Tutaméia de João Guimarães Rosa I

Tutaméia de João Guimarães Rosa I

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Prefácios:

– Aletria e hermenêutica
– Hipotrélico
– Nós, os temulentos
– Sobre a escova e a dúvida

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Os contos:
– Antiperipléia
– Arroio-das-Antas
– A vela ao diabo
– Azo de almirante
– Barra da Vaca
– Como ataca a sucuri
– Curtamão
– Desenredo
– Droenha
– Esses Lopes
– Estôria nº 3
– Estoriinha
– Faraó e a água do rio
– Hiato
– Intruge-se
– João Porém, o criador de perus
– Gedeão
– Reminisção
– Lá, nas campinas
– Mechéu
– Meloso
– No prosseguir
– O outro ou o outro
– Orientação
– Os três homens e o boi
– Palhaço da boca verde
– Presepe
– Quadrinho de estória
– Rebimba, o bom
– Retrato de cavalo
– Ripuária
– Se eu seria personagem
– Sinhá Secada
– Sota e barla
– Tapiiraiauara
– ….
– —Uai, eu?
– Umas formas …
– Vida ensinada…
– Zingaresca
– Geração de 45

Tutaméia de João Guimarães Rosa I

Após a Fase de Consolidação, 1930 a 1945, reunindo a literatura de caráter regionalista, surge uma nova geração de escritores brasileiros, aquela que seria chamada de Universalista, a Geração de 1945. Trouxe para a ficção nacional um caráter experimental, usando recursos lúdicos para aprimorar o romance brasileiro.

Podemos notar nesta nova geração algumas tendências básicas: a permanência do testemunho humano; a atração pelo transreal, numa tentativa de justificar a condição humana por sua projeção no mundo mítico da arte; e a redescoberta da linguagem, como um elemento de comunicação e gerador da realidade.

Nesta fase universalista surgem dais autores importantíssimos na Literatura Brasileira: Guimarães Rosa e Clarice Lispector, também chamados de autores instrumentalistas por tomarem a palavra como um instrumento do trabalho poético e não apenas como um veículo condutor de ideias. Nesse aspecto, notamos que toda a confecção das personagens e a trama em que se envolvem instalam poeticamente na linguagem que utilizam.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Vida: João Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, onde viveu sua influência e fez os seus primeiros estudos, tomando contato com sua futura paixão: a língua.

Seus pais, Floduardo Pinto Rosa, pequeno comerciante, e sua mãe, Francisca Guimarães tiveram mais cinco filhos.

Apesar dos irmãos, Guimarães Rosa passou uma infância solitária, vivendo nesta região de Minas Gerais, marcada palas fazendas e engorda de gado. Dessa época, certa vez, confessou: Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então.
Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas.

A partir de 1918, passa a residir em Belo Horizonte e além de seu interesse por línguas, passa a estudar com afinco as ciências naturais e a geografia. Ao terminar seus estudos secundários, Guimarães Rosa começa a estudar Medicina, enquanto mantém seu interesse pela literatura, chegando a publicar vários contos na revista O Cruzeiro.

Em 1830, formado em Medicina, foi exercer a profissão em Itagurara, município de Itaúna, permanecendo ali por dois anos e revelando-se um médico dedicado, respeitado e famoso pela precisão de seus diagnósticos. Costumava fazer longas viagens a cavalo, nas quais aproveitava para conviver com pessoas e paisagens que mais tarde iriam povoar seus livros.

Em 1932, ano de Revolução Constitucionalista, Guimarães Rosa voltou a Belo Horizonte e serviu como médico voluntário da Força Pública, onde ingressou mais tarde através de um concurso. Dois anos depois, levado pelo grande interesse por línguas, prestou um concurso no Itamarati e em 1938, foi nomeado cônsul-adjunto.

A partir de então, Guimarães Rosa traça uma carreira diplomática, servindo o Brasil em vários países e vivendo; em Paris até 1950, atuando como primeiro-secretário e conselheiro da Embaixada brasileira. Em 1951, volta ao Brasil.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I: Em 1952, faz uma viagem pelo sertão de Minas Gerais com um grupo de vaqueiros. A viagem durou dez dias e dela participou Manuel Narde, vulgo Manuelzão, protagonista de “Uma história de amor”, incluída no volume, Manuelzão e Miguilim.

Sua vida diplomática continua paralelamente à sua produção literária, cada vez mais elaborada e intensa. Em 1963, é eleito para a Academia Brasileira de Letras, porém retardou a sua posse por quatro anos. Quando assumiu, em 1967, faleceu após três dias, de enfarte.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Obras:
– Contos
– Sagarana (1946)
– Primeiras Estórias (1962)
– Tutaméia: terceiras estórias (1967)
– Estas Estórias (1969)

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Novelas:
– Corpo de Baile (1956)
– Manuelzão e Miguilim
– No Urubuquaquá, no Pinhém
– Noites do Sertão

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Romance: Grande Sertão: Veredas (1956)

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Diversos:
– Com o Vaqueiro Mariano (1952)
– O Mistério dos M M M (1962)
– Ave, Palavra (1970)

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Comentários críticos: Guimarães Rosa foi um escritor dedicado especialmente às narrativas que têm como objetivo essencial o homem. Esse homem, inicialmente ligado ao sertão, extrapola os limites do regional e universaliza-se, destruindo a mera documentação dos valores locais e do pitoresco da paisagem. Suas questões humanas universais: o amor, o ódio, a traição, a vingança, o ciúme se inserem dentro das personagens sertanejas e se fundem num drama atemporal.

Sua linguagem é extremamente rica em neologismos, retirados da convivência do povo com a língua. Por outro lado, sua experiência linguística reúne inovações de todas as espécies, retiradas de outras línguas refundidas na fala coloquial e cotidiana de suas personagens. Guimarães Rosa coloca o homem como um eterno criador em contato com a realidade mágica da vida. Suas aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim.

Certa vez, Guimarães Rosa disse: “Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um ‘magister’ da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar de sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundas como e alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens. Amo ainda uma coisa dos nossos grandes rios: sua eternidade”.

(In apostilas do Curso Interativo – Bauru-SP)

 

Tutaméia de João Guimarães Rosa I
Paulo Ronai

Tutaméia de João Guimarães Rosa I: Toda pessoa, sem dúvida, é um exemplar único, um acontecimento que não se repete. Mas poucas pessoas, talvez nenhuma, lembravam essa verdade com tamanha força como João Guimarães Rosa. Os testemunhos publicados depois de sua morte repentina refletiam, todos, como que um sentimento de desorientação, de pânico ante o irreparável. Desejaria ter-lhes acrescentado o meu depoimento, e no entanto senti-me inibido de fazê-lo. Não estava preparado para sobreviver a Guimarães Rosa: preciso de tempo para me compenetrar dos encargos dessa sobrevivência.

Aqui está, porém, o último livro do escritor, Tutaméia, publicado poucos meses antes da sua morte, a exigir leitura e reflexão. Por mais que o procure encarar como mero texto literário, desligado de contingências pessoais, apresenta-se com agressiva vitalidade, evocando inflexões de voz, jeitos e maneiras de ser do homem e amigo. A leitura de qualquer página sua é um conjuro.

Como entender o título do livro? No Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa encontramos tuta-e-meia definida por mestre Aurélio como “ninharia, quase nada, preço vil, pouco dinheiro”. Numa glosa da coletânea o próprio contista confirma a identidade dos dois termos, juntando-lhes outros equivalentes pitorescos, tais como “nonada, baga, ninha, inânias, ossos de borboleta, quiquiriqui, mexinflório, chorumela, nica”.

Atribuiria ele realmente tão pouco valor ao volume fórmula como antífrase carinhosa e, talvez, até supersticiosa? Inclino-me para esta última suposição. Em conversa comigo (numa daquelas conversas esfuziantes, estonteantes, enriquecedoras e provocadoras que tanta falta me hão de fazer pela vida afora), deixando de lado o recato da despretensão, ele me segredou que dava a maior importância a este livro, surgido em seu espírito como um todo perfeito não obstante o que os contos necessariamente tivessem de fragmentário. Entre estes havia inter-relações as mais substanciais, as palavras todas eram medidas e pesadas, postas no seu exato lugar, não se podendo suprimir ou alterar mais de duas ou três em todo o livro sem desequilibrar o conjunto.

A essa confissão verbal acresce outra, impressa no fim da lista dos equivalentes do título, como mais uma equação: “meaomnia'”. Essa etimologia, tão sugestiva quanto inexata, faz tutaméia vocábulo mágico tipicamente rosiano, confirmando a asserção de que o ficcionista pôs no livro muito, senão tudo, de si. Mas também em nenhum outro livro seu cerceia o humor a esse ponto as efusões, ficando a ironia em permanente alerta para policiar a emoção.

– Por que Terceiras estórias – perguntei-lhe – se não houve as segundas?
– Uns dizem: porque escritas depois de um grupo de outras não incluídas em Primeiras estórias. Outros dizem: porque o autor, supersticioso, quis criar para si a obrigação e a possibilidade de publicar mais um volume de contos, que seriam então as Segundas estórias.

– E que diz o autor?
– O autor não diz nada – respondeu Guimarães Rosa com uma risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma cilada.
Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete.

– Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados
– Olhe melhor: há dois que estão fora da ordem.
– Por quê?
– Senão eles achavam tudo fácil.
“Eles” eram evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto de brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade encontrando prazer em aumentá-la. Dir-se-ia até que neste volume quis adrede submetê-los a uma verdadeira corrida de obstáculos.

Seria esse o motivo principal da multiplicação dos prefácios, de que o livro traz não um, mas quatro?

Tutaméia de João Guimarães Rosa I: Prefácio por definição é o que antecede uma obra literária. Mas no caso do leitor que não se contenta com uma leitura só, mesmo um prefácio colocado no fim poderá ter serventia.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I – Estórias à primeira vista: num segundo relance os prefácios hão de revelar uma mensagem. Juntos compõem ao mesmo tempo uma profissão de fé e uma arte poética em que o escritor, através de rodeios, voltas e perífrases, por meio de alegorias e parábolas, analisa o seu gênero, o seu instrumento de expressão, a natureza da sua inspiração, a finalidade da sua arte, de toda arte.

Assim “Aletria e hermenêutica” é pequena antologia de anedotas que versam o absurdo; mas é, outrossim, uma definição de “estória” no sentido especificamente guimaraes-rosiano, constante de mostruário e teoria que se completam. Começando por propor uma classificação dos subgêneros do conto, limita-se o autor a apontar germes de conto nas “anedotas de abstração”, isto é, nas quais a expressão verbal acena a realidades inconcebíveis pelo intelecto. Suas estórias, portanto, são “anedóticas” na medida em que certas anedotas refletem, sem querer, “a coerência do mistério geral que nos envolve e cria” e faz entrever “o supra-senso das coisas”.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I: “Hipotrélico” aparece como outra antologia, desta vez de divertidas e expressivas inovações vocabulares, não lhe faltando sequer a infalível anedota do português. E é a discussão, às avessas, do direito que tem o escritor de criar palavras, pois o autor finge combater “o vezo de palavrizar”, retomando por sua conta os argumentos de que já se viu acossado como deturpador do vernáculo e levando-os ao absurdo: põe maliciosamente a vista as inconsequências dos que professam a partenogênese da língua e se pasmam ante os neologismos do analfabeto, mas se opõem a que “uma palavra nasça do amor da gente”, assim “como uma borboleta sai do bolso da paisagem”. A “glosação em apostilas” que segue esta página reforça-lhe a aparência pilhérica, mas em Guimarães Rosa zombaria e pathos são como o reverso e o anverso da mesma medalha. O primeiro “prefácio” bastou para nos fazer compreender que em suas mãos até o trocadilho vira em óculo para espiar o invisível.

“Nós os temulentos” deve ser mais que simples anedota de bêbado, como se nos depara. Conta a odisseia que para um borracho representa a simples volta a casa. Porém os embates nos objetos que lhe estorvam o caminho envolvem-no em uma sucessão de prosopopeias, fazendo dele, em rivalidade com esse outro temulento que é o poeta, um agente de transfigurações do real.

Finalmente confissões das mais íntimas apontam nos sete capítulos de Sobre a escova e a dúvida, envolvidas não em disfarces de ficção, como se dá em tantos narradores, mas, poeticamente, em metamorfoses léxicas e sintáticas.

Tutaméia de João Guimarães Rosa I: É o próprio ficcionista que entrevemos de início num restaurante chic de Paris a discutir com um alter ego, também escritor, também levemente chumbado, que lhe censura o alheamento à realidade: “Você evita o espirrar e o mexer da realidade, então foge-não-foge.”
Surpreendidos de se encontrarem face a face, os dois eus encaram-se reciprocamente como personagens saídas da própria imaginativa, perturbados e ao mesmo tempo encantados com a sua “sociedade” (sic!), tecendo uma palestra rapsódica de ébrios em que o tema do engagement ressurge volta e meia como preocupação central. O Rosa comprometido sugere ao Rosa alheado escreverem um livro juntos; este não lhe responde a não ser através da ironia discreta com que sublinha o contraste do ambiente luxuoso com o ideal “da rude redenção do povo”.

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