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Hora e a Vez de Augusto Matraga -
João Guimarães Rosa
“A Hora e a Vez de Augusto
Matraga” é o nono e último conto de Sagarana, livro que em 1946
marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura (o
autor já vinha publicando seus textos na revista O Cruzeiro desde 1929.
Mas Sagarana foi sua primeira obra em livro).
Tal conto confirma a afirmação da crítica de que estava sendo inaugurado um
terceiro tipo de regionalismo (o
primeiro regionalismo deu-se durante o Romantismo, representado principalmente
por Bernardo Guimarães, Franklin Távora e Visconde de Taunay, além do próprio
José de Alencar. O segundo regionalismo ocorreu durante a Segunda Geração
Modernista (de 1930 a 1945), sendo representada principalmente por Graciliano
Ramos e José Lins do Rego).
No entanto, basta uma leitura atenta para se conseguir elementos que coloquem
nos eixos uma declaração um tanto exagerada.
É correto notar semelhanças na
fidelidade de descrição dos costumes sertanejos, como havia no Romantismo,
principalmente em Inocência, de Visconde de Taunay. No entanto, as
semelhanças param por aí.
Como elemento diferenciador, o
primeiro que pode ser lembrado é a elaboração da linguagem, que em muitos
momentos ganha ritmo e musicalidade que a aproximam da poesia. É uma delicada
prosa poética (note
a poeticidade resgatadora de elementos populares no trecho “Você tem perna de
manuel-fonseca, uma fina e outra seca!”. O conto está recheado de outros
exemplos do mesmo quilate).
Outro aspecto que afasta o conto
da tradicional prosa sertaneja é sua temática. Não se trata mais da idealização
do amor como era no Romantismo ou do espírito engajado e político como era no
Segundo Tempo Modernista. O que ocorre aqui é a utilização de uma fábula (entende-se
por fábula uma narrativa que encerra simbolicamente uma moral, uma mensagem, tal
qual as parábolas do Novo Testamento. E esse aspecto é até mencionado
pelo próprio narrador, quando, metalingüisticamente, avisa que sua narrativa não
é real, mas ficcional. Devemos, pois, entendê-la como uma representação)
com a intenção de trabalhar com temas universais de caráter metafísico (aqui
está uma diferença crucial entre o caráter universal de Graciliano Ramos (Vidas
Secas, São Bernardo) e o de Guimarães Rosa. O primeiro envereda-se
por questões político-sociais. O segundo preocupa-se com questões espirituais,
existenciais e místicas).
Esse caráter é nítido no presente
conto já a partir da referência constante a elementos religiosos. Seu
protagonista, Augusto (o
nome da personagem à primeira vista se opõe ao seu caráter tosco. No entanto,
até o final da narrativa será estabelecida uma perfeita coerência com a
personalidade que irá adquirindo)
Esteves, o Augusto Matraga, fora criado por uma avó, que o queria padre. No
entanto, pai frouxo e tio criminoso, entortou para o mal, pois estava fora do
prumo, tornara-se desregrado. Além disso, a narrativa inicia-se em meio a um
festejo santo, em que, num leilão, o protagonista arrebata por 50.000 réis uma
prostituta, desagradando um capiau (sertanejo
bastante primitivo, atrasado, rude)
que estava interessado nela. Nem chega a usá-la, alegando que era muito feia.
Matraga de fato era pessoa rude, não civilizada (talvez
por isso haja a menção constante a poeira e pó na primeira parte do conto).
Além de bandido e violento, trata com pouco caso sua esposa, Dionóra, e sua
filha, Mimita. Só quer jogo, caçada e mulheres de vida fácil.
No entanto, a sorte muda. Sua esposa o larga, passando a viver, com a filha, em
companhia de um homem chamado Ovídio (haverá
aqui uma idéia de que este sabia amar? Deve-se lembrar que Ovídio era um autor
da Antigüidade Clássica de um livro sobre a arte de amar).
Matraga não pôde vingar a ofensa, pois recebe a notícia de que seus capangas,
com exceção de Quim Recadeiro, o abandonaram, passando para o lado do Major
Consilva.
Augusto vai tomar satisfações pela afronta, sem se tocar de que o destino
virou-se contra ele: não tem apoio político, está cheio de dívidas, suas terras
estão hipotecadas. Como o próprio narrador comenta, não havia se tocado de que
era momento de parar umas rodadas, deixar de jogar, pois o azar havia chegado. É
um comentário que leva a crédito coisas de destino, o que justifica por que o
protagonista insistiu em suas ações.
Seus feitos mostraram-se infrutíferos. Ao chegar à fazenda do Major, é cercado
pelos capangas do vilão, alguns ex-subordinados de Matraga. Numa narrativa
emocionante e bem contada, vemos que é espancado (um
dos que participam do linchamento é o mesmo capiau que havia perdido a
prostituta para Augusto. Parece haver a velha idéia do “aqui se faz, aqui se
paga”, arrastando a narrativa tanto para os elementos populares como para os
místicos), marcado
por ferro em brasa e, antes de sofrer o pior, atira-se de um altíssimo barranco.
Para seus inimigos, estava morto.
Há nesse ponto simbologias interessantes. A primeira está ligada à idéia de
mergulho no abismo. O estilo de vida de Augusto é metaforicamente um mergulho
para o lado mais baixo do ser humano, ao qual no fundo o protagonista não estava
destinado, conforme se pode ver pelo seu próprio nome.
Outra simbologia, que faz lembrar a Bíblia, está no fato de os inimigos
convencerem-se de que Matraga havia morrido porque os urubus estavam rondando o
local de sua queda, já que lá havia, na verdade, morrido um bezerro. Pode-se
aproximar Augusto ao animal, na medida em que este faz lembrar a seita primitiva
e desregrada condenada por Moisés, em nome de um novo Deus. Era o mesmo que o
protagonista estava fazendo. Aliás, ter sido descoberto no fundo do abismo por
um casal de pretos velhinhos indica a ressurreição, outro elemento bíblico.
Augusto morria para nascer de novo.
Como já se disse, a personagem principal é resgatada e cuidada. Dias
inconsciente. Voltando a si, e conhecendo sua situação, deseja a morte. Uma
pergunta, nesse ponto, sai da narrativa e chega ao leitor: com tanta desgraça,
por que Augusto Matraga não havia morrido?
Com o tempo, o protagonista reconquista a paixão pela vida.
Os meses que passa recuperando-se
das feridas e fraturas (uma delas exposta) equivalem a um período de incubação
para o nascimento de um novo homem, o que se torna nítido com o arrependimento
de seus pecados, a absolvição e o fervor com que abraça ao cristianismo. No seu
jeito tosco, fica até cômica a convicção em afirmar que vai para o Céu, nem que
seja a porrete.
Começa sua fase de penitências. Vai com os velhinhos a uma propriedade sua
perdida e distante. Mostra-se trabalhador, misto de louco e santo no olhar do
povo. Seis anos e meio vive assim.
Um dia, sofre uma dura tentação. Um antigo conhecido passa por lá e
surpreende-se ao descobrir Matraga, ainda mais, mudado. Traz notícias por demais
inconvenientes. Dionóra estava para se casar com Ovídio, crente de que estava
viúva. Major Consilva apoderou-se das terras do protagonista. Quim, frouxo e
atrapalhado, havia sido o único a se levantar em defesa do patrão, mas fora
morto no momento em que, tomado de fúria, entrara nas terras do Major com a
intenção de vingança. Mimita, sua filha, havia-se tornado prostituta.
É um momento cruel para Augusto. Deus o havia abandonado? Merecia mesmo o Céu?
Mas, como o bíblico Jó, resiste bravamente à tentação de buscar vingança. Não
percebe: já estava salvo.
Prova disso é que vem o período de chuvas, que, não por coincidência, é o
momento em que Matraga acaba por sentir-se mais leve, aliviado, como se tivesse
se livrado de um grande fardo. As águas, opondo-se ao pó de outras épocas,
simbolizam o batismo, a sublimação, a elevação.
Por esse momento surge o bando de Joãozinho Bem-Bem, homem da mesma estirpe do
antigo Augusto Matraga. Suas intenções provavelmente eram malévolas naquela
região, mas o amor e a dedicação com que o protagonista o recebe o desarma.
O bandido intui o poder bélico de Matraga, por isso o convida a fazer parte da
horda. É uma forte tentação: o herói sente saudade do poder de desmando que
possuía. Imagina até a possibilidade de vingar a morte de Quim. Mas resistiu a
mais essa tentação. Estava evoluindo a passos largos.
Joãozinho Bem-Bem parte, deixando Matraga, mas levando uma afeição enorme pelo
protagonista.
Dias depois, enquanto Augusto trabalhava, presencia uma belíssima explosão de
pássaros voando (os
pássaros são vistos como psicopompos, ou seja, entidades que têm contato com o
outro mundo. Assim, podem ser vistos como uma ponte com o tão desejado Céu, ou
pelo menos mensageiros divinos. Indicam, pois, que a salvação está próxima de se
concretizar). Intui
algo maravilhoso, que o faz ficar matutando o dia inteiro. Até que toma uma
resolução: decide partir. O interessante é que faz sua viagem em um jumento,
animal carregado de simbologia cristã, pois havia carregado Maria às vésperas do
nascimento de Cristo. Carregara, pois, o salvador. A aproximação Messias/Augusto
não parece forçada.
Matraga viaja muitos dias, até chegar ao arraial do Rala-Coco, que estava em
polvorosa. O bando de Joãozinho Bem-Bem lá estava, prestes a realizar um crime
hediondo.
Um dos capangas do facínora o havia abandonado, ação que fora considerada
traição. Joãozinho resolve se vingar em cima da família deste, querendo
assassiná-la. No momento em que Augusto havia chegado, o pai do fugitivo tinha
aparecido e pedido clemência pela vida de inocentes. A fúria do criminoso
parecia não ter limite, pois já estava prestes a se derramar sobre o idoso.
É nesse instante que Augusto Matraga intercede. Mesmo havendo um enorme apreço
entre Joãozinho e o herói, os dois começam a se desentender. O bandido está
tomado de um maligno espírito vingativo. O protagonista está defendendo a
bondade divina, sempre pedindo para seu opositor evitar uma tragédia injusta,
sempre clamando pelo nome de Deus.
O inevitável acontece. Há uma terrível luta, muito bem narrada. Tiros de todos
os lados. Os dois saem feridos, mas Matraga, sempre invocando o nome do Senhor e
pedindo para seu amigo se arrepender dos pecados, acaba vencendo, rasgando a
barriga de Joãozinho, que morre segurando nas mãos suas entranhas.
Augusto Matraga estava morrendo, mas contente. Aclamado como santo e salvador
entre o povo que tenta socorrê-lo, ainda tem tempo para fazer com que
respeitassem o cadáver de Joãozinho Bem-Bem, mandando que o enterrassem
dignamente. Ainda teve tempo, além disso, de “abençoar” sua filha perdida.
Morre, porque havia chegado a sua hora e a sua vez. Morre, porque finalmente
havia realizado sua missão. Morre, porque havia cumprido os planos de um
misterioso desígnio divino. Estava salvo. Ia para o Céu.