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Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água -
Jorge Amado
Jorge Amado (Itabuna, BA, 1912 – Salvador, 2001) é o maior sucesso editorial
dentre os regionalistas, chegando até a inverter a mão de nossa literatura, pois
influenciou o Neo-Realismo Português da década de 40. Mas entre a crítica o seu
êxito não é tão unânime. Seus analistas mais casmurros, acostumados a James
Joyce e Franz Kafka, sentem falta no escritor baiano de ousadias literárias.
Assim, recriminam seus textos, acusando-os de dominados por populismo piegas,
estereotipias, elementos chulos e descuido formal. Nem mesmo no campo político,
que lhe abrira as portas literárias, encontrou unanimidade. Para a direita, é
qualificado como panfletário. Para a esquerda, como alienado.
Assim, o conceito sobre o autor
não é único. Há os que esquecem injustamente suas primeiras produções, marcadas
pelo espírito revolucionário socialista, e dizem que o baiano produz literatura
para o mercado apenas. Há os que reclamam de sua “queda final” para a alienação,
pois valorizam apenas a fase em que seus textos eram de esquerda. Há, também, os
que o consideram o nosso maior escritor, na medida em que faz exatamente aquilo
que o leitor (parte importantíssima no processo literário) quer, daí o seu
estrondoso sucesso de vendas. E há ainda os mais cautelosos, que enxergam
qualidade no escritor, desde que se faça uma seleção de suas obras.
O fato é que não se deve
desprezar que Jorge Amado é um bom escritor. Não tem o fôlego de Graciliano
Ramos, pois muitas vezes cede ao impulso de delongar a narrativa. E nem tem
mesmo a intenção de se igualar ao gigante regionalista, pois sua narrativa não
apresenta a tensão crítica dos seus contemporâneos, mas uma tensão mínima, fruto
de uma visão encantada e otimista de seu mundo. Seu lugar, pois, é o de cronista
da Bahia, um rapsodo popular, o porta-voz da baianidade em textos que ficam
entre a poesia e o documento vivo, entre o Romantismo e o Realismo. É uma
testemunha que, por meio de sua história-puxa-história, dominada pelo tom de
anedota testemunhada, mostra simpatia com seu ambiente e o retrata com
fidelidade, ainda que exótica, apimentada.
A narrativa de A Morte e a
Morte de Quincas Berro d’Água ambienta-se em Salvador, na época atual, e é
apresentada por um interessante narrador em primeira pessoa, pois que é dotado
de onisciência. Tudo gira ao redor de Joaquim Soares da Cunha, mais conhecido
como Quincas Berro d’Água, apelido gerado pela reação explosiva e indignada ao
ter bebido, por engano, água no lugar de cachaça, sua bebida predileta. Por aí
já se pode imaginar de que tipo de personagem se trata. Essa idéia pode ser
reforçada pelos apelidos que havia recebido: Rei dos Vagabundos da Bahia, O
Cachaceiro-Mor de Salvador, O Vagabundo por Excelência, O Filósofo Esfarrapado
da Rampa do Mercado, O Rei da Gafieira, O Patriarca da Zona do Baixo Meretrício.
No entanto, nem sempre teve tais
predicados. Dez anos antes do início da narrativa, Quincas era funcionário
exemplar da Mesa de Rendas Estadual. Levava uma vida respeitável, mas que lhe
era sufocante, graças às pressões de uma formalidade vazia e inútil. O
rompimento ocorre quando sua filha, Vanda, está para se casar com Leonardo
Barreto, uma reprodução fiel do estilo de vida de Joaquim; a diferença é que o
jovem está satisfeito com o que tem. Comunicado o noivado e apresentado o rapaz,
Joaquim qualifica-o como um coitado. Vanda e Otacília (sua esposa) têm uma
reação que é um misto de indignação e incompreensão. Inconformado, Joaquim chama
o futuro genro de bestalhão e sua esposa (tão apegada às etiquetas) de jararaca.
Sai de casa e transforma-se no Quincas Berro d’Água. Decai socialmente, pelo
menos aos olhos de uma sociedade apegada à formalidade, mas encontra sua
felicidade em meio a gente da classe baixa, como marinheiros, prostitutas,
capoeiristas.
Vindo da classe alta e
identificando-se com o baixo estrato, acaba-se tornando o “pai da gente”, no
dizer constante de uma das personagens. Por um lado isso revela um paternalismo
a idealizar as diferenças sociais gritantes na sociedade baiana. Por outro,
serve para enxergar nele um alter ego de Jorge Amado, escritor vindo da elite e
que se envolve com o tom, a linguagem, o estilo e o gosto popular. Ambos,
criador e criação, acabam mal vistos pelos “senhores sérios e conceituados”.
Assim, o destino de um mistura-se ao de outro.
A narrativa inicia-se com a
notícia do óbito de Quincas, que se tinha dado de forma fenomenal: havia morrido
duas vezes, o que o colocava entre as inúmeras anedotas exóticas que circulavam
entre o povo.
Informada por uma padre, sua
família, liderada por Vanda (que passa a encarnar o papel repressor da já
falecida mãe), resolve cuidar do enterro, na crença de que estava recolocando
Quincas de volta ao eixo. Era uma aparente vitória sobre dez anos de completa
vergonha a que tinham sido submetidos. Era o fim daquela irreverência, ainda
presente no sorriso desafiador e pelo dedão do pé furando a meia do cadáver.
Joaquim Soares da Cunha voltaria, por meio de vestes mais adequadas, sóbrias,
formais, compradas especialmente para o funeral.
Aliás, o acerto do cerimonial
foi um dos aspectos que mais degradou na narrativa a imagem dos parentes, pois
não queriam ter sua rotina quebrada. Leonardo estava mais preocupado em não
perder o expediente na repartição e não passar vergonha com a notícia. Chora com
o que foi gasto para o enterro, assim como Eduardo, irmão do morto, também
preocupado com sua firma. A única que dá atenção um pouco mais digna é Vanda,
mas aceita a mediocridade do ritual com medo de que algo mais pomposo levantasse
a atenção e expusesse a família a uma nova série de comentários vergonhosos
sobre o passado do pai.
No entanto, esse domínio é
aparente. Em primeiro lugar porque, mesmo de paletó e gravata, mesmo nas vestes
da formalidade, o defunto não abandonou seu sorriso de irreverência, o que deixa
Vanda agoniada. Seu desespero aumenta quando o falecido começa a,
fantasticamente, dizer desaforos como “jararaca”, “saco de peidos” e
“bestalhão”.
Além disso, a notícia do
falecimento espalhou-se, provocando luto em todos os bairros das classes baixas.
Bares fecham. Prostitutas não trabalham. Até que alcança a sua segunda família,
mais autêntica porque escolhida. São quatro os seus cavaleiros, são quatro os
seus membros: Curió (o primeiro a saber do triste fato), moço de constantes
paixões e noivados; Negro Pastinha, gigante de 2 metros, ajudante de bicheiro,
bom de briga, mas bonachão; Cabo Martim, que havia dado baixa há 15 anos; e
Pé-de-Vento, capoeirista que ganhava a vida caçando animais para zoólogos.
Cientes do acontecimento
fatídico, correm para o velório. A chegada acaba gerando uma guerra fria entre
formalidade e autenticidade, entre o bairro do Itapagibe e Tabuão, entre a
família social e a verdadeira, entre a coerção e a libertação. A primeira
vitória é do formalismo oficial, representado por Vanda, que encurrala os
perdedores num canto da casa.
Mas o jogo será virado, pois a
família biológica não sabe o que é dedicação – preocupa-se muito mais com seus
afazeres e obrigações. Vanda retira-se com sua tia por causa do adiantado da
hora, pois não pode ficar num bairro tão pobre, perigoso e de baixa reputação.
Leonardo retira-se pouco depois, pois tem de estar no expediente no dia
seguinte. Tio Eduardo é que devia velar por toda a madrugada, mas por puro
comodismo cede espaço ao quatrilho.
Conquistado o terreno, a
primeira reação foi de irritação com o desleixo da família, que não teve a
capacidade de preparar um velório mais decente – não há comida, cadeira,
conforto, nada.
Então, o fato inexplicável.
Surge uma garrafa de cachaça. Não se sabia se havia entrado escondida ou se fora
comprada depois, mas o consumo dela facilitou as exorbitâncias daquela noite.
Começam a dialogar com o morto de forma desabrida, principalmente sobre quem
seria o sucessor na posse do coração de Quitéria do Olho Arregalado.
Fantasticamente, ou até mesmo por produto de bebedeira, ouvem a reação de
Quincas diante de assunto tão abusado. Na crença, pois, de que não estava morto,
de que tudo não passara de uma peça, iniciam um diálogo festivo com o “paizinho”.
Dão bebida para ele. No final, tiram a roupa social e restituem a antiga.
Joaquim voltava a ser o Quincas. Tiram-no do caixão e resolvem passear com ele,
tudo num clima de magia surpreendente e festiva. A intenção deles é degustar a
moqueca do Mestre Manuel, à beira do mar, junto aos velhos amigos de farra.
A viagem que fazem vai acordando
do luto toda a Ladeira, antiga conhecida de Quincas. Até briga conseguem no bar
do Cazuza, o que deixa o proprietário feliz, pois aumenta a reputação do
estabelecimento. Mas o principal é que Quitéria reconquista sua alegria com o
retorno de seu amado. Tudo é mágico. Tudo é encantado. Tudo é cheio de vida e
alegria com a notícia de que o seu grande ídolo estava vivo.
Contentes, partem para o mar, ambiente predileto do herói e local em que ele
sempre manifestou ter desejo de ser enterrado. É uma noite idílica. No entanto,
são surpreendidos por um temporal. Em meio à agitação furiosa das águas, depois
de cinco trovoadas fortes, o que dizem ter visto foi Quincas levantar-se e
atirar-se ao mar. Morria pela segunda vez, dessa vez justamente no ambiente que
queria, adquirindo a liberdade que desejava.