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A Farsa de Inês
Pereira -
Gil Vicente
"Mais vale asno que me leve que cavalo que me
derrube"
A Farsa de Inês Pereira é considerada a mais complexa
peça de Gil Vicente. Ao apresentá-la, o teatrólogo português diz: "A seguinte
farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do
nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, na era do Senhor 1523.
O seu argumento é que,
porquanto duvidavam certos homens de bom saber, se o Autor fazia de si mesmo estas obras,
ou se as furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: é um exemplo
comum que dizem:
Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube.
E sobre este motivo se fez esta farsa."
A Farsa de Inês Pereira
(1523) disputa com o Auto da Barca do Inferno (1517) o posto de melhor
obra de Gil Vicente. Exageradamente considerada por uma questão da FUVEST como
libelo feminista, na realidade essa peça coloca em foco a condição feminina
com aspectos que ainda são, de certa forma, atuais.
Inês Pereira é uma moça que sofre a pressão constante do casamento, o que já se
percebe na primeira conversa que estabelece com sua mãe e Lianor Vaz.
Essas duas
têm uma visão mais prática do matrimônio (entenda-se: o que importa é que o
marido cumpra suas obrigações financeiras), enquanto a protagonista está apenas
preocupada com o lado prazeroso, cortesão: quer que seu marido saiba aproveitar
a vida. Nota-se aqui uma problemática típica do Humanismo, que revela um
conflito de duas visões de mundo: o medieval, tradicional contra o moderno.
O primeiro candidato, apresentado por Lianor Vaz, é Pero Marques, camponês de
posses (atendendo às expectativas da mãe), mas extremamente simplório
(frustrando Inês). Por causa de sua atuação pândega, é descartado pela moça.
O segundo,
apresentado por dois divertidíssimos judeus casamenteiros (Latão e Vidal), é
Brás da Mata. Mostra-se exatamente do jeito que Inês esperava, apesar das
desconfianças de sua mãe.
No entanto, consumado o casamento, seu marido mostra sua verdadeira face de
autoritário, proibindo Inês de tudo, até de ir à janela. Vira o famoso “marido
dragão”, na linguagem de Memórias de um Sargento de Milícias. Encarcerada
em sua própria casa, a heroína encontra sua desgraça. Ainda assim, essa
desventura dura pouco, pois recebe a notícia, por meio de uma carta, da morte
(numa forma não muito honrosa) de seu marido.
Viúva e mais experiente, aceita casar-se com Pero Marques. Note que Inês não
aceitou os ditames da sociedade, apenas adaptou sua visão de mundo para,
discretamente, não se chocar frontalmente com a Moral. Tanto que, após a notícia
da sua viuvez, finge estar triste. Além disso, diante do marido marca um
encontro com um ermitão, que tinha sido um antigo apaixonado seu.
Todos esses elementos parecem sustentar uma tese bastante inusitada de Gil
Vicente, que fica reforçada no final, quando Inês monta em seu marido e,
humilhando-o, lembra o tema que serviu de mote à obra: "mais quero asno que me
carregue do que cavalo que me derrube". A idéia parece ser a defesa de que
realmente a mulher tem como futuro o casamento, mas que não deve se iludir
buscando um príncipe encantado.
É muito melhor um tolo que cumpra as funções de
marido, sustentando-a ("asno que me carregue"), do que um príncipe maravilhoso
que não a trate bem ("cavalo que me derrube"). É interessante também notar que o
aspecto prazeroso acaba sendo dissociado do casamento, já que Inês o satisfará
encontrando-se com outro homem. Em resumo, enxerga-se que a condição feminina é
pesada, mas há como se sair bem nela, sabendo usar um determinado jogo de
cintura.
Além de todos esses aspectos, que estão no campo temático, a obra chama também a
atenção por seu lado formal. A peça está inteiramente em redondilha maior e com
esquema de rimas em ABBACCDDC. Ademais, há uma colagem de textos (cantigas,
cartas e até ditados populares) compondo uma amálgama, uma colcha de retalhos
que constitui um retrato vivo e fiel da riqueza da Língua Portuguesa de sua
época.
Essa maestria no trabalho com a linguagem também é ressaltada pelo
emprego de trechos em espanhol (fala do ermitão), sem mencionar a famosa
capacidade que Gil Vicente tem de usar para cada personagem o falar próprio de
sua classe social.
O que mais espanta é que essa rica elaboração não é percebida à primeira
leitura, pois Gil Vicente faz um texto tão leve que flui naturalmente, a ponto
de nem percebermos que é literatura, no sentido mais pejorativo, ou seja, de
sofisticação que dificulta a compreensão.
Todos esses elementos, portanto, são suficientes para colocar A Farsa de Inês
Pereira como um dos melhores textos literários em Língua Portuguesa.