Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I

 

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I

José Hipólito de Moura Faria
Biografia – Lima Barreto (1881-1922)

Mulato, órfão de mãe aos seis anos, o pai doente mental, alcoólatra e sem estabilidade financeira. Afonso Henriques Lima Barreto teve uma existência desde cedo marcada pelo sofrimento.

Embora aluno brilhante, quando o pai adoeceu precisou afastar-se da faculdade que cursava, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, para trabalhar como amanuense na Secretaria da Guerra.

As experiências com jornalismo, que vinham dos tempos de estudante, continuaram e se transformaram em profissão. Em 1905, tornou-se jornalista do Correio da Manhã, e quatro anos mais tarde publicou, em Lisboa, seu primeiro romance: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Nesse trabalho, há fortes elementos autobiográficos, principalmente quando o autor focaliza os bastidores dos grandes jornais brasileiros de opinião, e o tema do preconceito racial, de que sempre se sentiu vítima.

Em 1911, Lima Barreto publicou, em forma de folhetim, seu romance mais conhecido, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Em 1914, sofreu sua primeira internação, num hospício. Foi afastado por invalidez da Secretaria de Guerra, em 1918, e passou novo período no sanatório. Em 1920, candidatou-se sem sucesso à Academia Brasileira de Letras.

Vítima de um colapso cardíaco faleceu em 1922, alguns meses depois da Semana de Arte Moderna, na mesma cidade onde nasceu e passou toda a sua vida: o Rio de Janeiro.
A proximidade entre o jornalista e o escritor torna a literatura de Lima Barreto mais coloquial e, portanto, mais acessível ao grande público.

A incorporação de recursos da crônica jornalística é visível em seus textos, nos quais a simplicidade da linguagem, sua aproximação da fala cotidiana e a ironia sempre contundente estão voltadas para a denúncia de injustiças e arbitrariedades cometidas no Brasil pós-republicano, de que o autor traça um verdadeiro painel crítico e repleto de indignação.

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Obras do escritor

– Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909)
– Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911)
– Numa e Ninfa (1917)
– Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919)
– Bagatelas
– Os Bruzundangas
– Clara dos Anjos
– Histórias e Sonhos
– Feiras e Mafuás

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Comentários sobre o escritor

1 – Estilo de época
Segundo Moisés Gicovate, eis as principais características da obra de Lima Barreto:

– Não copiou nem imitou. Os personagens de Lima Barreto são arrancados de sua própria vida; escrevia por necessidade, era uma forma de libertar-se, de analisar-se a si próprio.
– Os escritos são, em grande parte, autobiográficos; encerram muitos fatos verdadeiros, com a interpretação de Lima Barreto.
– A espontaneidade e a marca de seu estilo: fazia da pena o instrumento do coração.
– Lançou mão da sátira, da ironia e do humor. Certo, tudo isso é um meio de defesa, ou, segundo Freud, é mesmo o principal meio de defesa. De qualquer forma, a caricatura e a mordacidade faziam ressaltar a brutalidade e o ridículo de certas situações e, na medida em que se fundamentavam na realidade, eram objetivamente válidas.
– A obra de Lima Barreto aborda quase tudo, no seu tempo: forma de governo, organização econômica, preconceitos de raça, a burocracia, os tráficos de influência; os grupinhos, as sociedades de elogio mútuo – sem as quais o literato era condenado à marginalização.

2) Um Precursor do Modernismo
Os críticos geralmente concordam em situar Lima Barreto entre os pré-modernistas: “Caberia ao romance de Lima Barreto e de Graça Aranha, ao largo ensaísmo social de Euclides, Alberto Torres, Oliveira Viana e Manuel Bonfim, e a vivência brasileira de Monteiro Lobato o papel histórico de mover as águas estagnadas da “belle epoque”, revelando, antes dos modernistas, as tensões que sofria a vida nacional” (Bosi, HCLB, Cultrix, 2a. ed., p. 344).

O período que vai de 1902 a 1922 é considerado “atípico” dentro da literatura brasileira. Tivemos uma série de “neos”: neo-realismo, neo-parnasianismo, neo-simbolismo, todos sem maior expressão. O que triunfou, mesmo, foi uma sintaxe acadêmica, lusitanizante, que cortou por um momento a irrupção do projeto linguístico brasileiro, começado no Romantismo e continuado no Realismo. Lima Barreto rompeu com essa literatura muito antes do Modernismo.

3 – Precursor social

Enquanto alguns escritores do período escreviam como se estivéssemos no melhor dos mundos, e viam na literatura “o sorriso da sociedade” (Afrânio Peixoto), Lima Barreto escancarou as janelas e deixou entrar o cheiro forte da realidade. Ele assumiu os problemas do seu tempo e examinou-os em seus romances. Foi, sobretudo, o “romancista da Primeira República”, vista pelos olhos da classe média dos subúrbios do Rio. Enquanto os historiadores oficiais falavam nas lutas patrióticas da consolidação da República, ele via o outro lado da medalha: o povo, massa de canhão totalmente inconsciente do que se passava; a luta pelo poder entre os barões da agricultura e a burocracia militar ou civil; e, sobretudo, a vida dos subúrbios, com seus dramas e suas pequenas felicidades, seus grotescos e ridículos, seu lado terno e humano… A tradição desse romance realista remonta as “Memórias de Um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, e, depois de Lima Barreto, só teria continuadores expressivos já em pleno Modernismo, com o romance regionalista.

4 – Precursor literário

Lima Barreto rompeu conscientemente com a linguagem anacrônica, classicizada, de um Rui Barbosa, de um Coelho Neto, de tanto prestígio na sua época. Sobre isso, ele tem tiradas inesquecíveis: acusava os escritores acadêmicos de fazerem da literatura “uma continuação do exame de português”. Foi por isso, e por alguns pequenos descuidos em suas obras, que os adversários o acusaram de desleixado, quando na verdade ele rompeu voluntariamente com os representantes da “idade de ouro do lídimo linguajar castiço e vernáculo” (M. Cavalcanti Proença). O combate a tal tipo de linguagem seria retomado pelo Modernismo. Lima Barreto chegou primeiro.

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Resumo do Enredo

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Primeira Parte: Contém cinco capítulos. O Major Policarpo Quaresma é caracterizado inicialmente. Depois fica-se sabendo das “reformas radicais” por que vem passando o seu espírito, no sentido de colocar em prática os seus ideais patrióticos. Tenta aprender violão e modinhas, com Ricardo Coração dos Outros; dedica-se ao folclore e toma parte na brincadeira do Tangolomango, com crianças, numa festa em casa de Gal. Albernaz. Finalmente, passa a imitar os usos e costumes dos índios, os únicos “brasileiros legítimos”.

No capítulo terceiro, o autor nos transporta para uma festa em casa do general Albernaz, em comemoração ao noivado de sua filha, Ismênia, com o dentista recém-formado Cavalcanti. O leitor é apresentado a vários personagens que iremos acompanhar durante todo o romance: o contra-almirante Caldas, o Dr. Florêncio, o major Bustamante, as filhas do General: Quinota, Zizi, Lalá e Vivi e, sobretudo, Ismênia. D. Maricota, a esposa ativa do General, e a principal animadora da festa. A conversa banal, versando sempre sobre assuntos militares (as batalhas de que nunca participaram…) ou burocráticos. Lima Barreto critica o basbaque do povo miúdo diante de Cavalcanti, vendo no seu título de “doutor” algo quase sobrenatural. – Mais para o fim da festa, chega o inefável burocrata Genelício, parente de Caldas e namorado de Quinota, trazendo a notícia de que o Major Quaresma tinha sido internado num hospício.
As razões desse internamento são esclarecidas no capítulo seguinte: Quaresma havia dirigido um requerimento à Câmara, solicitando ao Congresso a adoção do tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. Isto foi comentado na sociedade, na repartição, na imprensa, e Quaresma foi alvo de chacota geral. Poucos dias depois, por distração, envia um oficio em tupi ao Ministro do Exército, – o que 1he valeu uma suspensão do serviço e novos aborrecimentos. Isolado, não suportou tanta decepção, o que o levou à loucura. Durante o período de internamento, recebia as visitas de Ricardo Coração dos Outros e, sobre tudo, de Vicente Coleoni e sua filha Olga, que era afilhada de Quaresma. Os três cuidaram dos interesses do Major, conseguindo, inclusive, a sua aposentadoria.

Com Ismênia, as coisas não iam bem: depois do noivado, Cavalcanti sumira no mundo e nunca mais dera notícias. Humilhada, a moça começou a definhar.
Olga, por seu turno, torna-se noiva de um doutorando em Medicina, Armando Borges.

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Segunda Parte: Enquanto toda a primeira parte se situou nos subúrbios do Rio, agora o leitor é levado para o sítio do Sossego, adquirido por Quaresma, atendendo a uma sugestão de Olga, depois que tivera alta no hospício. A intenção do Major, na verdade, era dar sequência aos seus planos patrióticos. Chegara à conclusão de que uma agricultura forte seria o principal alicerce da pátria. Vendeu a casa de São Januário e mudou-se para o sítio, a quarenta quilômetros do Rio, no município de Curuzu, acompanhado pela irmã, Adelaide, e pelo fiel criado Anastácio. As primeiras semanas são dedicadas à exploração do local, que estava abandonado. Quaresma observa os espécimes vegetais e animais, as rochas, organiza um museu e uma biblioteca agrícola…

Cerca-se de instrumentos que, acredita lhe seriam úteis: termômetro, barômetro, pluviômetro, higrômetro, anemômetro… Mas o simples manejo da enxada foi aprendido com muita dificuldade, apesar da paciência do “mestre” Anastácio.

Quaresma, depois de algum tempo, recebe as visitas do escrivão da coletoria, Antonino Dutra, que desejava conhecer a sua posição política, e de Ricardo Coração dos Outros. Num “flashback”, o autor mostra a vida que Ricardo levava numa “casa de cômodos”, num subúrbio do Rio, e descreve a “fauna” que habitava tais casas. Ele conseguira a passagem para Curuzu graças à influência do general Albernaz, em cuja casa esteve convidado para cantar na festa de casamento de Quinota com Genelício.

Nesse meio tempo, Olga e Armando Borges também se casam e vão visitar Quaresma. Ricardo passou um mês no sítio e foi um triunfo na vila, onde fez muitas amizades e recebeu inúmeros convites para cantar – entre eles, do Dr. Campos, médico do local, chefe político e presidente da Câmara Municipal. Quaresma é atacado anonimamente pelo jornal “O Município” de Curuzu e, pelas indicações de Ricardo, o autor deve ter sido o tenente Antonino Dutra.
Olga se mostra impressionada com a miséria do interior.

Certa noite, ao deitar-se, Quaresma ouviu pequenos estalidos. Na despensa, depara com milhares de formigas que carregavam as suas reservas de milho e feijão. A partir daí, travaria uma luta sem tréguas com elas – e não conseguiria vencê-las.

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I: No entanto, o duro aprendizado agrícola começava a mostrar-lhe o verdadeiro vulto dos problemas nacionais: as pragas, como as formigas; os preços vis pagos ao produtor pelos atravessadores do Rio, onde colocava a produção do “Sossego”; a miséria, a pobreza e a improdutividade das terras; as perseguições políticas do interior, como as multas que, por vingança, lhe impuseram o Dr. Campos e o Tenente por sua mania de modinhas, seus estudos de folclore e o seu interesse pelo tupi! O Brasil precisava realmente de um governo forte, para reformar em profundidade a administração e espalhar “sábias leis agrárias”… Talvez um novo Henrique IV (França), assessorado por um novo Sully.

E os acontecimentos pareciam ajustar-se as suas reflexões. Estalou, no Rio, a revolta da Esquadra contra Floriano. Não seria este “Marechal de Ferro” o homem providencial, o governante forte de que o Brasil precisava? Foi ao correio e telegrafou: “Mal. Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já – Quaresma”.

Lima Barreto o leitor leva, então, ao Rio para mostrar a movimentação e o impacto trazidos pela revolta. Muitos fazem cálculos para avaliar os benefícios que ela lhes pode trazer: Albernaz terá uma comissão extra para reforçar as combalidas finanças; Caldas espera, enfim, comandar uma frota do Governo e ganhar suas infindáveis demandas; Fontes, positivista, estava furioso com os insurretos e Bustamante já organiza um batalhão patriótico de voluntários. Genelício não perderia a chance para se promover a subdiretor da Secretaria da Fazenda e o Dr. Armando Borges enfim conseguiria ser médico do Estado.

Enquanto isso, no seu cubículo, Coração dos Outros, indiferente, ignorante de tudo, compunha suas modinhas e cantava os lábios da sua Carola, “onde encontrava a doce ilusão que adoça a vida…”

Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto I – Terceira Parte: De novo as ações do romance deslocam-se para o Rio. Quaresma vem, é recebido por Floriano, depois de esperar muito, já que o Marechal vivia cercado por cadetes e oficiais da Escola Militar, positivistas fanáticos da República, da autoridade e de Floriano. A descrição do Presidente é antológica: “… tinha ainda o palito na boca, como sinal do almoço; sua fisionomia era vulgar e desoladora.

O bigode caído, o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”; os traços, flácidos e grosseiros”. “Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões” “e todo ele era gelatinoso, parecia não ter nervos”. “A sua concepção de governo era a de uma tirania doméstica: o bebê portou-se mal, castiga-se”. “Portar-se mal era fazer oposição, e os castigos eram… Prisão e morte.

Floriano recebeu com má vontade o memorial que Quaresma lhe entregou, sobre os problemas agrícolas do país: “- Deixa aí…”. O Bustamante, que também lá estava, não perdeu tempo e alistou o Major Policarpo no seu batalhão patriótico, cobrando-lhe, além disso, 400.000 mil reis pela patente de Major.

Quaresma passa pela casa do compadre Coleoni para revê-lo e vem para o quartel, que funcionava num velho cortiço condenado pela Higiene. Coração dos Outros foi também alistado “voluntariamente” e, aos gritos e berros, pedia que lhe devolvessem o violão – o que foi feito por solicitação do Quaresma.

Na rotina da revolta, o peso e o comando do “batalhão patriótico” acabaram ficando por conta do herói, que passava os dias e as noites no quartel, enquanto os outros arrumavam inúmeras regalias e dispensas. Quaresma estuda furiosamente as artes militares, como artilharia, balística, mecânica, cálculo… Quase todas as tardes trocavam-se tiros entre o mar e as fortalezas, e “tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas”.

Certa madrugada, o Mal. Floriano, que gostava de “incertas” pelos quarteis e pelos fortes, apareceu no batalhão do Quaresma – e este se animou a perguntar-lhe se já lera o seu memorial. O Presidente, com sinais de aborrecimento mortal, diz-1he: “Você, Quaresma, é um visionário”. E Lima Barreto descreve, então, a Lua povoando os espaços e criando uma atmosfera de sonho.

Continuar a ler o resumo de Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto

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