O Sermão da Sexagésima - Vestibular1

O Sermão da Sexagésima

O Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira

 

Resumo O Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira

Pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano  de 1655, constitui-se numa teorização sobre a arte de pregar e  numa crítica aos exageros da oratória sacra cultista ou gongórica.

Vieira ataca especialmente alguns padres dominicanos, cujos sermões eram extremamente rebuscados e vazios de conteúdo, vazios da “palavra de Deus“.

É, a rigor, um sermão sobre o Sermão, configurando um discurso metalinguístico.

Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira – Aqui o início (exórdio) do Sermão:

SEMEN EST VERBUM DEI
Lucas , VIII

“E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador!

Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

ECCE EXIIT QUI SEMINAT, SEMINARE. Diz Cristo, que saiu o pregador evangélico a semear a  palavra divina.(…) Não só faz menção do semear, amas faz também caso de sair: EXIIT, porque no dia da messe hão de nos medir a semeadura, e hão de nos contar os passos.(…) Entre  os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair.

Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão: os que semeiam sem sair são os que contentam com pregar na pátria.(…) Ah dia do  juízo. Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá com mais passos; EXIIT SEMINARE.”

Depois de considerar sobre as condições pelas quais a palavra de Deus pode não frutificar, passa, em O Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira na Parte IV, a definir as qualidades exigíveis de um, pregador:

“Mas como em  um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá essa culpa? No pregador podem -se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz.

Na parte V , inicia o ataque aos exageros gongóricos ou cultistas indagando:

“Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também essa. O estilo há de ser muito fácil e muito natural.”

E continua a atacar a esterilidade do rebuscamento gongórico ou cultista:

“Este desventurado estilo que se usa  hoje, os que querem honrar chamam-lhe culto, os que condenam chamam-lhe escuro,  mas ainda lhe fazem muita honra.O estilo culto não é escuro, mas negro braçal e muito cerrado.(…) os pregadores cultistas ficam a motivar desvelos, a acreditar empenhos, e requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras e outras mil indignidades destas(…)”

Condenando o exagero no emprego de antíteses, diz:

“Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em  xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro: se de uma parte está dia, outra há de estar negro; se  de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu.

Basta que não havemos de ver um sermão de duas palavras em paz? todas hão de  estar sempre em fronteira com o seu contrário?(…)Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação, muito distinto e muito claro.”

Vale, observar que frequentemente Vieira incorria nos procedimentos que ele próprio condenava.

Defendendo o primado do argumento, das ideias, do conceptismo, diz o pregador:

“Há que tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que  se distinga, há de prová-la com  a Escritura,há de  declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de  amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias que hão de seguir,a com os inconvenientes que se devem evitar;  há de responder  às dúvidas, há de satisfazer as dificuldades, há  de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários, e depois disso há de persuadir, há de acabar.”

Leia também a biografia do Padre Antônio Vieira

 

O Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira

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