Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I

 

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões – parte I

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
1. O CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL
O século XVI é a consolidação de uma série de mudanças que já vinham se anunciando no mínimo, com mais intensidade, ao longo do século XV.

O mundo passa por uma grande adaptação aos novos conceitos políticos, econômicos e culturais que estão surgindo. A esse longo processo cultural que provocou uma reorganização da sociedade deu-se o nome de Renascimento.

O Humanismo do século XV já havia introduzido mudanças no modo de ver o mundo do homem medieval. Pouco a pouco, o seu olhar começa a se desviar das alturas do céu e procura o que está à sua volta, O terreno passa a ser interessante a esse homem que até então só se preocupava com o espiritual. É claro que esse tipo de mudança manifesta-se de forma lenta e gradativa, alterando passo a passo vários setores sociais.

Estudiosos começam a se interessar cada vez mais pela cultura da Antiguidade, desenvolvida pelos gregos e pelos romanos e que teria passado de modo quase “congelado” durante a Idade Média, com poucas exceções. Admirado com a descoberta de um mundo surpreendente que já existira há séculos e séculos atrás, o homem do século XV toma consciência do processo de evolução cultural do qual faz parte. Ele pode construir uma nova realidade a partir dos ensinamentos deixados pelos antigos. Para isso, estuda, aprende latim e grego, traduz textos, toma contato com as mais variadas formas de expressão artística e científica da era clássica.

Percebendo que pode moldar a si próprio e ao mundo, o homem desperta também para a sua posição no universo que então conhece. Feito à imagem e semelhança de Deus, ninguém além dele pode, na terra, governar. O mundo é o ambiente feito por Deus para o domínio do homem: é o antropocentrismo que toma o lugar do teocentrismo medieval.

De essencial importância nesse processo foram as mudanças políticas definidas na Europa do século XVI. Nesse século, várias potências consolidam-se, provocando disputas territoriais e a consciência de uma identidade nacional. É a corrida nas Grandes Navegações. Portugal muito contribuiria para a nova demarcação geográfica. Em 1487, Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança, proeza nunca antes conseguida por nenhum outro navegador. Esse feito abre caminho para que outros navegadores portugueses possam procurar um novo caminho para as Índias e buscarem na fonte as especiarias orientais tão caras à Europa. Colombo, representando a coroa espanhola, descobre as Bahamas, Cuba e São Domingos entre os anos de 1492 e 1493. Cabral, de Portugal, chega ao Brasil em 1500. Novas conquistas portuguesas passam a se suceder: descoberta de Madagascar, em 1501; estabelecimento em Sofala, Mombaça e Moçambique, em 1503; ocupação de Goa e Málaca, entre os anos de 1505 e 1507.

A burguesia, camada social que vinha crescendo em importância juntamente com a atividade comercial, provoca mudanças na estrutura econômica. Enriquecida, começa a disputar posição social com os nobres e o clero, que tinham seus direitos garantidos pelo nascimento e por Deus. A valorização do acúmulo de bens materiais acarreta o desenvolvimento do capitalismo mercantil. Além disso, a burguesia, desejosa de conquistar “ares de nobreza”, investe em cultura, incentivando a produção artística e científica.
É nesse ambiente que se desenvolverá a arte clássica.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
2. A ESCOLA LITERÁRIA

Devido às modificações ocorridas nas diversas atividades do homem e ao ressurgimento do interesse pela Antiguidade greco-latina, a arte tomará novos rumos. Os valores estéticos seguem as rígidas normas da cultura antiga.

A Razão é a palavra-chave da cultura renascentista. Em busca de equilíbrio, o homem acredita que deve manter-se centrado, evitando o predomínio da emoção. O racionalismo deveria controlar todo o sentimentalismo.

De influência antiga também é a crença de que existiria uma “autoridade” em matéria de beleza. Modelos de perfeição estética são definidos a fim de servirem como parâmetro, conceito chamado de mimese. Dessa maneira, obras da antiguidade clássica como Odisseia e Ilíada, de Homero e Eneida, de Virgílio passam a ter seu estilo imitado pelos artistas do século XVI, buscando:
– perfeição formal na correção gramatical, na linguagem erudita, no rigor métrico e rímico.
– na utilização da mitologia paga.
– na utilização e distinção dos gêneros épico, lírico e dramático.
– na busca de verdades universais.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
O Neoplatonismo
Uma das grandes influências do mundo antigo sobre o homem renascentista foi a filosofia platônica, retomada em meados do século XV, inicialmente por estudiosos da cidade de Florença.

Para o filósofo, existiriam dois mundos: o sensível, onde vivemos, e o inteligível, onde existiriam as ideias essenciais como Deus, Beleza, Perfeição, Amor etc. Tudo o que somos e vemos no mundo sensível, não passaria de sombra, reflexo imperfeito das ideias do mundo inteligível. Portanto, viveríamos numa grande ilusão, num grande engano, em busca de verdade que só encontraríamos no outro mundo. Essa busca aconteceria porque nossas almas já viveram no mundo ideal, já conheceram desse modo, a Beleza. Daí, a insatisfação sempre que realizamos os nossos desejos no mundo das sombras: outras ambições vêm logo tirar o prazer da primeira realização. Os amores, particulares, terrenos, por exemplo, seriam apenas uma ânsia de reviver o Amor (maiúsculo, essencial, universal) do mundo das ideias.

A retomada das ideias platônicas fez-se com uma aproximação aos ideais cristãos. O mundo ideal, com isso toma-se muito semelhante ao paraíso cristão. A essa retomada dá-se o nome de neoplatonismo.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
3. O AUTOR: VIDA E OBRA

A vida de Luís Vaz de Camões é cercada de hipóteses devido à falta de documentos. Não se sabe ao certo a origem e a data de seu nascimento. Teria nascido em 1524 ou 1525, talvez em Lisboa, para outros em Coimbra, filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sã Macedo, cujo nome também não se tem certeza.

De família pobre, não se sabe ao certo se teria estudado em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, mas sua obra indica vasta erudição, garantida por uma escolaridade apurada ou por autodidatismo.

Serviu como militar no norte da África, onde perdeu o olho direito em combate. É certo que frequentava a corte em 1550 quando morou em Lisboa. Sempre envolvido em confusões, foi preso em 1552 por ter agredido um oficial do rei e só posto em liberdade no ano seguinte, com a condição de partir para o exílio que duraria 17 anos. Mais dificuldades e passagens pela cadeia o esperavam no Oriente. Passou pela Índia (Goa), China (Macau), onde teria arrumado uma companheira que morreu no mesmo naufrágio em que Camões salvou Os Lusíadas. Passando por Moçambique, vai preso novamente e, finalmente, com a ajuda de amigos, consegue o regresso a Portugal.

Em 1572, publica Os Lusíadas. Como reconhecimento de seu valor, o rei D. Sebastião concede-lhe um pensão de 15.000 réis, paga irregularmente. Morre em 1580, pobre, enterrado como indigente, às vésperas da decadência de Portugal.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I – Obra: Camões compõe poesias líricas, um poema épico e três peças teatrais, além de algumas cartas. As duas primeiras são as de maior importância e, por isso, mais detalhadas a seguir. Nesse total, podemos perceber ambiguidades e conflitos entre o homem culto, humanista, gênio e o boêmio, aventureiro. O resultado desta oposição é a poesia de contradição e desconcerto que tanto marcará sua obra.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I – Obra lírica: A poesia lírica, publicada postumamente sob o nome de Rimas, traz as marcas de um homem dividido entre dois momentos: o Renascimento e a Idade Média. Formalmente, as poesias apresentam ora estruturas populares, seguindo o que se convencionou chamar de Medida Velha, ora estruturas clássicas, chamadas de Medida Nova. A primeira, comum durante a Idade Média, valorizava a redondilha maior e menor (sete e cinco sílabas poéticas, respectivamente). Já na segunda, destacam-se os sonetos, sem esquecer outras formas clássicas como a elegia, a oitava, a égloga, a epístola, a sextina e a canção. Quanto aos temas, os que mais frequentemente aparecem são:

– a natureza vista harmoniosamente e devendo ser reflexo para o mundo interior do homem;
– passagens bíblicas servindo como pretexto para o poeta pensar o Amor e o Bem;
– o amor analisado racionalmente, dissecado pelo poeta, e mais voltado para a idealização do que para a concretização. É o amor platônico;
– o desconcerto do mundo, isto é, a percepção do poeta para a desarmonia que provoca o sofrimento do ser humano;
– a brevidade da vida e a inconstância das coisas: a consciência de que a vida é passageira e o sentimento de inadaptação do poeta mais uma vez provocando o sofrimento.

É fácil perceber que os três últimos temas terminam por afastar o poeta do equilíbrio buscado pelo clássico. Nessas ocasiões, traços do desajuste barroco já se fazem notar na poesia camoniana. A essa antecipação da estética literária que mais se caracteriza por antíteses dá-se o nome de maneirismo.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I – Vejamos um exemplo da lírica de Camões:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Obra épica

A epopeia ressurgiu no Classicismo como mais um exemplo da influência do mundo antigo. Na Grécia, Homero deixa para a humanidade as epopeias Ilíada e Odisseia; em Roma, Virgílio nos deixa Eneida. Mas o que é uma epopeia?

Gênero que mais tarde será substituído pelo romance, a poesia épica era escrita em versos, caracterizando-se como um longo poema narrativo. A história épica não pode ser comum; deve ser grandiosa, mostrando episódios de bravura, coragem, guerra. O herói será tio grandioso quanto seu povo, pois tal história terá a preocupação de contar as aventuras de todo um povo. Na sua forma mais tradicional, até mesmo deuses interferirão para o bem ou para o mal na vida dos personagens; é a presença do maravilhoso, isto é, o sobrenatural, ajudando na efabulação da história. Uma história desse porte, como se vá, não pode ser contada com uma linguagem comum, coloquial, cotidiana. A perfeição formal característica dos antigos e do clássico exige uma linguagem nobre, eloquente, tio grandiosa quanto à própria história. Finalmente, a herança antiga prega também, o rigor na divisão do poema, que deve ser composto por cinco partes:

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
1. Proposição: o assunto é apresentado.
2. Invocação: o poeta pede ajuda dos deuses para conseguir narrar a história da maneira que ela merece.
3. Dedicatória ou Oferecimento: oferecimento da obra a alguém ilustre.
4. Narração: cerne do poema; parte mais longa, é a história propriamente dita.
5. Epílogo: é o encerramento do poema.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
. ANALISE DA OBRA

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I – Resumo do enredo: Portugal, como foi visto anteriormente, passava por um momento de grandiosidade diante das demais nações europeias. Esse momento era ainda mais valorizado pelo espírito de nacionalismo que surgia nos séculos XV e XVI. Motivados com a liderança nas grandes navegações, foram várias as tentativas de fazer uma epopeia sobre o assunto e, com isso, registrar para a posteridade esse momento de glória.

Mas esse papel caberia a Camões. Respeitando o conceito da mimese, o poeta segue como modelo as epopeias clássicas de Homero e Virgílio para escrever Os Lusíadas, publicados em 1572. Derivado de Luso, que teria sido o primeiro português, o título chama a atenção para o povo português, cuja história será não só rememorada, mas também reavaliada, desde seus momentos iniciais, com a origem e formação desse povo até as Grandes Navegações, com o retomo de Vasco da Gama para Portugal após ter descoberto as Índias. Essa viagem, aliás, será o elo entre os demais episódios. O poema contém dez cantos, 1102 estrofes com oito verso decassílabos heroicos, caracterizando a oitava – rima, com esquema ABABABCC:

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 *

1. As ar – mas e os ba – rões as – si – na – la – dos
2. Que da ocidental praia lusitana B
3. Por mares nunca dantes navegados, A
4. Passaram ainda muito além da Taprobana, B
5. E em perigos e guerras esforçados A
6. Mais do que prometia a força humana, B
7. E entre gente remota edificaram C
8. Novo reino, que tanto sublimaram; C

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I
Canto 1

A proposição confirma as intenções do poeta de exaltar a imagem dos portugueses, cujo heroísmo será representado por Vasco da Gama e seus navegadores:

E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando:
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Os modelos seguidos deverão também ser superados, para que se confirme a superioridade portuguesa:

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I: Segue-se a invocação, em que o poeta pede inspiração às Tágides, musas do rio Tejo:

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

A terceira parte, a dedicatória, é dirigida ao rei Dom Sebastião, mais nobre representante da nação lusitana:

E vós, ó bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena cristandade,
Vós, ó novo temor da maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
(Dada ao mundo por Deus, que todo o mande
para do mundo a Deus dar parte grande (…)

Finalmente ainda no primeiro dos dez cantos, tem início a narração, com as naus de Vasco da Gama em plena viagem na Costa ocidental da África.. Simultaneamente, os deuses reúnem-se no Olimpo para um Concílio onde decidirão o futuro dos portugueses. Enquanto Vênus e Marte estão favoráveis aos bravos mortais, Baco opõe-se. Mas Júpiter, o mais poderoso, decide que a viagem deve prosseguir.

 

 

Continue lendo o resumo de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões I

Share On Facebook
Share On Twitter
Share On Google Plus
Share On Linkedin
Contact us

Vestibular1

O melhor site para o Enem e de Vestibular é o Vestibular1. Revisão de matérias de qualidade e dicas de estudos especiais para você aproveitar o melhor da vida estudantil. Todo apoio que você precisa em um só lugar!