal
de sua casa. Mas seu estado é tal que fica toda hora indo visitar seus troféus.
Até que, em outro de seus
passeios, conhece um português infeliz. Fica sabendo que o sujeito tinha “má
sorte”: muitos filhos pequenos, dificuldade para criá-los e uma esposa
paralítica. O menino ficou penalizado. Num esforço enorme, volta para sua casa,
pega suas estrelinhas e dá a mais bonita para o infeliz.
É o momento de dois grandes
aprendizados. O primeiro está na idéia de que a nossa felicidade é sempre
diminuída pela infelicidade que existe no mundo. O segundo é a noção de
altruísmo, mesmo que para tanto deva diminuir seu bem-estar.
Quanto aos contos em terceira
pessoa, alguns aspectos são importantes. Mais arejados da carga psicanalítica,
estão preocupados em descrever o homo urbanus em suas múltiplas facetas.
Além disso, predomina nesses contos a utilização de técnicas do Expressionismo,
ou seja, a descrição da realidade externa por meio de traços exagerados,
beirando o grotesco.
O primeiro conto nesse setor é
“O Ladrão”. Sua narrativa é simples: toda uma vizinhança é acordada com a
gritaria de perseguição a um ladrão. O engraçado é que ninguém chega a ver esse
bandido, o que leva à dúvida sobre sua existência. No entanto, serviu para unir
as pessoas em plena madrugada para viverem um pouco da alegria coletiva, o que
já estava começando a desaparecer na São Paulo da época de Mário de Andrade.
Chama a atenção nesse conto como
o elemento coletivo é bastante vivo, chegando perto da técnica apresentada por
Aluísio Azevedo em O Cortiço.
O conto seguinte, “Primeiro de
Maio”, possui uma excelente idéia que pecou pelo aspecto panfletário. Sua
personagem principal, 35 (a maneira como as personagens são nomeadas, por meio
de números, não só indica a desumanização por que passam dentro do sistema
capitalista, como também faz referência a datas importantes, como 35 (ano em que
foi decretado o feriado de Primeiro de Maio) e 22, ano de fundação do Partido
Comunista Brasileiro), um carregador de malas da Estação da Luz, sofre uma
transformação psicológica: vai da visão ingênua sobre o feriado até a noção
desencantada e decepcionada, mais próxima da realidade (talvez a aquisição de
conhecimento, consciência, esteja simbolizada na maçã que 35 come no decorrer do
final do conto). Acha estranho que o feriado seja comemorado por um grupo de
políticos encasacados, enquanto os trabalhadores são impedidos pela polícia de
se agruparem.
Mais eficiente em sua crítica
social é o quarto conto, “O Poço”, pois o faz de maneira mais literária e menos
panfletária. É uma história que se passa em um pesqueiro, lugar predileto de
lazer da burguesia da época. O seu dono está preocupado com a construção de um
poço, uma benfeitoria para si e para os visitantes, o que o faz ficar chateado
com o atraso da obra, graças ao frio e à umidade do inverno. Era impossível
trabalhar com as paredes enlameadas e com risco de desabamento.
Contrariado, aceita a
interrupção da obra. O problema é que, ao mostrar a construção para seus
visitantes, deixa cair sua caneta. De maneira tirana, força seu empregados a
tentar resgata-la. Quem se dedica a realizar a tarefa é um empregado raquítico e
doente, mas adequado para descer no poço. Ainda assim, o clima cada vez mais
árduo e o mergulho no lamaçal do poço só pioram sua situação.
De uma forma bem expressionista,
conforme se aproxima do clímax do conto, em que a opressão aos operários se
torna mais cruel, o frio vai-se tornando mais agudo e o barulho do maquinário do
poço vai piorando, como se não mais gemesse, mas gritasse.
No final, o irmão do sacrificado
impõe-se de maneira arriscada, dizendo que seu parente não iria mais mergulhar.
Houve um impasse, logo desfeito, com a paternal advertência de que o subordinado
deveria tomar cuidado com o tom com que se dirigia ao seu patrão.
Dias depois, já afastadas as
dificuldades climáticas, os empregados puderam resgatar a caneta do lamaçal,
entregando-a ao patrão como se fosse um objeto sagrado. Mas (era de se esperar)
já não funcionava mais. Para revolta do leitor, o poderoso joga-a fora; abrindo
a gaveta, vêem-se outras iguais.
Anterior a esse conto é “Atrás
da Catedral de Ruão”, que foge um pouco ao tom dos demais em terceira pessoa,
pois apresenta uma forte abordagem freudiana, aproximando-se, portanto, dos
contos em primeira pessoa.
Sua protagonista, mademoiselle,
é uma velha solteirona virgem que se dedica a pajear jovenzinhas da burguesia
paulistana. Sua sexualidade reprimida é descarregada em diversas formas de
recalque, a começar pela coriza constante. Mas o que chama mais atenção é a sua
linguagem, sempre na proximidade do perigo, dizendo e não dizendo nada erótico,
o que delicia as adolescentezinhas, fazendo-as entrarem no mesmo jogo. O
problema é que as meninas vão crescendo e vão trilhando caminhos sexuais que a
dama de companhia não conhece. Vi ficando cada vez mais para trás.
Seu último recalque manifesta-se
no final do conto. Durante a narrativa a protagonista fazia referência a uma
mulher que havia sido violentada na escuridão atrás da Catedral de Ruão, na
França. Esse acontecimento ficou tão marcado em sua mente que, certa vez,
voltando para casa, acaba por descer no ponto errado. Seu inconsciente já estava
dominando.
Para chegar até a sua casa, tem
de passar pelo Largo Santa Cecília, onde fica a igreja de mesmo nome. Poderia
muito bem ir pela frente, mas alguma força a faz ir para a parte de trás da
igreja.
Nesse ponto, mademoiselle ouviu
passos atrás dela. Apressou sua carreira, mas sentiu que os seus perseguidores
também se apressavam. Até que se viu derrubada no chão e atacada sexualmente.
No parágrafo seguinte, vemo-la
chegando à entrada de sua pensão, esbaforida. Os sujeitos que andavam atrás dela
conversam despreocupadamente, alheios à presença dela. Tudo não havia passado de
delírios da solteirona. Esquizofrenia, eis a sua perversão.
Surpreendentemente, quando os
homens passam perto, ela dá uma nota para eles, dizendo “merci pour votre bonne
compagnie” (“Obrigado por vossa boa companhia”, em francês. Este conto está
recheando de expressões nessa língua, que devem ser ignoradas, pois sabê-las ou
não não traz enormes prejuízos à compreensão do texto).
O último conto em terceira
pessoa é “Nelson”, muito estranho, talvez por ser o único que ainda não passou
pela revisão final do autor. Marcante é a utilização de vários focos narrativos,
em que há uma técnica cubista de colagem de várias histórias, todas sobre o
misterioso personagem que freqüenta o bar em que todos estão.
Parece que cada pessoa tem
alguma história sobre o misantropo protagonista. Uns dizem que fora apaixonado
por uma paraguaia, que o abandonou quando, educada, ficou sabendo do massacre
que o Brasil causou ao país dela durante a Guerra do Paraguai. Outros mencionam
ter participado da Coluna Prestes. Outros dizem que ele, ao contrário, teria
lutado contra a Coluna. Parece ter sido durante esse combate que teria ficando
com o braço deformado, a mão em formato de gancho: ficara embaixo d’água, no
Pantanal, para escapar do inimigo, quando começou a ser atacado por piranhas,
agüentando até que pudesse escapar.
Nelson percebe que está sendo
observado, o que o faz sair do bar. Agora o foco narrativo o acompanha. A
misantropia da personagem é tamanha que se vê impossibilitada de seguir o seu
caminho porque há bêbados à sua frente. No momento em que um policial afasta os
arruaceiros, Nelson rapidamente se esgueira, como um bicho, para a sua casa,
tranca-se, não se esquecendo de dar três voltas na chave. Isola-se do gênero
humano.