Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes 2

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes

 

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – parte 2

A manutenção do colonialismo português em Angola despertou acirrados confrontos, a partir do final da década de 1950, com o desenvolvimento do nacionalismo político no continente africano. Surgem em Angola vários movimentos que reivindicam a independência política de Portugal.

Em 1956, forma-se o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto; em 1962, a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola), chefiada por Holden Roberto e, em 1966, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), dissidência da FNLA, comandada por Jonas Savimbi, que contava com a participação de forças sul-africanas.

Na década de 1960, os grupos nacionalistas, tanto de tendências socialistas como os não socialistas, armam-se e começam a enfrentar com tática de guerrilha as forças portuguesas que tinham sido enviadas por Salazar para Angola. O Estado Novo (1933-1974), que instaurou a ditadura salazarista, buscou o estabelecimento da ordem interna nas colônias ultramarinas e criou um sistema de repressão a partir da formação de milícias como a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado).

Diante das pressões tanto da ONU quanto dos grupos de libertação, Portugal, ao invés de ceder, opta por intensificar sua repressão, procurando manter pela força seus domínios além-mar. Em nome dessa soberania, inicia-se uma luta que é conhecida na História como Guerra Colonial ou Guerra de Angola (1961-1975).

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: As forças portuguesas eram compostas por um exército mal formado, que não conseguia adaptar-se ao território africano, e, principalmente, sem o devido treinamento para enfrentar a guerra de guerrilha.

Os homens tinham dificuldade para movimentar-se, utilizavam fardas inadequadas para o verão africano e, principalmente, não possuíam armamento moderno: Portugal enfrentou não somente os guerrilheiros acostumados com a adversidade das terras africanas, como emboscadas armadas pela própria natureza, com florestas virgens e agressivas. Com armamento pesado, fome, selva impenetrável, os portugueses passaram de atacantes a alvos fáceis dos ataques surpresa e das minas terrestres que os guerrilheiros colocavam como empecilhos para o avanço das tropas.

Com a Revolução dos Cravos, que destituiu o regime salazarista (1974) e objetivando o fim das hostilidades, Portugal passou a buscar entendimento com as colônias africanas. Para isso, intensificou o contato com as três forças libertadoras e concordou com a formação de um governo provisório. Os líderes angolanos assinaram o acordo de Alvor (1975), que fixava a independência de suas terras para 11 de novembro de 1975.

No entanto, os líderes da FNLA e UNITA aliaram-se contra o presidente Agostinho Neto do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e, quando da independência, o novo país já surgia imerso em grave crise, com dois governos, um sediado em Luanda e outro em Huambo e os angolanos encontravam-se em plena guerra civil.

Contando com o apoio de tropas cubanas e abastecido de armas soviéticas, o MPLA forçou a retirada das forças sul-africanas invasoras e obteve a vitória militar sobre seus adversários internos. Em 1976, o governo de Agostinho Neto foi reconhecido como legítimo pela ONU e por grande número de países.

6. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – A literatura neorrealista

A trajetória da prosa portuguesa do século XX está inicialmente ligada ao movimento que se costumou chamar de presencismo, uma geração que procurou equilibrar o passado poético que tradicionalmente marcou a Literatura Portuguesa, com a produção romanesca de tendências intuicionistas e/ou memorialistas, em busca do que existe de mais profundo no ser, portanto, isenta de preocupações ideológicas ou sociais.

No final da década de 1930, influenciados principalmente pelo que se fazia nos Estados Unidos e no Brasil, os prosadores voltaram-se para uma literatura engajada, através da qual procuravam denunciar as mazelas e a podridão de uma sociedade que enfrentava (e enfrenta) problemas concretos.

O gosto neorrealista é pelo documento vazado em relatos secos, diretos na ânsia de registrar a verdade por meio da propagação de uma doutrina de ideais políticos, numa arte comprometida, a serviço de uma causa. A literatura passa a ser vista como uma possível forma de intervir no real, transformando-se em uma arma de combate e uma forma de propor rumos novos para o destino da sociedade.

Durante a ditadura salazarista, a literatura foi censurada e, dos subterrâneos, passou a metaforizar a realidade de forma a poder expor os pontos de vista pessoais associados a uma nova forma de narrar, mais elíptica e utilizando-se de recursos como o discurso indireto livre e o fluxo da consciência, a multifacetação do narrador, da ambiguidade e da possibilidade de penetração na consciência de personagens.

Supera-se assim o neorrealismo tradicional, para se poder conhecer melhor as diferentes faces da sociedade, agora também voltadas para o meio burguês, e o indivíduo. Por meio de uma análise mais profunda de seus circuitos psicológicos, passa-se a analisar o ser humano como um ser complexo e total, tanto indivíduo psicológico como homem inserido em seu contexto social.

7. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – Um narrador estilhaçado

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, o autor faz uma narrativa em que presta depoimento da situação vivenciada por ele durante os anos em que esteve em Angola, entre 1971 e 1973, exercendo a função de clínico de um batalhão operacional, primeiramente nas por ele denominadas “terras do fim do mundo”, situadas no leste e, depois, na Baixa do Cassanje, junto à fronteira do Congo.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, o narrador, em primeira pessoa, apresenta-se ao longo da narrativa como um médico que procura exorcizar seu passado, registrando sua dura experiência na Guerra de Angola.

Como enviado das forças de defesa da Metrópole, potencialmente defensor da política portuguesa para a África, ele testemunha as cruezas de uma guerra, cujos sofrimentos e desvarios o marcaram profundamente e o enchem de angústia pela sensação de absurdo da situação: ele, o narrador, um homem culto, conhecedor de História, de Artes e de Ciências, cuja experiência de vida, até a ida para a guerra, era exclusivamente metropolitana e burguesa.

Poderíamos envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos os vértices de um triângulo equilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abat-jour de folhos e de uma natureza-morta de perdizes e maçãs, melancólica como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídoto açucarado contra a conformação do reumático.

Poderíamos friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bál-samo Menopausol, pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira.

E eu, deitado de costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da ciática, lembrar-me-ia do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era limitado pelo perfil de cordilheiras dos Andes de um electrocardiograma ameaçador, a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: …passa alguns anos vivendo em um espaço totalmente desconhecido, engajado em uma luta que se lhe torna particularmente indiferente: afinal, matar e/ou morrer transformam-se no cotidiano vivenciado por ele na África. No retorno a Portugal, a experiência dos anos de guerra continua a amargurá-lo porque deixa profundas marcas no seu presente, marcas que se tornam sua fraqueza e das quais ele não consegue se desvencilhar.

Em Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, o narrador confessa-se um homem solitário, mergulhado no consolo da bebida servida nas mesas de um bar, em busca de um conforto, de uma companhia para ouvi-lo, para com ele enfrentar a noite, e assim solucionar suas fraquezas físicas e psicológicas.

Ele apenas conversa, desabafa por meio de uma fala longa, sem pausas, sem ordem, feita de retalhos justapostos e alineares. No entanto, não há desabafos eficazes para o mal que o acompanha, sente-se cada vez mais inadaptado, encontra-se deslocado no mundo que não parou apesar da guerra. E suas falas vêm marcadas pelo desespero de não poder escapar da experiência do passado que o destruiu psicologicamente.

Quer um uísque? Este banal líquido amarelo constitui, nos tempos de hoje, depois da viagem de circunavegação e da chegada do primeiro escafandro à Lua, a nossa única possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmente uma agradável inclinação de convés, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplidões de Austerlitz, ao décimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando as sílabas difíceis da alegria: de forma que, se me dá licença, instalo-me no sofá ao pé de si para ver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.

O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: quem veio aqui não consegue voltar o mesmo, explicava eu ao capitão de óculos moles e dedos membranosos colocando delicadamente no tabuleiro, em gestos de ourives, as peças de xadrez, cada um de nós, os vivos, tem várias pernas a menos, vários braços a menos, vários metros de intestino a menos, quando se amputou a coxa gangrenada ao guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussuma os soldados tiraram o retrato com ela num orgulho de troféu, a guerra tornou-nos em bichos, percebe, bichos cruéis e estúpidos ensinados a matar, não sobrava um centímetro de parede nas casernas sem uma gravura de mulher nua, masturbávamo-nos e disparávamos, o mundo-que-o-português-criou são estes luchazes côncavos de fome que nos não entendem a língua, a doença do sono, o paludismo, a amibíase, a miséria, à chegada ao Luso veio um jeep avisar-nos que o general não consentia que dormíssemos na cidade, que expuséssemos na messe as nossas chagas evidentes.

Nós não somos cães raivosos, berrava o tenente de cabeça perdida para o enviado do comando de Zona, diga a esse caralho do catano que nós não somos cães raivosos, um alferes ameaçava baixinho destruir a messe com as bazookas Fodemos aquela porra toda meu tenente, não sobeja um cabrão sequer para nos enconar o juízo, Um ano no cu de Judas não nos dá direito a dormir uma noite numa cama argumentava em sentido o oficial de operações, o tenente espalmou um murro enorme no capot do jeep Diga ao nosso general que vá levar na anilha, Nós não éramos cães raivosos quando chegamos aqui disse eu ao tenente que rodopiava de indignação furiosa, não éramos cães raivosos antes das cartas censuradas, dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta de comida, de tabaco, de refrigerantes, de fósforos, de água, de caixões, antes de uma berliet valer mais do que um homem e antes de um homem valer uma notícia de três linhas no jornal, Faleceu em combate na província de Angola, não éramos cães raivosos mas éramos nada para o Estado de sacristia que se cagava em nós e nos utilizava como ratos de laboratório e agora pelo menos nos tem medo, tem tanto medo da nossa presença, da imprevisibilidade das nossas reacções e do remorso que representamos que muda de passeio se nos vê ao longe, evita-nos, foge de enfrentar um batalhão destroçado em nome de cínicos ideais em que ninguém acredita, um batalhão destroçado para defender o dinheiro das três ou quatro famílias que sustentam o regime, o tenente gigantesco voltou-se para mim, tocou-me no braço e suplicou numa voz súbita de menino Doutor arranje-me a tal doença antes que eu rebente aqui na estrada da merda que tenho dentro.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: seu casamento mal começado – ele se casara quatro meses antes de partir
…depois de breves encontros de fim de semana em que fazíamos amor numa raiva de urgência, inventando uma desesperada ternura em que se adivinhava a angústia da separação próxima, e despedimo-nos sob a chuva, no cais, de olhos secos, presos um ao outro num abraço de órfãos.
… Estilhaça-se pela distância – ela em Portugal, ele na África – e nem a notícia do nascimento de uma filha pôde auxiliá-lo na recuperação de seu trauma. Um nascimento no meio de mortes deveria ser um brado à vida, mas chega em meio ao ruído da guerra, à interferência de códigos em um lugar distante, isolado e miserável:

Como na tarde de 22 de Junho de 71, no Chiúme, em que me chamaram ao rádio para me anunciar de Gago Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha, rómio, alfa, papá, alfa, rómio, índia, golf, alfa, paredes forradas de fotografias de mulheres nuas para a masturbação da sesta, mamas enormes que começaram de súbito a avançar e a recuar, segurei com força as costas da cadeira do cabo de transmissões e pensei Vai-me dar qualquer merda e estou fodido.

Ao conversar com sua interlocutora, revela o que de mais profundo atormenta sua consciência. No entanto, a interlocutora não se apresenta como “aquela que responde” ou “aquela que efetivamente o ouve”, “aquela que participa de uma experiência frustrante”, apenas “está lá” e o leitor conhece-a por meio das falas do narrador, o que transforma a narrativa em um imenso monólogo em que ele se volta quase exclusivamente para si mesmo.

Não há espaço para o outro, não há outras vozes e os sons que o leitor ouve são aqueles que atormentam o narrador, estão nas vivências passadas, reconstituídas aos tropeços e difíceis de serem superadas.

Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.

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