Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes 1

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes

 

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – parte 1

1. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – O autor
António Lobo Antunes é considerado um dos mais instigantes escritores portugueses do século XX. Nascido em Lisboa em 1942, licenciou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria, decorrendo daí sua tendência de analisar, sob o prisma da Psicologia, a criação artística, o que o levou a escrever trabalhos sobre grandes escritores como Bocage, Antero de Quental, Lewis Carroil, entre outros.

Como romancista, vem publicando desde 1979. Seus três primeiros livros – Memórias de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980) constituem uma trilogia autobiográfica, sendo considerada sua obra-prima Os Cus de Judas.

Escreveu, entre outros, quinze romances, entre os quais: Exortação aos Crocodilos, Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados, Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas, O Manual dos Inquisidores e Não Entres tão Depressa nessa Noite Escura.

O modernismo de Lobo Antunes volta-se contra as tradições e os valores da literatura de Portugal, cujos autores, na maioria das vezes, utilizam um estilo retórico, rebuscado e excessivamente metafórico. A irreverência desse escritor contra as instituições e a forma mordaz com que tece considerações acerca das atitudes dos homens e das instituições tornam-no, sobretudo, despojado da herança cultural e literária de sua terra.

2. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – Estilo

Em Lobo Antunes, o domínio linguístico torna-se complexo, inovador e, por isso, extremamente moderno. Ao se utilizar de uma linguagem lenta e minuciosa, em que investiga cuidadosamente o fluxo do pensamento, provoca o leitor com textos criativos que rompem com os padrões da linguagem linear, da rigidez gramatical e com as tradicionais formas de introduzir personagens, ações, falas, sequencias, descrever paisagens, etc.

Nesse sentido, coloca o leitor em contato com um estilo radical e inusitado, de contornos maleáveis prestes a acompanhar o encadear de seus pensamentos, ora confusos — embaralhados nas mais intrincadas e conflitantes informações — ora transbordados em confissões atropeladas em que ele amarga uma incomunicabilidade e uma solidão doída, impossibilitado de se abrir, extravasar-se para o outro, incapaz de exercer o diálogo, daí permitindo a antevisão de um subjetivo convulso e problemático no qual se depara com o incompreensível do mundo, principalmente o da guerra, advindo daí suas convulsões.

(…) Éramos peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da PIDE, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violência paranoica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heroicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de Judas uns após outros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás!, o enfermeiro sentado na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante quente nas mãos, o apontador de metralhadora de garganta furada continuava a disparar, chegava-se sem vontade de combater ninguém, tolhido de medo, e depois das primeiras baixas saía-se para a mata por raiva na ânsia de vingar a perna do Ferreira e o corpo mole e de repente sem ossos do Macaco, os prisioneiros eram velhos ou mulheres esqueléticos menos lestos a fugir, côncavos de fome, o MPLA deixava mensagens nos trilhos a dizer Deserta mas para onde se só havia areia em volta, Deserta, os tipos passavam da Zâmbia para o interior detendo-se de quando em quando para dinamitar as pontes dos rios, um dia depois de um ataque encontrei uma insígnia metálica do Movimento na pista de aviação fiquei a olhá-la como o Lourenço mirava as tripas que se lhe escapavam da barriga, o cabo mostrou-me uma carta caída num arbusto I love to show you my entire body, explicava uma inglesa a um angolano que na véspera nos metralhara oculto no escuro, leves armas checoslovacas de som agudo e rápido, médicos suecos trabalhavam no Chalala Nengo a poucos quilômetros de nós, o Chalala Nengo que os T6 bombardeavam de napaim e resistiam, Uma destas manhãs os meus amigos acordam bem dispostos chegam lá num rufo e destroem aquilo tudo encorajava o coronel optimista de camuflado engomado vindo de Luanda para nos estimular com boas palavras conselhos e ameaças, Vai tu à frente meu cara de caralho respondia o tenente indignado por entre dentes, Se querem rodar ir para um sítio melhor têm de nos mostrar resultados que se vejam minas turras trotil, o comandante encolhia os ombros em tiques de aflição pequeno ridículo quase tocante de embaraço indicava no mapa a extensão da zona que nos cabia, gaguejava Meu coronel Meu coronel Meu coronel, do Mondego ao Algarve para quinhentos homens mal alimentados, peixe quase podre carne em mau estado ossos de frango, gastos de paludismo e de cansaço, a beber a água que pingava gota a gota, lamacenta, dos filtros, acabava-se a cerveja acabava-se o tabaco acabavam-se os fósforos, não havia sequer fósforos no Luso para nós…

Lobo Antunes cria algumas cenas em que afloram certo erotismo cru e pouco poético; reforçando a posição interiorizada assumida pelo narrador.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna.

Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: …outras, joga com limpidez o seu desprezo pelos outros e por Portugal; um Portugal que, de certa forma, é o espelho/reflexo do próprio narrador, na medida em que ambos se identificam no fracasso e na sensação de pequenez.

Entenda-me: sou homem de um país estreito e velho, de uma cidade afogada de casas que se multiplicam e reflectem umas às outras nas frontarias de azulejo e nos ovais dos lagos, e a ilusão de espaço que aqui conheço, porque o céu é feito de pombos próximos, consiste numa magra fatia de rio que os gumes de duas esquinas apertam, e o braço de um navegador de bronze atravessa obliquamente num ímpeto heroico.
Nasci e cresci num acanhado universo de croché, croché de tia-avó e croché manuelino, filigranaram-me a cabeça na infância, habituaram-me à pequenez do bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lusíadas e ensinaram-me desde sempre a acenar com o lenço em lugar de partir.

…outras, ainda, em que refaz de forma a revisitar sarcasticamente seu passado, apoiando-se em uma ironia mórbida e o desprezo pela tacanhez de espírito de seus conterrâneos.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: sempre apoiei que se erguesse em qualquer praça adequada do País um monumento ao escarro, escarro-busto, escarro-marechal, escarro-poeta, escarro-homem de Estado, escarro-equestre, algo que contribua, no futuro, para a perfeita definição do perfeito português: gabava-se de fornicar e escarrava.

Quanto à filosofia, minha cara amiga, basta-nos o artigo de fundo do jornal, tão rico de ideias como o deserto do Gobi de esquimós. De modo que, de cérebro exaurido por raciocínios complicados, tomamos ampolas bebíveis às refeições a fim de conseguir pensar.

Com isso, constrói uma literatura até então pouco conhecida do leitor português.

3. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – Reminiscências

Nos romances de caráter autobiográfico, Lobo Antunes parte de um revolver da consciência, procurando entremear passado remoto, passado recente e presente numa investigação cautelosa e minuciosa da memória, através da qual registra suas experiências quer em terras portuguesas, como médico, clinicando em um instituto de psiquiatria, quer no exército, trabalhando em terras estrangeiras, após ser convocado pelas forças colonialistas para combater pelo domínio das terras de Angola, então possessão portuguesa na África.

Em alguns de seus livros, a memória capta tanto o passado antigo, a formação do homem, como o passado recente, a deformação do homem. As experiências vividas constituem-se-lhe fragmentos, estilhaços recolhidos segundo a importância que lhes atribui à memória, daí a falta de linearidade, e o aparente caos em que se transforma sua narrativa. Seus romances seguem como uma gangorra, em um ir e vir constante, repleto de retomadas, e o leitor vai acompanhando as divagações de uma mente quase doentia, neurotizada e insatisfeita, no que se costuma chamar captação do fluxo da consciência ou stream of consciousness.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes: Costuma-se denominar stream of consciousness ou fluxo de consciência a fatos relatados, sentidos ou memorados pela percepção da mente humana. Trata-se de um processo mental que se assemelha a um monólogo interior, sem pontuações, em que o narrador geralmente coloca desordenadamente os acontecimentos psicológicos que de uma forma ou de outra exercem alguma pressão no momento da narração.

4. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – Tempo e espaço da narrativa

Os estilhaços que recompõem os contornos da memória nos romances de Lobo Antunes recolhem informações vividas em espaços de tempo variados, mas contados em breves períodos, de chofre, de um só fôlego. No caso de Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, o “ato de contar” tem as ações transcorrendo em uma só noite. Se o tempo é breve no presente da narrativa — entre a mesa de um bar, algumas boas doses de uísque, um convite e o anseio para vencer a solidão – o tempo recolhido pela memória é elástico, é um tempo que se volta para a infância remota, as recordações da família, um tempo em que ele se alista nas fileiras da força colonialista portuguesa, um tempo em que ele parte e, finalmente, um tempo em que ele sobrevive na África, numa luta que lhe parece vazia de sentido.

Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, com vinte e três capítulos curtos, sequenciados de A a Z, sem interrupções na ordem do alfabeto, desenrolam-se ações em dois planos temporais: um cronológico, período de tempo de uma noite, que vai do encontro do narrador com uma mulher em um bar até o amanhecer deles, depois de uma noite de sexo, sem amor.

O tempo cronológico constitui-se no tempo da fala, no tempo de um enorme monólogo em que o narrador expõe a uma mulher não nomeada suas angústias e a mediocridade da vida que o cerca; outro passado, um tempo elástico reconstituído a partir de fragmentos soltos, recolhidos dos escombros das memórias constituem uma coleção de insucessos que o levam a sentir-se um ser espúrio, um pária, um fracassado.

Convém lembrar que a sensação de fracasso que domina o narrador está intimamente associada aos insucessos dos tempos em que ele exercia funções no exército português de combate às guerrilhas africanas.

Passamos vinte e sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses de angústia e de morte juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dos Quiocos e nos girassóis do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, o mesmo medo, e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão, uma palmada nas costas, um vago abraço, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso da bagagem, pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.

Durante uma única noite, o narrador tece o enredo da obra, Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, elaborando um relato em que confunde as ações de guerra, a política desenvolvida pelo seu país quanto às colônias na África e as posições assumidas por ele (país) e ele (narrador) após o término do conflito, o passado, o casamento, enfim, misturam-se os fatos todos da vida que afloram pelas doses excessivas de álcool e de solidão.

5. Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes – Algumas informações históricas

Para melhor conhecer os pontos de vista que o narrador assumirá no transcorrer da narrativa de Os Cus de Judas de Antônio Lobo Antunes, é necessário fazer uma breve explanação sobre a situação histórica da relação entre Portugal e Angola, bem como a relação entre o colonizador que luta para manter seu império ultramarino e o colonizado em sua luta pela independência.

O interesse de Portugal pelas terras angolanas esteve ligado, desde o início da colonização, com a exploração da mão de obra escrava para abastecer o mercado brasileiro. A partir do século XVIII teve de disputar com os ingleses, os franceses e os holandeses o rendoso comércio de escravos.

Com as tendências abolicionistas, o tráfico de escravos passou a ser feito quase que totalmente pelos portugueses e de forma clandestina. Em 1836, a Coroa portuguesa proibiu qualquer comércio negreiro, fato esse que, associado aos movimentos de libertação dos escravos, veio a diminuir sobremaneira a intensidade do tráfico.

O fato de o Brasil ter se tornado independente levou a Coroa portuguesa a voltar seus olhos para as colônias da África. Somente então começaram a promover melhorias nos seus territórios africanos, construindo estradas e incentivando a criação de núcleos urbanos brancos.

A população de portugueses em Angola começou a crescer somente a partir do século XX. Entre 1930 e 1960, o governo salazarista teve a preocupação de mudar a nomenclatura de “colônia” para “província ultramarina”, com a finalidade de evitar o desgaste que a associação “metrópole-colônia” possuía.

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