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Antologia poética -
Carlos Drummond de Andrade
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1- O Indivíduo : O eterno
conflito entre o eu e o social
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2 - A terra natal
:Itabira
saudades e vivências
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3 - A família :Itabira
e vivências íntimas do menino
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4 - Amigos : Homenagem aos
amigos reais ou intelectuais
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5 - O choque social
: A violência
humana
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6 - O conhecimento
amoroso :
O amor altruísta (como só ele poderia existir)
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7 - A própria poesia
:metalinguagem
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8 - Exercícios lúdicos
:A
conseqüência do amar e desamar
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9 - Uma visão, ou
tentativa de, a existência: O
estar no mundo. Em nosso material iremos analisar um poema de cada seção para
que a você seja possível uma visão global das facetas deste poeta (Observe a
tabela e a numeração dos poemas):
1.Consolo na praia
Vamos, não chores
A
infância está perdida
Mas a
vida não se perdeu
O
primeiro amor passou.
O
segundo amor passou.
O
terceiro amor passou.
Mas o
coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não
tentaste qualquer viagem.
Não
possuis casa, navio, terra.
Mas
tens um cão.
Algumas palavras duras
Em
voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas e
o humor?
A
injustiça não se resolve.
À
sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas
virão outros.
Tudo
somado, devias
Precipitar-te de vez nas águas.
Estás
nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
O
desconsolo do poeta encontra alento na esperança de melhores dias. Observe a
preocupação do poeta com o mundo ao redor_ as injustiças e os amores que não são
eternos.
2
A terra natal
Confidência do itabirano
Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente nasci em Itabira
Por
isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas
E
esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação
A
vontade de amar, que paralisa o trabalho
Vem
de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o
hábito de sofrer que tanto me diverte,
É
doce herança itabirana.
De
Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
Este
são Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
Este
couro de anta, estendido no sofá de visitas;
Este
orgulho, esta cabeça baixa...
Tive
ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje
sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas
como dói!
A
biografia lírica e real de Drummond reside em Itabira_ cidade que em vida adulta
nunca mais voltou, mas cuja lembrança sentimental sempre reservou para si.
3
Infância
Meu
pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha
mãe ficava sentada cosendo.
Meu
irmão pequeno dormia.
Eu
sozinho menino entre mangueiras
Lia
histórias de Robison Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.
No
meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a
Ninar
nos longes da senzala_ e nunca se esqueceu chamava para o café.
...
Minha
mãe ficava sentada cosendo
Olhando para mim:
—
Psiu...Não acorde o menino.
Para
o berço onde pousou um mosquito.
E
dava um suspiro...que fundo!
Lá
longe meu pai campeava
No
mato sem fim da fazenda.
E eu
não sabia que minha história
Era
mais bonita que a de Robison Crusoé.
Imagens belas compõe este poema de uma maneira singular. A família é o pano de
funda da infância do poeta.
4 Mário de Andrade desce aos infernos
Daqui
a vinte anos farei teu poema
E te
cantarei com tal suspiro
Que
as flores pasmarão, e as abelhas,
Confundidas, esvairão seu mel.
Daqui
a vinte anos: poderei
Tanto
esperar o preço da poesia?
É
preciso tirar da boca urgente
O
canto rápido, ziguezagueante, rouco,
Feito
da impureza do minuto
E de
vozes em febre, que golpeiam
Esta
viola desatinada
No
chão, no chão.
Homenagem ao poeta Mário de Andrade.
5 Áporo
Um
inseto cava
Cava
sem alarme
Perfurando a terra
Sem
achar escape
Que
fazer, exausto,
Em
país bloqueado,
Enlace de noite
Raiz
e minério?
Eis
que o labirinto
( oh
razão, mistério)
presto se desata:
em
verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma
orquídea forma-se.
Nenhuma luta é vã, pois plantar o amanhã é o papel social de todos.
6 Sentimento do Mundo
Tenho
apenas duas mãos
E o
sentimento do mundo,
Mas
estou cheio de escravos,
Minhas lembranças escorrem
E o
corpo transige
Na
confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
Estará morto e saqueado,
Eu
mesmo estarei morto,
Morto
meu desejo, morto
O
pântano sem acordes.
Os
camaradas não disseram
que
havia uma guerra
e era
necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
Anterior a fronteiras,
Humildemente vos peço
Que
me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu
ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do
sineiro, da viúva e do microscopista
Que
habitavam a barraca
E não
foram encontrados
Ao
amanhecer
Esse
amanhecer
Mais
noite que noite.
A
guerra sempre foi alvo da crítica de Drummond, daí seu humanismo
7 Poema-orelha ( dedicado ao prof. André Lazarotte)
"Aquilo que revelo
e o
mais que segue oculto
em
vítreos alçapões
são
notícias humanas,
simples estar no mundo,
e
brincos de palavra,
um
não-estar-estando, mas de tal jeito urdidos
o
jogo e a confissão
que
nem distingo eu mesmo
o
vivido e o inventado."
Metalinguagem reflexão sobre a própria arte.
8 Quadrilha
João
amava Teresa que amava Raimundo
Que
amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que
não amava ninguém.
João
foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que
não tinha entrado na história.
O
desencontro amoroso.
9 Cerâmica
Os
cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem
uso,
Ela
nos espia do aparador.
Este
poema de influência cubista permite ver nos objetos a incorporação metafórica da
inutilidade da vida.
Bem,
após observarmos a temática passemos agora para a estrutura formal de sua
composição:
a.Versilibrismo:
o uso indiscriminado do verso livre;
b.Prosaísmo:
adoção na poesia de processos adequados à prosa como o discurso direto, a
ausência de rimas, a conversa com o leitor;
c.Linguagem dinâmica e
irônica: versos pequenos e
concisos no significado, semelhante ao poema pílula de Oswald de Andrade;
d.Cenas do cotidiano:
a infância, a metrópole, Itabira e a família;
e.Recriação metonímica da
realidade sentida:
Drummond apreende filosoficamente o mundo a partir de assuntos banais.