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A
Majestade do Xingu -
Moacyr Scliar
Publicado em 1997, A
Majestade do Xingu permite inúmeras considerações sobre os aspectos do
romance. A primeira está ligada à filiação que esse gênero tem em relação ao
seu predecessor, a epopéia. Ambos são narrativas que giram ao redor de um
herói. E a obra de Moacyr Scliar puxa características dos dois gêneros. É de
fato um romance, pois seu narrador-protagonista é decaído, fraco, passivo,
inerte, um personagem defeituoso e problemático como exige essa categoria
narrativa. Já a história de Noel Nutels, famoso sanitarista (Trata-se
de personagem histórica, como tantas outras citadas na obra)
e amigo de infância do narrador, pairando distante como um sol alentador, é
típica das epopéias, tal o nível de heroicidade e idealização que tal
personagem assume.
Há ainda considerações a serem
levantadas em relação ao comportamento dos dois atuantes. Noel é ativo,
dinâmico, o que o faz provavelmente não ter tempo para redigir história. Esse
papel fica para o narrador, que, parado em sua lojinha no Bom Retiro, torna-se
habilitado para ruminar todos os acontecimentos e virar contador de histórias. E
é o que de fato acaba por acontecer.
Como em Grande Sertão: Veredas
(de Guimarães Rosa), o narrador criado por Moacyr Scliar abre-se numa conversa
pelas mais de 200 páginas em que só a voz dele é notada no texto. Sabe-se que
ele conversa com um médico (outra semelhança com o romance roseano?), pois
várias vezes faz-lhe perguntas cujas respostas são facilmente subentendidas,
como no trecho abaixo:
“Diga uma coisa, doutor.
Depois que eu morrer – sim, eu sei que não vou morrer tão já, o senhor me
garantiu, mas apenas para efeito de raciocínio –, depois que eu morrer o senhor
vai escrever essas coisas que estou lhe contando? Ah, não vai? E por que está
tomando notas? Ah, não tem nada a ver com o que estou dizendo?”
(página 10)
E é num andamento gostoso que se derrama toda a obra, com
a intenção de contar a vida de Noel Nutels. Mas o mais interessante é que o foco
concentra-se concretamente é na vida do narrador, Noel sendo mais citado e
venerado. Torna-se, desde o princípio, o ideal.
Tudo começa na infância, em que as personagens estavam mergulhadas na miséria de
vilarejos da Rússia antes da Revolução. Mas não era apenas a miséria o elemento
que massacrava o cotidiano. Além do peso de serem judeus (Moacyr
Scliar é judeu e expõe, por meio de seu narrador, uma problemática tensa da
identidade judaica e a idéia de culpa que essa etnia carrega, seja etnia por ter
fugido do massacre e miséria russos, seja a culpa por ter escapado ao genocídio
nazista, sejam tantas outras culpas que acabam sendo elencadas aqui),
havia também o pogrom, momento em que os cossacos descarregavam sua raiva –
fruto das tensões sociais pré-revolucionárias – destruindo e matando tudo nos
pequenos vilarejos russos.
Nesse momento já se vislumbra a diferença que vai se processar entre Noel e o
narrador. A família do primeiro era de gente que agia. Seu pai havia partido
para a América do Sul, em busca de melhores condições de vida. Sua mãe
participava dos ideários do proletariado, tornando-se personalidade extremamente
combativa.
Já com o narrador o processo era diferente. Sua mãe era extremamente pragmática,
preocupada com o dia-a-dia doméstico. Arroubos políticos eram-lhe alheios. Ainda
mais para o seu pai, sapateiro que se vangloriava em cuidar das botas do conde
Alexei, um papel que o tornava subalterno demais.
Pressionadas pela crise, as duas famílias partem, em busca de melhores condições
de vida no Brasil, terra apresentada como paradisíaca. A família do narrador
chega a ser lograda e roubada na fuga, mas mantém-se firme em seus propósitos.
Encontram no caminho um grupo de revolucionários bolcheviques, entre eles Isaac
Babel, judeu que acompanha os soldados não para combater – era incompetente até
na montaria –, mas para testemunhar e relatar todos os feitos destes.
Essa personagem por toda a obra vai marcar o narrador. São semelhantes, pois
ambos são apenas testemunham que se prestam, em sua inabilidade heróica, a
relatar artisticamente os grandes feitos alheios. Além disso, uma frase que
Isaac grita em meio a um pesadelo (“Ne dali konchit” = Não me deixaram terminar)
será repetida pelo narrador em toda sua trajetória de vida. É, de fato, um de
seus temas recorrentes.
Enfim, encontram-se no navio Madeira. É lá que se conhecem e estabelecem
amizade. É o melhor momento da vida do narrador. É também o momento em que se
cristaliza o caráter das duas personagens. Em um episódio, o maquinista, dotado
de certa misantropia, pendura Noel na boca de uma fornalha. O narrador mostra-se
desesperado e amedrontado. Seu amigo apresenta-se corajosamente impassível.
A chegada ao Brasil, primeiro em Recife, é que marca do início do desmanche
desse clima. Noel, varando a diferença de língua, já se enturma com os moleques
que estavam no cais. O narrador já sente que está sendo deixado para trás. Seu
amigo sempre se arroja a novas experiências. O narrador, ao contrário, é inerte.
A distância vai-se acirrar no momento em que a união dos dois prometia aumentar.
O pai de Noel, comerciante bem estabelecido no sertão de Alagoas, obedecendo à
solidariedade judaica, oferece trabalho ao pai do narrador. No entanto, este
sente pudor ao ver que no estabelecimento havia penicos pendurados à venda.
Estava acostumado a ver esse objeto sendo negociado da forma mais discreta
possível (é
interessante notar como essa dificuldade de se adaptar a novas realidades marca
a decadência da família do narrador em toda a história. É a ausência desse
obstáculo para a família Nutels que permitirá seu progresso. Em outros termos,
mais elementos para diferenciar as duas personagens).
Para desespero do narrador, separam-se definitivamente. Este se instala em São
Paulo, no bairro do Bom Retiro, iniciando uma vida de dificuldades, piorada
quando o pai, atropelado por um bonde, tem seu braço amputado. Humildemente
dedica-se a sustentar a família vendendo gravatas no Centro, até que vem a
falecer vitimado por um ataque cardíaco.
O narrador vê-se obrigado a sustentar a família. Larga, portanto, os estudos,
desistindo do sonho de se tornar doutor, transferindo-o para sua irmã, que
acabará formando-se psicóloga.
Mais uma vez, graças à solidariedade judaica, conseguirá emprego na lojinha A
Majestade, pertencente ao do imóvel em que moravam. Adapta-se muito bem à
estagnação dos negócios a ponto de, com a morte do proprietário, tornar-se
herdeiro.
Como não havia o que fazer, pois a inércia impedia inovações no estabelecimento,
o que afastava clientela, o narrador passa o seu tempo mergulhado na leitura, a
ponto de torcer para que não apareçam fregueses, ou, se aparecem, torcer para
que se vão logo e terminem a invasão aos seus devaneios.
Entupido de leitura e mergulhado num cotidiano enfadonho (casa – loja – casa),
enriquece sua imaginação, que já era fértil, e desenvolve um forte senso de
surrealismo. As histórias que imagina, em seu dia-a-dia insosso, são as mais
extraordinárias, ainda que tiradas de uma base por demais real (trata-se
de característica típica de Moacyr Scliar essa fronteira pálida entre real e
surreal).
Nesse contexto, casa-se com Paulina, passando a ter três mulheres em sua casa:
mãe, irmã e esposa. E é nesse ambiente estagnado que se geram conflitos de
relacionamento, principalmente com seu filho, Ezequiel, nascido pouco depois. As
lembranças e as notícias de Noel Nutels consolarão sua existência sufocante.
Chegam os anos 60. época de engajamento político. Época de revoluções. Época em
que Ezequiel mergulha na militância política de esquerda. Época em que, num
primeiro momento, o narrador aliena-se em suas leituras, o que provoca os
achaques da irmã e do filho.
O quadro reverte-se quando, em meio a uma reunião de Ezequiel e seus amigos, o
narrador menciona que conhece Noel Nutels, que já se havia tornado o doutor dos
índios e grande figura de admiração da esquerda.
Para manter o pique, embarca num sonho: escreve cartas para seu filho e amigos,
falsamente em nome de Noel. Descobre em si uma veia literária eficiente para
empolgar os militantes, ora animando-os, ora colocando-os nos eixos em meio a
tanta exaltação esquerdista que chegava a enxergar os índios como uma grande
massa bronzeada que, conscientizada, eliminaria a opressão capitalista. É uma
aventura perigosa, com o risco constante de a farsa ser descoberta e levar à
desmoralização e perda definitiva da confiança do filho (muito
tempo depois, quando se despede para viajar para a Europa, Ezequiel confessa que
já havia percebido a jogada do pai, mas que aquilo não tinha sido motivo para o
jovem se decepcionar. Muito pelo contrário).
A farsa de fato cai. Foi um dia em que uma militante amiga do narrador descobre
tudo. Ele implora para não ser desmascarado. Consegue a compreensão dela, mas em
troca deve mudar o tom das cartas, passando gradativamente do tom literário para
o doutrinário, tudo sob os ditados e determinações da engajada. O resultado é
fatídico: a cada nova carta, os ânimos arrefecem.
Até sobrar uma última missiva, de conteúdo perigoso, que acaba desaparecendo. O
narrador acha que deve tê-la perdido ou jogado fora. Não foi o que na verdade
aconteceu.
A carta havia sido roubada por Iracema, uma amante que o narrador arranjara.
Representante comercial de tecidos, no começo tinha servido para descarregar a
fúria sexual do narrador. Era o único momento em que pôde mostrar ação e
potência.
No entanto, ela era irmã de João Mortalha, um grileiro que se havia
transformado, no Xingu, no grande contraponto de Noel Nutels. O plano desse
malfeitor era se tornar proprietário das terras indígenas, chegando até a
comprar roupa usada infectada de varíola para dar aos índios. Sua intenção era
dizimá-los. Para seu azar o sanitarista acabara de chegar à região e vacinado os
índios.
O mais incrível é que em contato com a roupa contaminada, o próprio João
Mortalha contraiu varíola e Noel Nutels é quem teve de curá-lo. Ao perceber na
casa do grileiro o monte de vestes de todo tipo e lembrando que não havia foco
daquela doença na região, percebe as intenções malévolas do grileiro,
ameaçando-o e expulsando-o. Daí nasce a sede de vingança do vilão.
E, coincidência ou artificialismo
narrativo, conversando ao telefone com Iracema sobre essas dificuldades, ela se
lembra de ter lido o nome do sanitarista na tal carta de conteúdo explosivo.
Rouba-a e envia-a ao irmão, que a entrega ao temido Major Azevedo.
Este militar era uma figura importante entre os integrantes que participavam da
repressão ditatorial. Havia criado uma obsessão por Nutels por meio de uma
teoria extremamente maluca (mais uma vez, o traço surrealista do autor).
O aparelho repressor e fiscalizador do Exército havia colhido uma ampla
documentação sobre inscrições que apareciam nos banheiros públicos, declarando
que o ânus da esposa do Major era tão cheio de pêlos que causava muito medo. Uma
bobagem, mas, escrita em tantos mictórios, deixou o militar preocupado.
Um dia, tomou coragem e resolveu examinar a própria esposa. Estarrecido,
descobre que era verdade tudo o que andava sendo escrito. Mas quem havia visto?
Quem havia descoberto?
Em outra ocasião, recebe documentos de pessoas suspeitas e passíveis de
investigação mais detalhada. Esbarra na ficha de Noel Nutels – sempre metido com
comunistas – e descobre um de seus hobbies: colecionar frases de banheiro. O
Major desenvolve então uma teoria estranha: copiar frases era apenas um disfarce
– na realidade o que ele deveria estar fazendo era impingir aqueles comentários
imorais.
Determina-se, pois, a investigar, prender e usar todas as suas técnicas de
tortura no suposto criminoso, mas é barrado por seus superiores. Decepcionado,
faz todo o possível para conseguir transferência, calhando de obter uma justo
para o Xingu|. Planeja vigiar todos os movimentos do médico dos índios e
satisfazer sua sanha de vingança.
No entanto, seus planos são inutilizados, ou porque os serviços prestados por
Noel garantiram-lhe a proteção dos militares, ou porque tal abnegação adquire o
respeito do próprio Major Siqueira. O que se sabe, com certeza, é que, quando
este militar recebe a carta, rasga-a indignado, frustrando as intenções de João
Mortalha. Outra conseqüência é o final do tórrido relacionamento entre o
narrador e Iracema, apesar da paciente disposição dele em perdoá-la (talvez
influenciasse na separação a diminuição dos lotes de tecido comprados para A
Majestade).
O interessante é perceber na obra como elementos tão separados e tão diferentes
entre si acabam se interligando, formando um conjunto coeso. É uma
característica típica da obra a montagem dessas constantes, desses temas
recorrentes, que acabam comunicando-se, tornando-se uma coisa só, ou pelo menos
variações de um mesmo tema.
É o que se percebe, por exemplo, na relação entre judeus, russos e índios. Todos
pobres, precisando de amparo e solidariedade. A união fica mais nítida entre
russos e índios, que são igualados à mesma espécie. O narrador utiliza o
argumento que lembra que o indígena viera da Ásia, especificamente da região que
hoje pertence à Rússia, teria atravessado o Estreito de Bering e chegado à
América. Assim como os judeus Noel e o narrador saíram da Rússia e chegaram à
América do Sul, dessa vez pelo Atlântico, no navio Madeira.
Outra semelhança está nas figuras que cuidam do índio. Anchieta (que povoou a
imaginação da infância do narrador), os jesuítas e Noel Nutels reinam como
personagens do mesmo quilate. Somam-se a Luís Carlos Prestes, que se notabilizou
furando o Brasil em sua Coluna. São os desbravadores que cuidam dos grotões de
nosso país.
Identificação há também entre a figura do narrador e de Isaac Babel, já
mencionada acima.
Enfim, a história encaminha-se para o seu final com o desmanche do parco
território conseguido pelo narrador. Ezequiel forma-se em Ciências Sociais e vai
continuar seus estudos na França, por onde acaba constituindo família. Paulina
vai para Israel e acaba montando um novo relacionamento amoroso. A loja A
Majestade, que ele imaginara tomada por ectoplasma indígena, é vendida a um
coreano a um preço bom o suficiente para garantir uma velhice tranqüila ao nosso
contador.
Até que fica sabendo que Noel Nutels havia sido internado na UTI – câncer. É a
única vez que se encoraja a encontrá-lo (desde
a infância, sua vontade de restabelecer a amizade não passava das cartas que
imaginava escrever para o amigo e que reforçavam sua imaginação prodigiosa.
Nenhuma delas chegou a se concretizar).
Viaja para o Rio de Janeiro, mas o encontra sedado, pois o doente havia ficado
agitado com a visita anterior de três generais (Havia dito que estava parecido
como o Brasil: na merda e cercado de generais).
Entretanto, tudo não passou do abraço do narrador e seu pedido desesperado para
que não abandonasse seu amigo de infância, o seu irmãozinho. Porém, tal
emotividade cai no vácuo, já que quem deveria funcionar como ouvinte estava
inconsciente.
Não mais se cruzam. O sanitarista morre em 1973 e o narrador ainda se dedica nos
dez anos seguintes a montar um desejo fantasioso de assumir o papel do seu
ídolo, montando uma loja que, além de ser o paraíso do consumo, ajudaria na tão
sonhada emancipação do indígena. Seria “A Majestade do Xingu”, fusão do narrador
(que fora dono da loja A Majestade) e de Noel Nutels (que fora a grande figura
do Xingu).
Nota-se, no seu final, o tom humorístico, surrealista, delirantemente
imaginativo, marcado por uma melancolia saudosista da qual o próprio narrador
procura inutilmente fugir. Coerentemente é o mesmo clima de todo o romance.