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Boca de Ouro
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Nelson Rodrigues
I- Classificação da peça
c O crítico de teatro Sábato Magaldi classificou a peça Boca de Ouro como
tragédia carioca. O próprio crítico, porém, ressalva que essa classificação tem
caráter didático, não pode ser considerada rigidamente, sob pena de empobrecer o
universo do ficcionista, já que as características nunca se mostram isoladas.
Sábato conclui: "Poucos dramaturgos revelam, como Nelson Rodrigues, um
imaginário tão coeso e original, e com um espectro tão amplo de preocupações
psicológicas, existenciais, sociais e estilísticas."
II- Características
1- O comportamento obsessivo,
paroxístico do protagonista. Nelson Rodrigues não teme o exagero: seus
personagens são prisioneiros de paixões avassaladoras. Tornam-se protótipos, já
que o autor ultrapassa as conveniências realistas e os constrói com um vigor
desmedido.
2- A morbidez que, no seu teatro, serve
para aguçar a sensibilidade, abrindo desvãos psicológicos que de outra forma
continuariam vedados, escondidos. Ele é "nosso primeiro dramaturgo a sublinhar
de forma sistemática os comportamentos mórbidos da personalidade, coexistindo
com as facetas consideradas normais".
3- "Mais um traço que acompanha a obra
inteira: a ironia feroz (...) Os prazeres são sempre efêmeros, as alegrias
escondem apenas uma realidade que não se desvendou ainda." Os desfechos irônicos
e trágicos das peças remetem biograficamente às tragédias familiares, de que
Nelson nunca se recuperou (por exemplo: o assassinato de seu irmão Roberto).
4- Nelson Rodrigues é um mestre do
"diálogo". Isento de literatice, seu diálogo é direto, enxuto, preciso,
funcional. A linguagem é predominantemente coloquial.
5- Família e sexo: o que é socialmente
transmitido como proibição, na esfera sexual e das relações afetivas, é
sistematicamente violado. Neste sentido, o seu teatro constitui uma abordagem
crítica à estrutura social brasileira, cujo sistema de relações e cujos valores
de base têm sua aparente segurança abalada.
Neste contexto se inserem os
comportamentos de incesto (relação sexual entre parentes) e outras formas de
relacionamento sexual culturalmente proibidas (entre pessoas do mesmo sexo,
entre pessoas de raças ou classes sociais diferentes...) Na família, predomina
uma aura de pudor e de repressão na esfera sexual, e o autor vai explicando a
quebra de tabus familiares e sexuais, tais como a virgindade, a fidelidade, a
intocabilidade entre os membros da família, o papel do pai e da mãe, e assim por
diante.
6- A violência marca as relações
inter-pessoais através de três situações típicas: a traição, o antagonismo e a
exploração.
7- Crítica à imprensa: O teatro
rodriguiano apresenta forte crítica às instâncias formadoras da opinião pública,
sobretudo a imprensa, mostrando como e por que são construídos os fatos
supervalorizados socialmente e como é falsa a neutralidade desses órgãos.
III - Enredo
Há, na obra de Nelson Rodrigues, duas fases distintas, embora complementares. em
primeiro lugar, existe a fase mítica, em que o autor trabalha predominantemente
com realidades arquetípicas, sem qualquer compromisso substancial com o mundo
objetivo.
Já na sua segunda fase, balzaquiana, por assim por dizer, Nelson Rodrigues faz
com que seus personagens desçam do Olimpo e se plantem no chão do mundo, no chão
do subúrbio carioca, de onde passam a brotar com um vigor e uma autenticidade
admiráveis. Esta transição se processa, no entanto, sem prejuízo dos aspectos
míticos da obra, que continuam encravados no coração do teatro de Nelson
Rodrigues e lhe conferem a sua grandeza poética e a sua universalidade.
Em Boca de Ouro, esse casamento entre o particular e o universal, entre o
subúrbio, no que dele tem de mais peculiar, e a simbologia arcaica do
inconsciente, no que esta possui de mais genérico, se faz de maneira psicológica
e artisticamente perfeita. É claro que tal inserção de planos pode confundir e
desorientar a crítica, mesmo avisada e experiente. Daí, por exemplo, a impressão
de "salada", de desunidade, que um crítico da lucidez e da experiência de Paulo
Francis denuncia em seu contato com a obra.
Esta desunidade é, porém, aparente e
não essencial. Ela decorre da perplexidade do espectador ante o encontro entre o
mito e o subúrbio, e das surpresas e desdobramentos que surgem deste conúbio.
Boca de Ouro, sendo um autêntico rei do jogo do bicho, brasileiríssimo e
suburbano, é, ao mesmo tempo, o fulvo felino imemorial que nos habita a todos, o
leão de Judo onipotente que cada um alimenta nas testas de sua fantasia
profunda, todo músculo e toda força, além da morte, além do risco, além da
solidão e do abandono.
Nelson Rodrigues, na estrutura de sua peca, mostra, sem qualquer dúvida , a sua
intenção de universalizar certas realidades inconsciente fundamentais, que
Boca de Ouro representa. Tanto é assim que o personagem só aparece, como
presença autônoma, na primeira cena, no dentista, quando manda arrancar todos os
dentes sadios para substituí-los por uma dentadura de ouro. Neste gesto o
personagem define, desde logo, com um vigor absoluto, o cerne de seu projeto
existencial. Boca de Ouro escolhe aí o caminho da potência onipotente da
força desmesurada e agressiva através da qual espera agarrar a invulnerabilidade
a que aspira.
Os dentes naturais são perecíveis, envelhecem e morrem. Seu poder
de domínio triturador está limitado pelas travas insuperáveis da condição
humana. Boca de Ouro, ao optar pela dentadura que lhe deu o nome, busca
transfigurar-se e imortalizar-se pelo caminho da agressão primitiva, aquém ou
além do bem e do mal. Nesta medida, coroado rei por si mesmo(corado nos dentes),
sentado no trono de seu despotismo sem limite, o personagem transcende o
subúrbio e se configura como herói da espécie, violento e terrível.
Em virtude desta dimensão mítica é que Boca de Ouro, como ser autônomo,
individual e individuado, já não mais aparece na peça. Ele existirá pelos olhos
dos outros, terá as múltiplas faces que os outros lhe atribuem, será, além de si
próprio, a encarnação das fantasias de onipotência que os outros, através dele,
buscam exprimir.
Esta é a linha psicológica pela qual a peça ganha unidade e
profundidade, uma vez que os personagens: D.Guigui, Agenor, os jornalistas, a
comparsaria que faz fila no necrotério, o locutor de rádio ao falar de Boca
de Ouro, falam também de si e, ao criar a sua imagem mítica, se revelam nos
seus sonhos de poder e despotismo. Os demais personagens ligados ao Boca de
Ouro, e trazidos à cena pela narrativa de D. Guigui ao repórter, participam
deste mesmo, desdobramento de planos psicológicos e, sendo vivos e autônomos,
também representam focos de clarificação que iluminam o herói da peça e são por
ele iluminado, desvendando, por último, a realidade interna da narradora que os
faz viver.
Qual será, por fim, o significado profundo da peça de Nelson Rodrigues, e que
alcance ético poderá ter? A chave da pergunta nos é dada pelo próprio autor,
através da força intuitiva dos símbolos que cria. Boca de Ouro, nascido
de mãe pândega, parido num reservado de gafieira, tendo perdido o paraíso
uterino para defrontar-se com uma realidade hostil e inóspita, sentiu-se
condenado `a condição de excremento. Seu primeiro berço foi a pia de gafieira,
onde a mãe, aberta a torneira, o abandonou num batismo cruel e pagão.
Esta é a
situação simbólica pela qual o autor, com um vigor de mestre, expressa o exílio
e a angústia humana do nascimento, o traumatismo que nos causa, a todos, o fato
de sermos expulsos do Éden e rojados ao mundo, para a aventura do medo, do risco
e da morte. Boca de Ouro, frente a esta angústia existencial básica,
escolheu o caminho da violência e do ressentimento para superá-la.
Ele,
excremento da mãe, desprezando-se na sua imensa inercidade de rejeitado, incapaz
de curar-se desta ferida inaugural, pretendeu a transmutação das fezes em ouro,
isto é, da sua própria humilhação e fraqueza em força e potência. Esta alquimia
sublimatória ele a quis realizar através da violência, da embriaguez do poder
destrutivo pelo qual chegaria à condição de deus pagão, cego no seu furor, belo
e inviolável na pujança de sua fúria desencadeada.
Ao útero materno mau, que o
expulsou e o lançou na abjeção, preferiu ele, na sua fantasia onipotente, o
caixão de ouro, o novo útero eterno e incorruptível onde, sem morrer,
repousaria. Acabou mal esse Boca de Ouro, esse belo sinistro, terrível e
ingênuo herói, tão grande e tão miserável na sua revolta contra a condição
humana. Ele que, pela violência homicida, pretendeu realizar o velho sonho da
alquimia, de transmutação dos elementos, transformando-se a si próprio em ouro
imperecível, acabou lançado `a sarjeta, com a cabeça no ralo, crivado de
punhaladas, reduzido `a matéria de que tinha horror.
Depois de morto, roubaram-lhe a dentadura. Eis o nosso rei destronado, devolvido
à sua solidão, fraco e pobre como o mais fraco e mais pobre dos seres.
Nelson Rodrigues, em Boca de Ouro, faz implicitamente o processo
metafísico da violência, da vontade de poder, e sua lição é construtiva. Ele
mostra a impossibilidade do homem de, pelo furor destrutivo, chegar a salvar-se.
O ressentimento, como paixão existencial, e a raiva cega que dele decorre
arrastam o ser humano para o abismo do aniquilamento da morte. O homem, sem
dúvida, traz consigo, no mais íntimo de sua substância ontológica, a vocação da
alquimia, a sede de transfiguração, o instinto que o leva a tentar a
transformação do barro em ouro.
Mas este milagre só se opera na medida em que o
homem se aceita e se ama na sua fragilidade, na argila perecível e corruptível
que ele também é, para além de qualquer ressentimento. Nesse instante, sem o
saber, eis que encontra em suas mãos a pedra filosofal que o transfigura e lhe
abre as portas da luz que não se apaga.