O Auto do Frade de João Cabral de Melo Neto II

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto

 

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto

Frei caneca, de cabelos brancos embora não fosse um velho, continuou a caminhada para a forca instalada no forte das cinco pontas (nome devido à forma de estrela da construção). Sem atitude de desafio ou de indiferença, o frade aparentava estar em um passeio, no qual era esperado por algum estranho.

Na revolução de 1817 haviam-no prendido e o maltrataram; desta vez, em 1825, fisicamente não o molestaram, porém sua humilhação estava sendo maior porque os superiores tiraram-lhe a condição de padre, não lhe perdoaram nem demonstraram a mínima consideração por ele.

Na opinião do povo, o frade orador e jornalista, que não passou de padre-mestre sem chegar a ser bispo, foi um homem realizado, “bem plantado na vida”.
Naquela caminhada final, frei caneca teve olhar mais profundo para a realidade do recife e se perguntou se, no futuro, a situação melhoraria. Temia a morte, entretanto dela se aproximava com alegria.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto – Sexta parte:
Na praça do forte – na praça do forte só entraram os militares. Além do juiz, também deixou de comparecer ao enforcamento o carrasco, firme na sua decisão de não ser instrumento da morte de um padre. Lá fora o povo conjeturava o porquê de a execução estar demorando. Alguém ficou sabendo e informou a decisão do carrasco que, apesar de ter levado uma surra da polícia, não mudou de opinião.

Surgiu, entre os militares, a ideia de se propor aos prisioneiros que substituíssem o carrasco, em troca de serem libertados. Todos recusaram. Acreditavam na existência de uma dama de vestido pardo que os castigaria se aceitassem a incumbência. Ninguém se apresentou como voluntário. Um soldado sugeriu que chamassem alguma criança inocente do asilo para manobrar, de olhos vendados, a forca. O comandante achava melhor mudar a sentença de enforcamento para fuzilamento. Os inconvenientes dessa alteração seriam contrariar o regulamento e promover um criminoso desclassificado a criminoso militar.

Frei caneca, pacientemente, via prolongada por mais três horas a sua execução. Os oficiais discutiam o que poderia ser a melhor alternativa para suprir a falta do carrasco, receosos de uma reação explosiva do povo, incitado pela demora. Um dos rumores que se alastravam entre as pessoas reunidas na praça era que iriam permitir e até facilitar a fuga do frade para atirarem nele.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto: outro, era que talvez o estivessem torturando. Em vão intercederam por ele os membros do cabido (= conjunto de padres mais respeitáveis, denominados cônegos); a comissão militar manteve a sentença de morte.
De repente, ouviu-se a descarga de espingardas: doze soldados formaram o pelotão de fuzilaria que abateu frei caneca no interior do forte, longe dos olhos do povo.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto – Sétima parte:
No pátio do Carmo – pessoas aglomeradas no pátio da igreja do Carmo comentavam que o pai de frei caneca tinha esquecido a oficina naquele dia, passara-o rezando e olhando para o mar, à espera do navio que traria o mensageiro do indulto para o filho. No mar nada viu, mas do forte ouviu os tiros e entendeu tudo.
Então, apagou as velas que acendera para rezar, jogou no lixo as flores que enfeitavam a mesa transformada em altar. Uma por uma das imagens caneca pôs na janela, quebrou o pescoço daquelas que reproduziam figuras de santos e a todas jogou no mar.

O corpo assassinado de frei caneca foi jogado e abandonado diante da porta principal da basílica do Carmo. Abriu-a o padre prior, que arrastou sozinho o morto para dentro da igreja.
“a porta se fecha, e a noite prossegue, também pesadamente.”

3. Comentário – O auto do frade de João Cabral de Melo Neto
o livro de João Cabral de melo neto é uma composição poético-dramática, ou seja, poemas integrantes de uma peça teatral que o autor chamou de auto, publicação de 1984.
Essa denominação aplicada à obra é uma adaptação da palavra em seu significado original. Auto era uma representação cênica em voga na idade média, vivenciada por personagens geralmente criados como alegorias religiosas, imagens do pecado, da virtude, do demônio, dos santos…

O autor construiu a trama centralizada no frei caneca, que surge como um santo levado ao martírio, em contraste com os personagens que o condenaram, personificações da maldade, da prepotência injusta.

O pernambucano histórico, conhecido como frei caneca – sobrenome que ele adotou por ser filho de um modesto tanoeiro assim apelidado –, passou a chamar-se frei Joaquim do amor divino Rabelo e caneca após tornar-se padre carmelita. Foi professor de filosofia, retórica e geometria, com obras publicadas.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto: no entanto, sua atuação mais empenhada se deu da seguinte forma: como propagador dos ideais republicanos, intensificada na revolução de 1817, da qual se constituiu em um dos líderes; como defensor da democracia, numa série de artigos publicados na revista “tifis pernambucano”; como adepto da campanha contra d. Pedro i, desde a dissolução da constituinte e a constituição imposta em 1824.

Quando a confederação do equador fracassou, frei caneca fugiu da prisão para continuar defendendo seus ideais patrióticos, mas acabou sendo encontrado no ceará. Processado, condenaram-no à morte e o executaram em 1825.

O “auto do frade” reproduz cenas das últimas horas de vida do frei caneca, a partir do momento em que saiu da cela do cárcere para o forte onde estava instalada a forca. Os passos dessa trajetória se dividem em sete partes ou etapas, relacionadas com os locais onde se desenrolaram os episódios rememorados.

O próprio João Cabral escreveu: “ninguém sabe muita coisa de frei caneca, mas é uma figura muito importante para os nordestinos. Deveria ser enforcado, mas não houve quem quisesse fazer isso. Nem mesmo os presos que teriam em troca a liberdade.”
Valendo-se dos dados históricos que obteve, o poeta os narrou de forma cênica, com precisão quase documental, através das falas de personagens.

Não se trata, porém, de uma peça histórica. Ao detalhar os episódios finais da vida de um heroico religioso do século xix, o autor redige de tal modo que não se prende totalmente aos fatos em si e deixa entrever a intenção de atualizar o tema do engajamento na luta pela liberdade. Frei caneca é focalizado como o símbolo do nordestino desrespeitado, injustiçado, mas que reage e se sacrifica até a morte, inconformado com a repressão tirânica.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto: como ocorre em suas produções de poeta participante, João Cabral mostra a característica de analisar fatos reais sem fazer discursos panfletários.
Ele evita voos imaginários, condoreiros e introduz na narrativa trechos curtos densamente críticos.

Dois exemplos a seguir. Os religiosos de várias regiões não se empenharam no ideal de liberdade, conforme se depreende das falas do povo que estava na praça assistindo ao ritual da execução: “- sempre foi gente turbulenta / os carmelitas desse Carmo. / – bem mais que as casas de Olinda, Paraíba, goiana, cabo”.

O anúncio do cumprimento da sentença, várias vezes proferido pelo meirinho, apresenta uma sutil e irônica expressão: “… Sentença de morte natural na forca…” Subentende-se que se queria passar a ideia de que era natural a morte por enforcamento dos rebeldes.

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto não faz exceção à linguagem habitual do poeta: nenhuma concessão ao patético (= insistente nos aspectos emocionais negativos) – ainda que o tema desenvolvido propiciasse extravasamento sentimental por sua tragicidade –; nenhuma palavra desperdiçada, desnecessária; raros termos eruditos…

A movimentação dos personagens em cena não vem indicada no texto, pois o poeta privilegia o conteúdo.
Os versos livres são concisos. Alguns se aproximam da prosa, forma na qual poucas passagens vêm redigidas. Entre estes últimos estão os trechos litúrgicos (= relativos ao cerimonial religioso) em latim, próprios do ritual destinado à excomunhão.

Voltar a ler o resumo O Auto do Frade de João Cabral de Melo Neto – parte I

Aproveite e leia a biografia de João Cabral de Melo Neto

O auto do frade de João Cabral de Melo Neto

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