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Borges e os Orangotangos Eternos
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Luís Fernando Veríssimo
Dando seqüência à serie "Literatura ou Morte", que tem como idéia central a
criação, por autores contemporâneos, de romances policiais inspirados na obra ou
na biografia de grandes nomes da literatura (vide "O doente Moliere", de Rubem
Fonseca; "Medo de Sade", de Bernardo Carvalho; e "Os leopardos de Kafka", de
Moacyr Scliar, publicados anteriormente na mesma coleção), a Companhia das
Letras publica "Borges e os Orangotangos Eternos", do gaúcho Luis Fernando
Veríssimo.
Mas não se engane o leitor, pensando talvez que por se tratar de um romance "de
encomenda", o livro que agora nos ocupa seja um mero passatempo.
Muito pelo
contrário, o romance é, como tudo a que Veríssimo nos tem acostumado,
especialmente as suas crônicas, literatura de primeira.
Neste caso, uma
literatura na linha de Edgar Allan Poe, que inventou "a história de detetive, e
a paródia da história de detetive e a anti-história de detetive", e que, junto
com a literatura plena de simulações de Borges, constitui a matéria-prima do
romance.
Num congresso de especialistas na obra do escritor norte-americano, realizado na
capital Argentina, que Vogelstein, um professor de literatura e tradutor de
Porto Alegre, terá a oportunidade de conhecer pessoalmente seu admirado Borges,
dividindo com ele a investigação de um misterioso crime cuja vítima é o
professor alemão Joachim Rotkopf, um dos mais importantes participantes do
encontro.
Será precisamente Vogelstein, cuja admiração por Borges transparece até no nome
do seu falecido gato, narrador da história (exceto no último capítulo, no qual
cede a palavra ao próprio Borges), que desvendará todo o mistério e esclarecerá
as falsas pistas semeadas por Veríssimo ao longo do romance.
Em resumo, "Borges e os orangotangos eternos" é literatura de primeira linha
disfarçada de romance "policial", no qual Veríssimo, ao mesmo tempo em que conta
uma saborosa história, homenageia Borges e Poe, mostrando-se um digno seguidor
dos seus passos.
Uma única observação: numa transposição do português coloquial para o espanhol,
o autor coloca na boca de Borges uma frase impossível na sua forma. Durante uma
conversa com o inspetor de polícia encarregado do caso, o argentino diz: "Yo y
el señor Vogelstein".
Ainda que a forma do espanhol falado em Buenos Aires
escape bastante, em alguns casos, das regras ditadas pela Real Academia
Espanhola, algumas destas regras se conservam na Argentina com uma firmeza
superior à paridade no câmbio do dólar.
E uma delas (talvez, a mais apregoada) é
que ninguém pode colocar o "yo" no começo da enumeração de pessoas na frase.
Sem
desmerecer o valor do romance, este único erro, no meio de muitas outras
citações em castelhano, todas corretíssimas, acaba "gritando" aos olhos do
leitor de ambas as línguas, especialmente pelo exagero da involuntária blasfêmia
em se colocar esta frase, uma das mais profundas manifestações de falta de
cultura, na boca daquele que foi, na opinião deste que escreve, e tenho certeza
na do próprio Veríssimo, um dos homens mais cultos nascidos na Argentina.