O Colocador de Pronomes de Monteiro Lobato - Vestibular1

O Colocador de Pronomes de Monteiro Lobato

O Colocador de Pronomes de Monteiro Lobato

 

Resumo O Colocador de Pronomes de Monteiro Lobato

“Rangel:
Em mãos tuas notas. Dei com os pronomes mal colocados e corei de vergonha”
. Isso em carta de Lobato a Rangel, em 1916.

“Rangel:
Tens toda e não tens nenhuma razão. Tens-na no meu caso: não sou literato, não pretendo ser, não aspiro a louros acadêmicos, glorias, bobagens. Faço livros e vendo-os porque há mercado para a mercadoria; exatamente o negocio do que faz vassouras e vende-as, do que faz chouriços e vende-os. E timbro em avisar o leitor de que não sei a língua. Se por acaso algum dia fizer outro livro, hei-de usar aqueles letreiros das fitas:
‘Contos de Monteiro Lobato, com pronomes por Álvaro Guerra; com a sintaxe visada por José Feliciano e a prosódia garantida no tabelião por Eduardo Carlos Pereira. As vírgulas são do insigne virgulografo Nunalvares, etc. ‘

Tudo gente de mais alta especialização – e a critica que se engalfinhe com eles.”

Assim Lobato, o permanente rebelde, inicia mais uma carta ao seu amigo Rangel, em 1920, mostrando a sua notória aversão a regras e ao que ele chamava de gramatiquice. Sua ojeriza às novas regras de acentuação, que ele nunca adotou, é revelada em carta ao seu editor. Era adepto da simplificação, por isso odiava o trema e o acento agudo, como sempre dizia.

Em 1915 havia levado “bomba” no primeiro exame que fez, de Português!

Afirmava, ainda, que só escrevia bem sob a influência da indignação, e todos os seus contos e artigos brotavam desse sentimento, sua musa era a Cólera.

Em 1917, em carta a Rangel:
“… Se por ‘saber português’ entendes conhecer por miúdo os bastidores da Gramática e a intrigalhada toda dos pronomes que vem antes ou depois, concordo com o que dizes na carta: um burro bem arreado de regras será eminente. (…) Estou com ideias de escrever um conto gramatical ‘O Colocador de Pronomes’ …”

Daí a gênese de “O Colocador de Pronomes”, cuja escrita, na verdade, iniciou-se em 1917, publicado em 1924.

O Colocador de Pronomes de Monteiro Lobato
Começa dizendo que Aldrovando Cantagallo veio ao mundo em virtude de um erro de gramática, viveu sessenta anos pererecando em cima da gramática, e, afinal, morreu vítima de outra mancada gramatical.

Inicia relatando a vida de um moço pobre, vivente em Itaoca, que se entediava no fundo de um cartório. Lá pelas tantas, apaixona-se o dito cujo pela filha mais moça do coronel Triburtino, a Laurinha, então com frescos dezessete anos. Mas havia a do Carmo, a mais velha, passadona em idade, vesga, manca e um tanto aloprada dos miolos, uma baranga e tanto! E ainda por cima meio histérica. E Triburtino, fera da política local e vigilante paizão, não era flor que se cheirasse.

Mas, o amor, ah! O amor, esse não se detém diante de cara feia. E o moço ousou namorar a menina Laurinha. Namoro à moda antiga, com serenata, bilhetes e tudo mais a que tinha direito. O bilhete, no entanto, foi a causa de tudo; quatro palavras, não mais, afora exclamações e reticências:

Anjo adorado! Amo-lhe!…

Mas, o bilhete cai nas erradas mãos do pai brabíssimo. Depois de três dias carrancudo, o coronel manda chamar o escrevente apaixonado, sob o pretexto de umas certidões das quais estava precisado. O moço veio com um pé-atrás, e estava certo. Mal entrou, o coronel fechou a porta e a carranca, e prensou-o na parede:

– A família Triburtino Mendonça é a mais honrada nesta terra, e eu, seu chefe natural, não permitirei nunca – nunca, ouviu? – que contra ela se cometa o menor deslize.

Cuspinhou na cara do moço o alerta, e mostrou o bilhete, perguntando se fora era ele que escrevera aquilo, a prova do flagrante delito.

O escrevente gaguejou, tremeu na base, mas confirmou, sacolejando timidamente a cabeça.

O coronel arrefeceu, pois muito bem, com que então o moço amava sua filha? Ameaçou, vingativo. O moço ponderou duvidoso uma saída estratégica. Era muita ousadia do rapaz, mas ao menos tinha a coragem de admitir, agora era só… Casar! O escrevente pasmou, chegando mesmo a chorar, tomado que foi de súbita emoção; beijou as mãos do futuro e generosíssimo sogro. Injustiça grossa o que falavam dele! Mal sabia o escreventinho o que o esperava…

O velho velhaco interrompeu as efusões do sujeitinho, e declarou-o, a partir daquele instante solenemente anoivado de sua filha… A do Carmo!! Aquele bacalhau, manca, estropiada e inda por cima maluca! E nem deu ao cara tempo de pensar no assunto, abriu a porta do escritório e vociferou:

– Do Carmo! Venha abraçar o teu noivo!
É bem verdade que houve tentativa de correção, o escrevente ensaiou uma negativa, buscando esclarecer o equívoco, disse que havia ali um engano, que sua amada era a Laurinha. Mas a cara do velho não ajudou nada, ele exibiu o bilhete fatídico, e foi taxativo:

– Sei onde trago o nariz, moço. Vassuncê mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-“lhe”. Se amasse a ela deveria dizer amo- “te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo. Salvo se declara amor à minha mulher. …ou à preta Luzia, cozinheira. Escolha!

Vendo que a barra podia pesar mais ainda, piorar o que já era uma considerável tragédia, o rapaz não teve outra alternativa senão concordar tragicamente. O coronel, com uma ponta de ironia, ainda lhe despejou lições sobre pronomes:

– Os pronomes, como sabe, são três: da primeira pessoa – quem fala, e neste caso vassuncê; da segunda pessoa – a quem se fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa – de quem se fala, e neste caso do Carmo, minha mulher ou a preta. Escolha!

Jeito não houve, os olhos do moço se deparavam com duas coisas: do Carmo, lampeira, torcendo acanhada a ponta do avental, e a garrucha com espoleta nova sobre a mesa, ao alcance do velho brabo. Ficou com a primeira, abraçou a baranga, fosse o que fosse era melhor estar vivo. O coronel os abençoou efusivamente. Casaram-se, inevitavelmente. E onze meses depois Aldrovando Cantagallo, o fruto da gramática errada, berrava nas mãos da parteira…

Foi um menino normal, teve todas as doenças de praxe, mas aos dez anos começou a revelar seus pendores, alisava o tempo todo, erótica e inexplicavelmente uma gramática de Augusto Freire da Silva. A filologia principiava a se manifestar nele.

Vemos o tipo agora aos quarenta anos: corcovado, magro e seco, doente dos rins, trabalhando à luz de lampião, fuçando livros, professor e solteirão convicto. Conhece os clássicos, leu tudo que lhe caiu nas mãos. Na idade em que outros corriam atrás da mulherada, Aldrovando se perdia em livros. Virgem, nunca mulher, nunca nada além dos livros.

Tinha uma atitude crítica e inconformada em relação à língua falada e escrita, era intransigente com os neologismos, regionalismos e outras manifestações da língua:

– Povo sem língua!… Não me sorri o destino de Vera Cruz…
Não aceitava de forma nenhuma que a língua fosse viva e cambiante, que evoluía ao falar do povo.

– Língua? Chama você língua a garabulha bordalenta que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso: teve lugar ontem… É língua esta espurcícia negral! Ó meu seráfico Frei Luís, como te conspurcam o divino idioma estes sarrafaçais da moxinifada!

E assim ia, crítico feroz dos modismos e avanços da língua, que jamais aceitava.

Aldrovando, a bem da verdade, teve duas fases na sua vida: uma em que ficou acumulando conhecimentos, a estática; outra, a dinâmica, em que, armado de todas as armas que aprendera ao longo de anos de estudo, combatia sem tréguas a corrupção da língua. Queria a forca para os que conspiravam contra a pureza da língua, patíbulo especial para os maus colocadores de pronomes. Pediu isso aos congressistas! Claro que se riram dele, aprovar tal medida significaria a auto condenação de todos os políticos! Como ainda o é hoje…

Recorreu aos jornais, apostrofou de tudo que é jeito, encheu colunas de escritos violentos, no mais puro vernáculo, contra os que assassinavam a língua. Mas nunca foi entendido… Pregava no deserto, dizia. E foi enxotado dos periódicos, não havia mais espaço para aquelas ideias.

Abriu um consultório gramatical, como um médico da língua, só que gratuito! Falhou novamente, salvo um e outro, ninguém o procurava para a devida medicação filológica ou gramatical. Insistiu abrindo uma “Agência de Colocação de Pronomes e Reparos Estilísticos”. No início até que foi bem, recebia trabalhos de várias espécies: livros, cartas, até ofícios ao governo. No entanto, Aldrovando consertava tanto, reformava, enfiava tanto latim no meio, que os autores nem mais reconheciam seus próprios escritos. E Aldrovando não aceitava muita reclamação, mandava o cliente procurar o ferrador de cavalos da esquina, que esse era o seu caso. Obviamente, a agência fechou as portas por falta de clientes.

Lá pelas tantas, Aldrovando deu de implicar com placas e tabuletas comerciais, achava um erro e ia atrás do proprietário para consertar a “asnidade”. Numa dessas chegou a pagar por uma placa de um ferreiro para consertar uma concordância malfeita. “Ferra-se cavalos”, lia-se onde deveria estar “Ferram-se cavalos”. O ferreiro, que pouco se incomodava com a gramatiquice, aceitou a correção mediante pagamento por parte de Aldrovando. Mas, depois, vendo que os clientes diminuíam, atribuiu a queda dos negócios à correção, e apagou o “m”. Aldrovando, que comemorava sua primeira e efetiva vitória contra a inépcia geral, ao ver a placa com seu erro original restabelecido, nesse dia chorou.

Já velho e doente, resolveu escrever um compêndio volumoso, três tomos de 500 páginas cada um, pondo neles toda a sua sabedoria, e mostraria ao mundo toda a sua ciência acumulada em anos de dedicação à língua. Não conseguiu editores, e decidiu que faria a edição por sua conta e risco. A imortalidade era certa com um tal esforço. E foi o que fez, vendendo o que tinha. E levou tempo nisso, inteiramente dedicado à sua nova investida contra a ignorância. Ao final da obra, como uma homenagem justa, dedicou-a a Frei Luís de Sousa:

“À memória daquele que me sabe as dores”, O autor.
“Daquele que me sabe”, usou corretamente o pronome. Mas o tipógrafo, contudo, perdeu-se na composição, e na recomposição da frase, tascou:
“… daquele que sabe-me…”

Talvez tenha o diabo conspirado contra Aldrovando, e imprimiu-se a obra toda com o erro crasso. Volumes e mais volumes. A grande ideia do livro era justamente um capítulo especialmente voltado à colocação dos pronomes! Uma regra nova, automática, que evitaria os erros, limpando a língua desse infame vício tanto do falar quanto do escrever.

Aldrovando sonhava até mesmo que os químicos pudessem reproduzir sua regra em forma de pílulas: Pronominol Cantagallo, que curaria os ignorantes e os faria (fá-los-ia?) colocar instintivamente os pronomes na forma correta. Para casos mais agudos, Pronominol nº 2, infalível, pois levaria uma alta dose de estriquinina que mataria sem pena o criminoso da língua, livrando o mundo de mais um ignorante incurável.

Aldrovando viu entrar em sua casa o pacote enorme de livros, que tinha vindo numa carroça. Até então não sabia do erro.

Os entregadores pediram gorjeta:
– Me dá um mata-bicho, patrão!…

Aldrovando estremeceu ao ouvir o “me” tão mal colocado. E deu a eles um dos livros, recomendando a leitura do capítulo sexto. O carroceiro, não se fez de rogado, afinal, aquilo no sebo valeria uns cinco tostões, já servia…

Aldrovando contemplou sua obra, extasiado diante de tantos livros, tanta cultura e empenho, tudo seu, trabalho insano e profícuo. E assentou-se para lançar neles as dedicatórias. Foi quando se deparou com o monstruoso erro:
“… daquele QUE SABE-ME as dores…

– Deus do céu! Será possível?
Em todos os exemplares o hediondo erro, horripilante, lá estava… Estampado qual uma condenação.

Aldrovando empalideceu, os olhos abertos, contorceu-se num espasmo violento, elevou seu olhar incrédulo para Frei Luís, e balbuciou:
– Luís! Luís! Lamma sabacthani?!*
E morreu, hirto, o mártir primeiro da Colocação dos Pronomes.

Paz á sua alma.
(Ao todo, a obra de Aldrovando – incluindo tratados sobre circunflexo, vírgula, crase e psicologia do til – pesava cerca de 4 arrobas, que renderam no sebo, 18 mil réis, vendidas a peso, a três tostões o quilo).

Fim

(1)* Por que me abandonaste?!

OBS: Nos trechos reproduzidos foi respeitada a grafia do autor.

 

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