Os Melhores Contos de Lima Barreto I - Vestibular1

Os Melhores Contos de Lima Barreto I

Os Melhores Contos de Lima Barreto I

 

Os Melhores Contos de Lima Barreto I

A pobreza e a situação social suburbana de Lima Barreto aguçaram sua visão e senso crítico. Sua obra é uma crônica autêntica dos subúrbios cariocas e de sua população, retratando, de um lado, a população pobre e oprimida desse subúrbio e, de outro, o mundo vazio de uma burguesia medíocre; de políticos poderosos e incompetentes e de militares opressores.

Parece refletir, muitas vezes, a própria experiência do autor, principalmente a dos negros e mestiços, que sofriam na pele o preconceito racial.
Prendendo-se à autenticidade histórica daquele tempo, sua ficção retrata acontecimentos importantes da vida republicana. Consciente dos problemas, critica o nacionalismo exagerado e utópico, oriundo do Romantismo.

Lima Barreto era um crítico mordaz da sociedade do seu tempo. Vivendo no Rio de Janeiro da recém-proclamada República, pouca coisa escapava de seu olhar perscrutador.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I – Contos – Um Especialista: 
Personagens: Comendador, Coronel Carvalho, Alice
Espaço – Rio de Janeiro
Narrado em 3ª pessoa onisciente, o conto é centralizado na história de promiscuidade do Comendador, que adorava as mulatas a ponto de colecionar uma porção em seu vasto currículo de amantes, apesar de ser casado e de ter filhas. No princípio de suas aventuras no Brasil, pois assim como seu amigo, o Coronel Carvalho, era português, o Comendador, ainda como caixeiro-viajante no Recife, desencaminhou uma jovem e lhe deixou uma filha nos braços, sumindo com uma pequena herança que ela havia recebido quando da morte dos pais. Vindo para o Rio, conseguiu evoluir à posição de Comendador que ora ostentava. No momento, o Comendador estava envolvido com uma bela mulata, que ao final do conto descobre ser a filha que ele abandonara anos antes.
O ataque à conduta imoral e ao falso moralismo da burguesia é explícito, e é o alvo preferencial dos ataques de Lima Barreto, que torna público os desvios, as vilanias, as tortuosidades e as baixezas da classe que ostentava o puritanismo da bandeira familiar.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I: Lima Barreto tem o poder de retratar sua época e seu momento como um historiador o faria, com o rigor técnico que lhe é peculiar.
O conto vai se arrastando nas tramas das festas, dos bailes e dos espetáculos que animavam as noites da burguesia carioca, e da conversa franca e aberta que os amigos têm com a amante do Comendador, que somente no final, quando a mulata começa a falar sobre seu passado, descobre ser sua filha. A descoberta final é chocante, mas o leitor não se define nem se entende com as próprias sensações, em um efeito brilhante obtido pelo autor, que cria a dualidade do choque moral e a piedade que sentimos com tamanha desgraça em que cai o incestuoso pai, e a punição “justa” e forte que sobre ele recai, purgando seus desvios de conduta e sua imoralidade explícita e despudorada. O que qualquer um que desconhece a literatura de Lima Barreto pode notar, desde este primeiro conto, é um poder de ironia só comparável a Machado de Assis, uma veia satírica, a meu ver inimitável, e uma capacidade de descrever todos os meandros de uma época e de pessoas com uma postura que lembra o Realismo pela análise investigativa do caráter dos indivíduos e suas ambiguidades, mas antecipa o Modernismo na forma, jocosa e aberta com que o faz, tanto na criação das cenas e das sequências, quanto na adoção de uma linguagem despreocupada com os cânones gramaticais e retóricos de sua época.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I – O Filho da Gabriela: 
Personagens: Gabriela, Horácio, Laura, Conselheiro Acácio
Espaço: Rio de Janeiro
Narrado em 3ª pessoa onisciente, tem o seguinte enredo:Gabriela é empregada na casa do casal Laura e Conselheiro Acácio, que se tornam padrinhos de seu filho e o criam após a sua morte. No início do conto, discute com a patroa por não obter permissão para levar a criança ao médico, já que esta estava enferma. Durante a discussão, e diante da negativa da patroa, Gabriela diz ter conhecimento dos relacionamentos extraconjugais de Dona Laura, ficando um silêncio sepulcral entre ambas, até que o choro convulsivo da patroa leva a empregada também às lágrimas.

Lima Barreto utiliza o caso criado na narrativa para manifestar sua ideia acerca da igualdade imanente dos seres, iguais em desgraça e frustração, humanos na mais pura e cristalina acepção que a palavra possui, igualdade negada pelos adereços sociais da fortuna, da sorte, do status e da pele, mas que o instinto, a dor, o sofrimento e outras ações imanentes e naturais, vêm revelar e trazer à tona.
A empregada resolve sair da casa da patroa após ter lhe ofendido, revelando escrúpulos que a outra não demonstrara em relação ao marido que traía, embora o narrador mostre sua fragilidade emocional em função da frieza do conselheiro em sua relação com a esposa. Gabriela vaga pelas ruas da cidade à caça de emprego mas não consegue, e enquanto procura, deixa o filho com uma amiga que o maltrata, impaciente com o choro que não fora trazido ao mundo por ela. Passando coincidentemente pela porta da casa da ex-patroa, Gabriela é vista e pára para conversar. Dona Laura lhe convida a retornar, e após pensar e relutar, Gabriela, sem outra alternativa capaz de dissuadi-la, aceita. Logo após o retorno a patroa resolve batizar o filho da Gabriela, que aceita com lágrimas nos olhos. O Conselheiro lhe dá o nome de Horácio, pois a criança nem mesmo possuía um antes, fornecendo-lhe também tratamento médico regular e educação.
Guardou, sempre, os traços da primeira infância, mantendo-se calado e quieto a maior parte do tempo, e rompendo em erupções em outros momentos. Apresentava a face enrugada e o semblante sempre enfezado. Após a morte da mãe, fechou-se mais ainda, deixando de lado os rompantes de alegria e mergulhando em si mesmo, num estranho silêncio, aumentado pela indiferença clara que lhe devotava o padrinho:

Já a esposa, encontrou no garoto um mecanismo para fugir à frustração e mesquinhez da sua vida, devotando a ele os sentimentos que não via realizados com relação ao marido e também com nenhum dos amantes que acumulara ao longo do casamento. Horácio, o garoto, continuou isolado e fechado em seu mundo de fantasmas que a infância lhe proporcionou, recordando em devaneios os tormentos da infância pobre e violenta, o que acaba levando-o à demência, sofrendo ataques de alucinação nos quais saía completamente de si, como o que ocorre no final do conto.
Nota-se na turbulenta existência de Horácio, traços da vida do próprio Lima Barreto, não só na demência de que também foi vítima o autor, mas sobretudo no relacionamento com o padrinho (o seu fora o Visconde de Ouro Preto, pelo que recebeu o Nome de Afonso ), tal qual o de Horácio, frio e distante, tanto que chegou a despertar a frase já expressa no início desta análise: “Os protetores são os piores tiranos.”

Os Melhores Contos de Lima Barreto I – A Nova Califórnia:
Personagens: Raimundo Flamel, Bastos (o boticário), Coronel Bentes, Tenente Carvalhais – Principais; e Fabrício, Capitão Pelino, Cora, bêbado Belmiro e outros, secundários
Espaço: Tubiacanga ( RJ)
Narrado em 3ª Pessoa – onisciente, tem o seguinte enredo: Na primeira parte, um homem misterioso e estranho chega a Tubiacanga, para curiosidade da cidade inteira, que acompanhava a ida diária do carteiro à casa do forasteiro para a entrega da vasta correspondência que ele recebia. Logo as atenções se voltaram exclusivamente para ele, com toda a cidade desejando conhecer o novo morador, saber o que fazia, como e de que vivia, dentre outras amenidades. Mas o homem praticamente não saía de casa, e não procurou estabelecer amizade com ninguém. Após Fabrício ter sido contratado para construir um forno na sala de jantar do misterioso habitante, as visões passaram a ser negativas, com toda a cidade imaginando ser ele um falsário, ou alguém pactuado com o diabo, a fazer experiências mirabolantes em sua casa pestilenta. Coube a Bastos, dono da Botica e homem respeitado na cidade a mudança de ânimos e opiniões na comunidade, dizendo ser possível que se tratasse de um químico, um cientista, que resolvera se instalar em Tubiacanga para desfrutar da tranquilidade do lugar para melhor desenvolver seus experimentos. Bastou tal possibilidade para a cidade passar a adorar o visitante sem mesmo conhecê-lo, e para alguns, como o Capitão Pelino, destilarem inveja por tamanha fama.

A segunda parte é curta, e revela o motivo da estada do forasteiro, chamado Raimundo Flamel, em Tubiacanga. Ele procura Bastos e pede para demonstrar-lhe uma experiência que havia desenvolvido, mas que ainda não poderia divulgar ao mundo científico, necessitando, por isso, que três testemunhas vissem tal feito e testemunhassem a sua autoria. O detalhe significativo do trecho é que as pessoas que acompanhariam a experiência deveriam ser honestas e de alta confiança, e Bastos tem enorme dificuldade em encontrar os nomes, em clara ironia aos valores da sociedade, hipócrita e imoral. Ficou marcado para o domingo a verificação do experimento e depois desse dia, Flamel desapareceu misteriosamente.
A terceira parte revela que se tratava a experiência, ao mostrar a indignação da cidade com uma série de crimes que insistia em se repetir, e que aumentava a revolta de todos na comunidade. Os ossos do cemitério do sossego estavam sendo roubados, e algo assim atacava justamente dois dos pilares mais sólidos da sociedade: a crença religiosa, e o respeito aos mortos. As pessoas resolvem fazer vigília no cemitério para flagrar os criminosos, e após algumas falhas conseguem fazê-lo, matando um a pancadas e deixando o outro a suspirar moribundo, e qual não foi o espanto de todos quando perceberam tratar-se do Tenente Carvalhais e do Coronel Bentes, que ainda murmurava, e disse o nome do terceiro criminoso que havia conseguido fugir. Perguntado acerca do motivo para tal desfeita com todos, o coronel disse que o farmacêutico (o terceiro meliante) detinha uma fórmula capaz de transformar ossos humanos em ouro.
A multidão vai em peso à casa de Bastos, que consegue evitar o linchamento prometendo passar para o papel todos os passos e etapas da experiência e entregar a todos na manhã seguinte. A noite foi um caos, uma verdadeira barbárie no cemitério, com todos se engalfinhando por um punhado de ossos, havendo até batalhas e homicídio na luta por uma porção maior. Pais reviravam túmulos de filhos, filhos de pais, em uma maratona insana e desesperada movida pela cobiça e pela ambição desenfreadas. E enquanto as pessoas guerreavam no cemitério, o farmacêutico Bastos fugia carregando seu segredo, e o bêbedo Belmiro se extasiava, indiferente a tudo, com a cachaça que retirou do bar abandonado, ficando deitado, às margens do rio Tubiacanga, tendo a lua como testemunha de que seu alcoolismo era, sem dúvida, o mais ameno dentre todos os crimes da cidade.

Esse conto foi adaptado para a Rede Globo e foi ao ar como novela – Fera Ferida.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I – O Homem que Sabia Javanês:
Personagens: Castelo, Castro, Barão de Jacuecanga
Espaço: Rio de Janeiro
Narrado em 1ª pessoa (personagem) se desenrola da seguinte forma: Em uma confeitaria, o narrador Castelo confessava ao amigo Castro algumas das aventuras e golpes que empreendeu na luta pela sobrevivência, centrando seu relato no caso das aulas de Javanês que ministrou, mesmo desconhecendo o tal idioma, ao Barão de Jacuecanga.
Na verdade um anúncio no jornal, convocando um professor de Javanês para ministrar algumas aulas particulares interessou Castelo, que embora não soubesse o idioma sabia que o aluno também não o sabia, bastando portanto um pouco de criatividade para ganhar um dinheiro fácil. Castelo passa em uma biblioteca, consulta uma enciclopédia e coleta algumas informações sobre Java, e sobre o alfabeto lá utilizado. O barão, velho e doente, desejava aprender javanês para ler um livro que lhe fora deixado pelo pai, que o fez prometer que o leria antes de morrer, promessa esta que o pai também havia feito ao seu pai, tendo, porém, deixado de cumprir. O livro traria a quem o lesse os segredos da felicidade. O Barão faz este relato com os olhos banhados em lágrimas, mas nem assim, Castelo deixa de lado a ideia de ensinar-lhe o que não sabia, em clara despreocupação com o outro e falta de escrúpulos.
Ao fim de alguns dias, o Barão desiste de aprender javanês e pede a Castelo que leia o livro para ele, pois não estaria assim deixando de cumprir a promessa feita ao pai. O narrador inventava histórias que encantavam o velho, que lhe cobria de presentes, aumentava o salário, enfim, iludia-se cada vez mais com a capacidade de Castelo.
O Barão cuidou então de indicar Castelo para a Diplomacia, onde foi recebido com louvor e admiração. Quando passava por entre as mesas da Secretaria de Estrangeiros, alguns cutucávamos outros dizendo tratar-se do homem que sabia javanês, outros, invejosos e vis, diziam também saber algo importante que com certeza ele não saberia. O caso é que acabou sendo designado a participar de um congresso de Linguística e começou a publicar artigos sobre a literatura javanesa em revistas e jornais do Brasil e da Europa, sempre com grande êxito, embora confessasse tudo copiar de artigos e revistas. Continuou sua carreira diplomática recebendo homenagens, não faltado aí nem mesmo o Presidente da República, que também se rendeu aos conhecimentos do gênio notável.
A grande relevância do conto reside na crítica à falsa sabedoria, e até mesmo à sabedoria inútil, aquela que é dominada e cultivada por uma meia dúzia de “sábios” que não partilham com mais ninguém, comunicando-se em uma língua que somente eles dominam.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I – Um e Outro: 
Personagens: Lola, Freitas, José, Mercedes
Espaço: Rio de Janeiro
Narrado em 3ª pessoa onisciente, tem o seguinte enredo: retrata uma personagem leviana e materialista, dissimulada e promíscua que sobreviveu da prostituição, após abandonar o marido por não mais suportar a vida pobre e difícil do campo, e ganhou dinheiro, fez fortuna, vivendo agora uma vida de rainha, com três criadas para lhe servir, móveis luxuosos e caros, uma casa ampla e confortável, enfim, uma estrutura material muito bem constituída, tudo fruto dos anos de prostituição durante os quais se deitava com homens em troca dos benefícios que recebia, servindo como amante temporária a vários deles e retirando deles aquilo que mais lhe importava: dinheiro.
Lola, a prostituta espanhola, era mãe de Mercedes e amante de Freitas, funcionário de uma casa comercial, mas sua grande paixão era um chauffeur chamado José, que dirigia um carro preto imponente, que ao lado do condutor, compunha o universo de fantasias de Lola. A ela nada importava além da condição adquirida, mostrando seu perfil materialista e frio.
Lola costumava presentear o chauffeur com mimos adquiridos pelo dinheiro que Freitas lhe dava, mas acaba se desencantando súbita e totalmente de José quando este lhe revela que não mais dirige o carro potente, preto, imponente, lustrado e maravilhoso que com ele compunha as fantasias dela. Lola não conseguia dissociar as duas imagens, tanto o carro sem ele não fazia sentido, quanto ele sem o carro não lhe dizia nada. E após ouvir dele a notícia, deitou-se ainda uma última vez, por medo de ofender-lhe a dignidade de homem, mas com a indiferença de quem perde completamente o gosto por aquele que lhe vai acariciar.

Os Melhores Contos de Lima Barreto I: Temos neste conto, além da denúncia do materialismo vazio e estúpido revelado por Lola, a promiscuidade da sociedade carioca e um pequeno mergulho no universo das fantasias e desejos espúrios, que ironicamente, não fazia parte somente dos cortiços e vilas do Rio, mas também se fazia ouvir em Copacabana, Botafogo e outro bairros requintados da cidade.

 

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