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A
Casa da Madrinha -
Lygia Bojunga Nunes
Publicado em 1978, e desde então
muito bem premiada, A Casa da Madrinha é uma sofisticada obra de Lygia
Bojunga Nunes, escritora herdeira do legado de Monteiro Lobato na Literatura
Infantil e Juvenil. No entanto, é muito mais lírica, simbólica e discreta na
apresentação de temas fortes e polêmicos do que o autor do
Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Seu olhar respeita o universo adolescente, seu primeiro público-alvo. Não mente,
muito menos se acomoda à realidade dos fatos. Com tom entre melancólico,
sonhador e crítico, descortina-nos a complexidade de adolescer. E como essa é
uma fase de busca de afirmação e de luta por uma vida melhor, há um tempero de
anos 70, de geração hippie, de combate ao autoritarismo, de busca por uma vida
alternativa, todos provavelmente bastante efervescentes na época de estréia da
obra.
O livro, narrado em 3ª pessoa, coloca-se interessantemente, portanto, entre o social e o pessoal. E
bastante lógico, pois o primeiro elemento pressiona monstruosamente o segundo.
Torna-se nítida a idéia de que as condições do meio destroem ou desrespeitam a
individualidade. Mas belo é o esforço, a luta para que o indivíduo aja sobre o
seu ambiente, em nome de sua melhoria. E tudo com a defesa da idéia de que viver
de fato é uma tarefa simples, se despida das imposições sociais.
Outro tema forte, que parece tocar profundamente um público em fase de
transição, é a idéia das perdas. Esse aspecto torna o livro melancólico, até
doloroso. Como uma terapia bem sucedida. Praticamente todas as personagens
experimentam esse problema, sofrem, mas mantêm acesa uma chama de procura por um
bem desaparecido. Parece ser essa, no fundo, a condição humana: a de eterna e
insatisfeita busca.
A ilustrar essa qualidade temos o protagonista, Alexandre, menino pobre de
favela que vende sorvete nas praias do Rio de Janeiro. Possuía uma vida dura,
mas que tinha compensações, como na escola.
Era nessa instituição que entrava em contato com uma professora no seu sentido
mais sagrado, pois, com sua maleta cheia de surpresas, dava aulas com um
conteúdo mais lúdico e rente ao universo psicológico e prático de seus alunos.
Como conseqüência, despertava nos alunos o prazer de aprender, ferramenta
essencial para a libertação das massacrantes condições de pobreza.
Infelizmente, não havia espaço, dentro de uma instituição tão tradicional (um
dos temas mais comuns da autora é o ataque ao anacronismo da escola, que não
forma, mas deforma, com o intuito de colocar o homem na sociedade. Isso ficará
mais claro quando se comentar a educação recebida pelo Pavão),
para tão avançada metodologia, por isso o potencial da mestra é castrado. É um
bonito momento em que, em meio à chuva (a
chuva como metáfora da chuva em momentos tristes é um clichê dos mais
escabrosos. Mas a mão da autora sabe preservar dignidade para a imagem),
a professora e Alexandre (os outros alunos faltaram) vêem-se pela última vez. A
pedagoga, triste, relata que sua bola havia desaparecido (é
importante notar a dramaticidade do texto. A autora sustenta sua narrativa em
diálogos tão ricos que um leitor atento é plenamente capaz de inferir e
interpretar o que se passa. O que a professora comunica, na cena em questão, é
que a mala havia sumido. Pode-se interpretar, entretanto, que houve um processo
de censura).
Outra queda também ocorre para o garoto. Como seu irmão Augusto precisava partir
para trabalhar em São Paulo, Alexandre tinha que se esforçar mais para
contribuir com as despesas de casa. É o que o obriga a largar a escola. As
condições sociais acabavam por castrá-lo mais ainda.
Pouco antes da partida, seu irmão conta-lhe uma linda história para dormir. É
sobre a casa da madrinha, lugar mágico em que todos os desejos são saciados.
Havia um armário que serve comida de todo tipo, além de um guarda-roupa cheio de
roupas de todo tipo, todas separadas e organizadas. Existia também uma cadeira
temperamental que só aceitava ser usada se a tratassem bem, sem falar num porão
que Augusto não teve coragem de conhecer. A porta de entrada do domicílio era
azul, com uma flor em seu peito, na qual estava guardada a chave de entrada (mais
uma vez o olhar atento e crítico sobre os diálogos é importante para a
interpretação da obra. Fica nítido, da maneira como Augusto chega a se
contradizer e a apresentar elementos inverossímeis, que a casa da madrinha é
provavelmente uma história inventada para que Alexandre dormisse. Lembre-se de
que ele ao garoto que a residência ficava no interior do país, mas tinha vista
para o mar).
Há inúmeras simbologias aqui, mas a mais importante está ligada à idéia de lar,
de aconchego, de suplência de desejos, de Paraíso, principalmente quando se tem
em mente que madrinha, além de ser uma personagem ligada à imagem das fadas dos
contos de fada, é também a responsável muito mais protetora e agradável que
nossos pais, principalmente por ser, geralmente, mais rica e atenciosa.
Os dois irmãos combinam de ir para o local mágico no verão, quando Augusto
voltaria de São Paulo. Enquanto isso, os tempos ficam piores para Alexandre.
Fica mais difícil trabalhar e conseguir dinheiro. Mas mantém as esperanças
focadas na casa da madrinha.
O verão chega e Augusto não aparece. Ainda assim, Alexandre surpreendentemente
não se entrega a lágrimas. Toma uma decisão corajosa: parte em busca da casa da
madrinha, ainda que não saiba exatamente o caminho. Realiza o sagrado tema da
busca, da demanda. Eis o símbolo mais bonito do viver.
É no caminho que encontra o Pavão, personagem de simbologia enigmática.
Provavelmente simbolize o esplendor de nossa individualidade. No entanto, ou
talvez por isso, acabe constantemente usado, explorado e desrespeitado. A
começar pelos seus cinco donos iniciais, que surgem do nada e querem lucrar
sobre sua beleza rara. Colocam-no na escola Osarta (“atraso”,
ao contrário) de
Pensamento. Lá havia três cursos que iriam educar a ave para a sociedade. Em
outras palavras, iriam castrar seu potencial.
O primeiro curso era o Papo. Trata-se de uma crítica às aulas expositivas,
monologais, unidirecionais, que em nada contribuíam para o desenvolvimento dos
alunos. No entanto, o Pavão escapa dos malefícios desse curso usando um esquema
para não ouvir as enfadonhas explanações.
Como não funcionava o primeiro esquema, foi transferido para um segundo curso, o
Linha. Nele os pensamentos iam ser costurados para que se adaptassem ao padrão
que era acostumado. Ainda assim, o Pavão conseguiu uma maneira de exercitar o
cérebro e assim impedir que seu cérebro fosse costurado. Sempre que tentavam
pregar linha, seu esforço mental a arrebentava.
É transferido, portanto, para o curso Filtro, que realizou um estrago terrível.
Em sua cabeça é enfiado um filtro, que controla a saída de pensamentos da ave.
Mas a torneira pifou, por isso havia momentos em que, fechada, segurava o
pensamento do Pavão, fazendo-o repetir as frases de quem conversa com ele e
obedecer piamente todo e qualquer tipo de ordem. No entanto, havia instantes em
que ela abria. Então voltava a ser a ave de outrora, de olhar vivo, determinado.
Mas estes últimos eram momentos raros.
“Lobotomizado”, acaba escapando dos seus donos num momento em que a torneira
havia aberto. É quando encontra um marinheiro, João das Mil e uma Namoradas.
Convida-o para viajar em seu navio. A ave aceita, mas percebe que foi
ludibriada, primeiro porque iria ter de viajar escondida, embaixo da cama do
homem. Segundo, porque iria ter de dar penas para que o galanteador adulasse
suas namoradas. Protesta, mas, como de repente a torneira havia fechado, é
derrotado.
Iniciam-se tempos de penúria. A cada porto o marinheiro tinha uma namorada. A
cada porto, uma pena a menos. Preso, explorado, perde a vontade de viver. No
final, depenado, acaba abandonado num porto.
Conhece então um veterinário, que cuida dele até que se torna novamente dotado
de uma beleza vultosa e rara. Vende-o para um zoológico. Mais uma vez, a
exploração.
Acaba sendo roubado pelo vigia do zoológico. Queria usar a ave como destaque de
escola de samba e garantir um lugar na bateria, sua grande paixão, mas que a
idade avançada estava impossibilitando. Mais sofrimento, pois o vigia e seus
vizinhos, pobres, não têm como alimentá-lo direito. Além disso, fica preso na
solidão do barracão, tendo apenas as velhas fantasias do senhor como companhia.
Um dia, a velhice fala muito mais alto. O Pavão já não é mais garantia de lugar
na bateria. Dispensado, pensa em devolver a ave, mas acaba, atendendo a um
anúncio de jornal, vendendo a ave para uma casa grã-fina. Servirá de enfeite
para o jardim da família tão preocupada com ostentação.
Mais tempo de solidão. Mas é quando conhece a Gata da Capa (usava esse traje
para disfarçar que era vira-lata e diminuir as chances de ser enxotada). Morava
no porão da mansão, lugar em que acabavam esquecidos os objetos antigos dos
grã-finos, mas que garantia enorme felicidade à felina, principalmente o pequeno
feixe de luz de sol que a janelinha de ventilação do cômodo permitia (é
incrível a simplicidade das personagens encontrarem felicidade em coisas tão
simples).
Apaixonam-se.
No entanto, o terreno da mansão é vendido. O Pavão é engaiolado, mas ainda
consegue ver as máquinas colocando a casa abaixo. Sofre ao imaginar a
possibilidade de que a casa tinha sido demolida sem que a gata tivesse chance de
escapar.
Consegue safar-se da gaiola. E começa sua andança em busca da Gata de Capa. É
quando se encontra com Alexandre. Juntos, conseguem se virar com apresentações
artísticas entre o povo, conseguindo trocados.
É num desses shows ao ar livre que conhecem Vera. À primeira vista, não é uma
personagem sofredora como as outras duas, pois tem família bem estabelecida,
dona de propriedades, freqüenta escola. Mas sua vida regrada, com uma mãe
obcecada por relógio, acaba por qualificá-la como uma coitada adaptada ao
stablishment.
Seduzida por Alexandre – muitas vezes admiramos quem na realidade tem um ideal
de vida bem diferente do nosso –, Vera consegue manter o menino no sítio da
família dela. Ouve as histórias do garoto, enquanto lhe dá comida.
Mas é uma situação que foge aos padrões, mesmo o menino dormindo na casa de
ferramentas. Um dia, é forçada a dispensá-lo, pressionada pelos pais. A alegação
era a de que ele era um à toa. Ofendido, alega que não era um garoto largado,
pois tinha um rumo: ia para a casa da madrinha. Premida pela raiva, joga na cara
que toda aquela história era uma invenção do Augusto.
A reação de Alexandre é quase fulminante, sendo controlada quando tem noção de
que aquilo não era opinião dela, mas dos pais da menina, adultos. Ficaria
preocupado se a amiga encampasse essa tese (fica
caracterizada a idéia de que nós adultos perdemos a capacidade de aceitar,
entender e embarcar na felicidade de certas fantasias).
Decide, talvez inspirado pelas condições daquela situação limite de despedida,
apelar para sua fantasia. Com a ajuda de sua amiga, inventam um cavalo, o Ah!,
no qual galopam (há
belíssimas simbologias aqui. Em primeiro lugar, a idéia da fantasia como forma
de encarar e superar a realidade. Além disso, o fato de ser uma imaginação a
dois, além do próprio nome do cavalo, sugere que haja aqui uma iniciação sexual,
ou pelo menos iniciação sensual).
Saltam a temida cerca e mergulham na escuridão. Vencem o medo dela por meio do
desenho que se dedicam a fazer com um pedaço de giz, dando a entender que a
arte, a criatividade é alavanca que elimina obstáculos.
Descobrem, ao sair da escuridão, o caminho para a casa da madrinha. É a
saciedade de todos os desejos. Lá está a maleta desaparecida da professora. Lá
também está a Gata de Capa. E chega o tão amado irmão Augusto. É o clímax da
felicidade (o
melancólico é que é realizada no plano da fantasia, ou da introjeção de
sentimentos. Talvez o aspecto positivo esteja no fato de essa introspecção
servir de combustível para os desafios árduos de nossa existência).
Exploram a casa e também os seus arredores. A alegria de viver a infância é
recuperada.
No entanto, enquanto todos dormiam de cansaço, Vera, de mentalidade já
cristalizada (aproveitamos
a expressão de Monteiro Lobato, que dizia que a vantagem da criança é que ainda
não estava com a mente cristalizada por idéias pré-concebidas como os adultos, o
que as permitia pensarem, agirem, viverem melhor. Mas, como se perceberá, em
Vera o sistema educacional funcionou perfeitamente. Não consegue por muito tempo
desapegar-se de suas obrigações. Já está corrompida por seu meio),
assusta-se, pois já deviam ter passado ali muito tempo. Mas o relógio da sala
não dá a hora correta e o relógio de pulso da garota havia parado (a
ausência do tempo torna mais mítico e mágico o espaço em que estão).
Preocupada com as tarefas escolares e com a reação dos pais, resolve partir na
surdina, pois não quer que os outros se privem de tamanha felicidade. Mas o
escândalo de uma janela rancorosa acorda todos. Resolvem partir com ela, o que a
deixa um tanto frustrada.
Pulam novamente a cerca, mas já não há mais Ah!, muito menos Augusto. No plano
da realidade, tudo é mais árido, frio. Não há mais espaço para os dois. Vera
crescerá enriquecida por aquela experiência. Que espécie de adulto será?
Alexandre e seu Pavão seguem seu caminho de volta para a residência mágica.
Nota-se, pois, que A Casa da Madrinha é uma obra que não imbeciliza o seu
leitor, tornando-o passivo, já que força sua intensa participação na
interpretação e na busca de elementos que se reflitam em sua própria existência,
tudo numa linguagem deliciosamente coloquial, autêntica, ágil e vazada de
aspectos psicológicos. Todos esses itens, além da narrativa não-linear, tornam a
obra um biscoito fino (parodiando Oswald de Andrade) que não só se põe acima da
média Literatura Infantil e Juvenil, mas que acaba por valorizá-la.